Salomé [poema de Martins Fontes]

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Benozzo Gozzoli, “A dança de Salomé e a decapitação de São João Batista” (1461-62). Fonte: https://figurasdaficcao.wordpress.com

SALOMÉ

Martins Fontes (1884-1937)

Paráfrase de Catulle Mendès*

Ora, em Maqueros, perto da
Terra sagrada de Judá,
Num dia do mês de Shebat*,

O tetrarca da Galileia,
Filho de Herodes da Idumeia,
Reúne em magnífica assembleia,

Vitélio e vários dentre os seus
Homens e amigos galileus,
E os sacerdotes do seu Deus,

E honra o procônsul dos romanos,
Dando um banquete aos soberanos,
No dia egrégio dos seus anos.

A sala imensa do festim
É toda feita de algumim
Tauxiado de ouro e de marfim.

A mesa augusta ergue-se ao lado,
E assenta sobre um largo estrado,
Que é de sicômoro lavrado.

Turbando as chamas e os metais,
Sobem as fúmeas espirais
Dos incensários aromais.

Brilham os sifos dos convivas
E altas crisendetas* festivas
Cheias de figos e de olivas.

Veem-se amêndoas de Belém.
E as áureas ânforas contêm
Os vinhos róseos de Siquém.

Pela extensão da mesa nobre,
Por entre palmas, se descobre
A neve em cíatos de cobre.

Servem-se polmes de açafrol,
Romãs e tâmaras de Escol,
Bolos de melro e rouxinol.

Em cismas lúgubres absorto,
Antipas vê, de longe, o porto
Tranquilo e triste do mar Morto.

E o seu cismar enche-se de
Sombras horríficas, porque
A morte próxima prevê.

Contudo, às vezes conversando,
Disfarça as mágoas; porém, quando
Vai o banquete terminando,

O velário de um pavilhão
Se abre: Herodes no salão
Surge entre anêmonas, então.

E erguendo a pátera florida,
Diante da sala comovida,
Declama: “A César, longa vida!”

É nesse instante triunfal,
Exatamente no final
Do ágape esplêndido e fatal,

Que, do fundo das galerias,
Num incêndio de pedrarias,
Desponta a filha de Herodias.

E ao som de mandora e quinor,
Num flavescente resplendor
De gemas de Sirinagor,

Entre os aplausos do delírio,
Virgem e leve como um lírio,
Entra dançando ao modo assírio.

Fascinadora, Salomé
Levanta o véu, que desce até
À asa recurva do seu pé.

E em torcicolos coleantes,
E na volúpia das bacantes,
Tine as crotálias ressoantes.

Ri-se, e na dança tem o dom
De deslumbrar, variando com
A ondulação de cada som.

Gira em volteios colubrinos*,
Lentos, elásticos, felinos,
Ao retumbar dos tamborinos.

Em tentadora inebriez,
Mostra a morena calidez
Doirada e bíblica da tez.

Chega-se a Antipas, e recua…
Ascende aos poucos, e flutua,
Maravilhosa e seminua…

Avança e foge, e vem e vai,
Ondula, e ala-se, e recai
Em posição de quem atrai…

Seu corpo nimba-se envolvido
Por um translúcido tecido,
Que é como um fluido colorido.

No desvario que a seduz,
As mil imagens reproduz
Da flor, dos pássaros, da luz!

Arfam na graça dos coleios,
Nos redopios e meneios,
Os pomos pulcros dos seus seios…

Ante o seu mágico poder,
Diz-lhe o tetrarca sem conter
O entusiasmo do prazer:

– “Pede-me tudo o que quiseres!
Qual a província que preferes,
Flor luminosa entre as mulheres?”

– “Tu és tão bela que nenhum
Prêmio te paga! E só por um
Beijo, eu te dou Cafarnaum!”

E ela, infantil, em voz que freme,
Assim lhe diz: “Dá-me em estreme…”
Murmura um nome… E Herodes treme!

Pede que não, e exora… Mas
A sala ordena pertinaz:
– “Tu prometeste – e tu darás!”

Depois, num grande prato de ouro,
Entre as aclamações em coro,
Com os olhos úmidos de choro,

Nas mãos de um fâmulo idumeu,
Diante do povo galileu,
De Iocanã* apareceu,

Bruta, a cabeça ensanguentada,
Que, pelo gume de uma espada,
Fora do tronco separada.

