Anedotas sobre Attila József

ANEDOTAS SOBRE ATTILA JÓZSEF
(Anekdotoj pri Attila József)

Sándor Szathmári
Traduzido do esperanto por Júlio César Pedrosa

József_Attila 1924
Attila József em 1924. Fonte: Wikipedia.

Posso orgulhar-me de ter tido boa amizade com o eminente poeta Attila József.

Boa amizade? Com aquele homem agitado e nervoso que sempre batalhava com todos?

Sim! Justamente por isso sei com certeza que ele me estimava, porque ele sempre discutia, até disputava comigo. Com aqueles dos quais não gostava, ele se portava com uma gentileza glacial, e não os tinha como dignos de uma disputa de ideias.

Não reconhecia nenhuma autoridade. Sem nenhum respeito atacava e refutava seus atacantes e refutadores. A discussão era seu esporte, de que nasciam suas fagulhas do espírito, que ele depois entretecia em seus poemas.

Ocorreu certa vez, em 1933, que eu proferi uma palestra em um clube sobre a crise econômica internacional da época, que então abalara profundamente o capitalismo liberal.

Depois da palestra, muitos dos que ali estavam presentes se juntaram em torno de mim, e começou o costumeiro bate-papo após a conferência, o simpósio extraoficial, quando os interessados faziam suas observações, replicavam ou davam-me indicações sobre o tema.

Attila József também estava lá, mas não se aproximou totalmente de mim. Ficou um pouco afastado, às vezes ouvia a conversa, ia para lá, vinha para cá, e via-se que ele guardava algo digno de ser dito.

Também conjeturei, e de certa forma temi, que ele logo viria, explodiria, refutaria e daria cabo de minhas asserções.

Por fim o grupo de discussão começou a desfazer-se. Dissipou-se o círculo de gente em torno de mim. E então Attila József, com passos firmes e decididos, veio até mim.

— Você é… você é… um bom palestrante!

Disse isso abruptamente, de supetão, de modo jogado, com um descuido meio afetado.

E daí se virou e foi embora. Ele visivelmente se envergonhava de sua fraqueza.

Esse reconhecimento foi, para mim, a maior honra de minha vida. Tão valiosa quanto uma medalha de ouro. Se até ele devia reconhecer-me, então eu devia ser sem dúvida um bom palestrante.

Certa vez ele morou junto com Lajos Nagy, que escrevia prosa. Ambos eram pobres, de maneira digna a escritores de talento. Outro escritor húngaro, László Vajthó, escreveu: “O escritor ou ganha dinheiro ou diz a verdade”. Ora, eles por preferência diziam a verdade e não ganhavam dinheiro. Moravam num quarto em comum.

Certa noite, ao se recolherem para dormir, eles como de costume conversavam. Então entre outras coisas Lajos Nagy disse estas palavras: “… o mar azul…”.

Attila József logo replicou:

— O mar não é azul, é verde!

Mas Lajos Nagy também não era de temperamento fácil. Passou a demonstrar que o mar é, de fato, azul.

Com estas palavras ele acendeu o pavio explosivo. Attila József então citou poetas competentes que cantaram o verde mar.

Em se tratando de citações, Lajos Nagy também não era laico. Citou em dobro muitos autores, de Safo a Jean Cocteau, passando por Byron, cuja poesia fora inspirada pelo azul do mar.

Seguiram-se depois as descrições de marinheiros, conquistadores e cientistas. (Desnecessário até dizer que nenhum deles tinha visto o mar. Como mencionei, eles de preferência diziam verdades.)

Enquanto isso eles já se tinham deitado, mas mesmo assim continuavam esgrimindo. A discussão acirrava-se e, por fim, foi Lajos Nagy que primeiro se cansou.

Para terminar a infrutífera disputa, ele decidiu capitular:

— Você me convenceu — disse tranquilo. — Devo conceder que você tem razão: o mar é, de fato, verde.

Disse “Boa noite!” e apagou a luz.

Attila József calou-se, contrariado. Sentia-se fora de seu elemento vital. Lajos Nagy logo adormeceu, e ele fervia por dentro. Por fim, depois de uns 15 minutos de luta consigo mesmo, explodiram as forças internas dentro dele. Gritou:

— Ei, Lajos!

— Grrr! — acordou Lajos Nagy com um súbito rosnado. — Quê? Que é?

— Mas saiba você que o mar não é assim TÃO VERDE, como você imagina!

Traduzido de:
SZATHMÁRI, Sándor. Anekdotoj pri Attila József. Hungara Vivo, 1967, n-ro 4 (7a jaro), p. 17.
Disponível em: <http://www.autodidactproject.org/other/szathmari_jozsef.html>. Acesso em: 12 fev. 2016.

Sobre Attila József: http://pt.wikipedia.org/wiki/Attila_J%C3%B3zsef.

Sobre Sándor Szathmári:
https://en.wikipedia.org/wiki/S%C3%A1ndor_Szathm%C3%A1ri.

Santarém, PA, 19/11/2013. Editado em 12/2/2016.

