Algo de podre em Copenhague – ou será que Andersen escrevia em inglês?

I. Napoleão Mendes de Almeida, o mais notório e polêmico gramático brasileiro do século XX, tinha como rotina, ao ler os jornais, anotar os deslizes de escrita da imprensa, os quais serviam de mote para sua coluna de muitos anos, “Questões Vernáculas”, n’O Estado de S. Paulo. Aliás, o próprio Estadão era uma das vítimas costumeiras do lápis de Napoleão, que não poupava ninguém quando se tratava de corrigir erros gramaticais. Napoleão gostava de apontar principalmente os erros cometidos por “portadores de anel de grau”, ou seja, gente com curso superior – que diria ele, hoje, sobre como escrevem portadores de mestrado e doutorado? Os trechos das reportagens ou artigos, depois de recortados, anotados quanto a seus erros de pontuação, ortografia etc. e xerocopiados, eram distribuídos aos alunos do Curso de Português por Correspondência, que existiu durante 68 anos. Era o material paradidático dos alunos de português.

Passa longe de mim, por vários motivos, a ideia de comparar-me a Napoleão Mendes de Almeida. Apesar de ter trabalhado em seu curso durante sete anos, discordo de muitas de suas opiniões sobre língua, linguagem e gramática, e concordo com outras, que considero oportunas, pertinentes e coerentes. Diga-se, de passagem, que os gramáticos raramente concordam uns com os outros a respeito de todos os pontos de gramática, pois muito do que se diz nos compêndios é fruto da opinião do autor (opinião baseada em interpretações pessoais dos fatos gramaticais), podendo ser contradito por meio de exemplos de autores clássicos: para muito exemplo de autor clássico que abone alguma regra (melhor seria, neste caso, dizer norma, conforme a lição do linguista romeno Eugenio Coseriu), há sempre um contraexemplo de autor clássico a desaboná-la.

Hans Christian Andersen em 1869. Foto: Thora Hallager. Fonte: Wikipedia.
Hans Christian Andersen em 1869. Foto de Thora Hallager. Fonte: Wikipedia.

II. Não quero imitar Napoleão Gramático, mas não resisti à tentação de também recortar uma nota jornalística para criticar lapsos (?) grosseiros. É por isso que este artigo não é sobre as teorias e métodos de Napoleão Mendes de Almeida ou Eugenio Coseriu, mas sim sobre uma notícia que li no número 16 de Metáfora, revista de literatura, educação e cultura. Na seção Toques, página 8, lê-se que foi encontrado um manuscrito inédito do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen; trata-se de autógrafo de outra pessoa, mas é, segundo especialistas, o primeiro conto infantil de Andersen.

Até aqui, vai tudo bem, obrigado – nada de podre no reino da Dinamarca… O problema começa quando se lê o nome do suposto primeiro conto do autor dinamarquês: The Tallow Candle, assim mesmo, em inglês. Em inglês? Sim, está em inglês o título – mas não deveria estar.

Muitos poderão pensar: Mas na Dinamarca não se fala inglês? De fato, muitos lá sabem inglês; trata-se de um país altamente desenvolvido (uns diriam civilizado, mas isto está fora de moda, além de ser antropologicamente incorreto), cujo avançado sistema educacional proporciona a seus cidadãos a oportunidade de aprender, já na escola básica, línguas estrangeiras, mais notadamente o inglês – no passado era o francês, língua internacional até a II Guerra Mundial, além do alemão, língua do vizinho poderoso do sul.

Isso me lembra a personagem Macabeia do romance A Hora da Estrela, de Clarice Lispector: na história lemos que nem se passava pela cabeça de Macabeia a ideia de que se pudesse falar outra língua – muita gente, aliás, ao ouvir estrangeiros falando, acha que eles “enrolam a língua”. Um dos vícios mentais dos dias de hoje – partilhado por gente de nenhuma, pouca ou muita instrução – é pensar que, fora da América Latina e da Ibéria (incluindo-se aqui a França e a Itália, por afinidade e contiguidade), todo o mundo fala inglês, menos nós, pobres brasileiros monoglotas e apegados a uma língua emprestada de segunda classe – e muitos ainda entendem a ideia de “falar inglês” como não saber falar outra língua além desta.