Da sua pálpebra, a fulgir
Como uma hidrófana de Ofir,
Vê-se uma lágrima cair…

Ante essa lágrima tristonha,
Herodes julga a voz medonha
Ainda escuta, como quem sonha…

Ouve dizer-lhe Iocanã!
– “Tetrarca impuro, a vida é vã,
E a tua amante é tua irmã!”

Serena, a lágrima resvala,
Tremula e cai. E toda a sala,
Cheia de espanto e horror, se cala.

Mas Salomé, flor de Engadi,
Ao Precursor, num frenesi,
Diz: “Por que choras?” E sorri.

E ele responde: – “A causa desta
Última lágrima funesta,
É ter chegado tarde à festa…

“Pois me fizeste, a meu pesar,
Por tanto tempo demorar,
Que não te pude ver dançar…”

In: MARTINS FONTES, José. Verão. 4ª edição, comemorativa do centenário de nascimento do autor. Rio de Janeiro: Cátedra; Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1983. p. 92-97.


Notas:

1- José Martins Fontes, poeta brasileiro (1884/1937), nasceu e faleceu na cidade de Santos, SP. Formou-se em medicina no Rio de Janeiro, foi médico sanitarista e esteve na Amazônia a serviço do governo brasileiro. Mais sobre Martins Fontes: https://pt.wikipedia.org/wiki/Martins_Fontes.

2- Este poema de Martins Fontes – conforme informado mais acima – é uma paráfrase ou recriação do poema “La gloire de Salomé ou Le madrigal de saint Jean” do francês Catulle Mendès (1841-1909), constante do livro Les Braises du Cendrier (1909). O poema original francês de Mendès tem 58 versos, agrupados em 19 tercetos e um verso solto, o último; este de Martins Fontes tem 135 versos, postos em 45 tercetos. O texto de Mendès pode ser lido aqui: http://www.mediterranees.net/mythes/salome/divers/mendes.html.

3- A ortografia foi atualizada para a que temos em vigor no momento, conforme o Acordo Ortográfico. Corrigi possíveis erros tipográficos da edição consultada, os quais possivelmente vinham já das edições anteriores de Verão. As notas seguintes tratam de alguns termos que requerem explicações mais detalhadas.

4- Shebat – Consta no original como Schebat. É o 11º mês do calendário hebraico, tem 30 dias e inicia-se em fins de fevereiro.

5- Crisendeta – Não encontrei em dicionários. Do latim chrysendeta, -orum, designa uma espécie de prato ornado, cinzelado em ouro. Trata-se aqui, portanto, de uma travessa ou baixela luxuosa, de fino lavor. Conferir http://www.dicolatin.com/FR/LAK/0/CHRYSENDETA/index.htm.

6- Colubrinos – Consta no original como columbrinos (sic), possível erro de transcrição ou tipográfico.

7- Iocanã – Outra forma do nome João. Consta no original como Iaokanann (sic). É originária do hebraico יוחנן (Yôḥānān), forma reduzida de יהוחנן (Yəhôḥānān). É possível que o autor tenha adotado este nome, ao invés de João, por motivos de métrica. No poema de Mendès, fonte deste, a forma usada é Jean, equivalente francês de João. A forma portuguesa e muitas presentes em línguas modernas vieram do latim Ioannes, por sua vez adaptado do grego neotestamentário Ιωάννης (Ioánnis), originário também do hebraico.

8- O episódio do festim de Herodes, dança de Salomé e decapitação de João Batista é narrado no Evangelho de Mateus, capítulo XIV, versículos 1 a 12, e no de Marcos, capítulo VI, versículos 14 a 29. É uma narrativa bastante conhecida no Ocidente, tendo servido de inspiração a muitas obras de arte.

Santarém, PA, 13/7/2016.

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Getsêmani

O Jardim das Oliveiras ou Getsêmani. Fonte: Wikipédia.
O Jardim das Oliveiras ou Getsêmani. Fonte: Wikipédia.

Num programa de rádio, ouvi discussão sobre a pronúncia do nome Getsêmani, localidade de Jerusalém também conhecida como Jardim das Oliveiras. Segundo o Novo Testamento, Jesus dirigiu-se a esse lugar para orar, antes de ser preso. O episódio é conhecido pelos cristãos (principalmente os católicos) como Agonia no Getsêmani ou, simplesmente, Agonia.

Mas a dúvida dos locutores do programa de rádio era: este GE é pronunciado como GUÊ ou JÊ?

Discussão tola, e seu motivo foi mesmo o nome de um cemitério famoso da cidade de São Paulo cujo nome é grafado Gethsêmani, com um H depois do T.