Michael S. Hart, um visionário

Oh! Bendito o que semeia
Livros… livros à mão cheia…
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.

Castro Alves, O Livro e a América

No dia 4 de julho de 1971, o americano Michael Stern Hart recebeu um presente inusitado: uma cópia impressa de distribuição gratuita da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América. Aquilo lhe deu uma ideia: digitar o texto no computador (um Sigma V da Xerox, com a espantosa memória de 16K!) que ele usava num laboratório na Universidade de Illinois e distribuí-lo através da rede interna de computadores da universidade, e daí para as demais universidades e bibliotecas conectadas à Internet – que já existia havia alguns anos, mas era muito diferente e bem menos abrangente do que é hoje; o filme War Games (“Jogos de Guerra”, 1983) dá-nos uma ideia do que era a Internet comercial e doméstica por volta de 30 anos atrás.

Michael Stern Hart (1947-2011)
Michael Stern Hart (1947-2011)

Estava então criado o livro eletrônico, ou e-book. E os que receberam pela rede o arquivo da Declaration of Independence fizeram a primeira descarga (ou download, como queiram) conhecida de um livro eletrônico! Tornava-se realidade o que até ali era apenas um elemento de ficção científica, como visto, por exemplo, nos episódios de Jornada nas Estrelas.

Depois daquele título pioneiro, vieram outros: a Bíblia, Aventuras de Alice no País das Maravilhas, obras de Shakespeare, Homero, Melville… Nascia assim a biblioteca digital livre Project Gutenberg, a primeira e mais conhecida iniciativa de produção e distribuição de livros eletrônicos, baseada em arquivos de texto (.TXT), leves e de fácil armazenamento e transmissão, podendo depois ser postos em outros formatos, como o PDF. O Projeto Gutenberg apostava na Internet – à época, recém-criada e em lenta expansão – para a difusão gratuita da literatura. A aposta, como vimos, mostrou-se vencedora.

Por cerca de 25 anos, Hart trabalhou sozinho, digitalizando em média 1 livro por mês, até que a explosão da informática e da Internet e o surgimento da World Wide Web, trazendo maior facilidade de contato e distribuição dos arquivos eletrônicos, possibilitaram a chegada de voluntários de diversas partes do mundo, multiplicando muitas vezes o número de títulos e línguas do catálogo. Hoje o Projeto Gutenberg possui quase 50.000 títulos em mais de 60 línguas.

O catálogo possui textos em domínio público e outros publicados com autorização dos autores. A maior parte do acervo é constituída de títulos em inglês (mais de 41.000); a língua portuguesa está representada com 539 obras, dentre as quais Os Lusíadas, de Camões, Como e por que sou Romancista, de José de Alencar, inúmeras obras de Camilo Castelo Branco, João de Deus, Júlio Dinis, Alexandre Herculano, Guerra Junqueiro, além de muitas raridades, como o hilário Álbum Chulo-Gaiato, as Trovas do Bandarra e textos de autores pouco conhecidos na atualidade, com o paraense João Marques de Carvalho (1866-1910), do qual estão disponíveis Contos do Norte, Contos Paraenses e Entre as Ninfeias.

O português é a sétima língua do catálogo em número de títulos, superada, além do inglês, pelo francês (2.593), alemão (1.306), finlandês (1.143), holandês (710) e italiano (639), e à frente, entre outras línguas, do espanhol (464) e chinês (410). O latim está presente com 95 títulos; o esperanto, língua internacional planejada lançada em 1887 por L. L. Zamenhof, está presente no catálogo com 104 obras.

Hoje completam-se 4 anos da morte de Michael S. Hart, que tinha 64 anos e vinha trabalhando havia 4 décadas na digitalização e divulgação de livros. Seu falecimento, ocorrido em 6 de setembro de 2011, foi noticiado em vários meios de comunicação, inclusive no Brasil, e muito lamentado. Teotônio Simões, no sítio www.ebooksbrasil.org, foi sucinto e direto ao noticiar a morte de Hart, chamando-o “um ser humano exemplar”. Creio que Michael Hart tenha partido com a sensação de dever cumprido. Sua iniciativa rendeu ótimos frutos e tornou mais fácil o acesso a textos aos quais, de outro modo, as pessoas ficariam alheias.

A Internet é uma das maiores criações da humanidade em todos os tempos, e talvez a principal das últimas décadas, possibilitada que foi pelas descobertas dos últimos séculos, desde que o domínio da eletricidade permitiu a criação e operação de máquinas capazes de transmissão de dados por cabos, e depois sem eles.

Mas ela é também – pelo menos no momento – um dos pontos de culminância de um longo processo que se iniciou há muito tempo, quando aqueles nossos primeiros ancestrais, peludos, sujos e fedorentos, de baixíssima expectativa de vida, perderam o medo do exterior e resolveram sair da caverna para ver o que havia fora dela; desde que perderam o medo do fogo e resolveram acendê-lo por conta própria, sem esperar que algum raio fizesse arder uma árvore ou que alguma divindade o trouxesse; desde que observaram os ciclos da natureza e viram que podiam plantar seu próprio alimento, sem precisar sair em busca dele, e criaram as cidades; desde que olharam para o céu noturno e, sem o saber, criaram a astronomia – que nos permitiria compreender a mecânica celeste e de todas as coisas – e sua irmã de maior apelo popular, a astrologia – que surpreendentemente ainda sobrevive, feliz e ditosa, contrariando o vaticínio de homens de ciência de diversas épocas.

