Desomenageando Stálin

littell_mandelstamEm 1933, o poeta russo Óssip Mandelstam compôs um poema contra Josef Stálin, então dirigente máximo da União Soviética. O Epigrama a Stálin foi divulgado apenas a uns poucos amigos, mas de alguma forma chegou ao conhecimento da polícia secreta soviética NKVD e Mandelstam foi preso no ano seguinte.

Depois de algum tempo encarcerado na infame prisão de Lubianka, em Moscou, Mandelstam foi sentenciado a três anos de exílio, devendo residir em algum lugar fora das doze maiores cidades da URSS – era a punição conhecida sob o código menos 12. Dirigiu-se com sua esposa Nadejda a Voronej, na província do mesmo nome. O casal viveu lá com dificuldades até que, findo o tempo de exílio, retornou a Moscou clandestinamente, pois não tinha recebido permissão para residir fora de Voronej.

Em 1938, Óssip Mandelstam foi novamente preso e sentenciado a cinco anos de trabalho num campo de prisioneiros. Faleceu em Vtoráia Retchka, na região de Vladivostok, em dezembro do mesmo ano, de causas nunca esclarecidas, possivelmente devido à sua saúde já debilitada, agravada pelas péssimas condições da viagem e do alojamento, frio e fome.

Perecia naquele gulag um dos mais importantes escritores russos do século XX.

A tradução que reproduzo abaixo é a que consta na edição brasileira do romance The Stalin Epigram de Robert Littell.

Epigrama a Stálin

Óssip Mandelstam

Surdos na terra que pisamos nós vivemos.
A dez passos de nós, quem ouve o que dizemos?
O alpinista do Krêmlin eu ouço há meses:
É um assassino massacrando os camponeses.
Os dedos gordos como larvas mela
E, em chumbo, cai-lhe o verbo de sua goela.
Torto nos vê o bigode de barata.
E a bota que no brilho se remata.
Em torno a choldra de pescoço ralo
E de semi-homens baba, em seu badalo.
Nitre, ronrona, gane
Se ele lhe palre, ou as mãos abane.
Um a um forjando leis, arremessadas
Ferraduras na testa, olho, beiradas.
E matar sempre é benfeito
Para esse osseta de peito.

LITTELL, Robert. De Mandelstam para Stálin: Um Epigrama Trágico. Tradução de Mauro Gama. Revisão de Marco Lucchesi. Rio de Janeiro: Record, 2010. p. 105-106.

Adendo:
A certa altura do romance de Robert Littell, Óssip Mandelstam diz o seguinte:

“Em nenhum lugar do mundo se dá tanta importância à poesia: é somente em nosso país que se fuzila por causa de um verso.”

A Rússia tem longa tradição de enviar escritores para o cárcere. Na época dos czares, autores como Fiódor Dostoiévski e Mikhail Liérmontov estiveram na prisão, assim como o pai do romancista polonês Joseph Conrad. Já na União Soviética, Mandelstam e Isaak Bábel morreram em campos de prisioneiros; Soljenítsin sobreviveu aos gulags e escreveu sobre eles.

Em ambos os regimes, quem não era preso sofria censura – como ocorreu a Nikolai Gógol – ou era lançado no ostracismo, como Bóris Pasternak, que recebeu o Nobel de Literatura após publicar Doutor Jivago no exterior – sem autorização do Estado, é claro.

stalin
Imagem típica e oficial do incansável Stálin, o Pai dos Povos, de cujas decisões sábias e ação enérgica dependiam a vida e morte de milhões de pessoas.

Enquanto o regime soviético lançava na prisão ou executava escritores não alinhados a ele, o Estado outorgava o Prêmio Stálin ou Lênin a escritores que louvavam Stálin ou os feitos da Revolução, contribuindo para o culto da personalidade do líder, tão típico de regimes totalitários; ou aos que se ajustavam ao realismo literário socialista inspirado por Jdanov.

Pergunto-me o que foi feito de tantas obras que receberam tais prêmios soviéticos: caíram no esquecimento ou foram expurgadas do currículo dos laureados? Pergunta retórica, pois sei de um escritor laureado com o Prêmio Stálin cuja obra premiada está fora de catálogo há 60 anos e, pelo andar da carruagem, tão cedo não será novamente editada.

Seja como for, o Prêmio Stálin e o Prêmio Lênin não eram menos políticos do que o desejadíssimo Prêmio Nobel; apenas se tornaram politicamente incorretos, incômodos e indesejáveis para muita gente que os recebeu, pois os tempos mudam.

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