O fato é que em português o G antes de E e I é sempre lido como J e a grafia desse nome não tem H (em Portugal se escreve Getsémani, com É, pois lá a pronúncia da vogal tônica é aberta).

A palavra Getsêmani difundiu-se a partir do nome grego Γεθσημανή, usado nos evangelhos de Mateus e Marcos (Novo Testamento) e originário do nome aramaico גת שמנא, transliterado em caracteres latinos Gat Shmānê; em hebraico é גת שמנים, Gat Shmanim. Foi da forma latina Gethsemani que provieram a forma portuguesa e as demais em outras línguas.

Possivelmente a direção do cemitério adotou tal grafia híbrida (com H e acento gráfico) para diferenciar o nome da instituição do nome próprio do local citado na Bíblia.

Vejamos o texto bíblico na clássica tradução de João Ferreira de Almeida (Versão Corrigida e Revisada Fiel):

“Então chegou Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani, e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto vou além orar.” – Mateus 26:36.

“E foram a um lugar chamado Getsêmani, e disse aos seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu oro.” – Marcos 14:32.

Ao passar de uma língua a outra(s), as palavras sempre se adaptam à fonologia e pronúncia da língua receptora; a pronúncia de uma palavra na língua de origem não implica que no português deva ser também daquele jeito. Seja como for, o nome Getsêmani, mesmo sendo nome próprio, é tradicional, antigo e está incorporado ao patrimônio lexical do português e da cultura lusófona, pelo que se grafa e se pronuncia de acordo com as regras de escrita e fonologia de nossa língua: a pronúncia é JETSÊMANI ou JETSÉMANI, nunca GUETSÊMANI ou GUETSÉMANI.

É triste saber que parte de nossa população passa pela escola e sai dela sem conhecer as mais comezinhas normas de escrita e pronúncia da própria língua.

Creio que pelo menos os leitores costumeiros da Bíblia não têm a dúvida aqui citada – ainda que a leitura da Bíblia ou qualquer outro livro religioso não seja pré-requisito ou garantia de domínio da língua.

P.S.: Aos “primitivistas” e outros que rejeitam a pronúncia tradicional portuguesa de Getsêmani, sob a alegação de que não corresponde ao original, sugiro que usem o nome do local, então, na forma original em aramaico – mas está claro que muitos pensam ser a forma “original” aquela usada em inglês…

Santarém, PA, 7/7/2016.

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Espírito de porco, Diabo e Cia.

I. Perguntou-me certa vez um aluno sobre a origem da locução espírito de porco, e o porquê de ser empregada com sentido negativo, com referência a maus procedimentos ou ao Diabo. A questão também me interessou, e resolvi pesquisar para obter alguma explicação. Seguem abaixo os dados que consegui, os quais permitiram chegar a algumas conclusões (1).

II. A única referência direta que encontrei quanto à locução espírito de porco é a de Antenor Nascentes no Tesouro da Fraseologia Brasileira (2). Na página 117, sob o verbete “Espírito”, diz o seguinte o estudioso patrício:

ESPÍRITO — das trevas. O demônio. — de contradição. Pessoa que se compraz em levantar objeções. — de porco. Aquele que, nas sessões espíritas, aparece para se divertir à custa dos crentes. Pessoa de má índole, sempre disposta a dizer ou fazer coisas que desagradem. V. S. Mateus, VIII, 30-2; S. Marcos, V, 11-3; S. Lucas, VIII, 32-3. — de sedução. O demônio. (…) — forte. Pessoa que, sobretudo em matéria de religião, se compraz em atacar as opiniões da maioria, em pôr-se acima das idéias comumente admitidas. — maluco. O demônio. (…) Levantar os —s. Excitar os ânimos. (…) Ser um — de porco. Pessoa sempre disposta a dizer ou a fazer coisa que contrarie. (…) (Ortografia atualizada ­­— grifos meus.)

Como se verifica no trecho acima citado, a palavra espírito, quando acompanhada de epítetos como maligno, maluco, de porco e outros, é associada ao Diabo. Tais locuções foram difundidas no Ocidente pela cultura e fé cristã, por meio de alusões e referências às Escrituras Sagradas. Com efeito, há na Bíblia muitas passagens que contam casos de expulsão de espíritos malignos ou demônios do corpo de pessoas.

III. No verbete “Espritado” das Locuções Tradicionais no Brasil (3), diz Câmara Cascudo, citando o dicionário de Antônio de Morais Silva, que “todo brasileiro conhece e aplica o vocábulo Espritado, espritou-se, valendo pessoa inquieta, que parece ter o espírito malino, f. travesso, mui inquieto”. De fato, espritar ou espiritar é “endemoninhar; tornar endiabrado, travesso, inquieto; irritar, danar” (Cândido de Figueiredo, Novo Dicionário da Língua Portuguesa).

