Felisbelo Sussuarana, poeta santarenense

Meu nome é Felisbelo, um nome raro
que muito diz e não revela tudo;
mas, por capricho do destino rudo,
belo não sou nem sou feliz, é claro…
(Felisbelo Sussuarana por ele mesmo)

Em 10 de outubro de 2012 completaram-se 70 anos da morte do poeta santareno Felisbelo Sussuarana, um dos principais nomes da literatura de Santarém no século XX.

Tomei a liberdade de homenageá-lo, falando um pouco sobre esse poeta, músico e professor; citarei apenas uns poucos dados biográficos, seguidos de uma pequena seleta de seus poemas, variando do gênero lírico ao satírico, os quais transcrevi da biobibliografia de Felisbelo publicada por seu filho Felisberto Sussuarana em 1991, ano do centenário de seu nascimento. Trata-se do livro O Mergulho de Felisbelo Sussuarana no Claro-Escuro do Homem e da Obra, que, a exemplo do título, é um estudo exaustivo da vida e da obra de Felisbelo, reunindo também toda a obra conhecida do autor.

Felisbelo Sussuarana em 1942 (reproduzido de SUSSUARANA, 1991).

Felisbelo Jaguar Sussuarana nasceu em Santarém, Pará, em 28 de abril de 1891, filho de Alexandre Alves Sussuarana e Filomena Nóvoa Sussuarana. Teve três irmãos: Raimundo Jaguar, Lena Jaci e Evarinta. Estudou em Belém, não chegando a fazer curso superior; precisou retornar a sua cidade natal e pelo resto da vida foi autodidata, alcançando grande cultura, demonstrada, entre outras coisas, por seu domínio da língua portuguesa.

Casou-se duas vezes: sua primeira esposa foi Raimunda Miranda; desposou, depois de viúvo, Antônia Ceci, em 1929. Teve dez filhos. Foi músico, ator, professor, fundou e dirigiu jornais (e, obviamente, escreveu neles), jogou futebol e foi diretor de clube esportivo, escreveu para teatro e fez letras de canções. Compôs poemas e textos em prosa. Como professor de português, escreveu artigos sobre a língua portuguesa, tendo-se envolvido – ao que parece, com gosto – em polêmicas gramaticais e filológicas, por meio de artigos, que se sucediam, em jornais da região. Em suma: participou ativa e intensamente da vida cultural de Santarém.

Felisbelo Sussuarana enviuvou pela segunda vez em fevereiro de 1942, e meses depois, em 10 de outubro daquele mesmo ano, faleceu. Wilson Fonseca escreveu à época de seu passamento:

“Santarém perdeu o seu mais ilustre filho, o cérebro mais aprimorado e fecundo nascido sob o sol brilhante da formosa “Pérola do Tapajós” (…). Quando já estava acometido da doença que o vitimou, várias visitas fizemos ao querido amigo e dele sempre ouvimos que não se julgava infeliz, pois do povo de sua terra, somente do povo, sempre frisava, recebia o maior conforto, o que muito o alegrava” (apud SUSSUARANA, 1991, p. 87).

Felisbelo Sussuarana foi admirado e respeitado em sua cidade; isto, porém, não lhe possibilitou publicar seus textos na forma mais perene do livro. Sua vasta produção ficou esparsa em diversos jornais e revistas, além do que ficou inédito e se perdeu. O esforço de amigos, admiradores e familiares salvou muitos de seus escritos, dos quais Wilson Fonseca publicou uma seleção na obra Meu Baú Mocorongo (FONSECA, 2006). Seu amigo Paulo Rodrigues dos Santos, também como ele um autodidata e erudito, disse a esse respeito:

“Embora não tenha intenção de trocadilhar, direi que Felisbelo Sussuarana foi um poeta de raça que se perdeu na roça. Se tivesse vivido em meio mais adiantado, os conterrâneos teriam orgulho de ver seu nome nas antologias nacionais. (…) Lamentável não tivesse o escritor mocorongo um parente, um amigo ou um conterrâneo de recursos que tomasse a peito reunir em volumes, arrancando-a do olvido e da destruição total, a fabulosa produção de Felisbelo, que ainda rola pelas páginas esfrangalhadas de antigos jornais, comida das traças, roída das baratas e delida da ação do tempo… Lamentável e triste para a tradição cultural de nossa terra…” (RODRIGUES DOS SANTOS, 1999, p. 410-411).

