Frade, frei, irmão

Hoje em dia, quando se topa com as palavras frade e frei, quase sempre seu uso está errado ou, no mínimo, equivocado (e no mais das vezes só vemos a segunda delas). O mesmo ocorre, embora com menos frequência, com as formas femininas freira e sóror.

Vejamos, portanto, as diferenças entre frade e frei e sua relação com a palavra irmão.

I. Origens
As palavras frade e frei vieram da palavra latina frater, que significa “irmão”; seu equivalente feminino na língua do Lácio é soror (“irmã”). Estas duas palavras têm uma história muito curiosa, pois não sobreviveram em português – pelo menos não com significado semelhante ao latino. Estão presentes, por exemplo, no francês (frère e soeur), no italiano (fratello e sorella), no romeno (fratele e sora), com as marcas visíveis de séculos de evolução; mas por que em português temos irmão e irmã?

Com a fragmentação do Império Romano, no século V d.C., as províncias, agora convertidas em reinos autônomos, perderam o contato mais íntimo com Roma, que deixou de ser o centro irradiador de inovações e modas linguísticas da România (o conjunto das áreas em que se falava o latim); o latim vulgar (ou popular) falado nas regiões distantes passou a evoluir por conta própria, sem influência de Roma e com suas próprias criações lexicais, variações de pronúncia e sintaxe, até dar origem às línguas românicas ou neolatinas que conhecemos.

Não foi diferente com as comunidades latinas da Ibéria.

Um pouco antes disso, os povos germânicos ou germanos, após séculos de escaramuças e guerras, foram incorporados ao Império Romano, com direito, inclusive, à cidadania romana, passando a servir nas tropas e espalhando-se pelas províncias. Os germanos, agora, eram povos amigos dos latinos.

É provável que o termo latino germanus tenha passado, metaforicamente, a ser usado com o sentido de “aliado”, “amigo” e até “irmão”, desbancando pouco a pouco a palavra latina frater; foi esta uma inovação linguística ibérica, pois as outras regiões da România conservaram e modificaram a forma latina antiga. Germanus tornou-se, após transformações fonéticas, irmão, hermano e germà – em português, espanhol e catalão, respectivamente, com as respectivas formas femininas irmã, hermana e germana. Temos aqui, então, uma metáfora que se tornou termo corrente.

II. E frade, frei?
O termo latino frater, abandonado em português em favor de germanus, retornou mais tarde, já na Idade Média, como designativo dos membros das ordens de religiosos católicos franciscanos, dominicanos e outros. Sofrendo transformações fonéticas e de significado (de que não trataremos aqui), a palavra frater assumiu em português as formas frade e frei. Pelo mesmo caminho surgiram as palavras freira e sóror, usadas em relação a religiosas das ordens femininas.

Todas essas formas são relativas a religiosos de ordens monásticas, isto é, aquelas cujos integrantes vivem em conventos ou mosteiros. Os termos irmão e irmã também são usados nesse contexto, embora tenham maior abrangência.

As palavras latinas pater e mater originaram em português, cada uma, também duas formas, respectivamente pai e padre, mãe e madre; enquanto pai e mãe são palavras herdadas com séculos de transformações fonéticas, padre e madre são termos semieruditos surgidos já no Medievo, com uso no âmbito religioso.

III. O uso
As palavras frade e frei, assim como freira e sóror, não são morfossintaticamente equivalentes e não se usam, indiscriminadamente, uma pela outra: enquanto frade e freira são substantivos comuns, frei e sóror são formas de tratamento usadas com nomes próprios.

Vejamos alguns exemplos:

a) Meu primo João é frade.
b) Ontem estiveram aqui os dois frades espanhóis.
c) Os frades Antônio e Paulo viajaram a Roma.
d) O frade João é meu primo.
e) Bocage criticou frei Efraim em um poema.
f) Frei João é meu primo.
g) Frei Antônio e frei Paulo viajaram a Roma.
h) Minha irmã Maria tornou-se freira.
i) As freiras daquele convento assam pães.
j) As freiras Paula e Cecília chegaram à cidade.
k) Minha irmã é sóror Maria.
l) Sóror Paula e sóror Cecília chegaram à cidade.