Na esteira do que diz Câmara Cascudo, encontrei também que espritar-se é “encolerizar-se, enfurecer-se, exceder-se”, segundo o Caldas Aulete Digital; diz este mesmo dicionário eletrônico que espiritar-se é “1 Meter o demônio no corpo; ficar endemoniado; 2 Fig. Tornar agitado endiabrado, inquieto; 3 P.us. Transformar(-se) em espírito; 4 Fig. Provocar estímulo, excitação; 5 Provocar estado de transe”.

Acrescenta o folclorista potiguar: “Estar espritado era estar possesso. Em fevereiro de 1581, em Roma, Montaigne assistiu a cerimônia de exorcismos, aplicados por um sacerdote embésongné à guérir un spiritato”. Ainda de acordo com Cascudo, para nós é espritado o irriquieto, buliçoso, turbulento; está espritado o animal que arranca subitamente, disparando sem motivo; está espritado o cão hidrófobo, sendo esse nome aplicado, ainda, a moléstias mentais.

Com tudo isso, não é a toa que, nos meios populares, a suposta possessão pelo Diabo ou por um seu espírito maligno ainda hoje se tenha como a causa de muitas taras e desvios de conduta que a ciência antiga não podia explicar. É também a justificativa de muitos crimes hediondos, passionais ou não. Os programas sensacionalistas de televisão mostram sempre casos de crimes cujos autores alegam de nada se lembrar por estarem possessos ou se terem tornado “cavalos do Cão”, ou seja, endemoniados, fazendo-se alusão ao termo cavalo no sentido de “médium”, com o Diabo incorporado nele.

Codex_Gigas_Biblia_do_Demonio
O Diabo retratado no Codex Gigas (século XIII), também conhecido como Bíblia do Diabo.

IV. O nome diabo é originário do termo latino diabolus, por sua vez originário do grego diábolos, com o sentido de “aquele que divide ou separa, que se interpõe”; numa tradução livre, de acordo com as concepções cristãs e de outras religiões, é aquele que se põe no caminho reto do homem, desviando-o. Seus sinônimos mais comuns são Satanás, Satã, Demônio, Lúcifer, Belzebu (usa-se inicial maiúscula quando se faz referência ao Diabo como chefe do Inferno e dos anjos caídos ou diabos; quando em sentido comum, a inicial é minúscula).

O vocábulo diabo sofreu transformações fonéticas típicas das palavras herdadas, a saber, as que passaram de uma geração a outra, durante séculos: desapareceu a consoante /l/ intervocálica e ocorreu a posterior crase das duas vogais finais: diabolus > diabolo > diaboo > diabo. Note-se que o espanhol, o francês e o italiano mantiveram o /l/: diablo, diable, diavolo, o mesmo ocorrendo em inglês: devil. Aquele fenômeno fonético, ocorrido também com outras consoantes sonoras, é comum na história da língua portuguesa e a distingue de outras línguas românicas. Outros exemplos:

pala > paa > pá; tabula > tábua; pila > pia; populus > pobolo > povoo > povo
lana > lãã > lã; luna > lua; matiana > maciã > maçã
nudus > nuu > nu; pedes > pee > pé

O fenômeno deu-se com os termos populares; as palavras eruditas, porquanto introduzidas na língua bem tardiamente, trazidas diretamente do latim clássico, conservam-se bem próximas deste, formando-se pares contrastantes: pá, paleta; tábua, tabular; lã, lanífero, lanígero, lanifício; lua, lunar, alunissar; nu, nudez; pé, pedal, pedioso

De diabo há duas outras variantes populares, também originárias de diabolus, por meio de outros processos fonéticos: dianho e diacho. Compare-se diacho com mancha (< macula) e chave (<clavis).

O_martirio_de_Eleazar_Gustave_Dore_1866
O Martírio de Eleazar (Gustave Doré, 1866).

V. Mas onde entra, nisto tudo, a figura do porco, e que papel lhe cabe? Também para isto devemos buscar explicações na Bíblia e tradição judaico-cristã.

De fato, já para os hebreus antigos o porco era animal impuro, de cuja carne o consumo era proibido pela lei de Moisés. O porquê disso confesso que não sei; é coisa para os especialistas em assuntos judaicos. Mas lembro-me de ter lido no Talmud, edição de José Pérez (4), a explicação de que “a carne de porco é proibida porque é gostosa demais e leva o homem à gula” (cito de memória).