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Metáfora, ano II, nº 16, pág. 8.

Um de nossos mais prestigiados filósofos da cultura popular, que faustonicamente enche a tela da TV em nossas tardes de domingo, afirma que “o português não é língua, é código secreto”, e esta asserção parece ter-se entranhado na mente dos brasileiros, que têm vergonha de sua própria língua.

III. A língua nacional e oficial da Dinamarca é o dinamarquês ou danês, idioma germânico pertencente ao grupo setentrional, do qual também fazem parte o norueguês, o islandês e o sueco (o finlandês, apesar de próximo geograficamente das aqui citadas, não é língua germânica, nem mesmo indo-europeia). Por que, afinal de contas, se na Dinamarca se fala dinamarquês e Hans Christian Andersen compôs sua obra em dinamarquês, fez-se referência ao conto com o nome em inglês? É claro como o Sol: a notícia foi lida em inglês (talvez aqui) e citou-se o nome do conto nesta língua, sem a menor preocupação de saber se o título original é aquele mesmo – é possível ainda que o redator da nota da revista Metáfora nem saiba que há uma língua dinamarquesa. Até se compreende que alguém de pouca instrução não saiba dessas coisas… Mas alguém com curso superior (presume-se) desconhecer essas informações é algo que não se pode conceber. Uma leitura mais atenta e uma consulta mais demorada mostrariam que o nome do texto A Vela de Sebo na língua original é Tællelyset.

A coisa, porém, não acaba aqui. Não sei se Shakespeare tinha razão ao dizer que havia algo de podre no reino da Dinamarca, mas parece que, no Brasil, a palavra Copenhague apodrece… Vira e mexe, ao se noticiar um fato ligado à capital da Dinamarca, faz-se referência a ela como Copenhagen; indagados, os que assim fazem dizem que estão usando o nome original da cidade, e que é este o modo correto de proceder, devendo ser citado o nome em sua forma original.

IV. Santo engano, Batman! – diria com certeza o Menino-Prodígio… São dois grosseiros equívocos numa só explicação. Se nossa língua possui termo próprio para designar país, cidade ou localidade estrangeira, esse é o nome que se deve usar, e não o original. Trata-se de tendência das línguas, que adaptam os termos estrangeiros à sua fonologia, fonética e ortografia, além de morfologia, como ocorreu com todos os idiomas, por isso também com o português: quem reconhece em sinuca e chulipa os originais ingleses snooker e sleeper? Pois é, são o resultado de adaptação fonética e posterior configuração ortográfica.

Outro exemplo: Em português, os nomes hebraicos Shlomo, Shmuel, Shoshannah, Shaul e Gershon assumiram as formas Salomão, Samuel, Susana, Saul ou Saulo e Gérson, respectivamente, e isto não foi sem motivo: estes nomes passaram do hebraico ao grego, deste ao latim e daqui para nossa língua; como em grego e latim não havia fonema correspondente ao hebraico ש (shin, letra que representa o fonema equivalente ao nosso X de xarope ou CH de chapéu), ele assumiu a forma mais próxima, /s/, grafado em grego Σ e em latim S, e assim passou ao português e outras línguas. O mesmo ocorreu com os nomes Jesus e Josué, ambos provindos de Yeshua, variante de Yehoshua.

V. Já tive oportunidade de tratar deste assunto em outros dois artigos publicados neste mesmo blogue (aqui e aqui). Para as principais localidades da Europa (para ficarmos apenas nessa parte do Velho Mundo), o português e as línguas europeias em geral têm formas próprias vernáculas, sem a necessidade de usar as formas estrangeiras; no caso de Copenhague, o deslize é ainda mais grave, pois quem usa Copenhagen diz estar usando a forma original, o que é falso, porque esta é a forma inglesa – o nome da capital da Dinamarca na língua do país, isto é, o dinamarquês, é København! (Para tirar isto a limpo, basta consultar aqui a página sobre essa cidade na Wikipédia em dinamarquês.)

Em português, portanto, devemos usar as formas Copenhague (no Brasil) ou Copenhaga (em português europeu). É sabido que alguns nomes tradicionais, não sei por que motivo, vêm caindo em desuso, sendo substituídos em português, principalmente na mídia, pelas formas originais ou em inglês (que os desavisados julgam ser as “originais”) – daí o procedimento se espalha para o grande público, que não é fã de consultas a dicionários e enciclopédias.

