Vacas gordas e espigas cheias

Documentário do canal History fala sobre escavações arqueológicas na ilha de Gozo, em Malta: descobertos restos de templos e sepulcros de cerca de 2400 a.C. Uma mudança climática parece ter afetado o frágil equilíbrio do ecossistema em que vivia o “povo dos templos”, levando ao seu desaparecimento.
Os achados mostram que, assim como em outras civilizações do passado, os templos desse povo antigo eram usados como armazéns para estoque de alimentos, distribuídos ao povo em épocas de vacas magras e espigas mirradas.
Que evolução tivemos desde então: hoje os templos acumulam dinheiro, mas para benefício apenas dos líderes das seitas: para estes as vacas são sempre gordas, e as espigas são cheias…

Penitência de Canossa

https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Penit%C3%AAncia_de_Canossa?wprov=sfla1

O que Jesus (não) disse… e o que (não) se pôs no papel

EHRMAN, Bart D. O que Jesus disse? O que Jesus não disse?: Quem mudou a Bíblia e por quê. Rio de Janeiro: Pocket Ouro, 2008. 309 p.
[Misquoting Jesus: The story behind who changed the Bible and why. Harper One, 2005.]

o_que_jesus_disse_o_que_jesus_nao_disse_1323213558bLivro muito interessante e instrutivo… e para pessoas de mente aberta!

O autor, Bart D. Ehrman, é um grande especialista e divulgador científico dos métodos de crítica textual aplicados aos textos bíblicos, principalmente os manuscritos do Novo Testamento em grego. Os mais antigos são do século IV, portanto cerca de 300 anos depois dos eventos narrados – nenhum manuscrito conhecido é autógrafo, ou seja, o papiro ou pergaminho original. Existem apenas cópias das cópias das cópias das cópias das cópias das cópias…

Segundo o autor, já foram catalogados pelos especialistas mais de 5.700 manuscritos neotestamentários em grego, desde simples versículos isolados até coleções inteiras do Novo Testamento; nenhum códice é idêntico a outro, e os cálculos levam a mais de 400.000 variantes!

A maior parte delas diz respeito a erros de grafia, inversão acidental de termos ou frases, troca de letras, escorregões, deslizes da pena por pouco conhecimento da escrita, fadiga, enfado… São erros que não afetam a compreensão do texto.

Os problemas estão nas variantes propositais, feitas para direcionar o texto para a defesa ou condenação das diversas vertentes do cristianismo concorrentes nos primeiros séculos da Era Cristã (ou Era Comum).

O Deus cristão era o mesmo Deus dos judeus ou era outro? Jesus era humano, divino ou ambas as coisas ao mesmo tempo? Tinha um corpo humano ou apenas aparente? Como era/deveria ser a participação das mulheres na igreja nascente? Os judeus também podiam ser salvos por Cristo? Estas e outras questões mais eram discutidas à saciedade pelos primeiros cristãos e seus detratores pagãos.

Além dos próprios textos, o cristianismo é também baseado em tradições de leitura e interpretação textual: alterações se fixaram nos textos e criaram a religião conhecida hoje; leituras foram feitas, opiniões se firmaram e disso se criaram as bases dos dogmas das igrejas (não apenas a Católica).

Leitura para pessoas de mente aberta – sejam crentes ou agnósticas, católicas ou protestantes – e cientes de que “quem conta um conto, aumenta um ponto”.


Texto publicado originalmente com o título Para Pessoas de Mente Aberta no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/resenhas/3864/edicao:230303.

Santarém, PA, 2/1/2017. Editado em 6/1/2017. Leia e curta também no Blogspot.