A resistência ao consumo da carne de animal tido como tão impuro e proibido trouxe, em certos momentos, perseguição aos judeus. Foi o que ocorreu nos últimos séculos antes da Era Cristã, quando a Judeia esteve sob o domínio de reis gregos ou helenizados. No contexto dessas perseguições, cita-se o episódio da execução de Eleazar, doutor da lei, em Jerusalém, contado no II Livro dos Macabeus, VI: por se recusar a comer carne de porco, foi torturado até a morte (ver as traduções católicas da Bíblia). No mesmo livro, no capítulo VII, conta-se o martírio de sete irmãos judeus com sua mãe: o rei sírio Antíoco IV Epífanes (ou Epifânio), que dominava a Palestina no século II a. C. e tentou helenizar o território, queria, entre outras coisas, fazê-los também comer carne de porco; por não acatarem a ordem do rei, foram todos mortos com as mais terríveis torturas, morrendo por último a mãe, após assistir ao suplício dos filhos um a um (5).

O_martirio_dos_sete_irmaos_Julius_Schnorr_von_Carolsfeld_1826
Os Sete Irmãos e sua Mãe (Julius Schnorr von Carolsfeld, 1826).

Em artigo publicado em 2004, Alzira Simões (6) estuda o porco sob diversos aspectos sociais, culturais, econômicos, e enumera diversas conotações positivas e negativas do porco. Dentre os epítetos negativos, diz ela que o porco “é praticamente sinónimo de dorminhoco, teimoso, egoísta, invejoso, manhoso, rabão, voraz, diabólico, indolente, imundo, sujo, enfim, porco!” (p. 50-51).

Continua a autora:

O porco é também, contraditoriamente, na nossa cultura como noutras, identificado com a gula, a voracidade, a sujidade, a imundície, simbolizando, igualmente, a obscenidade, a ignorância, a luxúria e o egoísmo, sendo, como referimos, considerado um animal impuro em várias religiões, e, por consequência, o consumo da sua carne é proibido ou restringido em várias culturas (islâmica, judaica…).
Objecto de repulsa, passa pela identificação com o homem em certos provérbios (onde, além dos supra-enunciados com eventual carga negativa, encontramos ainda muitos outros como: “dar pérolas a porcos”, “quem se mistura com os porcos come lavagem”, “judeu e porco, algarvio e mouro – são quatro nações e oito canalhas”, “nem moinho por contínuo, nem porco por vizinho”, etc., etc.) e pela antropomorfização caricatológica em que o ser humano assume formas porcinas, é com o porco identificado, na maioria das vezes, de um modo pejorativo e mordaz.
Encontra-se, além disto, na língua portuguesa inúmeras designações e expressões antropónimas, metafóricas, com valência sócio-culturais desfavoráveis. Para tal servem de exemplo os termos e ditos: “porcaria”, “porcalhona”, “marrão”, “marranço”, “gordo como um porco”, “só se lava quem é porco”, “teimoso como um porco”, “dormir como um porco”, “sangrar como um porco”, etc., etc. (p. 51).

O trecho acima faz lembrar A Revolução dos Bichos, de George Orwell, que Alzira Simões também cita (p. 54-55). Nesta obra, os animais do sítio expulsam seu opressor, o homem, e decidem cuidar de seu próprio destino, vivendo em comunidade; mas pouco a pouco outro dominador surge de entre os próprios animais: o porco.  Os porcos acabam por aliar-se a seus antigos senhores, e quando todos se sentam em torno de uma mesa para selar o acordo, quem os vê de fora não consegue distinguir quem é homem e quem é porco…

VI. Mais do que ser reputado o porco um animal impuro, o espírito de porco é também sempre relacionado ao Demônio, por meio da ideia de possessão. Ora, é exatamente isso que se encontra nos versículos bíblicos aludidos por Nascentes em sua obra citada acima, os quais narram um conhecidíssimo episódio da pregação de Jesus Cristo na Palestina. Passava Ele por Gerasa, local próximo da Galileia, quando encontrou um homem (ou dois, segundo S. Mateus) possesso por uma legião de demônios; estes, temendo que Jesus os enviasse para o abismo, pediram-Lhe que os mandasse para cima de uma vara de porcos que ali perto pastavam. Feito isso, os porcos, com os demônios em si, precipitaram-se no mar por um despenhadeiro e afogaram-se. (Conferir a Bíblia das Edições Paulinas, tradução de Matos Soares.)

