O Homem Primitivo [poema de Karolo Piĉ]

O Homem Primitivo
(La Prahomo)

Karolo Piĉ (Karel Píč), 1920-1995
Traduzido do esperanto por Júlio César Pedrosa.

Dizem
que a poesia é tão antiga quanto a humanidade.
Mas isso é um erro.
Pois de todas as artes
a literatura é a última.

O homem de Heidelberg
parece que ainda não falava.
Sua única poesia era o crepitar do fogo.

O neandertal não conhecia a escrita.

E o primeiro poema do homem primitivo de Altamira
não foi um soneto,
mas um bisão,
desenhado na parede de uma caverna.

La Prahomo

Fonte: Originalaj Poemoj en Esperanto (https://www.facebook.com/PoemoEnEsperanto).

Santarém, Pará, 29/9/2014. Editado em 26/8/2015.

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A maldição do faraó

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Aquenáton, Nefertíti e duas de suas filhas. Fonte: http://www.arqueologiaegipcia.com.br.

Há algum tempo, numa manhã de domingo, tive a impressão de que havia baixado em um de meus vizinhos o espírito do faraó Aquenáton (ex-Amenófis ou Amenhotep IV).

Tão logo o Sol deu as caras, o vizinho tratou de dar início às homenagens ao disco solar Áton, que a tudo ilumina e abençoa com seus raios, possibilitando a fecundação da terra e do ventre das mulheres, enchendo de leite as mamas das fêmeas para a nutrição dos rebentos, fazendo subir as águas do Nilo, as quais, quando se vão, deixam suas margens cobertas dos nutrientes que levarão a abundantes, fartas colheitas, evitando-se os sete anos de espigas finas e vacas magras preditos por um hebreu de nome Zé.

Mas parece que a incorporação do faraó em nosso amigo tupiniquim não foi bem sucedida. Ao invés do Hino ao Sol, o que se ouviu foi uma procissão de cantos profanos e blasfemos, que nos feriam e ensurdeciam os ouvidos do corpo e da alma! E o danado do felá amazônida não se apercebia disso, enquanto fazia, paralelamente à execução de tais cânticos, o ritual semanal de lavagem de sua carruagem de quatro rodas, que ele julga talvez mais bela que a conduzida por Ramsés II, o Grande, na gloriosa batalha de Kadesh.

O tempora! O mores! Blasfêmia! Anátema! Um grito de horror ecoou por todo o Alto e Baixo Egito, da Quarta Catarata ao Delta do Nilo, de Abidos (ou seria Óbidos?) a Alexandria! Juntei minha voz ao coro dos aflitos, rasguei as vestes, vesti-me com um saco e cobri-me de cinza, prostrando-me de rosto ao solo e orando à deusa Ártemis de Éfeso (também conhecida como Diana ou Míriam), pedindo um milagre, um alívio para tal situação. E ela respondeu, enviando-me a musa Euterpe, que me orientou a atacar com o que de melhor se produziu sob a inspiração das Nove Irmãs.

Enquanto lá fora ele ofendia os deuses, dentro de casa eu me defendia…

Disso tudo escapou Aquenáton: tão logo desceu ele à tumba, juntando-se a seus ancestrais, os sacerdotes egípcios de Ámon, em conluio com as autoridades da terra de Kemit, fizeram o país retornar à antiga religião, amaldiçoando e riscando da História o nome e a memória do faraó rebelde e sua família.

Mas a História e a Arqueologia o reencontraram.

Santarém, Pará, 13/11/2013. Editado em 3/8/2015.

Subconsciente colonizado

A colonização cultural e mental de nosso povo fica cada vez mais evidente – pelo menos para mim.

Observo-a em certos detalhes, como o fato de correspondentes brasileiros de imprensa na França pronunciarem nomes franceses como se fossem ingleses. Não é só o nome da famosa torre parisiense, é todo e qualquer nome próprio.

Outros povos, ainda não dominados por essa mania, costumam ter dois procedimentos em face de uma situação destas:

1- Pronunciar tais palavras como na língua de origem; ou

2- Pronunciá-las como se fossem nomes de sua própria língua.

Os próprios francófonos não têm a menor vergonha de pronunciar palavras estrangeiras pela fonologia e fonética de sua própria língua.

Mas nós as pronunciamos como se fossem palavras inglesas, pois em nosso subconsciente achamos que só nós falamos o português e os demais povos todos falam inglês.

O trabalho já está feito; desmanchá-lo será difícil, senão impossível.

Pode parecer coisa pouca ou desimportante, mas não é.

Concordância verbal na TV

O ensino de língua portuguesa enfrenta dificuldades no Brasil…

No quadro “Tudors Terríveis” (“Terrible Tudors”) do programa inglês Deu a Louca na História (Horrible Histories), exibido atualmente pela TV Escola, um diálogo apresenta o seguinte:

Derramastes minha cerveja! Desafio-te a um duelo!”

Mas deveria ser derramaste, pois se trata da segunda pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo; a forma com S final é da segunda pessoa do plural: derramei, derramaste, derramou, derramamos, derramastes, derramaram.

Que haja confusão, na língua coloquial de muitos brasileiros, entre formas da segunda e terceira pessoa, ou entre singular e plural, é coisa compreensível; a variedade de formas (alterações fonéticas ou morfológicas) é grande e a linguística explica isso.

Mas que isso se apresente em programas educativos é inaceitável (a não ser que se trate de metalinguagem, o que não é o caso). Isto é, no mínimo, fruto de descuido.

É mais um exemplo de nivelamento por baixo: para que aprender estruturas linguísticas que não são usadas no dia a dia? Perda de tempo!

Pobre Camões! Por que ler suas obras, se ninguém fala (e na verdade jamais falou) do modo como ele as compôs?