Não choramos por ti, Argentina!

Ainda que nem sempre reconheçam isso, os brasileiros vivem olhando por cima da cerca para ver o que se passa em seu principal vizinho, a República Argentina. A reação brasileira típica ao que se passa por lá é geralmente a empáfia, às vezes o ódio, raramente a inveja.

A vitória de Mauricio Macri nas eleições presidenciais argentinas deste ano deve ter provocado todos esses sentimentos nos brasileiros, atualmente mesmerizados pela política. Muitos devem, com certeza, ter ficado com inveja dos argentinos, que elegeram um candidato de oposição que pôs fim a 12 anos de governo peronista-kirchnerista. Devem estar perguntando-se: “Que fizemos de errado? Como os argentinos conseguiram isso?” Talvez aprendam com o candidato derrotado, Daniel Scioli, a reconhecer a derrota com altivez e ostentar postura mais republicana.

O candidato eleito Macri promete dar uma guinada na política e na economia da Argentina: pretende, por exemplo, cobrar a aplicação da “cláusula democrática” em relação à Venezuela, devido às denúncias de desrespeito aos direitos humanos, o que pode suspendê-la ou até excluí-la do Mercosul; talvez isso não ocorra (pois depende dos votos de todos os membros do bloco), mas provocará, com certeza, fissuras nas relações da Argentina com os demais parceiros, principalmente o Brasil.

Macri quer também promover reformas na economia, o que pode aproximar o país dos Estados Unidos, recebendo apoio dos investidores internacionais: os portenhos parecem ter em mira o recém-criado Tratado do Pacífico. Aproximando-se dos EUA, a Argentina deixaria de fazer parte do chamado Eixo Bolivariano (!?); de quebra, conquistaria um maior protagonismo na região, talvez arrastando outros vizinhos consigo. É o que talvez preocupe muita gente no Brasil.

Mas não nos incomodemos com isso. O Brasil prepara-se para receber a Olimpíada de 2016 na cidade do Rio de Janeiro. Apesar de falido, o estado do RJ gasta o que não tem em obras de infraestrutura; a prefeitura da cidade não faz diferente.

A propaganda oficial do evento regozija-se de que conseguimos trazer os Jogos Olímpicos para a América do Sul “antes dos argentinos”…

É isso. Conseguimos sediar os jogos antes da Argentina. De que mais precisamos?

Santarém, Pará, 28/11/2015. Editado em 4/12/2015.

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Nacionalité… française?

Num programa de TV, um dos comentaristas convidados declina a pergunta que já se tornou chavão nas últimas semanas após os atentados de 13 de novembro em Paris: “Como é possível que jovens franceses, jovens nascidos e criados na França cometam esses atentados contra a própria França?” A pergunta vale também para os belgas envolvidos e é repetida à exaustão nos meios de imprensa.

Talvez a pergunta esteja sendo mal formulada; ou talvez nem seja essa a pergunta a ser feita.

As pessoas nascidas em território da França têm nacionalidade francesa, não importando de onde tenham vindo seus pais; o processo é semelhante no Brasil e na própria Bélgica, além de muitos outros países. Não há dúvida, portanto, de que os terroristas em questão eram franceses, assim reconhecidos pelo estado francês.

Mas será que eles consideravam a si mesmos franceses? Será que se sentiam, se viam a si mesmos franceses? Tinham-se e eram tidos como tais pelos demais? Olhando ao redor de si em Paris, Lião, Bordéus ou na Provença eles se sentiam como parte daquele ambiente, daquela paisagem?

Mais: será que a França de seus sonhos não seria um país de população majoritariamente muçulmana, com a história e a cultura marcadas pelo islamismo? Ao invés de “Filha Predileta da Igreja”, não gostariam que a França fosse a “Filha Predileta do Islã”?

Discute-se nos tempos atuais a fluidez, a imprecisão das identidades, além da autodeterminação: o indivíduo tem o direito de identificar-se como quiser, mas ao mesmo tempo essa identidade pode ser múltipla, pois o cidadão participa de vários grupos, várias identidades a um só tempo. Não há um só modo de “ser brasileiro” ou “ser francês”; por outro lado, um brasileiro pode ser também, concomitantemente, francês – e vice-versa. O que não é coisa de hoje, pois se atribui a Thomas Jefferson a seguinte frase, que descreve o espírito de uma época: “Todo homem tem duas pátrias: a sua e a França”. O brasileiro Tomás Lopes enriqueceu-a: “Paris é a segunda pátria de toda pessoa inteligente”.

Voltando à imprecisão da identidade, temos que Mário de Andrade já nos tinha adiantado isso em seu Macunaíma: o “Herói sem Nenhum Caráter” é filho da “índia Tapanhumas”, nasce “uma criança feia” e torna-se depois “branco”; e em seu trânsito pelo espaço brasileiro, ao qual se molda, mostra-se diferente em cada local.

Ainda que se aceitasse haver um só modo de “ser brasileiro”, por exemplo, isso estaria em constante mudança, detectando-se na mesma sociedade estágios diversos de um mesmo processo de evolução cultural.