Parece que, da narrativa sobre a legião de demônios que Jesus Cristo expulsou, deriva também a locução diabo a quatro, com o sentido de “grande tumulto, desordem, alarido e confusão”. João Ribeiro, nas Frases Feitas, p. 313 (7), cita a explicação do padre Tuet, segundo o qual nos antigos autos e mistérios medievais “apareciam sempre quatro personagens vestidas de diabos e que faziam horrível barulho com o intuito de atemorizar os espectadores, instruindo-os das penas infernais”. Entre nós, foi continuador dessa tradição o padre José de Anchieta, que em seu auto Na Aldeia de Guaraparim, composto em língua tupi, põe em cena quatro diabos a queixar-se da ação dos jesuítas; já no Auto de São Lourenço, também em tupi, ele não arrola quatro, mas sete diabos, sendo três os principais e quatro os subalternos. Não bastasse o próprio Diabo, vinha ele ainda acompanhado de seu séquito!

VII. Voltando ao porco: na mesma obra citada trata João Ribeiro do curioso dito popular “Cada porco tem seu São Martinho”, que ele diz confirmar a relação do porco com o Diabo e as más ações e procedimentos. De acordo com João Ribeiro, o sentido desta última locução é o de que

São Martinho os [porcos] fará melhores, e lá virá um dia que não sejam porcos. Porque, na lenda medieval de São Martinho, este santo sarava os doentes ainda contra a vontade deles. O que fazia com que os falsos mendigos com suas ricas chagas fugissem a todas as gâmbias do santo, por não perderem o emprego (p. 166, ortografia atualizada).

Sao_Martinho_de_Tours_Mosteiro_de_Tibaes_Portugal
São Martinho de Tours a cavalo (Mosteiro de Tibães, Portugal).

Houve vários santos com o nome Martinho, mas parece que a lenda citada por João Ribeiro se refere a São Martinho de Tours, nascido na Panônia, atual Hungria (assim como São Martinho de Braga), que viveu no século IV, foi bispo de Tours e está sepultado nessa cidade francesa.

Segundo a tradição, Martinho era soldado romano e encontrou, num dia frio, um mendigo desagasalhado; tocado por aquela situação de penúria, cortou metade de seu manto e deu-o ao pobre. Mais tarde foi visitado por Jesus Cristo, que lhe agradeceu a caridade. Isto o levou a converter-se.

Martinho de Tours tinha a fama de curar até mesmo quem não queria ser curado, por isso os pedintes aleijados ou chagados fugiam dele, com medo de perder seu ganha-pão. Mas Martinho os curava mesmo assim, até depois de morto, por isso eles temiam aproximar-se de sua tumba em Tours. (A exploração da doença pelos esmoleiros é bem mais antiga do que se pensa.)

Em Portugal registram-se adágios referentes à festa de São Martinho, celebrada no outono europeu, relacionando-a ao vinho, às castanhas e ao porco; neste caso, trata-se da destinação do porco ao abate e consumo em honra do santo.

Termina João Ribeiro dizendo que, por serem porco e porco sujo nomes dados pelo povo ao Diabo, este tem suas razões para fugir daquele santo, que o desmascara e afugenta.

Para concluir: Sendo o porco, na nossa cultura, um animal considerado por muitos como impuro, por motivos religiosos, e apontando-se a possessão pelo(s) demônio(s) como causa de diversas condutas inadequadas, não é difícil entender porque a locução espírito de porco aponta para os maus procedimentos e ações e, por extensão, para seu suposto responsável, o Diabo.

Notas:

  1. A primeira versão deste artigo esteve disponível entre 1999 e 2006 em http://www.napoleao.com, sítio do extinto Curso do Prof. Napoleão Mendes de Almeida. Foi também publicada, em duas partes, no boletim mensal da Ordem dos Velhos Jornalistas de São Paulo (OVJ/SP), sob a direção de Antônio Carvalho Mendes (1933-2011), além de ter aparecido também em outras páginas Web.
  2. NASCENTES, Antenor. Tesouro da Fraseologia Brasileira. 2.ª edição. Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos, 1966.
  3. CÂMARA CASCUDO, Luís da. Locuções Tradicionais no Brasil. Coisas que o Povo Diz. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1986.
  4. PÉREZ, José (Org.). Talmud. São Paulo: Edições Cultura, 1942.
  5. Os quatro livros dos Macabeus foram escritos originalmente em grego e narram episódios da vida dos judeus na época helenística; receberam esse nome devido aos irmãos Judas e Simão Macabeu, fundadores da dinastia dos Asmoneus, que governou a Judeia antes do domínio romano. Os quatro livros dos Macabeus não fazem parte da Bíblia protestante nem do cânone judaico, mas estão presentes na Bíblia da Igreja Ortodoxa. A Bíblia católica contém apenas I e II Macabeus. Mais aqui: https://pt.wikipedia.org/wiki/Livros_dos_Macabeus.
  6. SIMÕES, Alzira. O porco: animal sociocultural total. Mneme: Revista de Humanidades. Caicó (RN), V. 04. N. 09, fev./mar. de 2004. pp. 41-64. Disponível em: <http://www.periodicos.ufrn.br/mneme/article/viewFile/181/169>.
  7. RIBEIRO, João. Frases Feitas. 2.ª edição. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1960.

