O que Jesus (não) disse… e o que (não) se pôs no papel

EHRMAN, Bart D. O que Jesus disse? O que Jesus não disse?: Quem mudou a Bíblia e por quê. Rio de Janeiro: Pocket Ouro, 2008. 309 p.
[Misquoting Jesus: The story behind who changed the Bible and why. Harper One, 2005.]

o_que_jesus_disse_o_que_jesus_nao_disse_1323213558bLivro muito interessante e instrutivo… e para pessoas de mente aberta!

O autor, Bart D. Ehrman, é um grande especialista e divulgador científico dos métodos de crítica textual aplicados aos textos bíblicos, principalmente os manuscritos do Novo Testamento em grego. Os mais antigos são do século IV, portanto cerca de 300 anos depois dos eventos narrados – nenhum manuscrito conhecido é autógrafo, ou seja, o papiro ou pergaminho original. Existem apenas cópias das cópias das cópias das cópias das cópias das cópias…

Segundo o autor, já foram catalogados pelos especialistas mais de 5.700 manuscritos neotestamentários em grego, desde simples versículos isolados até coleções inteiras do Novo Testamento; nenhum códice é idêntico a outro, e os cálculos levam a mais de 400.000 variantes!

A maior parte delas diz respeito a erros de grafia, inversão acidental de termos ou frases, troca de letras, escorregões, deslizes da pena por pouco conhecimento da escrita, fadiga, enfado… São erros que não afetam a compreensão do texto.

Os problemas estão nas variantes propositais, feitas para direcionar o texto para a defesa ou condenação das diversas vertentes do cristianismo concorrentes nos primeiros séculos da Era Cristã (ou Era Comum).

O Deus cristão era o mesmo Deus dos judeus ou era outro? Jesus era humano, divino ou ambas as coisas ao mesmo tempo? Tinha um corpo humano ou apenas aparente? Como era/deveria ser a participação das mulheres na igreja nascente? Os judeus também podiam ser salvos por Cristo? Estas e outras questões mais eram discutidas à saciedade pelos primeiros cristãos e seus detratores pagãos.

Além dos próprios textos, o cristianismo é também baseado em tradições de leitura e interpretação textual: alterações se fixaram nos textos e criaram a religião conhecida hoje; leituras foram feitas, opiniões se firmaram e disso se criaram as bases dos dogmas das igrejas (não apenas a Católica).

Leitura para pessoas de mente aberta – sejam crentes ou agnósticas, católicas ou protestantes – e cientes de que “quem conta um conto, aumenta um ponto”.


Texto publicado originalmente com o título Para Pessoas de Mente Aberta no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/resenhas/3864/edicao:230303.

Santarém, PA, 2/1/2017. Editado em 6/1/2017. Leia e curta também no Blogspot.

A força do perdão

Vai conciliar-te primeiro com teu irmão, e depois vem apresentar a tua oferta.
Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele.
(Mateus V, 24, 25).

Pedro Lameira de Andrade (1880-1938) foi um importante divulgador do espiritismo no Brasil no início do século XX, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, como benemérito e palestrante. Atuou junto a diversas casas espíritas, algumas das quais ajudou a fundar, e foi orador da Federação Espírita do Estado de São Paulo (FEESP) e outras instituições.

Reproduzo abaixo um episódio havido por ocasião de uma palestra de Pedro Lameira de Andrade, conforme narrado por Paulo Alves Godoy no capítulo 32 de seu livro Grandes Vultos do Espiritismo, uma das obras em que o autor traça pequenas biografias de figuras de destaque da doutrina espírita no Brasil e no mundo. Godoy não cita a data, mas suponho que o fato tenha ocorrido na década de 1930.

“Certa ocasião, chegada a hora designada para a realização de uma conferência sobre o tema “O Perdão”, na Sede da Associação “Verdade e Luz”, choveu torrencialmente. Apenas estavam na sede da instituição o orador, Elói Lacerda e outros dois companheiros. Lameira, vendo o salão vazio, aventou a ideia de fazer uma prece e encerrar a reunião, sugestão prontamente repelida pelos presentes. A palestra foi proferida, portanto, como se o salão estivesse repleto. A determinada hora entrou no recinto uma pobre mulher, toda molhada, esperando resguardar-se da chuva.

Assentando-se nas últimas cadeiras, passou a prestar inusitada atenção às palavras do conferencista.

Ao finalizar a palestra, ela aproximou-se do orador e lhe disse: “Graças a Deus entrei nesta casa e ouvi suas palavras. Eu estava decidida a cometer um crime nesta noite. Entretanto, agora compreendo as razões de minha desorientação e vou tomar rumo diferente, vou lutar contra as forças negativas que quase me desviaram do caminho do bem.” Lameira abraçou-a comovido, alegrando-se intimamente pelo fato de ter servido de ponte para que aquela criatura se reencontrasse e viesse a descortinar novos horizontes.”

GODOY, Paulo Alves. Grandes Vultos do Espiritismo. 3ª edição. São Paulo: Edições FEESP, 2011. Capítulo 32.

Santarém, PA, 20/12/2016. Leia e curta também no Blogspot.

