Lusia [poema de Julius Balbin]

LUSIA

Julius Balbin (1917-2006)
Traduzido do esperanto por Júlio César Pedrosa

Ela era minha vizinha
antes da guerra –
e aos catorze anos
eu em segredo sonhava com ela,
enamorado de seus
negros olhos ardentes
e sua voz de veludo
cheia de amor.

E nada resta dela
além de sua roupa rasgada
e flocos de sangue
que a terra absorve.

Porque ela teve a audácia
de dirigir a palavra a um jovem guarda da SS,
o chefe do campo de concentração
ordenou
lançá-la
na jaula
de seus amados cães assassinos.

Em poucos minutos
sua carne foi devorada
e seus ossos quebrados,
e nada mais restou
além de minhas lembranças
e lágrimas
absorvidas pela terra,
que nós ambos dividimos
com os assassinos
humanos e caninos.

Ela era minha vizinha
antes da guerra…
com seus
negros olhos ardentes
e voz de veludo
cheia de amor.

1980

BALBIN, Julius. Lusia. In: Imperio de l’ Koroj: Du Poemaroj. Pizo, Italujo [Pisa, Itália]: Edistudio, 1989. p. 162-163.

O autor:
balbin-imperio-001Julius Balbin (1917-2006) nasceu em Cracóvia, Polônia, no seio de uma família judia. Foi preso pelos alemães e passou por vários campos de concentração. Após o fim da II Guerra Mundial estudou em Viena, Áustria, e emigrou em 1951 para os Estados Unidos da América, onde por muitos anos foi professor universitário, retornando à Europa em 2005. Faleceu em Aye, Bélgica. Publicou vários livros de poemas em esperanto, inglês e polonês.

Mais sobre Julius Balbin:
Em inglês: “Strangled Cries: A profile of poet Julius Balbin” – Alexander Kharkovsky;
Em esperanto: “Julius Balbin” – Wikipedia.

Um artigo de Julius Balbin (em inglês): “The Secret Malady of Esperanto Poetry” (1973).

Santarém, Pará, 8/3/2017. Leia e curta também no Blogspot.

Poema sem Título [Charles Simic]

POEMA SEM TÍTULO
(Poem Without A Title)

Charles Simic
Tradução de Júlio César Pedrosa

Pergunto ao chumbo:
Por que te deixaste
Converter em bala?
Esqueceste os alquimistas?
Abandonaste a esperança
De converter-te em ouro?

Ninguém responde.
Chumbo. Bala. Com nomes
Como estes
O sono é longo e profundo.

Traduzido da versão espanhola de Isaías Garde, a qual junto com o original inglês está disponível aqui:
http://zoonphonanta.blogspot.com.br/2017/01/charles-simic-poema-sin-titulo.html.

O autor: Charles Simic é um poeta estadunidense nascido em Belgrado, Sérvia, em 1938. Emigrou com a família para os EUA em 1954. Mais sobre ele aqui:
https://en.wikipedia.org/wiki/Charles_Simic.

Santarém, PA, 21/1/2017. Leia e curta também no Blogspot.

A Cadela de Buchenwald [poema de Julius Balbin]

A CADELA DE BUCHENWALD
OU
RÉQUIEM PARA A PELE

(La Hundulino de Buchenwald aŭ Rekviemo por la Haŭto)

Julius Balbin
Traduzido do esperanto por Júlio César Pedrosa

Rasgada e cheia de cicatrizes das pancadas
e contraída pela fome,
coberta apenas por uma
fétida
camisa
listrada
esfarrapada,
tu eras mais do que somente pele:
eras um brinquedo –
objeto de exibição
para uma curiosidade mórbida.

De todos os demônios
dos infernos de Hitler,
Frau* Ilse Koch,
a vadia de Buchenwald*,
parecia apreciar-te a ti no mais alto grau;
e, particularmente, àqueles entre vós
a portar tatuagens,
que provocavam nela
um espasmo
de ideias vibrantes
de algum desenho
para seus abajures.