Santarém, PA, 12/9/2012. Editado em 29/4/2016.

São Jerônimo, Padroeiro dos Tradutores

"São Jerônimo" (Hendrick Bloemaert, 1601/1602-1672) - Fonte: www.wikigallery.org
“São Jerônimo” (Hendrick Bloemaert, 1601/1602-1672) – Fonte: www.wikigallery.org

Hoje, 30 de setembro, é dia de São Jerônimo e também Dia Internacional dos Tradutores.

Por sua tarefa hercúlea de tradução da Bíblia em latim, a partir dos originais em hebraico e grego, São Jerônimo é tido como o patrono dos tradutores. Legou-nos ainda muitíssimos textos, inclusive sobre técnicas de tradução.

Dizia ele que se devem traduzir não as palavras, mas o sentido. Prescrição muito moderna, principalmente quando se sabe que, ainda hoje, há gente querendo traduzir coisas ao pé da letra…

Por isso, se você já leu algum livro traduzido, agradeça aos tradutores, que se põem à sombra dos autores para, com seu talento e a duras penas, pôr os escritos destes ao alcance de leitores de outras línguas.

Obrigado, Jerônimo!

Santarém, Pará, 30/9/2014. Editado em 30/9/2015.

Santa Ignorância

És doutor em Israel e ignoras essas coisas? (João III, 10)

Cada dia me convenço mais da acuidade e atualidade deste versículo. Que visionário Ele era!

Como pode alguém, depois de passar por várias etapas de formação e atingir um patamar a que poucos chegam, ignorar coisas básicas de processos pelos quais essa mesma pessoa passou?

Pensei tratar-se de leviandade; depois de refletir um pouco, cheguei à conclusão de que se trata de ingenuidade ou ignorância. Ou ambas as coisas. Só pode ser isto.

Parece que os néscios têm um santo que os protege…

À vaidade do mundo

Salomão retratado por Gustave Doré. Fonte: Wikipedia.
Salomão retratado por Gustave Doré. Fonte: Wikipedia.

Vanitas vanitatum, omnia vanitas.
(Liber Ecclesiastes, I, 2)

“Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!” – diz o milenar livro hebraico do Qoheleth ou Eclesiastes, atribuído ao rei Salomão. O filho e sucessor de Davi, já entrado em anos, experiente e no fim da vida, enumera e condena toda a vaidade e os desenganos do mundo, e termina advertindo os homens para a importância do temor de Deus e observância de Seus preceitos (Eclesiastes XII, 13-14).

Mas nem todos concordam quanto aos reais motivos que levaram o sábio rei Salomão, identificado como o próprio (autor do) Eclesiastes, a clamar em palácio contra o orgulho do mundo: em seu romance A Cidade e as Serras, Eça de Queirós põe na boca da personagem Jacinto a explicação do porquê de Salomão se voltar, no fim da vida, à condenação da vaidade e dos prazeres:

Quando descobre esse sublime retórico que o mundo é ilusão e vaidade? Aos setenta e cinco anos, quando o poder lhe escapa das mãos trêmulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se lhe torna ridiculamente supérfluo. Então rompem os pomposos queixumes! Tudo é vaidade e aflição de espírito! nada existe estável sob o Sol! Com efeito, meu bom Salomão, tudo passa – principalmente o poder de usar trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho sultão asiático, besuntado de literatura, a sua virilidade – e onde se sumirá o lamento do Eclesiastes? Então voltará em segunda e triunfal edição, o êxtase do Livro dos Cantares!… (A Cidade e as Serras, capítulo IX.)