A Internet trouxe ainda consigo, além da possibilidade de comunicação praticamente imediata, alguma liberdade de escolha para a difusão da cultura. Enquanto os grandes grupos e lobbies editoriais e culturais ditam o que devemos ler e ouvir, anônimos abnegados dedicam seu tempo a resgatar, do poço do esquecimento, obras escritas e audiovisuais às quais, de outra forma, jamais poderíamos ter acesso. Poetas e filósofos, cronistas e cientistas, musicistas e cantores, como novas fênix, renascem das cinzas da história, reavendo o único e verdadeiramente sagrado direito que todo autor tem: o de ter sua obra disponível às pessoas para ser lida, vista, ouvida.

A civilização mundial que se começa lentamente a construir requer liberdade de pensamento e de difusão do pensamento, e os primeiros passos em busca dessa civilização foram dados por pessoas como Michael Stern Hart, as quais enxergaram muito além de seu tempo.

Miremo-nos em seu exemplo.

Santarém, Pará, 18/9/2012. Editado em 6/9/2015.

Nossa Única Posse [poema de Julius Balbin]

Julius Balbin (Fonte: http://miresperanto.com/en/articles/strangled_cries.htm)
Julius Balbin
(Fonte: http://miresperanto.com)

Nossa Única Posse
(Nia Sola Posedaĵo)

Julius Balbin (1917-2006)
Traduzido do esperanto por Júlio César Pedrosa.

No gueto
onde ainda
era possível
fazer amor
eu a encontrei.
Ambos tínhamos dezesseis anos
e nos envergonhávamos
De nossos corpos nus.
Tomando um ao outro pelas mãos
Abraçávamo-nos timidamente.

No campo de concentração
fomos separados
pelo arame farpado
mas nosso ardor
ignorava barreiras.

Os holofotes
das torres de guarda
espionavam a escuridão
enquanto eu rastejava
na direção das barracas das mulheres
por sob os arames
e me contorcia
entre vida e morte.

Eu alcançava a porta,
abria-a
e furtivamente deslizava
até onde o sussurro de minha amada
me guiava, à cama de cima,
Onde nua ela esperava.

O pesadelo da realidade
era engolido
pelo abismo
de nosso abraço
e nós íamos
ao topo
de tudo o que é humano
penetrando um no outro.

As mulheres à nossa volta
dormiam suspirando ou roncando
enquanto nós estávamos além de tudo,
contendo nossas paixões
ou silenciando nossos gemidos.
Amávamos
na febre que nossos corpos
nunca conheceram.

Não possuíamos nada
além de um ao outro.
Dividindo esses momentos
nós nos movíamos no ritmo
da lua e das estrelas
que brilhavam acima de nós
eternamente.

BALBIN, Julius. Nia Sola Posedaĵo. In: AULD, William. (Org.). Esperanta Antologio: Poemoj. 1887-1981. Rotterdam: UEA, 1984, pp. 760-762.

Notas:

1- Julius Balbin (1917-2006) nasceu em Cracóvia, Polônia, no seio de uma família judia. Foi preso pelos alemães e passou por vários campos de concentração. Após o fim da II Guerra Mundial estudou em Viena, Áustria, e emigrou em 1951 para os Estados Unidos da América, onde por muitos anos foi professor universitário, retornando à Europa em 2005. Faleceu em Aye, Bélgica. Publicou vários livros de poemas em esperanto.

2- Sobre a tradução: No poema acima, o único sinal de pontuação usado pelo autor é o ponto (.). Acrescentei algumas vírgulas onde vi que elas eram necessárias, devido à estrutura de nossa língua e para não fugir ao sentido do texto original, deixando o restante do texto com a pontuação (ou a falta dela) original, o que, a meu ver, contribui para melhor apreender o clima do poema; creio que a falta de vírgulas é elemento significativo deste poema. O leitor compreenderá por si mesmo e dirá se tenho ou não razão.

3- Publico este texto traduzido no âmbito das celebrações ocorridas por ocasião dos 70 anos da libertação, por tropas soviéticas, do campo de concentração de Auschwitz (em polonês Oświęcim), Polônia, ocorrida em 27 de janeiro de 1945.

4- O texto original pode ser lido na página do atalho a seguir, acompanhado de traduções de J. E. Nagy em húngaro e romeno:
http://www.ipernity.com/blog/199659/338252.

5- Mais sobre Julius Balbin:
Em inglês: “Strangled Cries: A profile of poet Julius Balbin” – Alexander Kharkovsky;
Em esperanto: “Julius Balbin” – Wikipedia.

6- Um artigo de Julius Balbin (em inglês): “The Secret Malady of Esperanto Poetry” (1973).

Santarém, Pará, 31/1/2015. Editado em 17/3/2015.