Creio que fica bem claro o seguinte:

1. As formas frei e sóror só se usam com o nome próprio e não vêm precedidas de artigo. São títulos.
2. As formas frade e freira usam-se como substantivos comuns, com ou sem artigo, com ou sem o nome próprio (aposto), e variam em número (singular e plural), conforme a necessidade.
3. Não é necessário que essas formas venham com letra inicial maiúscula, obrigatória apenas quando em início de período ou frase.
4. Sóror possui as variantes soror e sor.

Adendo:
Assim como frei e sóror, as formas de tratamento dom e dona vêm acompanhadas do nome próprio e não se usam com artigo (pelo menos na língua culta).

Dom e dona vieram das formas latinas dominus e domina: “senhor” e “senhora”, respectivamente; também de dominus veio dono.

Na linguagem popular, dona é o equivalente feminino das formas de tratamento masculinas sor ou seu; neste contexto a palavra dona é muitas vezes usada com artigo definido: a dona Maria.

Santarém, Pará, 26/1/2016. Editado em 27/1/2016.

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Inverno amazônico

Pato Donald
Fonte: “A Cidade dos Telhados de Ouro” (“City of Golden Roofs”, Carl Barks, 1957).

Quando cheguei a Santarém, Pará, em janeiro de 2009, fiz pergunta semelhante, com resposta idêntica: estávamos em pleno INVERNO amazônico!

Mas, “enquanto todos praguejavam contra o frio, eu fiz a cama na varanda”…

Bom, na verdade… eu dormia numa rede.

Santarém, Pará, 7/2/2014. Editado em 15/1/2016.

Hititas, Povo dos Mil Deuses

LEHMANN, Johannes. Os Hititas: Povo dos Mil Deuses. Tradução de Carlos Antonio Lauand. São Paulo: Hemus, 1980. 294 pp. (Enigmas e Mistérios do Universo). Título original alemão: Die Hethiter.

OS_HITITAS_1245267970BLi Os Hititas há uns 15 anos (creio que em 1999 ou 2000). Já havia lido, algum tempo antes, o clássico de C. W. Ceram, O Segredo dos Hititas, mas este livro de Johannes Lehmann me deixou uma impressão mais duradoura após a leitura.

Lembro-me de alguns erros tipográficos do texto, além de topar, mais ou menos no meio do livro, com uns períodos gramaticais um pouco confusos, que eu precisei ler e reler para entender melhor; as orações pareciam não se encaixar direito umas nas outras, talvez deslizes da revisão. Mas nada que atrapalhasse a leitura e compreensão da obra em geral.

O livro de Lehmann consta de três partes. Na primeira o autor descreve o processo de pesquisa que levou ao “descobrimento” da civilização hitita, que só se conhecia, até meados do século XIX, devido a alguns versículos da Bíblia. A tradução do relato da “vitória” de Ramsés II sobre os hititas na célebre Batalha de Kadesh; a descoberta de correspondência diplomática trocada pelos egípcios com os hititas; e depois a escavação das ruínas de Hattusa, capital dos hititas, na Anatólia, onde se encontrou uma biblioteca com milhares de tabuletas de argila com escrita cuneiforme em várias línguas – tudo isto contribuiu, no fim do século XIX e começo do XX, para levantar o véu do tempo que cobria esse povo misterioso.