VI. Segue abaixo uma pequena lista com alguns nomes geográficos estrangeiros que costumam aparecer na imprensa, seguidos das formas vernáculas correspondentes (em negrito), que são as que devemos preferir; algumas de fato só se usam em Portugal, mas usá-las não é erro, embora muita gente vá torcer o nariz – na dúvida, sendo possível, de acordo com a necessidade de clareza, prefira-se sempre a forma tradicional:

Amsterdam – Amsterdã, Amsterdão (Holanda)
Bavária – Baviera (Alemanha)
Beijing – Pequim (China)
Belarus – Bielorrússia
Berlin – Berlim (Alemanha)
Bern – Berna (Suíça)
Bonn – Bona (Alemanha)
Budapest – Budapeste (Hungria)
Dublin – Dublim (Irlanda)
Frankfurt – Francoforte (Alemanha)
Geneva – Genebra (Suíça)
Guangzhou, Guangdong – Cantão (China)
Helsinki – Helsinque, Helsínquia (Finlândia)
Jersey – Jérsei, Jérsia (Grã-Bretanha)
Leipzig – Lípsia (Alemanha)
Mainz – Mogúncia (Alemanha)
Moldova – Moldávia
München – Munique (Alemanha)
Nanjing, Nanking – Nanquim (China)
New Jersey – Nova Jérsei, Nova Jérsia (EUA)
New York – Nova Iorque (EUA)
Pennsylvania – Pensilvânia (EUA)
Philadelphia – Filadélfia (EUA)
Roterdam – Roterdã, Roterdão (Holanda)
Shanghai – Xangai (China)
Stuttgart – Estugarda (Alemanha)
Taipei Taipé (Formosa)
Taiwan – Formosa
Tchetchênia – Chechênia
Tokyo – Tóquio (Japão)
Toullouse – Tolosa (França)
York – Iorque (Grã-Bretanha)
Zurich – Zurique (Suíça)

P. S.: Acho que esta noite me baixou o espírito de algum gramático bem brabo. Só mesmo estando possuído é que eu poderia ter escrito este artigo. Vou providenciar uma sessão de descarrego com o pastor Marcos Bagno. Só não posso esquecer-me de nossa bíblia: Cours de Linguistique Générale de Ferdinand de Saussure!

Santarém, Pará, 15/3/2013. Editado em 29/5/2015.

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Da Bielorrússia à Geórgia

Mapa (em inglês) com parte da Europa e Cáucaso, mostrando alguns dos estados originados do esfacelamento da URSS e da Iugoslávia. Fonte: http://map-europe.blogspot.com.br/2013/01/eastern-europe-regions-map-detail.html
Mapa (em inglês) com parte da Europa e Cáucaso, mostrando alguns dos estados originados do esfacelamento da URSS e da Iugoslávia. Fonte: http://map-europe.blogspot.com.br/2013/01/eastern-europe-regions-map-detail.html.

I. Em 1991, o mundo acompanhou a tentativa de golpe da linha dura soviética contra Mikhail Gorbachov, além dos canhonaços a mando do presidente da República da Rússia, Boris Yeltsin – diz-se que este não estava nada sóbrio –, em defesa da ordem vigente. O governo de Gorbachov não caiu ali, mas de nada adiantou, pois meses depois ocorreu a fragmentação da União Soviética. De um dia para o outro… Dosvidániya! Sumiu do mapa uma das potências que polarizavam as forças político-econômicas do mundo de então, e surgiram 15 repúblicas, cada uma com sua(s) língua(s), sua capital, sua moeda etc.

Após quase 25 anos, muita coisa mais mudou no mapa-múndi: uma província da Etiópia desmembrou-se, formando a Eritreia; tornou-se independente Timor Leste, menor e mais jovem país de língua oficial portuguesa; a Tchecoslováquia desmembrou-se em Eslováquia e República Tcheca; a Iugoslávia fragmentou-se também, de forma muito violenta; o Sudão cindiu-se em dois, surgindo daí o Sudão do Sul; e a ex-república soviética da Geórgia luta ainda hoje contra separatistas de províncias que também querem dela desmembrar-se para juntar-se à Rússia – ou, se puderem, cortar de vez o cabresto que as liga a esta.