O próprio Paulo Rodrigues dos Santos viria a passar por algo semelhante: só com a intervenção de Fernando Guilhon, então governador do Pará, pôde ele ver publicada, em 1971, sua monumental obra Tupaiulândia, extenso repositório de fatos históricos e culturais de Santarém.

Antologia – A produção conhecida de Felisbelo veio a público em livro em 1991, ano do centenário de seu nascimento (SUSSUARANA, 1991). É livro hoje esgotado, e a obra de Felisbelo Sussuarana é ainda pouco ou nada conhecida fora do Pará, e parece-me que também em outras regiões deste enorme estado pouco se sabe dela – é claro que os naturais de Santarém a conhecem e a divulgam. Tomei a liberdade de selecionar alguns poemas de Felisbelo e transcrevê-los aqui, para conhecimento, principalmente, dos leitores de língua portuguesa de outras regiões. A seleção que fiz é pessoal, e sei que não agradará a todos; escolhi os poemas de que gosto mais, e tenho certeza de que outros poderão oferecer uma antologia mais representativa da obra do poeta.

Nos textos que transcrevi, conservei o uso, feito pelo autor, de versos iniciados com letra minúscula, pouco comum entre poetas de língua portuguesa.

Tendo-se passado mais de 70 anos da morte de Felisbelo Sussuarana, toda a sua obra é hoje de domínio público, portanto qualquer pessoa ou instituição pode divulgá-la. Espero que as autoridades, inclusive as estaduais – que tanto amam Santarém e o Oeste do Pará, a ponto de nem sequer aceitarem falar em divórcio… –, aproveitem o ensejo para reeditar a obra de Felisbelo Jaguar Sussuarana, pondo-a ao alcance do público leitor, pois todo autor tem o direito de ser lido.

SELETA POÉTICA DE FELISBELO SUSSUARANA

RIO SÍMBOLO
Soberbo flúmen, Tapajós altivo,
de longe vens nesse lutar sem tréguas,
vivo,
vencendo léguas e mais léguas,
ora a espraiar-te
em fúlgidos lençóis,
ora a estreitar-te
em veios
de oiro cheios,
fertilizando as terras
por onde erras,
altivo Tapajós.

Vens de longe correndo,
vens vencendo
saltos
e cachoeiras
altaneiras,
beijando praias e barrancos altos,
dando vida e valor,
dando alegria
à ubertosa região de que és senhor.

A marcha a te deter quem ousaria,
ó rico e belo flúmen brasileiro?

E vens vindo, vens vindo, prazenteiro,
atrás deixando tudo
nesse rudo
marchar glorioso,
rápido, nervoso,
e nada te detém…

E após tanto lutar e tanta glória,
vens, alcançando rútila vitória,
morrer aos pés da linda Santarém!

Assim do poeta os surtos criadores,
ó belo Tapajós
dos meus amores:
de mundos luminosos e distantes
partem, soberbos, fartos de esplendores,
chispando sóis
e fluidos cintilantes,
e descem, descem, céleres, radiantes,
para deter-se, alfim, nessa arrancada,
vencidos, juntos da Mulher Amada!

VERSOS… VERSOS… VERSOS…
Versos… quantos nem sei, chorando ou rindo
desperdicei no meu peregrinar…
Versos, versos de amor que nasce lindo
e nos ilude para nos deixar…

Versos nascidos em momentos nobres
de ânsias infindas de lutar, vencer…
Versos carpindo desditados pobres,
rimas plangendo agruras do viver…

Versos moldados na amizade terna
que nos enleia e que nos faz feliz…
Versos cultuando a natureza eterna,
glorificando as glórias do país…

Versos festivos, versos de noivados,
rimas gentis, garridos madrigais…
Galanteios medidos e rimados,
doiradas ilusões, não voltam mais…

Versos… quantos nem sei, calmo ou nervoso
qual desperdiçador, quantos compus…
Versos, versos de amor, versos de gozo,
versos feitos de lágrimas e luz…

Versos que eu fiz, cantando a mocidade,
a mocidade em flor do meu torrão…
Versos de dor e de infelicidade,
mas versos naturais do coração…

E quantos versos meus hoje dispersos,
perdidos como os ais dum sofredor…
E até no cemitério eu tenho versos,
a traduzir saudade e alheia dor…

Quando eu morrer, fugindo à desventura,
quem sabe se terei – o mundo é assim –
quem vá deitar na minha sepultura
um punhado de versos sobre mim…

CUIEIRAS
I
São afamadas, são procuradas
as belas cuias de Santarém!
Cuias bordadas, cuias pintadas
como estas minhas, ninguém as tem. Ah!

