Mandioca, o pão dos índios

palmerio_doria_mandiocaO Brasil às vezes me parece que involui, caminha para trás em muitas coisas. E nossa memória vai sendo corroída pelo cupim da desinformação, da indiferença e do despeito.

Na temática do reconhecimento ou não da importância da mandioca no Brasil, compartilho e complemento a informação acima, de Palmério Dória (em sua página no Facebook), com os seguintes pontos, fruto de minhas modestas leituras:

Pão dos Índios – No Brasil Colônia, os cronistas – padres ou não – em seus textos chamavam a mandioca de “pão dos índios”, compreendendo sua importância na alimentação indígena (e também da população em geral).

O francês Jean de Léry, em sua clássica Viagem à Terra do Brasil (Voyage à la Terre du Brésil, século XVI), descreve o processo de fabricação de farinha de mandioca pelos tupinambás da França Antártica (atual Rio de Janeiro) e conta, com certa graça, com que habilidade os índios comiam a farinha, colhendo-a da cuia com os dedos e lançando-a à boca, sem nada derrubar; já os franceses, ao imitar o gesto, ficavam todos enfarinhados… (Lembro-me de que, ao ler a obra de Léry há quase 20 anos, achei o processo descrito por ele muito semelhante ao que tinha ouvido sobre casas de farinha no interior de Alagoas.)

Holandeses no Brasil – Em sua obra Tempo dos Flamengos, o historiador pernambucano José Antônio Gonçalves de Melo informa que, durante seu domínio no Brasil, os holandeses perceberam a importância da cultura da mandioca para garantir a subsistência da população da colônia. Por isso todo proprietário de engenho de açúcar era obrigado a plantar, para cada escravo que tivesse, certo número de pés de mandioca, para manter o abastecimento e evitar a importação de alimentos das colônias portuguesas.

Outra medida dos holandeses: proibiram a derrubada de cajueiros e outras árvores frutíferas, pois eram fonte de alimento da população local.

Os flamengos, para evitar contaminação da água, proibiram também que se jogasse bagaço de cana nos rios, como era costume dos engenhos antes da conquista holandesa.

Alimentos que ajudaram a construir o Brasil merecem um pouco de respeito, mesmo daqueles que não os consomem.

Santarém, Pará, 28/10/2015.

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Enquanto alguém ainda se lembrar destes homens…

RASPAIL, Jean. Quem se Lembra dos Homens? São Paulo: Globo, 1989.
[Qui se Souvient des Hommes, 1986.]

raspail_quemselembradoshomensLi-o há cerca de 10 anos e fiquei bastante impressionado com a história deste povo dos confins de nosso continente.

Quem se Lembra dos Homens? de Jean Raspail é um livro fantástico que, numa combinação de estudo antropológico e narrativa (semi)ficcional, tenta reconstituir a história de um dos mais singulares povos que já habitaram as Américas, o qual chamava a si mesmo “os homens” – como muitos outros grupos humanos em todos os tempos.

Numa migração cuja lembrança se perdeu na noite da história, os alakalufs (como são conhecidos hoje) chegaram a um dos extremos do mundo, a Terra do Fogo, e lá viram passar os conquistadores do Sul da América, fugindo deles como de todos os povos com que toparam, tentando apenas sobreviver.

Uma leitura emocionante, que ninguém fará sem refletir profundamente, depois da última página, sobre a Humanidade e sua(s) História(s).

Trecho da orelha do livro:

E eles chamavam a si mesmos de Homens. Haviam chegado àquele extremo da Terra que, bem mais tarde, foi nomeado Terra do Fogo – ao término de uma migração tão longa que já a haviam perdido na memória. Empurrados incessantemente por novos invasores, tinham atravessado um continente e milênios na ignorância e no medo. Haviam se estabelecido num lugar onde, ao que tudo indicava, ninguém poderia alcançá-los, de tão cruéis que eram o céu, a terra e o mar naquele inferno austral. Foram talvez um povo, depois não passaram de clãs, de famílias. Um dia, e será amanhã, não existirá mais ninguém além de Lafko – Lafko, filho de Lafko, filho de Lafko, desde o início dos tempos -, o último do Homens, aquele que vemos, na primeira e na última página deste livro, tentando encontrar na tempestade a praia onde ele poderá morrer, sob os olhos de Deus, solitário.
Neste intervalo entre o sonho de Henrique, o Navegador, a aparição dos navios de Magalhães e o desaparecimento dos Homens, estes “selvagens” viram a história passar e submeteram-se a ela. Amanhã, Lafko vai se perder na noite.
Quem se lembra dos Homens? Jean Raspail, após ter encontrado uma das últimas canoas dos alakalufs (esta é a denominação moderna deste povo), não os esqueceu. Neste livro – que, por falta de opção, ele qualifica como “romance”, mas “epopeia” ou “tragédia” talvez fossem mais exatos -, ele recria o destino destes seres, nossos irmãos, que os Homens que os viram hesitaram em reconhecer como Homens.

Santarém, PA, 27/2/2015. Editado em 26/4/2016.