Só não mudou a confusão que toma conta da imprensa brasileira com relação aos nomes de novos estados que surgiram após 1991: conforme o jornal, seja ele impresso ou virtual, transmitido por rádio ou televisionado, o nome de um único país pode ter várias grafias e pronúncias diferentes, com ou sem acento gráfico. Vêm-me à mente, neste momento, as ex-repúblicas soviéticas da Bielorrússia e Moldávia.

Essa imprecisão e descuido no uso de nomes geográficos atrapalha muito os leitores, principalmente os estudantes, que passam a ter dúvidas quanto às formas corretas; mais espantoso ainda é o fato de que, em quase todos os casos, tudo isso poderia ser evitado – pelo menos em parte – com a simples consulta a uma boa enciclopédia ou ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, também conhecido como VOLP, da Academia Brasileira de Letras.

II. Os nomes das duas ex-repúblicas soviéticas que cito acima – Bielorrússia e Moldávia – são os mesmos que todos aprendemos quando estudamos geografia (eu os aprendi ainda na década de 1980) e encontram-se nos dicionários, enciclopédias e na maior parte dos órgãos de imprensa. Alguns dos principais jornais brasileiros, porém, teimam em manter as formas Belarus e Moldova, tomadas do inglês, o que causa confusão nos leitores e nos estudantes, que ficam sem saber a forma correta desses nomes em português.

Devido à sua ortografia predominantemente etimológica, a língua inglesa e a francesa tomam de empréstimo palavras estrangeiras sem alterar-lhes a grafia, apenas adaptando a pronúncia delas a seu sistema fonológico; por isso a quase total imprevisibilidade da pronúncia e da grafia do inglês, principalmente, o que exige sua indicação nos dicionários e enciclopédias naquela língua. Não é o caso do português, que, apesar de sua grafia em parte etimológica (em que as palavras são grafadas de acordo com a grafia da língua de origem), possui normas bem definidas quanto aos demais casos.

Exemplifico: grafamos a palavra rosa com S porque era assim grafada em latim, ainda que a pronúncia fosse diferente da nossa; o mesmo para gesso, exército, mesa, cedo, Egito, Escócia (de gypsum, exercituum, mensa, citu, Aegyptus, Scotia, respectivamente, dos quais aquelas palavras vieram através do latim, seja o vulgar ou o clássico). Por isso, muitos nomes geográficos, principalmente os mais antigos e tradicionais, já possuem forma vernácula portuguesa, ou podem vir a tê-la, de acordo com nossas normas ortográficas. O fato de alguns nomes terem sido deixados de lado pela imprensa nos últimos anos não impede que as formas vernáculas sejam empregadas: as cidades alemãs de Estugarda, Francoforte e Lípsia são mais conhecidas no Brasil por seus nomes alemães: Stuttgart, Frankfurt e Leipzig, respectivamente, enquanto os nomes tradicionais continuam a ser usados em Portugal – assim como os falantes de inglês, francês e espanhol, os portugueses não têm vergonha de sua língua – que também é a nossa, até prova em contrário.

Lembro-me bem de, num mesmo canal de televisão, durante a Olimpíada de Pequim (2008), ter ouvido e visto a Bielorrússia ser chamada assim e de outras duas formas diferentes: Belarus (oxítona) e Belárus (paroxítona, grafada com ou sem acento gráfico). Quatro anos depois, na Olimpíada de Londres, o caso repetiu-se.

Os bielorrussos são um povo eslavo, e formam com os russos e ucranianos, seus parentes mais próximos, um dos subgrupos linguístico-culturais eslavos (as três línguas são escritas com letras cirílicas, assim como o búlgaro, o macedônio e o sérvio). A Bielorrússia (ou Rússia Branca, como se dizia antes) é assim chamada – entre outras hipóteses – por não ter seu território caído sob o domínio mongol ou tártaro (donde viria uma suposta pureza étnica eslava, sem miscigenação com povos conquistadores não eslavos).

