A lei e o terrorismo

Não sei o que dizer da Lei Antiterrorismo ora em discussão no Congresso Nacional. O projeto, originário do Senado, foi discutido na Câmara e lá sofreu alterações; mas parece não estar agradando a gregos nem a troianos.

Movimentos sociais e militantes de esquerda acusam a lei de ser muito DURA; segundo eles, ela permite considerar como terroristas esses próprios movimentos e as manifestações e protestos em favor dos direitos humanos ou reivindicações sociais.

Já a oposição ao governo e militantes de direita acham que a lei é MOLE demais, pois para estes ela permite que atos violentos e de destruição (tidos em outros países como atos de terror) sejam cometidos sob a alegação de ocorrerem em contexto de manifestações sociais.

Ou ambos os lados têm alguma razão… ou nenhum deles tem. Eis aí o busílis: saber o que é ou não um ato terrorista.

Mas talvez a coisa nem seja assim tão difícil: todos têm sua própria noção do que seja terrorismo.

Terrorismo é aquilo que os outros fazem.

Santarém, PA, 29/2/2016.

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Modernidade irlandesa

thomas-cahill“Um homem é melhor do que sua origem.”

Segundo o historiador Thomas Cahill (*), esta máxima dos primórdios do cristianismo na Irlanda (séculos V a IX) era evocada para afirmar “a primazia do espírito individual sobre noções de sangue e estirpe”.

Modernos, sui generis esses irlandeses dos tempos dos santos Patrício, Brígida, Columba e Columbano!

Pelo menos é a minha impressão, quando comparo tal pensamento com o que vejo nos dias atuais: ao invés de definir-se pelo que é, muita gente prefere fazê-lo pelo que foram seus ancestrais.

Tais indivíduos e grupos, que se consideram tão livres e senhores de si mesmos, deixam-se, na verdade, governar por seus antepassados. E não se apercebem disso.


* CAHILL, Thomas. Como os Irlandeses Salvaram a Civilização. Tradução de José Roberto O’Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. (A História não Contada, 1). p. 195.

Santarém, PA, 27/2/2016.

Capes na Rio +20: livro disponível em PDF

Capes_Rio+20_Contribuicao_capa_2Está disponível para download gratuito, em formato PDF, o livro Contribuição da Pós-Graduação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável: Capes na Rio +20, lançado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) durante a Conferência Mundial da ONU sobre o Desenvolvimento Sustentável Rio +20, ocorrida de 13 a 22 de junho de 2012 na cidade do Rio de Janeiro.

A Capes foi convidada pela organização da conferência para elaborar uma síntese do avanço do conhecimento, pesquisa e formação de recursos humanos desenvolvidos nos programas do Sistema Nacional de Pós-Graduação. O livro, publicado em português e inglês e distribuído durante a Conferência, é baseado nos textos que constam no Plano Nacional de Pós-Graduação 2011-2020, também editado pela Capes e Ministério da Educação (MEC).

O livro pode ser baixado/descarregado aqui (página da UFGD) ou lido online no Issuu.

Santarém, PA, 22/8/2012. Editado em 26/2/2016.

In hoc signo vinces!

A discussão parece-me ainda meio fraca, mas já se contesta há algum tempo a presença de símbolos religiosos (geralmente crucifixos) em órgãos públicos no Brasil.

Mas pode um chefe de estado distribuir, às visitas oficiais do País, camisetas de uma entidade futebolística, convertendo-as ilegalmente em símbolo nacional?

Pode ele dar de presente, às mesmas visitas, bandeiras de uma badalada escola de samba – sempre a mesma, aliás?

E que dizer de um secretário municipal que concede entrevista, representando seu município, na sede da secretaria, tendo atrás de si uma parede cheia de objetos com o escudo de um clube de futebol, do qual ele é torcedor?

E assim caminhamos…

Santarém, PA, 22/2/2016.