O homem de bem segundo Allan Kardec

O HOMEM DE BEM

Allan Kardec (Hippolyte Léon Denizard Rivail, 1804-1869)

3 – O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça, de amor e caridade, na sua maior pureza. Se interroga a sua consciência sobre os próprios atos, pergunta se não violou essa lei, se não cometeu o mal, se fez todo o bem que podia, se não deixou escapar voluntariamente uma ocasião de ser útil, se ninguém tem do que se queixar dele, enfim, se fez aos outros aquilo que queria que os outros fizessem por ele.

Tem fé em Deus, na sua bondade, na sua justiça e na sua sabedoria; sabe que nada acontece sem a sua permissão, e submete-se em todas as coisas à sua vontade.

Tem fé no futuro, e por isso coloca os bens espirituais acima dos bens temporais.

Sabe que todas as vicissitudes da vida, todas as dores, todas as decepções, são provas ou expiações, e as aceita sem murmurar.

O homem possuído pelo sentimento de caridade e de amor ao próximo faz o bem pelo bem, sem esperar recompensa, paga o mal com o bem, toma a defesa do fraco contra o forte e sacrifica sempre o seu interesse à justiça.

Encontra sua satisfação nos benefícios que distribui, nos serviços que presta, nas venturas que promove, nas lágrimas que faz secar, nas consolações que leva aos aflitos. Seu primeiro impulso é o de pensar nos outros., antes que em si mesmo, de tratar dos interesses dos outros, antes que dos seus. O egoísta, ao contrário, calcula os proveitos e as perdas de cada ação generosa.

É bom, humano e benevolente para com todos, sem distinção de raças nem de crenças, porque vê todos os homens como irmãos.

Respeita nos outros todas as convicções sinceras, e não lança o anátema aos que não pensam como ele.

Em todas as circunstâncias, a caridade é o seu guia. Considera que aquele que prejudica os outros com palavras maldosas, que fere a suscetibilidade alheia com o seu orgulho e o seu desdém, que não recua à ideia de causar um sofrimento, uma contrariedade, ainda que ligeira, quando a pode evitar, falta ao dever do amor ao próximo e não merece a clemência do Senhor.

Não tem ódio nem rancor, nem desejos de vingança. A exemplo de Jesus, perdoa e esquece as ofensas, e não se lembra senão dos benefícios. Porque sabe que será perdoado, conforme houver perdoado.

É indulgente para as fraquezas alheias, porque sabe que ele mesmo tem necessidade de indulgência, e se lembra destas palavras do Cristo: “Aquele que está sem pecado atire a primeira pedra”.

Não se compraz em procurar os defeitos dos outros, nem a pô-los em evidência. Se a necessidade o obriga a isso, procura sempre o bem que pode atenuar o mal.

Estuda as suas próprias imperfeições, e trabalha sem cessar em combatê-las. Todos os seus esforços tendem a permitir-lhe dizer, amanhã, que traz em si alguma coisa melhor do que na véspera.

Não tenta fazer valer o seu espírito, nem os seus talentos, às expensas dos outros. Pelo contrário, aproveita todas as ocasiões para fazer ressaltar a vantagens dos outros.

Não se envaidece em nada com a sua sorte, nem com os seus predicados pessoais, porque sabe que tudo quanto lhe foi dado pode ser retirado.

Usa mas não abusa dos bens que lhe são concedidos, porque sabe tratar-se de um depósito, do qual deverá prestar contas, e que o emprego mais prejudicial para si mesmo, que poderá lhes dar, é pô-los ao serviço da satisfação de suas paixões.

Se nas relações sociais, alguns homens se encontram na sua dependência, trata-os com bondade e benevolência, porque são seus iguais perante Deus. Usa sua autoridade para erguer-lhes a moral, e não para os esmagar com o seu orgulho, e evita tudo quanto poderia tornar mais penosa a sua posição subalterna.

O subordinado, por sua vez, compreende os deveres da sua posição, e tem o escrúpulo de procurar cumpri-los conscientemente. (Ver cap. XVII, nº 9.)

O homem de bem, enfim, respeita nos seus semelhantes todos os direitos que lhes são assegurados pelas leis da natureza, como desejaria que os seus fossem respeitados.

Esta não é a relação completa das qualidades que distinguem o homem de bem, mas quem quer que se esforce para possuí-las, estará no caminho que conduz às demais.

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de José Herculano Pires. Capítulo XVII, 3. Disponível em: <https://evangelhoespirita.wordpress.com/>.


Nota:
Considero este trecho um dos mais emblemáticos e representativos do aspecto moral do pensamento de Allan Kardec. É uma descrição ou roteiro que pode ser seguido por qualquer pessoa, independentemente de convicções religiosas.
Depois de ver na Internet – e principalmente nas redes sociais – tantas pessoas a declarar-se “homens ou mulheres de bem”, “gente de bem”, “cidadãos de bem” (ou seria de ben$?), tenho a impressão de que o epíteto de bem está na moda, pelo que decidi compartilhar este trecho como contribuição para discussão sobre conceito tão deturpado.

Santarém, PA, 7/12/2016. Leia e curta também no Blogspot.