Não imagino o que pode ter levado jornalistas a desprezar a forma já consagrada Bielorrússia, empregada nos livros escolares, dicionários, enciclopédias e obras de referência, para adotar a grafia Belarus; é possível que se tenha traduzido (e mal) uma notinha em inglês de alguma agência internacional, e o desconhecimento (?!) do assunto, aliado à falta de consulta de uma enciclopédia em português – costume bem arraigado em nossa cultura, pois temos pouca intimidade com dicionários e obras de referência –, teve como resultado esta barafunda toponímica.

III. Diga-se o mesmo do nome da Moldávia, país de língua e cultura predominantemente romenas: é parte do território conhecido em outros tempos como Bessarábia; no início do século XX a porção de língua romena juntou-se à Romênia, sendo mais tarde anexada pela União Soviética e formando a República Socialista Soviética da Moldávia. Tornou-se independente em 1991.

É difícil entender o porquê do uso do nome Moldova na imprensa brasileira atual, se até em histórias em quadrinhos se registrava a forma vernácula portuguesa. Lembro-me de quando, na adolescência, lia gibis (revistas em quadrinhos) de super-heróis, dentre os quais os das personagens da DC (Detective Comics). A personagem Jason Blood (criação de Jack Kirby), um estudioso de ciências ocultas e misticismos diversos, alter-ego de Etrigan, transformava-se neste ser demoníaco ao proferir certo encantamento:

“Abandone a forma humana vilã, erga-se o demônio Etrigan!”

Esta personagem tinha ligações com certo castelo Branek, situado no coração da… Moldávia! As editoras Ebal e Abril, ao editar suas revistas, usavam a forma Moldávia, não Moldova, que só entrou em português brasileiro na década de 1990 e porque, assim como Belarus, é a forma usada em inglês.

Diga-se, de passagem, que ambas as editoras, principalmente a Abril, neste quesito, eram irrepreensíveis: suas publicações em quadrinhos, além da qualidade gráfica, primavam pela excelência do texto, bem traduzido, bem redigido e com muita criatividade – como se via nos procedimentos de tradução e adaptação dos nomes de personagens de editoras estrangeiras, como Marvel, DC e Disney. Mas a Ebal, lamentavelmente, extinguiu-se há 20 anos, e quanto à Abril, não sei como andam as coisas por lá hoje, pois deixei de ler histórias em quadrinhos…

Imagino dois focas (ou nem tão focas assim) numa redação, recebendo por fax, telex, videotexto – ou pelo correio, mesmo, quem sabe (ora, era assim que se comunicava antes da Internet!) – a notícia da queda do regime dos sovietes… (Alguém ainda se lembra do que era isso?) Junto vem um mapa, feito nos States, com a divisão política surgida. Alguém exclama, embasbacado com a novidade, esquecido (!?) das aulas de geografia do ginásio e colegial (atuais 2° ciclo do ensino fundamental e ensino médio, respectivamente):

– “Puxa! Você sabia que a União Soviética era constituída de 15 repúblicas?”
– “Nããããão… Puxa, que diferente! O que está escrito aqui? Bélarus… Belárrius?”
– “E aqui: Móldouva… Moldouva?”
– “Sei lá… Mas vamos escrever isso aí mesmo, é o que os gringos usam. Fica maneiro.”
– “Só…”

E assim a confusão se propaga…

Mapa do Cáucaso, em que se veem a Geórgia, Abcásia, Ossétia do Sul e Chechênia, além de outras áreas em constantes conflitos étnicos. Fonte:
Mapa do Cáucaso, em que se veem a Geórgia, Abcázia, Ossétia do Sul e Chechênia, além de outras áreas em constantes conflitos étnicos. Fonte: Wikipedia.

IV. Mas voltemos ao que nos interessa.

Bandeira da Chechênia. Fonte: Wikipédia.
Bandeira da Chechênia. Fonte: Wikipédia.

Vê-se também aqui e ali a forma Tchetchênia (com pronúncia imitada do inglês), desnecessária, pois a forma vernácula portuguesa é Chechênia.  Esta é uma república que faz parte da Federação Russa e enfrenta um forte movimento que deseja separá-la da Rússia e formar um estado independente. Outra palavra na mesma situação é Chuváchia, nome de outra república russa, a qual vemos grafado também como Tchuváchia.