Para um presente de namorado
que coisa linda, meu bom senhor!
Serviço limpo, bem acabado,
arte, bom gosto, puro lavor.

(Coro)
Para tomar-se um mingau a gosto,
para tomar-se um bom tacacá,
só numa cuia, vaso bem posto
e preferido no meu Pará!

II
Um vinho grosso, roxo e gostoso
do conhecido, belo açaí,
é mais suave, mais saboroso
se numa cuia se bebe aqui. Ah!

Cuias bordadas, cuias pintadas
como estas minhas, ninguém as tem.
São afamadas, são procuradas
as belas cuias de Santarém!

O PEDIDO
Almofadinha fofo e sem dinheiro,
vivendo duns rabiscos que fazia,
o bardo futurista não podia
mais suportar aquele olhar brejeiro.

Enamorou-se logo e, verdadeiro
aquele amor, de certo o mataria
se a divinal e cândida Maria
não fosse engalanar-lhe o lar fagueiro.

E decidiu-se então sem mais aquela
a procurar o pai da jovem bela
para pedir-lhe a mão da filha; o Duarte,

o genitor, porém, que não é tolo,
em vez da mão da filha, seu consolo,
meteu-lhe o pé com força em certa parte.

LONGE DE TI
Hoje estou triste e pesaroso e, certo,
este pesar agora me acabrunha.
Longe de ti vegeto num deserto,
só tendo minha dor por testemunha.

É que, formosa, quando vives perto
do teu cantor que versos te rascunha,
é meu viver, florindo, um céu aberto:
morre a saudade, morre a caramunha.

É que não posso mais sem teu carinho
passar nestas – da vida transitória –
ondas revoltas de perigo cheias.

É que, se longe estás do nosso ninho,
eu sou forçado – que dorida história! –
a remendar, que jeito, as minhas meias.

POLÍTICA
Dois filhos tem Miguel José Veludo
que gêmeos são, nascidos faz um ano;
um, pobrezinho, veio ao mundo – mudo;
o outro, coitado, é surdo como um cano.

Não se apoquente o pobre pai, contudo,
nem se amofine porque, sendo humano,
recebe os golpes do destino rudo
com fortaleza forte de espartano.

Ontem me disse: – Sabes, meu amigo?
Eu, que a doutrina modernista sigo,
um grande plano tenho, alevantado:

Fazer dos dois meninos, com perícia,
quando formados – Chefe de Polícia
o surdo… E o mudo? – O mudo, Deputado.

A ENTREVISTA
Dez horas… dez e meia… As horas voam
e ela não vem, não vem para a entrevista!
Anseio e fremo, e quanto me contrista
a sua ausência… E as onze, lentas, soam…

Do galo, no terreiro, me atordoam
os repetidos cocoricós, e egoísta
do meu amor, maldigo esse corista
a remarcar as horas que se escoam.

Geme o relógio – doze… Meio-dia!
E ela não vem, mentiu-me… Que ironia!…
…………………………………………………………
Escuto: alguém bateu… É o meu amor!

Vou tê-la, enfim, rendida, nos meus braços!
E, antegozando os beijos e os abraços,
descerro a porta… oh! raiva! Era um credor!…

DUMA ANEDOTA
O primo mais a priminha
(o Carlos e a Margarida)
sustentam na sala clara
uma conversa entretida.

De repente, na priminha
o primo pespega um beijo:
“Oh! Carlos, tu me assustaste…”
disse-lhe a prima com pejo.

Já se passam dez minutos
(para as nove faltam dez).
Diz a prima muito séria:
“Carlos, me assusta outra vez?!”

