Anacronismo magiar

Coisa que (ainda) muito me espanta é ver pessoas instruídas dizendo coisas absurdas, principalmente anacronismos, isto é, ideias e conceitos fora de seu contexto histórico. Se gente que estudou nas melhores escolas brasileiras diz coisas que tais…

Numa TV do tipo news, um conhecido empresário brasileiro, filho de húngaros, dá entrevista sobre sua vida e profissão. Diz que seu pai chegou ao Brasil após a II Guerra Mundial e só falava húngaro e alemão, pois lá “a segunda língua não era o inglês, mas o alemão”, como ele sabiamente nos informa. Nosso empresário de sucesso acrescenta que, além do português e do inglês, fala também húngaro, que aprendeu em casa.

Não vou comentar que ele diz ser o húngaro um idioma que “não tem utilidade nenhuma, falado por 11 milhões de pessoas, 10 milhões delas na Hungria”.

Húngaros já foram laureados 12 vezes com o Prêmio Nobel, sendo 1 deles o de Literatura. Se o húngaro é inútil, como afirma nosso célebre amigo, que dizer de línguas com menos falantes, como o estoniano, o letão ou o frísio? E as línguas indígenas brasileiras? As australianas? As de Papua Nova Guiné? As da África?

Prefiro o personagem José Costa do romance Budapeste, de Chico Buarque, o qual diz que “o húngaro é a única língua que o Diabo respeita”. Uma saída mais esperta – acho eu.

Mas o que me interessa aqui é outra coisa.

O inglês só se tornou este fenômeno que conhecemos após a II Guerra; até então, apesar do poderio do Império Britânico e da crescente dominação político-econômica dos EUA, a língua inglesa era bem menos influente. O francês era a língua da diplomacia e da cultura; regionalmente, outras línguas exerciam as mesmas funções, como o alemão na Europa Oriental e Bálcãs.

Não se tratava de capricho. Não tinha sido uma escolha por meio de plebiscito, com a disputa entre inglês e alemão e vitória deste idioma. Não foi resultado de grupo de trabalho ou medida provisória do Ministério da Educação da Hungria. A explicação vem da história.

Até a I Guerra Mundial, a Hungria fez parte do Império Austríaco, eufemisticamente conhecido como Império Austro-Húngaro (que de húngaro tinha pouco ou nada, pois era só austro, dominado pelos Habsburgos de Viena). O alemão austríaco era a língua do governo, da administração, do comércio e da indústria, da instrução, da ciência, das discussões no parlamento. No âmbito da Áustria-Hungria, todas as pessoas instruídas falavam alemão, não importando sua origem étnica.

Não era por outro motivo que um tcheco chamado Franz Kafka escrevia em alemão, e não em tcheco (Boêmia, Morávia e Eslováquia também eram parte do Império da Áustria).

Por muito tempo o alemão foi a segunda língua dos húngaros instruídos. Não creio que o deslocamento da Hungria para a órbita da União soviética e o crescente prestígio do russo junto ao governo e a intelligentsia dos países da Cortina de Ferro tenham mudado muito isso; o inglês como segunda língua é coisa recente, e na Hungria surge, como em outros lugares, há uns 25 anos, após a queda do comunismo.

Falar em inglês como segunda língua num contexto em que isto não seria possível é um grande, um tremendo anacronismo. Quem ouve nosso empresário dizendo tal coisa (ainda que tenha saído meio sem pensar) acha que naquela época havia opções e os húngaros resolveram ir contra a tendência do mundo livre!

Não duvido de que logo apareça um sabichão dizendo que a correspondência diplomática entre egípcios e hititas nos séculos XIV e XIII antes de Cristo era feita em acadiano, com escrita cuneiforme e suporte de tabuletas de argila, apenas porque nas chancelarias de Tebas e Hattusa não havia quem soubesse inglês. Ou que a expansão do latim pela Europa Ocidental, com o posterior surgimento das línguas neolatinas, ocorreu porque os gauleses, francos, iberos e lusitanos achavam o inglês muito difícil…

Santarém, PA, 26/9/2016.

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O beijo segundo Cyrano de Bergerac

Um beijo? Mas que vem a ser um beijo ao certo?
É um juramento feito um pouco mais de perto,
É uma confissão de amor, que bem depressa
Queremos confirmada. O beijo é uma promessa,
É um segredo que toma a boca pelo ouvido,
Momento divinal, que faz como um zumbido
Caricioso de abelha. O beijo, meu amor,
É uma comunhão, tendo gosto de flor,
Maneira deliciosa e maneira inebriante
De haurir-se todo o aroma a um coração amante,
E de gozar-se uma alma, à flor de uns lábios quentes.

Edmont Rostand, Cyrano de Bergerac, Ato III, Cena X. Tradução de Ricardo Gonçalves.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês. São Paulo: Monteiro Lobato e Cia., [1921]. p. 104.

Santarém, PA, 23/9/2016.

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