Assim, o que se deve perguntar é o que a República Francesa (incluindo-se aqui o Estado e seu povo) tem feito para a integração dos imigrantes e seus filhos à cidadania e cultura do país, respeitando ao mesmo tempo suas particularidades, as identidades dos grupos menores. O fato de alguém ser muçulmano, judeu, cigano ou filho de africanos ou latino-americanos não é empecilho para que seja tão francês quanto os demais ou para ser reconhecido (inclusive por si mesmo) como tal.

Trata-se, portanto, de um processo de mão dupla: educar a pessoa desde a infância para reconhecer no outro um concidadão, apesar de suas diferenças, ao mesmo tempo em que se educa esse cidadão para reconhecer-se como integrante daquela comunidade, apesar de saber ser diferente dos demais.

A simples ação tradicional do Estado já não basta, está ultrapassada. É preciso repensar o conceito de nacionalidade, mas sem cair no nacionalismo chauvinista – o que pode ser difícil.

Não é mesmo um trabalho fácil. Mais do que política de Estado, deve ser um debate da própria sociedade, a atravessar gerações.

Vale também para o Brasil.

Santarém, Pará, 27/11/2015.

Defendendo a tradição

Nos últimos tempos têm sido implementadas, cada vez mais, políticas de proteção cultural, com vistas a evitar o desaparecimento de práticas ancestrais populares. Alimentação, dança, música, vestuário, linguagem, medicina, organização social, narrativas e mitos – tudo isto é objeto de iniciativas de governos e ONGs, e o Brasil não fica fora dessa orientação. Neste século temos visto multiplicar-se o número de projetos, em nosso país, com o objetivo de “tombar”, conservar “cultura”.

Não sou contrário a essas iniciativas. A cultura muda com o tempo e é preciso garantir seu registro para que esse conhecimento dos antigos não se perca.

Mas será que tudo o que é “tradicional” merece mesmo ser preservado? Não serão algumas práticas, rotuladas como tradicionais, simples resquícios que deveriam deixar de ser cultivados, permanecendo apenas na história, nos livros e nos museus?

Creio que a confusão, quanto a este tema, se dá por causa da classificação aleatória, indiscriminada e sem critério de elementos de cultura popular como imprescindíveis, cuja conservação é tida como necessária para a manutenção das identidades etc. O que é o “tradicional”? Tudo o que é tradicional é bom?

Vejamos um exemplo.

A escravidão durou quase 400 anos no Brasil, deixando profundas marcas em nossa sociedade. Todos sabemos disso. E sabemos também que o tempo em que durou o escravismo foi suficiente para criar uma “tradição”, levando muitos a pensar a escravidão como algo intrínseco ao Brasil, que sem a escravidão, entraria em colapso, iria desfazer-se.

Extinguiu-se por lei a escravidão, e o Brasil não acabou, embora a extinção – incompleta – da escravidão tenha deixado sequelas e problemas ainda sem solução (racismo, exclusão). Eis uma tradição que ninguém quer ver recuperada…

Outro exemplo: discute-se se povos indígenas têm o direito de, no âmbito de suas tradições, sacrificar crianças recém-nascidas por terem alguma deficiência física ou serem fruto de gravidez de gêmeos ou outro motivo, explicável em suas respectivas culturas. Mas os direitos humanos não protegem essas crianças? Ou temos aí uma categoria de crianças que, por serem oriundas de outras “tradições”, devem receber tratamento diferenciado? Criminalizamos a palmada e permitimos o infanticídio?

Os casos são muitos, mas vejamos mais um para terminar.

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Saigas (fêmea e filhote) numa reserva natural da Rússia. Fonte: Wikipédia.

Um documentário da TV Animal Planet sobre o mar Cáspio mostrou a situação da saiga (Saiga tatarica), espécie de antílope que habita as estepes ao norte daquele mar. Segundo cálculo de biólogos, há uns 30 anos havia cerca de 1 milhão de saigas habitando a região, número que hoje beira os 250 mil – 3/4 daquele contingente sumiram em 3 décadas, em sua maioria caçados ilegalmente por causa de seus chifres, muito estimados na medicina tradicional chinesa, valendo cada chifre cerca de 4.600 dólares (no mercado negro, é claro).

Parece que o cruzamento de CHIFRE com MEDICINA TRADICIONAL CHINESA não dá bons resultados: também as várias espécies de rinocerontes estão à beira da extinção, vítimas da caça incansável em todo o mundo por causa de seus chifres. Quanto a terem ou não propriedades curativas os chifres destes e outros animais, deixo a explicação aos cientistas. Mas duvido que tenham.

A defesa intransigente e incondicional da preservação de tradições é algo que me irrita por causa disso. A história avança, os tempos mudam, a cultura transforma-se – nem sempre para melhor, sabemos disso, mas cabe a nós controlar a mudança. Creio que nem tudo o que é prática dos antigos, tradicional, folclórica etc. deve ter continuidade. Alguns hábitos estão fadados a tornar-se história.

Já quanto à medicina TRADICIONAL chinesa, esta precisa rever alguns de seus procedimentos.

Do contrário, no início do próximo século o único bicho chifrudo que veremos será o touro… além de outro animal bípede que não irei citar aqui.

Santarém, Pará, 25/11/2015.