COMEMORAÇÃO CÍVICA
15 de Novembro.
A praça regurgita.
É grande a massa que se agita.
Povo.
Autoridades.
Gente de fato novo.
Crianças das escolas.
Com galhardetes.
Com bandeirolas.
Banda de música.
Orador oficial.
“Meus senhores!
Neste solene momento
puramente nacional,
em que, na praça pública,
todos, irmanados pelo mesmo sentimento,
comemoramos, por entre vibrações interiores,
o dia magno da República…”
E prossegue o discurso
fluente. Escachoante.
Como o curso do rio-mar…
Só se ouve da brisa o brando ciciar.
Peroração.
Surtos magníficos.
Miríficos.
Palmas. Muito bem! Muito bem!
Viva o doutor Juiz de Direito!
Viva o meu compadre capitão prefeito!
Viva o povo de Santarém!
De novo em movimento.
Foguetes doidos furam o ar,
de momento a momento.
A fanfarra torna a vibrar.
“Já podeis, da Pátria filhos,
ver contente a Mãe gentil;
já raiou a liberdade
no horizonte do Brasil…”
A enorme serpe coleia
densa, larga, cheia.
A meninada,
suarenta,
cansada.
O sol caustica. Enfara. Assedenta.
– Para! Para! Psiu! Psiu!
Vai falar o doutor
Promotor!
Transbordante como um rio,
o verbo magistral
atroa.
Alcandora-se. Voa.
Flui. Flui
em destaque.
Citações de Rui.
Versos adoráveis de Bilac.
História de Rocha Pombo.
Torre do Tombo.
Circunvoluções.
Palmas. Hurras. Vivas.
Ovações.
Prossegue a grande serpe coleando.
Vivas roucos. Abafados.
Meninos coxeando
alagados.
Vem a noite, afinal,
pôr termo à bela festa nacional.
Palmas em profusão.
Viva o Brasil!
Viva nossa bandeira!
Viva a República!
Viva a Pátria Brasileira!
A banda executa o Hino.
“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
de um povo o heroico brado retumbante…”
Num frêmito divino,
todos cantam. Todos. Delirantes!…
Põe-se em marcha a passeata.
Alas de crianças.
A bandeira auriverde
entre a multidão se perde.
Fitas cor de ouro e de esperança.
Marcha que arrebata.
“Nós somos da Pátria
a guarda,
fiéis soldados
por ela amados;
nas cores de nossa farda
rebrilha a glória,
fulge a vitória…”
– Para! Para! Para!
Estanca o préstito. A casa do Juiz.
Da janela,
sorridente, feliz,
o Juiz, de flor à lapela,
deixa o verbo escorrer…
Flores de retórica.
Pátria.
Liberdade.
Fraternidade.
Obra.
Dever.
Digressão histórica.
Deodoro.
Benjamin.
Rui Barbosa.
Silva Jardim.
E os manifestantes,
“alma febril”,
desfazem o préstito, radiantes,
suados, extenuados,
esfomeados,
mas cheios de Brasil…

FELICIDADE
Quando eu era assinzinho
– como tão longe vai aquele dia! –
para entreter-me, minha mãe bondosa
tomava-me a mãozinha e, cariciosa,
a dedilhar dedinho por dedinho,
rindo, feliz, assim dizia:

– “Dedo mindinho,
seu vizinho,
pai de todos,
fura-bolo
mata-piolho…
Cadê o docinho,
diga, meu filhinho,
que aqui deixei, aqui, na sua mão?
– O rato comeu!…
E o rato, para onde foi o comilão?
– Foi por aqui… por aqui,
por aqui ele correu!…”

E os dedos ágeis, pelo tenro braço,
como quem tamborila,
iam correndo até chegar à axila,
onde a mãezinha, com desembaraço,
cocegava, cocegava,
rindo, feliz, por ver tornar-me em riso.

E hoje, quando vejo em meio à estrada
que, palmilhando, sigo
a passos tardos,
entre espinhos e cardos,
é o Destino que vem brincar comigo
na vida atribulada:

“Dedo mindinho,
seu vizinho,
pai de todos,
fura-bolo,
mata-piolho…
Cadê a felicidade que aqui estava?
Por que a deixou fugir, seu grande tolo?”

E eu nem sei responder se foi o rato,
se foi o gato,
que carregou,
que devorou
o Bem que era só meu e me bastava!…

AUSÊNCIA
Ausência – coração que foi gemendo,
coração que ficou na dor voraz…
Alma que voeja, em ais se debatendo,
em busca de outra já perdida em ais…

Ausência!…
Negação de tudo quanto
traduz na vida a essência
do Prazer…

Em cada extremo um coração em pranto,
e a saudade no meio, a florescer…


Obras consultadas:

FONSECA, Wilson Dias da. Meu Baú Mocorongo. Belém (Pará): Secretaria Estadual de Cultura, 2006. 6 volumes.