Mas por que devemos dizer e escrever Chechênia e não Tchetchênia, Chuváchia e não Tchuváchia? O som representado em inglês e espanhol pelo dígrafo CH, em italiano por CI, em francês por TCH e em alemão pela sequência TSCH, não existe como fonema em português, ocorrendo apenas como variante (alofone ou alófono) posicional do fonema /t/ no português falado em certas partes do Brasil, como RJ, MG, ES, partes de SP e de estados do Norte e Nordeste.

No português falado nessas áreas brasileiras, quando o fonema /t/ vem seguido de /i/ (ou de um /e/ átono que se reduziu a [i]), ele assume a forma sonora variante [tch], como nas palavras tio, pátio, Tiago, títere, tinto, batida, vítima, ático, leite, que são pronunciadas como [tchiu], [pátchyu], [tchiagu], [tchíteri], [tchintu], [batchida], [vítchima], [átchiku], [leytchi]; em outros locais, o /t/ assume a forma [tch] quando vem precedido de /i/: oito, dezoito, biscoito, eita soam como [oytchu], [dezoytchu], [biskoytchu], [eytcha], o que constitui um fenômeno mais raro; sei que ocorre (ou ocorria) em alguma parte de Pernambuco, pois conheci pessoas do interior daquele estado cujo dialeto apresentava essa variante de /t/.

(Nota: Esse [y] representa o /i/ átono e breve de palavras como /pai/, /leite/ etc. Nas transcrições, usando algumas combinações gráficas, procurei facilitar a compreensão das representações fonéticas para os não versados em fonologia e fonética.)

Portanto, palavras que nas línguas acima e em outras apresentam esse som TCH mantêm, em português, a grafia com CH, como cheque (palavra originária do inglês check), pelo que a pronúncia é como a de chave. As exceções, além das variantes regionais de /t/ citadas acima – variantes de pronúncia, não de grafia –, são: tchê (do espanhol platino che), tchau (do italiano ciao) e o substantivo-adjetivo tcheco (a) e seus derivados (por imitação da pronúncia e grafia francesas tchèque); neste último caso há as formas mais antigas checo (a)Checoslováquia etc., menos usadas, porém, e também corretas e registradas nos dicionários e vocabulários da Academia Brasileira de Letras.

O mesmo procedimento devemos ter, então, com os nomes Chechênia, checheno (a), Chuváchia, chuvache e derivados, além de outros casos análogos: mesmo que a pronúncia original seja com o som [tch] (em russo as pronúncias são, respectivamente, Tchétchniya, e Tchuváchiya, aproximadamente), devemos grafar sempre com CH, pronunciando à maneira portuguesa.

As formas portuguesas são, portanto, com CH: Chechênia, Chuváchia.

V. Para concluir, falemos da Geórgia, outro país que voltou a ocupar as manchetes e o interesse internacional há alguns anos (não confundir com o estado norte-americano homônimo), devido a duas de suas regiões autônomas se terem declarado, de forma unilateral, independentes: Ossétia do Sul e Abcázia. Quanto a esta, costumam-se encontrar também em português as grafias Abecázia, Abcásia e Abecásia, o que mostra haver ainda muita confusão quanto à forma oficial em nossa ortografia; os órgãos competentes, entre eles a Academia Brasileira de Letras, ainda não se manifestaram sobre o assunto, se é que um dia o farão.

Brasão de armas da Abecásia. Fonte: Wikipedia.
Brasão de armas da Abcázia. Fonte: Wikipedia.

Seja como for, as formas com Z são condizentes com o étimo russo, cuja transliteração é Abkháziya, donde veio a forma inglesa Abkhazia, empregada desnecessariamente no Brasil; as formas com S remetem ao nome latino da região, Abascia. Como não existe em português o fonema russo representado nas transliterações internacionais pelo dígrafo KH (existe em espanhol, representado por J: mujer, jamón, eje, Alejo), devemos, em português, reduzi-lo a C, neste caso. Em espanhol se grafa Abjasia, em italiano Abcasia, o que é motivo para que a forma portuguesa tenha S, como nestas línguas-irmãs do português o que talvez seja também a explicação para as formas portuguesas com S, como nestas línguas-irmãs do português.

Como se resolve tal impasse? O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) registra a forma gentílica abcázio, com Z, o que significa que o nome desse país em português deve ser Abcázia, também com Z, portanto, e mais próxima do étimo.

