Gramática básica

Certas dúvidas sobre a gramática do português são tão ingênuas e insólitas que causam perplexidade e mostram a falência de nosso sistema de ensino – ou, na visão de Darcy Ribeiro, a eficácia na aplicação desse “programa” por parte de nossa elite façanhuda.

Chega-se a pensar que se trata de estrangeiros a aprender português… mas são falantes nativos que passaram pela escola e têm educação básica completa. 😦

Santarém, PA, 11/6/2018. Leia e curta também no Blogspot.

Anúncios

Açaí com bife

Em seu Vocabulário de Crendices Amazônicas, o erudito paraense Osvaldo Orico (1900-1981) registrou o seguinte no verbete açaí:

Euterpe oleracea, Mart. – A mais festejada das palmeiras da várzea. Do seu fruto extrai-se a popular bebida da região: um vinho grosso e arroxeado, que se toma com açúcar e farinha e é, ao mesmo tempo, o regalo dos ricos e a sopa dos pobres. Depois do meio-dia, em várias cidades da Amazônia, é comum ver-se em certas casas de comércio e até em casas particulares, uma bandeira vermelha na porta. Dentro e fora das casas um movimento constante de rapariguinhas e moleques com grandes cuias na mão. Não há que errar. Vende-se ali o açaí, o vinho por excelência da região. Onde o açaí deixa de ser uma realidade, para tornar-se uma crendice, é neste ponto: o paraense preza tanto essa beberagem que chega a dizer:
“Quem vai ao Pará, parou; tomou açaí, ficou.”
O açaí é obtido depois de haver sido a fruta amolecida n’água quente e amassada com água fria. Sofre depois a peneiragem, de que resulta aquele caldo grosso a que os indígenas davam o nome de Asai-yukicé.
Existe a suposição de que o puraqué favorece aos nativos a colheita do açaí, despedindo choques elétricos nos açaizeiros e derramando no chão os cachos suspensos. É uma hipótese muito discutível, mas que a imaginação do caboclo acha aceitável.”
ORICO, Osvaldo. Vocabulário de Crendices Amazônicas. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1937. p. 27-28. Ortografia atualizada.

Conheci esta obra há mais de 15 anos – eu nem imaginava que um dia pisaria na Amazônia – e não resisti à tentação de citar todo este verbete do delicioso livro de Orico, ainda que aqui só um trecho nos interesse mais diretamente.

Quando cheguei a Santarém, topei com as mesmas bandeiras vermelhas em diversos pontos da cidade, mas reparei que estavam postas na frente de açougues. Perguntei a uma pessoa conhecida o que significavam, e ela me disse que indicavam a chegada de carne fresca. E esses açougues não vendem açaí, apenas carne – é o que geralmente se espera.

Não demorou muito e encontrei as tais bandeiras vermelhas ou roxas dos pontos de venda de açaí. Mas com um pormenor: as bandeiras que indicam os pontos de açaí trazem a palavra açaí escrita nelas, com o flagrante objetivo de distingui-las das bandeiras vermelhas da carne.

Nas duas vezes em que visitei a capital do estado, Belém, vi locais de venda e consumo de açaí, alguns com as tradicionais bandeiras vermelhas ou roxas, mas não me lembro de ter visto nenhuma com a palavra açaí escrita.

Será a bandeira vermelha com a inscrição açaí uma inovação aqui surgida, algo típico de Santarém e do Oeste do Pará? Não sei dizer, pois seria preciso pesquisar mais a fundo, inclusive visitando outros municípios da região.

Seja como for, estando-se em Santarém e querendo saborear uma cuiada de açaí com um bom bife, as bandeiras vermelhas ou roxas indicam onde encontrá-los; já tempero e acompanhamentos ficam ao gosto do freguês.

Santarém, PA, 15/3/2018. Leia e curta também no Blogspot.

Uma tradição santarena

Quando cheguei a Santarém, em janeiro de 2009, uma das primeiras coisas que fiz foi conhecer a cidade em que iria fincar raízes: andei pela região central e pela orla do rio Tapajós – o mais “belo rio do mundo”, segundo dizem por aqui – e experimentei as comidas locais: tacacá (com tucupi adoçado, o que é típico da cidade), vatapá (não confundir com o vatapá baiano, com o qual o do Pará tem de comum, além do nome, o óleo de dendê e a origem africana), farofa de piracuí, maniçoba, pato no tucupi…

Tratei logo de procurar o que ler sobre a Capital da Tapajônia, e graças a um amigo tive o primeiro contato com a obra do maestro Wilson “Isoca” Fonseca (1912-2002), que além de compositor e instrumentista deixou registros escritos sobre a história da cidade em sua obra monumental Meu Baú Mocorongo (mocorongo é termo pelo qual os santarenos se referem carinhosamente – e com orgulho – a si mesmos e a sua cultura).

Fiquei sabendo, por exemplo, que viajantes que por aqui passaram no século XIX já observavam que os hábitos locais eram distintos dos da capital do Grão-Pará, Belém, e de Manaus e outras cidades, como se Santarém tivesse uma cultura própria, só sua. Os santarenos, até hoje, têm certeza disso!

Mas nem tudo são rosas.

Esta cidade de mais de 350 anos guarda outras tradições menos dignas de orgulho. Uma delas é constituída dos bueiros (ou bocas de lobo) da cidade, verdadeiras armadilhas para os pedestres, que além de enfrentar ruas intransitáveis e calçadas sem pavimento, ainda precisam tomar cuidado para não cair em bueiros abertos que mais parecem portas escancaradas para o inferno!

Conheci muitos deles e fotografei alguns, que já estavam assim quando os conheci, em 2009, e continuam como eram: sem as tampas, com tampas quebradas, desmoronados, ou simplesmente sem qualquer traço de que algum dia foram, de fato, um bueiro. Bem conservados, como se vê…

A preservação desses bueiros, assim abertos como bocas a gritar contra a incúria dos homens, é mais uma das ricas tradições santarenas.

Santarém, PA, 14/3/2018. Leia e curta também no Blogspot.