Certa vez
ela arranjou uma festa
para comemorar
sua nova exposição.
A mais admirada
pelos membros da SS e pelos guardas
eras tu
tão coloridamente tatuada
com as palavras
HAENSEL UND GRETEL*
brilhando acima da lâmpada.
Sim, pele,
os comentários
e olhares elogiosos deles
teriam sido mais podres
do que tu,
se tu tivesses apodrecido
na terra infestada de vermes.

Requiescat in pacem*,
pele,
as orgias dos bárbaros
acabaram.

1982

BALBIN, Julius. La Hundulino de Buchenwald aŭ Rekviemo por la Haŭto. In: Imperio de l’ Koroj: Du Poemaroj. Pizo, Italujo [Pisa, Itália]: Edistudio, 1989. p. 197-198.


Notas:

1- Frau – Em alemão no original: “senhora”.
2- Buchenwald – Campo de concentração nas proximidades de Weimar, estado da Turíngia (Thüringen), Alemanha.
3- Hansel und Gretel – Nomes alemães dos personagens João e Maria, respectivamente, da fábula de mesmo nome, recolhida e difundida pelos irmãos Grimm.
4- Requiescat in pacem – Em latim no original: “Descansa em paz”; é a origem da abreviação RIP.

O autor:

balbin-imperio-001Julius Balbin (1917-2006) nasceu em Cracóvia, Polônia, no seio de uma família judia. Foi preso pelos alemães e passou por vários campos de concentração. Após o fim da II Guerra Mundial estudou em Viena, Áustria, e emigrou em 1951 para os Estados Unidos da América, onde por muitos anos foi professor universitário, retornando à Europa em 2005. Faleceu em Aye, Bélgica. Publicou vários livros de poemas em esperanto, inglês e polonês.

Mais sobre Julius Balbin:
Em inglês: “Strangled Cries: A profile of poet Julius Balbin” – Alexander Kharkovsky;
Em esperanto: “Julius Balbin” – Wikipedia.

Um artigo de Julius Balbin (em inglês): “The Secret Malady of Esperanto Poetry” (1973).

Santarém, Pará, 29/11/2016. Leia e curta também no Blogspot.

Cinco poemas de Olga Maria Scuoteguazza

CONTENÇÃO

scuoteguazza-001
Capa de Jerônimo Oliveira.

Lava as mãos na pia,
com o sabonete das estrelas.
Depois alisa teimosia e creme sobre o rosto.
No espelho, um riso indisposto é sorrido.
Confere a limpeza dos dentes,
e depois mente
a si própria que tem sono.
Encosta a cabeça tonta, no travesseiro macio.
O corpo é só um fio
de vida exangue.
E as mãos dormem avermelhadamente manchadas.
De beterraba.
Nunca de sangue.

 

SABEDORIA

Sei e conheço de você
involuntariamente
mais que a prova dos noves,
mais que a quinta sinfonia de Beethoven,
mais que análise sintática,
sintaxe,
concordância,
geometria plana,
aritmética.
Mais que a lei da oferta e da procura,
pré-história,
invasão holandesa…

E, por incrível que pareça,
ainda não basta.

 

A NOITE

A noite é uma vigia
de olhos de estrela.
Uma vadia
febril, obscena.
A noite é o dia
no tempo do cio.
A noite é um fio
que eletriza a poesia.
A noite é o dia
vestido no avesso.
A noite é começo
da luz prepotente.
A noite é valente
sem medo do escuro.
O dia é um muro
e atrás vem a noite.
O dia é a pressa
da noite seguinte.
O dia é o ouvinte
das coisas da noite.
O dia é o açoite.
A noite o deleite.
O dia é o aceite.
A noite o revide.
O dia é o dia.
E a noite é à toa.
O dia se vinga.
E a noite perdoa.

 

RELICÁRIO

Na primeira gaveta do armário
no relicário de todos os meus pertences,
guardo uma caixa de afetos permanentes,
prediletos,
como por excelência.
Um outro embrulho
de conteúdo semelhante,
a prata de um quarto minguante,
um poema do pessoa,
e um terço.