Decifrando-se sua língua – o que constituiu um esforço semelhante ao de Champollion na decifração da Pedra de Roseta -, descobriu-se que os hititas eram indo-europeus, aparentados linguisticamente, portanto, aos persas, gregos, romanos, armênios e povos indianos falantes do sânscrito e outras línguas de mesma origem. Numa época em que a linguística era predominantemente histórico-comparativa e parecia constituir área de domínio quase exclusivo de sábios alemães (como se fosse uma “ciência germânica”), até o Kaiser da Alemanha de então acompanhava as discussões e publicações acadêmicas sobre se os hititas eram ou não indo-europeus e a semelhança de sua língua com o alemão.

A segunda parte do livro descreve os processos empregados pelos arqueólogos na escavação e datação dos sítios de localidades da Anatólia, Síria e Mesopotâmia onde os hititas se estabeleceram. Estudos feitos nesses sítios mostraram elementos culturais que podem ter influenciado os hititas ou até sido absorvidos por eles. Num dos sítios encontraram-se restos de casas com entrada pelo teto e indícios de sepultamentos feitos dentro das residências; noutro, mostras de um culto ao touro, que pode ter deixado resquícios em culturas posteriores no Oriente Médio e Europa e também na dos hititas. Relação com o mito grego do Minotauro e as acrobacias taurinas pintadas nos afrescos do palácio de Cnossos na Creta minoica? Forma ancestral dos folguedos de Bumba Meu Boi do Brasil atual? É possível que sim.

Lehmann ainda descreve o processo de datação por carbono 14, exemplificando-o por meio dos achados relacionados aos hititas, o que acrescenta uma faceta didática ao livro, a respeito dos procedimentos arqueológicos.

A terceira e última parte descreve o que se sabia até então da cultura dos hititas. Sua língua era indo-europeia, formando um sub-ramo do ramo anatólico, portanto independente dos demais ramos (armênio, indo-irânico, germânico, ítalo-céltico, balto-eslavo etc.). Restaram umas poucas peças literárias hititas, das quais o autor faz citações; o estudo do vocabulário mostra as semelhanças com o das demais línguas indo-europeias (a semelhança de palavras hititas com palavras alemãs chamou a atenção de muitos na época).

Os hititas possuíam uma espécie de conselho, semelhante ao boulé dos gregos ou senatus romano, o qual parecia limitar um pouco o poder real. Suas divindades eram representadas portando chapéus ou barretes com vários pares de chifres de touro; segundo o autor, a hierarquia das divindades era marcada pela quantidade de pares desses chifres. Os hititas, ao dominar outros povos e pilhar as cidades destes, levavam para sua capital os ídolos dos templos saqueados, os quais eram postos nos altares junto com os deuses próprios hititas, o que lhes valeu o apelido de “Povo dos Mil Deuses”.

Ao que parece, os hititas foram um grupo que, ao conquistar os povos da Anatólia, assimilou muito de suas culturas; sua civilização era um amálgama de várias origens culturais. Vindos, há uns 4.000 anos, da Ásia Central, ponto de origem das várias ondas migratórias indo-europeias, os hititas estabeleceram-se na Anatólia, assimilaram elementos da cultura local e, quando tiveram a oportunidade, tomaram o poder e criaram um império que rivalizou com as potências da época, entre elas o Egito.

Coisa curiosa: o autor sugere que o chapéu ou barrete mostrado na arte hitita teria dado origem ao chapéu semelhante usado pelos frígios (barrete frígio), usado depois por gregos e romanos com simbologia variada e, hoje, associado à liberdade. Assim, as figuras que vemos, por exemplo, em nossas moedas a representar a personificação da liberdade são certamente, em sua origem, uma herança ainda viva dos hititas.

Apesar de antigo e certamente desatualizado – muito deve ter sido descoberto sobre os hititas, nas últimas décadas – Os Hititas de Johannes Lehmann é um livro ainda importante como instrumento de divulgação sobre esse povo que teve seu apogeu há mais de 3.500 anos.

(Originalmente publicado, com o título Hititas e Arqueologia, em https://www.skoob.com.br/os-hititas-31933ed34808.html.)

Santarém, Pará, 1º/12/2015. Editado em 7/1/2016.