Uma introdução popular às línguas indígenas do Brasil

O homem branco, aquele que se diz civilizado, pisou duro não só na terra, mas na alma do meu povo, e os rios cresceram, e o mar se tornou mais salgado porque as lágrimas da minha gente foram muitas.
Cibae Ewororo (Lourenço Rondon), índio bororo

aryon_linguasbrasileirasApós mais de 5 séculos da chegada dos portugueses à América e do contato dos primeiros europeus com os indígenas da região que hoje conhecemos como Brasil, têm presença cada vez mais constante na mídia brasileira e internacional as questões relativas aos cerca de 200 povos indígenas que habitam o território brasileiro e à necessidade de preservação de sua cultura e tradições, para que eles possam manter sua dignidade como seres humanos e praticantes de uma cultura própria, ainda que, de uma forma ou outra, uns mais, outros menos, estejam eles integrados à “comunhão nacional”, como se costumava dizer ao tempo do marechal Rondon.

As publicações sobre os índios são cada vez mais numerosas e variadas, tratando de seus costumes, organização social, interação com a natureza, ocupação e demarcação de territórios, conflitos com a população não índia, relações com o Estado e a legislação, exploração de riquezas naturais em áreas de preservação, ressurgimento étnico etc.

Quando se trata, porém, de suas línguas, o desconhecimento delas por parte da grande maioria da população brasileira é quase total. Com efeito, os brasileiros nos orgulhamos de habitar um país-continente em que se fala uma única língua. Única? Nada disso: no território brasileiro ainda se falam cerca de 200 línguas indígenas, e muitas delas correm risco de desaparecer, devido à ação, intencional ou não, da sociedade nacional brasileira, seja devido ao desaparecimento de seus falantes (por epidemias, maus-tratos, chacinas, contaminação da água etc.) ou pela pressão “civilizadora”, que leva ao abandono de práticas culturais, entre estas a língua, que deixa de ser transmitida às novas gerações.

Em geral, pensa-se que o índio fala uma “língua enrolada” ou o “tupi-guarani” (que, aliás, nem existe, pois o tupi e o guarani são línguas distintas, sendo o termo tupi-guarani designativo de um grupo de línguas aparentadas); ou se pensa que as línguas dos índios são “simples” e/ou “primitivas” (embora quem assim fale não saiba bem dizer o que vem a ser isso): para essas pessoas, sendo as línguas dos índios muito “simples”, basta juntar algumas palavras de qualquer jeito e pronto — pode-se falar em qualquer língua indígena!

Foi com o intuito de preencher essa lacuna no conhecimento geral das línguas indígenas do Brasil, e acabar com os preconceitos que envolvem o assunto, que o linguista brasileiro Aryon Dall’Igna Rodrigues escreveu o livro Línguas Brasileiras — Para o conhecimento das línguas indígenas. Trata-se de importante obra de divulgação científica, feita por um conhecedor do assunto, um dos principais especialistas em línguas indígenas do Brasil. (Alguns de seus textos estão disponíveis AQUI.)

Nascido em Curitiba, PR, em 1925 e falecido em Brasília, DF, em 2014, Aryon D. Rodrigues doutorou-se pela Universidade de Hamburgo, Alemanha. Foi professor da Universidade de Campinas (Unicamp), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade de Brasília (UnB), Universidade de Hamburgo, foi pesquisador do Museu Nacional, além de ter ministrado aulas e conferências em diversas outras universidades e centros de pesquisa da Europa, América Latina e Estados Unidos.

Neste seu livro, Rodrigues traça um quadro geral das línguas indígenas do Brasil. Inicialmente, define o que é uma língua indígena e mostra suas principais características, comparando-as com as das línguas do Velho Mundo, ditas “de cultura”. Mostra como aquelas línguas se agrupam em famílias e troncos linguísticos, calcula o provável número de línguas indígenas faladas no Brasil no início da colonização portuguesa, faz estudo comparado de vocabulário entre línguas diversas, mostra as transformações sofridas por muitas dessas línguas nos últimos 500 anos.