E por debaixo da sutil e pessoal riqueza
respaldo a insistência e a firmeza
com que sempre apostei na tua vinda:

Guardo uma toalha de mesa, sem uso,
e um lençol, muito branco, de linho.

 

PAIXÃO

Num determinado instante
teu semblante limpo
me comove à beça.
Teu olhar bonito
me atravessa forte.
Tua íris brinca o meu olhar
em cortes,
tão fundos.
Como uma lua cheia
teu brilho azul passeia
minha surpresa atônita.
Como um flash instantâneo
tua íris faz planos
e conta.
Fotografo, muda,
todos os seus mistérios.
E tonta,
de tantas revelações
a me ocorrer por dentro,
fecho os olhos devagar,
como se houvesse tempo.
E já não há.

In: SCUOTEGUAZZA, Olga Maria. Ensaios de Foyer. São Paulo: Syllaba, 1989. p. 20, 23, 25, 31, 43.

Santarém, PA, 23/11/2016. Leia e curta também no Blogspot.

Amor-perfeito [poema de Laurindo Rabelo]

amor-perfeito-vermelho
Amor-perfeito (Viola tricolor L.) – Fonte: https://fiorebellafloresecestas.wordpress.com

AMOR-PERFEITO

Laurindo Rabelo (1826-1864)

Secou-se a rosa… era rosa;
Flor tão fraca e melindrosa,
Muito não pôde durar.
Exposta a tantos calores,
Embora fossem de amores,
Cedo devia secar.

Porém tu, amor-perfeito,
Tu, nascido, tu afeito
Aos incêndios que amor tem,
Tu que abrasas, tu que inflamas,
Tu que vegetas nas chamas,
Por que secaste também?!

Ah! bem sei. De acesas fráguas
As chamas são tuas águas,
O fogo é água de amor.
Como as rosas se murcharam,
Porque as águas lhes faltaram,
Sem fogo murchaste, flor.

É assim, que bem florente
Eras, quando o fogo ardente
De uns olhos que raios são,
Em breve, mas doce prazo
Te orvalhou naquele vaso
Que já foi meu coração.

Secaste, porque esse pranto
Que chorei, que choro há tanto,
De todo o fogo apagou.
Triste, sem fogo, sem frágua
Secaste, como sem água,
A triste rosa secou.

Que olhos foram aqueles!
Quando eu mais fiava deles
Meu presente e meu porvir,
Faziam cruéis ensaios
Para matar-me. Eram raios,
Tinham por fim destruir.

Destruíram-me: contudo
Perdoo o pesar agudo,
Perdoo a pungente dor
Que sofri nos meus tormentos,
Pelos felizes momentos
Que me deram nesta flor.

Ai! querido amor-perfeito!
Como vivi satisfeito,
Quando te vi florescer!
Ai! não houve criatura
No prazer e na ventura
Que me pudesse exceder.

Ai! seca flor, de bom grado,
Se tanto pedisse o fado,
Quisera sacrificar
Liberdade e pensamento,
Sangue, vida movimento,
Luz, olfato, sons e ar

Só para ver-te florente,
Como quando o fogo ardente,
De uns olhos que raios são,
Em breve, mas doce prazo,
Te orvalhou naquele vaso
Que já foi meu coração.

In: RABELO, Laurindo José da Silva. Obras Completas: Poesia, Prosa e Gramática. Organização, introdução e notas de Osvaldo Melo Braga. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1946. (Livros do Brasil, 8). p. 289-291. Ortografia atualizada.


O autor:
Laurindo José da Silva Rabelo, médico, militar e poeta brasileiro, nasceu no Rio de Janeiro em 8 de julho de 1826 e faleceu na mesma cidade em 28 de setembro de 1864. Foi seminarista, mas não chegou a ordenar-se. Formou-se em medicina e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, servindo no Rio Grande do Sul; foi também professor da Academia Militar. Mais sobre Laurindo Rabelo: https://pt.wikipedia.org/wiki/Laurindo_Rabelo.