RODRIGUES DOS SANTOS, Paulo. Tupaiulândia. 3ª edição. Prefácio de Lúcio Flávio Pinto. Santarém (Pará): Instituto Cultural Boanerges Sena, 1999.

SUSSUARANA, Felisberto. O Mergulho de Felisbelo Sussuarana no Claro-Escuro do Homem e da Obra: ensaio biográfico. Santarém (Pará): Prefeitura Municipal de Santarém, 1991.

Santarém, PA, 20/10/2012. Editado em 26/8/2016.

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Uma introdução popular às línguas indígenas do Brasil

O homem branco, aquele que se diz civilizado, pisou duro não só na terra, mas na alma do meu povo, e os rios cresceram, e o mar se tornou mais salgado porque as lágrimas da minha gente foram muitas.
Cibae Ewororo (Lourenço Rondon), índio bororo

aryon_linguasbrasileirasApós mais de 5 séculos da chegada dos portugueses à América e do contato dos primeiros europeus com os indígenas da região que hoje conhecemos como Brasil, têm presença cada vez mais constante na mídia brasileira e internacional as questões relativas aos cerca de 200 povos indígenas que habitam o território brasileiro e à necessidade de preservação de sua cultura e tradições, para que eles possam manter sua dignidade como seres humanos e praticantes de uma cultura própria, ainda que, de uma forma ou outra, uns mais, outros menos, estejam eles integrados à “comunhão nacional”, como se costumava dizer ao tempo do marechal Rondon.

As publicações sobre os índios são cada vez mais numerosas e variadas, tratando de seus costumes, organização social, interação com a natureza, ocupação e demarcação de territórios, conflitos com a população não índia, relações com o Estado e a legislação, exploração de riquezas naturais em áreas de preservação, ressurgimento étnico etc.

Quando se trata, porém, de suas línguas, o desconhecimento delas por parte da grande maioria da população brasileira é quase total. Com efeito, os brasileiros nos orgulhamos de habitar um país-continente em que se fala uma única língua. Única? Nada disso: no território brasileiro ainda se falam cerca de 200 línguas indígenas, e muitas delas correm risco de desaparecer, devido à ação, intencional ou não, da sociedade nacional brasileira, seja devido ao desaparecimento de seus falantes (por epidemias, maus-tratos, chacinas, contaminação da água etc.) ou pela pressão “civilizadora”, que leva ao abandono de práticas culturais, entre estas a língua, que deixa de ser transmitida às novas gerações.

Em geral, pensa-se que o índio fala uma “língua enrolada” ou o “tupi-guarani” (que, aliás, nem existe, pois o tupi e o guarani são línguas distintas, sendo o termo tupi-guarani designativo de um grupo de línguas aparentadas); ou se pensa que as línguas dos índios são “simples” e/ou “primitivas” (embora quem assim fale não saiba bem dizer o que vem a ser isso): para essas pessoas, sendo as línguas dos índios muito “simples”, basta juntar algumas palavras de qualquer jeito e pronto — pode-se falar em qualquer língua indígena!

Foi com o intuito de preencher essa lacuna no conhecimento geral das línguas indígenas do Brasil, e acabar com os preconceitos que envolvem o assunto, que o linguista brasileiro Aryon Dall’Igna Rodrigues escreveu o livro Línguas Brasileiras — Para o conhecimento das línguas indígenas. Trata-se de importante obra de divulgação científica, feita por um conhecedor do assunto, um dos principais especialistas em línguas indígenas do Brasil. (Alguns de seus textos estão disponíveis AQUI.)

Nascido em Curitiba, PR, em 1925 e falecido em Brasília, DF, em 2014, Aryon D. Rodrigues doutorou-se pela Universidade de Hamburgo, Alemanha. Foi professor da Universidade de Campinas (Unicamp), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade de Brasília (UnB), Universidade de Hamburgo, foi pesquisador do Museu Nacional, além de ter ministrado aulas e conferências em diversas outras universidades e centros de pesquisa da Europa, América Latina e Estados Unidos.