O nome da Geórgia em georgiano, língua do país, é Sakartvelo, e em russo é Grúziya. Os georgianos são um povo de origem caucásica e majoritariamente cristão ortodoxo, que habita há mais de 2.000 anos aquela região entre a Rússia e a Turquia, que lhe disputaram o território e hoje buscam expandir sua influência ali. A língua georgiana não teve, até o momento, seu parentesco relacionado a outras línguas, permanecendo com classificação isolada.

Bandeira da Geórgia, ex-república soviética
Bandeira da Geórgia, com cruzes de São Jorge. Fonte: Wikipedia.

O nome Geórgia, usado nas línguas europeias ocidentais para designar aquele país, possivelmente lhe foi dado devido à grande difusão ali do culto a São Jorge, que segundo a tradição ortodoxa foi introduzido na região por Santa Nina da Geórgia, nascida na Capadócia, como São Jorge, e tida como sobrinha deste santo. São Jorge é o padroeiro do país – assim como nos países católicos romanos, é santo muito popular nos países católicos ortodoxos.

O georgiano mais famoso foi certo Ioseb Besarionis dze Djughashvili, mais conhecido como Josef Stalin.

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Um dos mais belos alfabetos, o georgiano, com uma transliteração em caracteres latinos. Fonte: http://www.mochileiros.com/georgia-nao-o-estado-americano-mas-o-pais-do-caucaso-t102487.html

Santarém, Pará, 11/9/2012. Editado em 14/9/2015.

Leia também: Hóquei, handebol e hanseníase.

As aparências enganam…

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José Agostinho da Fonseca em 1928. Fonte: http://www.wilsonfonseca.com.br.

As aparências enganam, não poucas vezes.

Em seu livro José Agostinho da Fonseca: o Músico Poeta, em que traça a biografia de seu pai, o maestro, compositor e instrumentista José Agostinho da Fonseca (Manaus, AM, 1886-Santarém, PA, 1945), o escritor santareno Wilmar Dias da Fonseca (1915-1984) conta a seguinte e curiosa história, que, com certeza, deve ter-se passado também com outras pessoas.

O fato ocorreu em Belém, Pará, no início do século XX, quando o futuro maestro José Agostinho estudava no Instituto Lauro Sodré, lá sediado. Num dia de festa do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, José Agostinho e uns amigos resolveram arrematar alguma das comidas prontas oferecidas em leilão no Arraial do Círio. Nada conseguiram e a fome os apertava. Vejamos, nas palavras de Wilmar, o que sucedeu:

“Um deles sugeriu:
– Vamos comprar sardinha em lata.
O alvitre foi aceito.
Numa das barracas do arraial viram na prateleira uma lata bem maior do que a comum, com um bonito peixe estampado. Perguntaram ao barraqueiro:
– Quanto custa aquela lata?
1$500 [mil e quinhentos réis], é de quilo.
Embrulha, por favor.
Ao sentirem nas mãos o peso e o tamanho do embrulho, comentaram:
– Puxa vida, aqui tem muito peixe!
Adiante compraram pães e num botequim duas garrafas de cerveja gelada. Com os trocados restantes tomaram um trago de vermute.
Uma peixada com uma geladinha ia muito bem, todos concordaram.
Essa extravagância nem o diretor nem o prof. Jerônimo podiam saber. O álcool era-lhes proibido e a estória do bombo ainda estava fresca…
A seguir, arranjaram folhas de jornal e saíram em busca de um local sossegado, por trás do templo. Encontraram-no, exatamente como queriam: uma rua deserta e escura. Lá fizeram da calçada mesa e do jornal toalha. Tudo arrumadinho, acocorados cuidaram avidamente de libertar os peixinhos da apertura incômoda em que se encontravam… Aberta a lata, eles se entreolharam espantados: não era sardinha – era goiabada!”

Fonseca, Wilmar Dias da. José Agostinho da Fonseca: o Músico Poeta. Santarém, Pará: Edição do Autor, 1978.

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Publicidade de produtos da Peixe na década de 1950. Fonte: http://www.almanaque.blog.br.