Santarém, PA, 18/7/2016.

Leia e curta também no Blogspot.

O Escudo de Minerva [poema de Humberto de Campos]

atena-01-editado_2
A deusa Atena ou Minerva. Fonte: http://www.turismogrecia.info

O ESCUDO DE MINERVA

Humberto de Campos (1886-1934)

Mão nervosa e febril, Fídias sonha e trabalha.
A alma paira, genial, nas alturas serenas,
E o cinzel, a ranger, morde a matéria, e talha
A figura imortal da Senhora de Atenas.

Trabalha. A fronte, o braço, a alta cabeça, o escudo,
E a petrina, a guardar dos seios o tesouro,
Surgem, formando a deusa, hirta e solene; e tudo
É talhado em marfim, cortado em pranchas de ouro.

E a estátua, um dia, enfim, no alto templo descansa;
O peito colossal quase ofega e respira.
E, apinhada a seus pés, sob a base da lança,
A helênia capital, sábia e inteira, delira.

Todo o que olha, em respeito, aqueles trinta e nove
Pés de altura de Atena, evoca os tempos, quando,
Assim bela, ao surgir da cabeça de Jove,
Pela glória da Hélade andara batalhando.

O gesto, a calma, o olhar, a firmeza do porte,
A face do broquel e a lança em que se apoia,
Dizem bem quem levou o estrago, a angústia, a morte,
Pelo braço do grego, às falanges de Troia.

A audácia de Patroclo e a doida valentia
Da heroica multidão que os impérios invade,
Vieram da proteção e da Sabedoria
Da Senhora Imortal da Grécia e da Cidade.

E ei-la, ali, bela e só, como vinda doutra era
Ao báratro sem fim das misérias terrenas,
Para ver, e abençoar com a presença severa,
As conquistas da Grécia e a grandeza de Atenas.

O lábio que inspirara o discurso de Ulisses
E da nau de Jasão dera o modelo novo,
Era ali, belo e moço, austero e sem meiguices,
Mas, na sua mudez, a beijar seu povo.

De repente, porém, olhando o escudo sobre
O alvo pulso de Atena, alguém, afeito a insídias,
Espantado, e a gritar, à multidão descobre,
Na face de broquel, a figura de Fídias.

O soberbo escultor, na alta febre que o inspira,
No seu orgulho hostil, de artista intemerato,
Mão tremente, olhar louco, em delírio, esculpira,
No divino broquel, seu humano retrato.

***

Assim, ó sonhador, que te acolhes na dobra
Do amplo manto de Apolo, e erras, em sonhos, a esmo,
Deixa sempre, insolente, impresso na tua obra,
Um traço da tu’alma e um pouco de ti mesmo.

Esquece, ao trabalhar, as humanas perfídias,
Mostra o teu coração, esculpe a tua ideia:
Como, outrora, imortal, o retrato de Fídias
Gravado no broquel de Palas Ateneia!

In: CAMPOS, Humberto de. Poesias Completas. Rio de Janeiro: W. M. Jackson Inc., 1951. (Obras Completas, 1). p. 215-217. Ortografia atualizada.


O autor:
Humberto de Campos Veras nasceu em Miritiba (atual Humberto de Campos), Maranhão, em 5/10/1886 e faleceu no Rio de Janeiro em 5/12/1934. Foi membro da Academia Brasileira de Letras. Mais sobre o autor: https://pt.wikipedia.org/wiki/Humberto_de_Campos.

Santarém, PA, 16/7/2016.

Leia e curta também no Blogspot.