E os gregos falavam inglês…

Não me canso de ser surpreendido pela falta de cultura geral que campeia na televisão brasileira. Nem a TV paga escapa!

Assistindo no canal History 2 a um documentário sobre as Guerras Médicas (ocorridas no século V a.C. entre gregos e persas, estes conhecidos também como medas ou medos), vejo ser contada a famosa façanha do soldado grego que, em 490 a.C., correu mais de 40 quilômetros, do campo de batalha em Maratona até Atenas, para informar que os gregos haviam vencido aquela importante batalha.

Ao chegar a Atenas, gritou “Vitória!”… e caiu morto.

É fato conhecidíssimo; deu origem à prova olímpica moderna chamada Maratona.

Mas a novidade é que o programa do History 2 mostra, para espanto geral, que os gregos daquela época não falavam grego, mas INGLÊS.

Por quê?

Porque o dublador de um dos historiadores entrevistados, ao pronunciar a palavra dita pelo soldado, disse NÁIKE!

Ora, mas esta é a pronúncia do nome inglês Nike, que designa uma marca de produtos esportivos. A palavra inglesa veio da palavra grega Νίκη (transliterada modernamente em caracteres latinos como Níkē). A pronúncia grega era [nike:], com acento tônico no [i] e a vogal [e] alongada.

Era o nome da deusa grega Nice (chamada VICTORIA pelos romanos), divindade relacionada à vitória, força e velocidade. Os romanos, quando usavam o nome grego da deusa, grafavam a palavra como NICE – assim mesmo, com C – e pronunciavam à maneira grega; a grafia romana é, portanto, a forma de origem do nome feminino Nice no português e noutras línguas modernas europeias, com pronúncias variadas. Já nossa palavra vitória – substantivo comum e também nome próprio – veio do nome latino, obviamente.

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“Vitória de Samotrácia”, Museu do Louvre, Paris, França. Foto de Adrian Pingstone. Fonte: Wikipedia.

O nome Vitória designa também as estátuas que representam essa divindade greco-latina, das quais uma das mais conhecidas e admiradas é a Vitória de Samotrácia (cerca de 200 a.C.), atualmente no Museu do Louvre, Paris, França. A figura feminina presente na Taça Jules Rimet, dada ao campeão mundial de futebol desde 1930 até 1970, também era uma representação da deusa Vitória ou Nice.

Que os falantes de inglês pronunciem nike como NÁIKE é problema deles; mas pronunciarmos assim como se fossem os gregos a falar é uma tolice. Ou se diz simplesmente vitória, em português (traduzindo-se o termo grego), ou se pronuncia a palavra grega à maneira grega: NIKE.

O que não é aceitável é sair por aí pensando que todas e quaisquer palavras de outras línguas se pronunciam como as palavras inglesas.

Uma sugestão: Se você não sabe como se pronuncia uma palavra estrangeira, seja natural e pronuncie-a como se fosse palavra portuguesa ou o mais próximo disso; não há demérito nenhum em assim proceder. Ninguém é obrigado a saber palavras de outras línguas.

Mas não leia palavras espanholas, francesas, italianas, gregas etc. como se fossem inglesas. Isto pega mal.

Anedotas sobre Attila József

ANEDOTAS SOBRE ATTILA JÓZSEF
(Anekdotoj pri Attila József)

Sándor Szathmári
Traduzido do esperanto por Júlio César Pedrosa

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Attila József em 1924. Fonte: Wikipedia.

Posso orgulhar-me de ter tido boa amizade com o eminente poeta Attila József.

Boa amizade? Com aquele homem agitado e nervoso que sempre batalhava com todos?

Sim! Justamente por isso sei com certeza que ele me estimava, porque ele sempre discutia, até disputava comigo. Com aqueles dos quais não gostava, ele se portava com uma gentileza glacial, e não os tinha como dignos de uma disputa de ideias.

Não reconhecia nenhuma autoridade. Sem nenhum respeito atacava e refutava seus atacantes e refutadores. A discussão era seu esporte, de que nasciam suas fagulhas do espírito, que ele depois entretecia em seus poemas.

