Gritos Estrangulados

GRITOS ESTRANGULADOS
(Strangolitaj Krioj)

Julius Balbin (1917-2006)

Passamos a noite inteira seguros,
amparando um ao outro com ternura,
escondidos numa pequena câmara
atrás de pesadíssimo armário.

Amanheceu com a ameaça da morte
que rugia dos alto-falantes
a todos os moradores do gueto escondidos.
Emboscados pelo pânico,
tremendo, caminhamos das portas
para as ruas cinzentas
onde fomos, em meio a uma multidão aterrorizada,
capturados pelos homens da SS
e policiais judeus
que nos batiam com coronhas e chicotes.

Em nosso pânico e terror
nós corríamos caoticamente,
mas as coronhas e chicotes
separaram-nos em duas colunas.

Minha mãe e eu,
ainda agarrados um ao outro,
fomos separados
pelo chicote de um judeu.

Apenas um golfar
de obscenidades alemãs
rompia o silêncio
de gritos estrangulados.

Entre os cativos
ninguém sabia
qual das duas colunas
seria agora transportada
às distantes fábricas da morte.

Ainda consigo ver
através da bruma de lágrimas
o rosto de minha mãe,
submetida, assim como
seu gesto desesperado
para que eu ficasse tranquilo.

(Traduzido do esperanto por Júlio César Pedrosa.)

BALBIN, Julius. Strangolitaj krioj. In: Imperio de l’ koroj. Du poemaroj. Pizo, Italujo [Pisa, Itália]: Edistudio, 1989. p. 174-175.

Janusz Korczak

Foto: Monumento
“Korczak e as Crianças do Gueto”, escultura de Boris Saktsier (Museu do Holocausto, Yad Vashem, Jerusalém, Israel). Fotografia de Berthold Werner (Fonte: Wikipedia).

O Dia do Professor veio e passou. Eu não ia publicar nada sobre isso, já que a Internet e as redes sociais se encheram de publicações diversas, muitas delas melosas e algumas até jocosas, sobre educação, professores, escolas etc. Mas hoje me lembrei da história de uma figura heroica, lendária até: Janusz Korczak, pedagogo judeu polonês que pereceu no campo de concentração de Treblinka em 1942.

Não vou discorrer sobre a obra de Korczak, pois não sou professor nem pedagogo; nem vou contar a história de sua vida, pois o artigo sobre ele na Wikipedia (inclusive em português) apresenta bastante informação.

Mas os fatos que lhe ocorreram no fim da vida valem uma reflexão.

Ao ser confinado no infame Gueto de Varsóvia, Janusz Korczak era já um pedagogo, professor e escritor reconhecido e respeitado, autor de 24 livros e cerca de 1.400 textos publicados em revistas. Editou periódicos e teve programa no rádio. Em 1937, pelo conjunto de sua obra, foi laureado com um prêmio da Academia Polonesa de Literatura. Um currículo que causaria inveja numa lista de indicados ao Prêmio Nobel, mas que de nada lhe valeu contra a crueldade da guerra.

No gueto, Korczak e outros professores eram responsáveis por cerca de 200 crianças órfãs.

Em 5 ou 6 de agosto de 1942, o Gueto de Varsóvia foi evacuado pelos alemães e Korczak se recusou a fugir, pois não queria abandonar as crianças. Ele e seus colaboradores permaneceram com elas até o fim. Korczak ficou ao lado de suas crianças, com elas foi deportado a Treblinka e com elas pereceu.

Morreu fiel àquilo que defendeu por toda a vida.

Glória imortal à memória de Janusz Korczak e daqueles, famosos ou anônimos, que trataram e tratam a educação como coisa séria!

E vergonha, execração, anátema a todos aqueles que, principalmente no Brasil, transformaram a educação em caso de polícia…

Mais sobre Janusz Korczak: https://pt.wikipedia.org/wiki/Janusz_Korczak

Santarém, Pará, 17/10/2015.

Tropa ou tropas? OMAC explica!

OMAC6
Capa do número 6 de OMAC, julho-agosto de 1975. Fonte: Wikipédia.

OMAC (One Man Army Corps, “Exército de Um Só Homem”) é uma personagem futurista de histórias em quadrinhos, criação de Jack Kirby para a DC Comics. Kirby foi um dos mais talentosos e prolíficos artistas do ramos das HQs e sempre gostei de sua arte de traço inconfundível. (Podem exprobrar-me os americanófobos: gosto de quadrinhos americanos… mas só dos clássicos!)

Mas esta postagem não tem nada que ver com HQs. É que sempre me lembro de OMAC quando deparo com certo tipo, cada vez mais frequente, de erro de tradução.

Ocorreu-me isso recentemente ao ver o documentário A II Guerra Mundial Vista do Espaço, no canal History 2; ao citar a invasão da fronteira ocidental da União Soviética pelo exército alemão, o locutor diz: “Num front de mais de 2.900 km, 4 milhões de TROPAS alemãs invadem a URSS ao mesmo tempo”.

4 milhões de tropas! É muito ou pouco? É muito, mas parece que pode ser muito mais… de acordo com o pensamento de quem traduziu isso.

A palavra portuguesa tropa tem valor coletivo, refere-se a um grupo – de soldados, neste caso. Uma tropa pode ser um pelotão, uma companhia ou bateria, um batalhão ou esquadrão, uma brigada, uma divisão ou um exército inteiro; mas nunca um só indivíduo. O Dicionário Eletrônico Caldas Aulete dá diversas acepções para a palavra tropa, todas com valor coletivo, nunca referente a um só indivíduo. Não consigo entender como se continua a cometer esse erro grosseiro.

Se considerarmos que os 4 milhões de tropas referem-se a pelotões (dos grupos citados, o menor, com cerca de 30 indivíduos), a União Soviética teria sido invadida por cerca de 120 milhões de soldados, número muito maior que toda a população alemão de antes da II Guerra, que talvez fosse de uns 80 milhões. Ainda que fossem grupos de combate de cerca de 10 elementos, ainda seriam 40 milhões de soldados, número também exagerado.

O número se refere, de fato, ao contingente de militares contados individualmente; eram, portanto, 4 milhões de homens, não 4 milhões de tropas. E o mesmo erro de tradução de tropa se repetiu outras vezes; fiquei enfadado e nem vi o filme até o fim. O canal History realmente não aprende! E continua a desapontar-me, pois o mesmo erro tem ocorrido em outros programas de temática semelhante. Esse canal de TV dos Estados Unidos talvez seja bom em history (há controvérsias!); mas quando se trata de language

Por isso, lembremo-nos: uma tropa é um conjunto; 30 soldados não são 30 tropas, são 1 tropa de 30 soldados.

Somente na ficção científica existe tropa de um homem só…

Santarém, Pará, 24/10/2014. Editado em 4/9/2015.