Salomé [poema de Martins Fontes]

11560-the-dance-of-salome-benozzo-gozzoli
Benozzo Gozzoli, “A dança de Salomé e a decapitação de São João Batista” (1461-62). Fonte: https://figurasdaficcao.wordpress.com

SALOMÉ

Martins Fontes (1884-1937)

Paráfrase de Catulle Mendès*

Ora, em Maqueros, perto da
Terra sagrada de Judá,
Num dia do mês de Shebat*,

O tetrarca da Galileia,
Filho de Herodes da Idumeia,
Reúne em magnífica assembleia,

Vitélio e vários dentre os seus
Homens e amigos galileus,
E os sacerdotes do seu Deus,

E honra o procônsul dos romanos,
Dando um banquete aos soberanos,
No dia egrégio dos seus anos.

A sala imensa do festim
É toda feita de algumim
Tauxiado de ouro e de marfim.

A mesa augusta ergue-se ao lado,
E assenta sobre um largo estrado,
Que é de sicômoro lavrado.

Turbando as chamas e os metais,
Sobem as fúmeas espirais
Dos incensários aromais.

Brilham os sifos dos convivas
E altas crisendetas* festivas
Cheias de figos e de olivas.

Veem-se amêndoas de Belém.
E as áureas ânforas contêm
Os vinhos róseos de Siquém.

Pela extensão da mesa nobre,
Por entre palmas, se descobre
A neve em cíatos de cobre.

Servem-se polmes de açafrol,
Romãs e tâmaras de Escol,
Bolos de melro e rouxinol.

Em cismas lúgubres absorto,
Antipas vê, de longe, o porto
Tranquilo e triste do mar Morto.

E o seu cismar enche-se de
Sombras horríficas, porque
A morte próxima prevê.

Contudo, às vezes conversando,
Disfarça as mágoas; porém, quando
Vai o banquete terminando,

O velário de um pavilhão
Se abre: Herodes no salão
Surge entre anêmonas, então.

E erguendo a pátera florida,
Diante da sala comovida,
Declama: “A César, longa vida!”

É nesse instante triunfal,
Exatamente no final
Do ágape esplêndido e fatal,

Que, do fundo das galerias,
Num incêndio de pedrarias,
Desponta a filha de Herodias.

E ao som de mandora e quinor,
Num flavescente resplendor
De gemas de Sirinagor,

Entre os aplausos do delírio,
Virgem e leve como um lírio,
Entra dançando ao modo assírio.

Fascinadora, Salomé
Levanta o véu, que desce até
À asa recurva do seu pé.

E em torcicolos coleantes,
E na volúpia das bacantes,
Tine as crotálias ressoantes.

Ri-se, e na dança tem o dom
De deslumbrar, variando com
A ondulação de cada som.

Gira em volteios colubrinos*,
Lentos, elásticos, felinos,
Ao retumbar dos tamborinos.

Em tentadora inebriez,
Mostra a morena calidez
Doirada e bíblica da tez.

Chega-se a Antipas, e recua…
Ascende aos poucos, e flutua,
Maravilhosa e seminua…

Avança e foge, e vem e vai,
Ondula, e ala-se, e recai
Em posição de quem atrai…

Seu corpo nimba-se envolvido
Por um translúcido tecido,
Que é como um fluido colorido.

No desvario que a seduz,
As mil imagens reproduz
Da flor, dos pássaros, da luz!

Arfam na graça dos coleios,
Nos redopios e meneios,
Os pomos pulcros dos seus seios…

Ante o seu mágico poder,
Diz-lhe o tetrarca sem conter
O entusiasmo do prazer:

– “Pede-me tudo o que quiseres!
Qual a província que preferes,
Flor luminosa entre as mulheres?”

– “Tu és tão bela que nenhum
Prêmio te paga! E só por um
Beijo, eu te dou Cafarnaum!”

E ela, infantil, em voz que freme,
Assim lhe diz: “Dá-me em estreme…”
Murmura um nome… E Herodes treme!

Pede que não, e exora… Mas
A sala ordena pertinaz:
– “Tu prometeste – e tu darás!”