Ocorreu certa vez, em 1933, que eu proferi uma palestra em um clube sobre a crise econômica internacional da época, que então abalara profundamente o capitalismo liberal.

Depois da palestra, muitos dos que ali estavam presentes se juntaram em torno de mim, e começou o costumeiro bate-papo após a conferência, o simpósio extraoficial, quando os interessados faziam suas observações, replicavam ou davam-me indicações sobre o tema.

Attila József também estava lá, mas não se aproximou totalmente de mim. Ficou um pouco afastado, às vezes ouvia a conversa, ia para lá, vinha para cá, e via-se que ele guardava algo digno de ser dito.

Também conjeturei, e de certa forma temi, que ele logo viria, explodiria, refutaria e daria cabo de minhas asserções.

Por fim o grupo de discussão começou a desfazer-se. Dissipou-se o círculo de gente em torno de mim. E então Attila József, com passos firmes e decididos, veio até mim.

— Você é… você é… um bom palestrante!

Disse isso abruptamente, de supetão, de modo jogado, com um descuido meio afetado.

E daí se virou e foi embora. Ele visivelmente se envergonhava de sua fraqueza.

Esse reconhecimento foi, para mim, a maior honra de minha vida. Tão valiosa quanto uma medalha de ouro. Se até ele devia reconhecer-me, então eu devia ser sem dúvida um bom palestrante.

Certa vez ele morou junto com Lajos Nagy, que escrevia prosa. Ambos eram pobres, de maneira digna a escritores de talento. Outro escritor húngaro, László Vajthó, escreveu: “O escritor ou ganha dinheiro ou diz a verdade”. Ora, eles por preferência diziam a verdade e não ganhavam dinheiro. Moravam num quarto em comum.

Certa noite, ao se recolherem para dormir, eles como de costume conversavam. Então entre outras coisas Lajos Nagy disse estas palavras: “… o mar azul…”.

Attila József logo replicou:

— O mar não é azul, é verde!

Mas Lajos Nagy também não era de temperamento fácil. Passou a demonstrar que o mar é, de fato, azul.

Com estas palavras ele acendeu o pavio explosivo. Attila József então citou poetas competentes que cantaram o verde mar.

Em se tratando de citações, Lajos Nagy também não era laico. Citou em dobro muitos autores, de Safo a Jean Cocteau, passando por Byron, cuja poesia fora inspirada pelo azul do mar.

Seguiram-se depois as descrições de marinheiros, conquistadores e cientistas. (Desnecessário até dizer que nenhum deles tinha visto o mar. Como mencionei, eles de preferência diziam verdades.)

Enquanto isso eles já se tinham deitado, mas mesmo assim continuavam esgrimindo. A discussão acirrava-se e, por fim, foi Lajos Nagy que primeiro se cansou.

Para terminar a infrutífera disputa, ele decidiu capitular:

— Você me convenceu — disse tranquilo. — Devo conceder que você tem razão: o mar é, de fato, verde.

Disse “Boa noite!” e apagou a luz.

Attila József calou-se, contrariado. Sentia-se fora de seu elemento vital. Lajos Nagy logo adormeceu, e ele fervia por dentro. Por fim, depois de uns 15 minutos de luta consigo mesmo, explodiram as forças internas dentro dele. Gritou:

— Ei, Lajos!

— Grrr! — acordou Lajos Nagy com um súbito rosnado. — Quê? Que é?

— Mas saiba você que o mar não é assim TÃO VERDE, como você imagina!

Traduzido de:
SZATHMÁRI, Sándor. Anekdotoj pri Attila József. Hungara Vivo, 1967, n-ro 4 (7a jaro), p. 17.
Disponível em: <http://www.autodidactproject.org/other/szathmari_jozsef.html>. Acesso em: 12 fev. 2016.