O segundo capítulo de Línguas Brasileiras trata das línguas da família tupi-guarani, a mais importante do Brasil. Fala do tupi e sua influência na cultura brasileira e faz uma comparação entre o tupi antigo e o guarani, além de outras línguas aparentadas, pelo que se vê que, apesar das enormes semelhanças, trata-se de línguas diferentes, embora com a mesma origem. O assunto continua no capítulo seguinte, em que se estuda o tronco linguístico tupi, de que faz parte a família tupi-guarani, ao lado de outras.

O capítulo 4 é dedicado ao tronco macro-jê, que agrupa línguas como o xavante, bororo, carajá etc. Os capítulos 5, 6, 7, 8 e 9 são dedicados a outras famílias linguísticas menores ou isoladas, como caribe, aruaque, arauá etc.

O último capítulo traz um estudo sobre as línguas gerais que se formaram no Brasil durante a colonização. O tupi antigo desenvolveu-se em dois dialetos muito parecidos, a língua geral paulista e a língua geral amazônica; estas se espalharam pelo Brasil, levada uma pelas bandeiras paulistas (Sudeste e Centro-Oeste), e a outra pelas frentes de ocupação da Amazônia, que adentraram o atual Norte do país partindo do Maranhão. A política portuguesa de proibição do uso das línguas indígenas em favor do idioma português, implantada na América Portuguesa a partir de meados do século XVIII, pelo Marquês de Pombal, foi agravada pela Cabanagem (conflito durante o qual pareceram milhares de seus falantes) e pelo fluxo migratório de brasileiros de outras regiões, falantes apenas do português, o que levou ao quase desaparecimento da língua geral amazônica, restando dela hoje apenas a língua geral moderna ou nheengatu (“língua boa”, em tupi), que se fala ainda no Alto Rio Negro, Amazonas, e circunvizinhanças.

Aryon Rodrigues consegue, com seu livro Línguas Brasileiras, uma dupla façanha: além de informar o leitor sobre a situação das línguas indígenas brasileiras, possibilitando, dentro das limitações de uma obra de divulgação, uma visão geral de sua distribuição no território nacional, ele coloca o leitor a par do que se vem estudando nesse campo de trabalho, e fornece copiosa bibliografia, que pode orientar pesquisas futuras dos que se deixam cativar por esse importante ramo dos estudos linguísticos.

A linguagem da obra é simples, sem muitos termos técnicos ou transcrições fonéticas de difícil compreensão; ela pode ser lida tanto por gente especializada quanto por leitores comuns não iniciados em linguística. A meu ver, este livro é uma formidável contribuição à questão das línguas indígenas, seu estudo e conservação. É obra de leitura obrigatória para todos os que se interessam por assuntos ligados à linguagem ou à cultura geral brasileira.

A época em que vivemos assiste a grandes transformações nas relações entre os indivíduos e os grupos, e discutem-se as transformações por que passa o Brasil, com importantes efeitos na vida de seus cidadãos e no novo papel de nosso país no cenário mundial; a nova dinâmica social leva a novas reflexões sobre a formação de nosso povo e nossa cultura, e os índios brasileiros têm presença constante nessas discussões, porquanto, juntamente com outros grupos, atravessam um processo de ressignificação de sua condição de brasileiros.

Assim, tendo os índios uma participação tão importante na formação do Brasil, ler livros como este e inteirar-se de parte dos problemas atuais (mais precisamente os linguísticos) dos indígenas é uma forma de conhecê-los um pouco melhor e compreendê-los.

A primeira versão deste texto esteve disponível entre 1999 e 2006 em http://www.napoleao.com, sítio do extinto Curso de Português e Latim do Prof. Napoleão Mendes de Almeida. Republico-o agora, com algumas correções, atualizações e acréscimos. Apesar de tratar de uma obra de meados da década de 1980 e cuja quarta edição saiu há mais de 10 anos, creio ser esta resenha ainda de algum proveito para o público leitor.

Santarém, PA, 4/5/2012. Editado em 25/2/2015.

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