Depois, num grande prato de ouro,
Entre as aclamações em coro,
Com os olhos úmidos de choro,

Nas mãos de um fâmulo idumeu,
Diante do povo galileu,
De Iocanã* apareceu,

Bruta, a cabeça ensanguentada,
Que, pelo gume de uma espada,
Fora do tronco separada.

Da sua pálpebra, a fulgir
Como uma hidrófana de Ofir,
Vê-se uma lágrima cair…

Ante essa lágrima tristonha,
Herodes julga a voz medonha
Ainda escuta, como quem sonha…

Ouve dizer-lhe Iocanã!
– “Tetrarca impuro, a vida é vã,
E a tua amante é tua irmã!”

Serena, a lágrima resvala,
Tremula e cai. E toda a sala,
Cheia de espanto e horror, se cala.

Mas Salomé, flor de Engadi,
Ao Precursor, num frenesi,
Diz: “Por que choras?” E sorri.

E ele responde: – “A causa desta
Última lágrima funesta,
É ter chegado tarde à festa…

“Pois me fizeste, a meu pesar,
Por tanto tempo demorar,
Que não te pude ver dançar…”

In: MARTINS FONTES, José. Verão. 4ª edição, comemorativa do centenário de nascimento do autor. Rio de Janeiro: Cátedra; Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1983. p. 92-97.


Notas:

1- José Martins Fontes, poeta brasileiro (1884/1937), nasceu e faleceu na cidade de Santos, SP. Formou-se em medicina no Rio de Janeiro, foi médico sanitarista e esteve na Amazônia a serviço do governo brasileiro. Mais sobre Martins Fontes: https://pt.wikipedia.org/wiki/Martins_Fontes.

2- Este poema de Martins Fontes – conforme informado mais acima – é uma paráfrase ou recriação do poema “La gloire de Salomé ou Le madrigal de saint Jean” do francês Catulle Mendès (1841-1909), constante do livro Les Braises du Cendrier (1909). O poema original francês de Mendès tem 58 versos, agrupados em 19 tercetos e um verso solto, o último; este de Martins Fontes tem 135 versos, postos em 45 tercetos. O texto de Mendès pode ser lido aqui: http://www.mediterranees.net/mythes/salome/divers/mendes.html.

3- A ortografia foi atualizada para a que temos em vigor no momento, conforme o Acordo Ortográfico. Corrigi possíveis erros tipográficos da edição consultada, os quais possivelmente vinham já das edições anteriores de Verão. As notas seguintes tratam de alguns termos que requerem explicações mais detalhadas.

4- Shebat – Consta no original como Schebat. É o 11º mês do calendário hebraico, tem 30 dias e inicia-se em fins de fevereiro.

5- Crisendeta – Não encontrei em dicionários. Do latim chrysendeta, -orum, designa uma espécie de prato ornado, cinzelado em ouro. Trata-se aqui, portanto, de uma travessa ou baixela luxuosa, de fino lavor. Conferir http://www.dicolatin.com/FR/LAK/0/CHRYSENDETA/index.htm.

6- Colubrinos – Consta no original como columbrinos (sic), possível erro de transcrição ou tipográfico.

7- Iocanã – Outra forma do nome João. Consta no original como Iaokanann (sic). É originária do hebraico יוחנן (Yôḥānān), forma reduzida de יהוחנן (Yəhôḥānān). É possível que o autor tenha adotado este nome, ao invés de João, por motivos de métrica. No poema de Mendès, fonte deste, a forma usada é Jean, equivalente francês de João. A forma portuguesa e muitas presentes em línguas modernas vieram do latim Ioannes, por sua vez adaptado do grego neotestamentário Ιωάννης (Ioánnis), originário também do hebraico.

8- O episódio do festim de Herodes, dança de Salomé e decapitação de João Batista é narrado no Evangelho de Mateus, capítulo XIV, versículos 1 a 12, e no de Marcos, capítulo VI, versículos 14 a 29. É uma narrativa bastante conhecida no Ocidente, tendo servido de inspiração a muitas obras de arte.

Santarém, PA, 13/7/2016.

Leia e curta também no Blogspot.