Sobre Attila József: http://pt.wikipedia.org/wiki/Attila_J%C3%B3zsef.

Sobre Sándor Szathmári:
https://en.wikipedia.org/wiki/S%C3%A1ndor_Szathm%C3%A1ri.

Santarém, PA, 19/11/2013. Editado em 12/2/2016.

Mr. Tupperware e os tapoés

TupperwareUma das formas por que se transformam todas as línguas, inclusive a nossa, é a recepção de palavras de origem estrangeira; cada língua tem seus recursos próprios (fonológicos, morfológicos, sintáticos etc.), e os termos estrangeiros sempre se adaptam fonologicamente – mesmo que, às vezes, não na grafia – à língua que os recebe.

Quem reconhece, nas palavras chulipasinuca, os termos ingleses sleepersnooker, respectivamente? A grafia futebol resulta de nossa pronúncia do inglês football; os nomes Josué e Jesus vieram ambos do hebraico Yehoshua (através da forma reduzida Yeshua, de que proveio a forma latina Iesu); Tiago, Diego, DiogoIago, Jaime e Jacó são (pasme-se!) formas originárias (por caminhos diversos) do mesmo nome hebraico Yaakov, e assim sucessivamente…

As formas tapoé, tapoer, tapaué e tapué nada mais são que representações gráficas das pronúncias brasileiras correntes do nome Tupperware, empresa multinacional americana fabricante de plásticos, fundada por Earl Silas Tupper; mesmo quem conhece a grafia original do nome e escreve Tupperware não o pronuncia como em inglês, por influência da prosódia do português. A grafia adaptada sempre aparece e se consolida bem depois da adaptação fonética: quando se passou a escrever futebol, já fazia muito tempo que se pronunciava assim, bem diferente de football. É questão de tempo até que se fixe uma grafia vernácula dessa palavra (talvez a própria forma tapoé), sendo depois registrada em dicionários e no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras (ABL).

A parte a polêmica sobre a aceitação ou não de termos emprestados de outras línguas, o fato é que a adaptação de palavras importadas sempre ocorre e é, inicialmente, fonética (pois a palavra estrangeira nunca é pronunciada exatamente como é na língua de origem). Depois se cria uma forma vernácula (isto é, de acordo com a língua receptora) para representar a palavra estrangeira. Vejam o exemplo de abajur, que veio do francês abat-jour; nossa grafia atual é a representação da adaptação fonológico-fonética da palavra francesa à nossa língua. É o mesmo que ocorre com tapoé; se grafamos Taperuér ou coisa parecida, a grafia está obviamente errada em relação ao original inglês; mas, no caso que temos aqui, trata-se uma adaptação da pronúncia à nossa grafia, pois as pessoas ouvem a palavra mas nem sempre sabem que se trata de termo estrangeiro; pensam que é português (e não são obrigadas a pensar de outro modo) e escrevem o que ouvem – ou como acham que ouvem.

Escrever “caza” ou “Brasiu” é errar na grafia; mas em casos como o de Tupperware/tapoé, em que não há palavra portuguesa (a não ser que se chame de “potinho de plástico”) para o objeto, como considerar errado ou inadequado?

Gillete
King Camp Gillette retratado na embalagem do produto que o tornou célebre.

Para terminar, observemos que Tupperware é um dos nomes próprios ou de marcas de produtos que se tornaram designativos de objetos genéricos. Talvez os mais notórios exemplos sejam carrasco (do nome do verdugo português Belquior Nunes Carrasco, século XV); macadame (processo de pavimentação de estradas criado pelo engenheiro escocês John Loudon McAdam) e gilete (do nome do inventor da lâmina de barbear descartável, King Camp Gillete); tapoé, portanto, no português coloquial brasileiro é qualquer “pote plástico com tampa”.

Exemplos como estes mostram a língua em plena atividade, dinâmica e saudável… apesar de opiniões em contrário.

Santarém, PA, 14/2/2014. Editado em 12/2/2016.