A leitura do trecho acima deixa fora de questão que se tratava de uma lata de goiabada produzida pela Fábrica Peixe, grupo industrial que já foi um dos principais produtores de conservas do país. Fundada em Pesqueira, Pernambuco, em fins do século XIX, a Peixe foi uma das pioneiras da industrialização na região Nordeste e chegou a ter unidades em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo; foi premiada no exterior e obteve reconhecimento, mas entrou em declínio. Foi nos anos 1990 comprada pelo grupo italiano Cirio e desapareceu, lamentavelmente.

Mais sobre a Fábrica Peixe.

Mais sobre Wilmar Dias da Fonseca.

Mais sobre José Agostinho da Fonseca.

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Santarém, Pará, 4/5/2014. Editado em 25/5/2015.

Remadas fúnebres no rio Tapajós

Desde tempos imemoriais os grupos humanos têm-se esforçado para honrar seus mortos; cada cultura demonstra formas peculiares de velório ou enterramento, sempre de forma respeitosa, por mais simples que seja.

Muito antes que os egípcios da época dinástica pensassem em construir faraônicas tumbas para alojar seus mortos ilustres e conduzi-los ao encontro dos deuses, os habitantes do vale do Nilo já enterravam seus defuntos nas areias, que se sabiam ter capacidade de conservar os corpos, mumificando-os naturalmente (a conservação do corpo era requisito para a sobrevivência da alma no além).

Outros povos enterravam seus mortos dentro de casa, como verificado por arqueólogos nas ruínas da antiga cidade de Çatal Hüyük, na Anatólia (atual Turquia); outros cremavam-nos, levando consigo as cinzas, durante suas jornadas. Outras comunidades, ainda nos dias de hoje, depois de cremar os corpos, ingerem suas cinzas em rituais, misturadas a alimentos diversos, como o fazem os ianomâmis. Os parses, que praticam o zoroastrismo, vetusta religião da antiga Pérsia, não cremam seus mortos, não os enterram nem jogam à água, pois consideram isso algo impuro: os corpos são postos em locais específicos para ser descarnados pelos abutres; depois de limpos, os ossos são sepultados. Já na cultura grega, deixar um corpo sem sepultamento era considerado ato ímpio, ultrajante.

Por amor de seu marido Mausolo, a rainha Artemísia mandou erigir-lhe um sepulcro suntuosíssimo; o Túmulo do Rei Mausolo ou Mausoléu de Halicarnasso, apesar de há muito destruído, passou à memória das gerações posteriores como uma das Sete Maravilhas da Antiguidade e deu origem à palavra mausoléu com o significado de “túmulo suntuoso”.

O que sucede com o sepultamento vale para os cortejos fúnebres. Em sua obra O Tapajós que eu Vi, o agrônomo e escritor paraense Eimar Franco (1921-2011), comentando sobre tradições que conheceu em Urucurituba (Aveiro, Pará), onde nasceu e cresceu, às margens do rio Tapajós, descreve um costume fúnebre dos ribeirinhos daquela região:

livro tapajos que eu vi“E por falar em tradições perdidas, ocorreu-me uma hoje, desaparecida, e que, embora fúnebre tinha o seu encanto todo especial.
Quando alguém morria e o corpo devia ser transportado até um cemitério distante, os caboclos colocavam-no em uma boa canoa e partiam seguidos pelos parentes e amigos do finado. Nessas ocasiões, todo o ritmo das remadas era alterado, pois no intervalo de cada uma delas, o cabo dos remos era batido na borda da embarcação duas vezes, dando ao cortejo um acentuado tom de beleza e tristeza.
Era interessante notar como os remadores conseguiam manter aquele ritmo de maneira tão sincronizada, de um modo que todas as canoas batiam os cabos dos remos a um só tempo, como se houvesse um maestro a orientá-los.
Às vezes, na calada da noite, ouvia-se aquele lúgubre “tan-tan” se aproximando, passar em frente a nossa casa e perder-se na distância, num impressionante ritual de reverência e saudades.
Essa tradição já não existe mais e como tantas outras perdeu-se em haras da “civilização”!”

FRANCO, Eimar. O Tapajós que eu Vi (Memórias). Prefácio de Lúcio Flávio Pinto. Santarém, PA: Coordenadoria Municipal de Cultura; Instituto Cultural Boanerges Sena, 1998. p. 51.