Gritos Estrangulados

GRITOS ESTRANGULADOS
(Strangolitaj Krioj)

Julius Balbin (1917-2006)

Passamos a noite inteira seguros,
amparando um ao outro com ternura,
escondidos numa pequena câmara
atrás de pesadíssimo armário.

Amanheceu com a ameaça da morte
que rugia dos alto-falantes
a todos os moradores do gueto escondidos.
Emboscados pelo pânico,
tremendo, caminhamos das portas
para as ruas cinzentas
onde fomos, em meio a uma multidão aterrorizada,
capturados pelos homens da SS
e policiais judeus
que nos batiam com coronhas e chicotes.

Em nosso pânico e terror
nós corríamos caoticamente,
mas as coronhas e chicotes
separaram-nos em duas colunas.

Minha mãe e eu,
ainda agarrados um ao outro,
fomos separados
pelo chicote de um judeu.

Apenas um golfar
de obscenidades alemãs
rompia o silêncio
de gritos estrangulados.

Entre os cativos
ninguém sabia
qual das duas colunas
seria agora transportada
às distantes fábricas da morte.

Ainda consigo ver
através da bruma de lágrimas
o rosto de minha mãe,
submetida, assim como
seu gesto desesperado
para que eu ficasse tranquilo.

(Traduzido do esperanto por Júlio César Pedrosa.)

BALBIN, Julius. Strangolitaj krioj. In: Imperio de l’ koroj. Du poemaroj. Pizo, Italujo [Pisa, Itália]: Edistudio, 1989. p. 174-175.

Raimundo Correia, poeta e… juiz!

Pouca gente sabe que o grande poeta Raimundo Correia (1859-1911) foi também juiz.

O “causo” abaixo foi narrado por Medeiros e Albuquerque e recontado por Humberto de Campos. É um alento em época de desconfianças judiciais… 😉

ESCRÚPULO DE JUIZ

“Raimundo Correia era de um escrúpulo doentio ao lavrar as suas sentenças de juiz. Certa vez, foi ter-lhe às mãos um processo movido contra Medeiros e Albuquerque por um fornecedor que pretendia receber duas vezes uma conta de novecentos mil réis. Chamado à casa do poeta magistrado, Medeiros encontrou-o abatido, desolado.
– Sabes – comunicou-lhe Raimundo -, há nove noites não durmo por causa deste processo. Vou jurar suspeição.
– Mas, pelos autos, eu tenho ou não tenho razão?
– A conclusão que eu tiro – informou o autor do “Mal Secreto” – é que a razão está contigo. E aí é que está o meu escrúpulo.
– ?…
– Há nove noites eu pergunto a mim mesmo: mas eu acho que o Medeiros tem razão porque tem mesmo, ou é porque o Medeiros é meu amigo?
E passou adiante a papelada.”

(Humberto de Campos, O Brasil Anedótico – conforme Medeiros e Albuquerque, “Discurso na Academia Brasileira de Letras”)