Neste seu livro, Rodrigues traça um quadro geral das línguas indígenas do Brasil. Inicialmente, define o que é uma língua indígena e mostra suas principais características, comparando-as com as das línguas do Velho Mundo, ditas “de cultura”. Mostra como aquelas línguas se agrupam em famílias e troncos linguísticos, calcula o provável número de línguas indígenas faladas no Brasil no início da colonização portuguesa, faz estudo comparado de vocabulário entre línguas diversas, mostra as transformações sofridas por muitas dessas línguas nos últimos 500 anos.

O segundo capítulo de Línguas Brasileiras trata das línguas da família tupi-guarani, a mais importante do Brasil. Fala do tupi e sua influência na cultura brasileira e faz uma comparação entre o tupi antigo e o guarani, além de outras línguas aparentadas, pelo que se vê que, apesar das enormes semelhanças, trata-se de línguas diferentes, embora com a mesma origem. O assunto continua no capítulo seguinte, em que se estuda o tronco linguístico tupi, de que faz parte a família tupi-guarani, ao lado de outras.

O capítulo 4 é dedicado ao tronco macro-jê, que agrupa línguas como o xavante, bororo, carajá etc. Os capítulos 5, 6, 7, 8 e 9 são dedicados a outras famílias linguísticas menores ou isoladas, como caribe, aruaque, arauá etc.

O último capítulo traz um estudo sobre as línguas gerais que se formaram no Brasil durante a colonização. O tupi antigo desenvolveu-se em dois dialetos muito parecidos, a língua geral paulista e a língua geral amazônica; estas se espalharam pelo Brasil, levada uma pelas bandeiras paulistas (Sudeste e Centro-Oeste), e a outra pelas frentes de ocupação da Amazônia, que adentraram o atual Norte do país partindo do Maranhão. A política portuguesa de proibição do uso das línguas indígenas em favor do idioma português, implantada na América Portuguesa a partir de meados do século XVIII, pelo Marquês de Pombal, foi agravada pela Cabanagem (conflito durante o qual pareceram milhares de seus falantes) e pelo fluxo migratório de brasileiros de outras regiões, falantes apenas do português, o que levou ao quase desaparecimento da língua geral amazônica, restando dela hoje apenas a língua geral moderna ou nheengatu (“língua boa”, em tupi), que se fala ainda no Alto Rio Negro, Amazonas, e circunvizinhanças.

Aryon Rodrigues consegue, com seu livro Línguas Brasileiras, uma dupla façanha: além de informar o leitor sobre a situação das línguas indígenas brasileiras, possibilitando, dentro das limitações de uma obra de divulgação, uma visão geral de sua distribuição no território nacional, ele coloca o leitor a par do que se vem estudando nesse campo de trabalho, e fornece copiosa bibliografia, que pode orientar pesquisas futuras dos que se deixam cativar por esse importante ramo dos estudos linguísticos.

A linguagem da obra é simples, sem muitos termos técnicos ou transcrições fonéticas de difícil compreensão; ela pode ser lida tanto por gente especializada quanto por leitores comuns não iniciados em linguística. A meu ver, este livro é uma formidável contribuição à questão das línguas indígenas, seu estudo e conservação. É obra de leitura obrigatória para todos os que se interessam por assuntos ligados à linguagem ou à cultura geral brasileira.

A época em que vivemos assiste a grandes transformações nas relações entre os indivíduos e os grupos, e discutem-se as transformações por que passa o Brasil, com importantes efeitos na vida de seus cidadãos e no novo papel de nosso país no cenário mundial; a nova dinâmica social leva a novas reflexões sobre a formação de nosso povo e nossa cultura, e os índios brasileiros têm presença constante nessas discussões, porquanto, juntamente com outros grupos, atravessam um processo de ressignificação de sua condição de brasileiros.

Assim, tendo os índios uma participação tão importante na formação do Brasil, ler livros como este e inteirar-se de parte dos problemas atuais (mais precisamente os linguísticos) dos indígenas é uma forma de conhecê-los um pouco melhor e compreendê-los.

A primeira versão deste texto esteve disponível entre 1999 e 2006 em http://www.napoleao.com, sítio do extinto Curso de Português e Latim do Prof. Napoleão Mendes de Almeida. Republico-o agora, com algumas correções, atualizações e acréscimos. Apesar de tratar de uma obra de meados da década de 1980 e cuja quarta edição saiu há mais de 10 anos, creio ser esta resenha ainda de algum proveito para o público leitor.

Santarém, PA, 4/5/2012. Editado em 25/2/2015.