Um dos sete pecados capitais, classificados e descritos pela teologia católica na Idade Média – os outros são avareza, gula, inveja, ira, luxúria e preguiça –, dos quais fosse talvez o mais grave, a vaidade, também chamada orgulho ou soberba, parece ter perdido seu posto de primazia para a preguiça, pecado ou comportamento tão pouco aceito hoje, tempos de valorização do trabalho e do esforço, existindo inclusive cada vez mais pessoas viciadas em trabalho: workaholics.

Na Idade Média havia mesmo quem temesse ser considerado vaidoso por seu conhecimento das letras: literatos muito versados nos clássicos grego-latinos esforçavam-se para redigir em baixo latim, mais próximo dos falares populares românicos, ou mesmo nas línguas vernáculas que principiam a estabelecer-se, com o propósito de não serem tidos por orgulhosos de sua erudição, como conta o linguista Benvenuto Terracini, a certa altura de sua obra Conflictos de Lenguas y de Cultura (1).

Já o trabalho era visto como um mal necessário: é preciso trabalhar e alguém precisa fazê-lo. A sociedade medieval europeia era dividida em três grupos principais ou estamentos: o clero (os orantes), a nobreza (os militantes ou guerreiros) e a plebe (os laborantes ou trabalhadores), presa à terra e encarregada de produzir os necessários suprimentos para a sociedade, enquanto os nobres garantiam a segurança do feudo, do reino e da Cristandade e o clero cuidava das coisas do espírito e do bom comércio dos homens com Deus…

Nos dias atuais, porém, a vaidade – ou orgulho ou soberba – deixou de ser tida por comportamento condenável. Sob sua forma prática, o exibicionismo ou ostentação, é posta a público em todos os lugares e situações; nem a Igreja e seus fiéis escapam disso. Nos muros e na publicidade oficial de importante escola católica paraense era possível ler, até certo tempo atrás, a frase DÁ ORGULHO (?!), destacada e em letras garrafais, o que seria coisa de causar espécie a São Jerônimo, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Santa Clara ou qualquer outro santo, pai ou doutor da Igreja que, embarcado numa máquina do tempo, viesse parar em nossa época e visse tais dizeres na porta de um colégio confessional…

Seja como for, o assunto é bastante recorrente na literatura do Ocidente. No mundo lusófono, produziu um dos mais belos sonetos da língua portuguesa, atribuído ao poeta brasileiro Gregório de Matos Guerra (1636-1696), conhecido como Boca do Inferno:

Desenganos da Vida Humana, Metaforicamente

É a vaidade, Fábio, nesta vida,
Rosa, que da manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.

É planta, que de abril favorecida,
Por mares de soberba desatada,
Florida galeota empavesada,
Sulca ufana, navega destemida.

É nau enfim, que em breve ligeireza,
Com presunção de Fênix generosa,
Galhardias apresta, alentos presa:

Mas ser planta, ser rosa, nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa? (2)

Este mesmo poema é também atribuído, com ligeiras variações, inclusive de título, ao padre português Antônio da Fonseca Soares (1631-1682), também conhecido como Frei Antônio das Chagas:

À vaidade do mundo

É a vaidade, Fábio, desta vida
Rosa que na manhã lisonjeada
Púrpuras mil com ambição coroada
Airosa rompe, arrasta presumida;

É planta que de abril favorecida
Por mares de soberba desatada,
Florida galera empavesada,
Sulca ufana, navega destemida;

É nau, enfim, que em breve ligeireza,
Com presunção de fénix generosa,
Galhardias apresta, alentos presa.

Mas ser planta, rosa e nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa? (3)

Este é apenas um dos exemplos da problemática ligada à obra de Gregório de Matos, que se apresenta como objeto de polêmicas, devido à dificuldade de indicar com precisão a autoria de parte dela. É algo que ocorre também com os poetas Luís Vaz de Camões e Manuel Maria du Bocage e com o escultor Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

Mas, como também dizem as Escrituras: “A quem tem, mais se lhe dará” (Mateus, XIII, 12). Portanto parece ser praxe atribuir a autoria questionável de um objeto a quem já tem muito em seu nome. E assim o catálogo das obras atribuídas a Gregório de Matos, Camões, Bocage e Aleijadinho só segue aumentando!

Coisas da vaidade do mundo…

Notas:
1- TERRACINI, Benvenuto. Conflictos de Lenguas y de Cultura. Buenos Aires: Imán, 1951.
2- In: SPINA, Segismundo. A Poesia de Gregório de Matos. São Paulo: Edusp, 1995. p. 108.
3- In: http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/fchagas.htm (ortografia atualizada).

Santarém, Pará, 21/2/2015. Editado em 22/2/2015.