Arundina bambusifolia

Orquídea “Arundina bambusifolia” numa calçada de Alter do Chão, Santarém, Pará.

Ao fundo uma cuieira ou arvore-de-cuia (“Crescentia cujete”).

Foto: Júlio Pedrosa, 9 mar. 2019.

Rebimboca da parafuseta

Imaginem que vocês precisam fazer uma pesquisa sobre um dispositivo chamado rebimboca da parafuseta. Vocês começam buscando informações na base de dados de uma instituição de fomento, ou de uma universidade… E é claro que vocês encontrarão algo lá.
O apetrecho é bem conhecido, pesquisas sobre esse dispositivo não são novas, não são inéditas; já se pesquisa sobre o assunto há algum tempo; por isso vocês, com facilidade, encontram bastante coisa. Mas, em certo repositório um tanto obscuro, topam com uma pesquisa mais ou menos recente sobre “o rebimboka do parafuzeta”…
!!!
Isso mesmo: “o rebimboka do parafuzeta”!
E pensam: “Deve ser erro de digitação da palavra-chave no banco de dados do repositório…” Mas não é só isso! O termo “rebimboka do parafuzeta” aparece já no título do trabalho acadêmico: “História, descrição e funcionamento do rebimboka do parafuzeta”.
“Um descuido com o título”, pensam vocês; “foi a pressa de cumprir o prazo de entrega”. Talvez.
Mas, ao ler o trabalho, vocês percebem que o termo “rebimboka do parafuzeta” não está só no título, pois ele é citado cerca de 150 vezes no trabalho, sempre com grafia errada e erro na flexão de gênero.
Não pode ser, não é possível! Mas é…
Não se trata de uma nova ortografia ou gramática vanguardista: a análise do trabalho demonstra que seu autor não sabe como se escreve o termo “rebimboca da parafuseta” nem sabe seu gênero gramatical: tanto “rebimboca” quanto “parafuseta” são palavras de gênero gramatical feminino.
E o trabalho passou por duas bancas, uma de qualificação e outra de defesa, tendo sido aprovado em ambas. Nenhum membro das bancas viu isso? E o orientador? Também não viu esse absurdo? Como deixaram passar uma coisa dessas?
Espero que pelo menos o histórico, a descrição e o funcionamento da rebimboca da parafuseta estejam corretos no trabalho, pois no que diz respeito à gramática e à ortografia…

Luís Gama escravizado

Em sua obra O Brasil Anedótico (1927), Humberto de Campos* reproduz a seguinte história, contada por Cândido Freire, sobre como Luís Gama*, nascido livre, tornou-se escravo:

A VENDA DO FILHO
Cândido Freire – “Rev. do Brasil”, n° 60, de 1920

A 10 de novembro de 1840 penetravam a bordo do patacho Saraiva, ancorado a pouca distância do cais, na Bahia*, um pretinho de dez anos, e que seria mais  tarde o poeta e abolicionista Luís Gama, o pai deste, homem branco, e jogador, que o tivera de uma preta mina, e o dono de uma
casa de tavolagem, de nome Quintela.
Enquanto o menino se distraía com os marinheiros, os dois entram em entendimento com o capitão, e retomam o bote que os trouxera. Ao vê-los partir, o negrinho corre, chega à escada, e grita:
– Meu pai? meu pai? não me leva?
– Eu volto já, para te levar – informou o miserável.
E o menino, compreendendo tudo, num ímpeto de dor e de revolta:
– Meu pai, o senhor me vendeu!…
E era verdade. Foi assim, vendido, que Luiz Gama veio para o Rio, e foi, escravo, do Rio para São Paulo.

Campos, Humberto de. A venda do filho. In: O Brasil Anedótico. Rio de Janeiro, 1927. Ortografia atualizada. Disponível aqui: <http://www.portugues.seed.pr.gov.br/arquivos/File/leit_online/humberto3.pdf>.


* Sobre Humberto de Campos: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Humberto_de_Campos>.

* Mais sobre Luís Gama: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Gama>.

* Refere-se à capital da Bahia, ou seja, a cidade de Salvador.

Santarém, PA, 20 de novembro de 2019.