Lusia [poema de Julius Balbin]

LUSIA

Julius Balbin (1917-2006)
Traduzido do esperanto por Júlio César Pedrosa

Ela era minha vizinha
antes da guerra –
e aos catorze anos
eu em segredo sonhava com ela,
enamorado de seus
negros olhos ardentes
e sua voz de veludo
cheia de amor.

E nada resta dela
além de sua roupa rasgada
e flocos de sangue
que a terra absorve.

Porque ela teve a audácia
de dirigir a palavra a um jovem guarda da SS,
o chefe do campo de concentração
ordenou
lançá-la
na jaula
de seus amados cães assassinos.

Em poucos minutos
sua carne foi devorada
e seus ossos quebrados,
e nada mais restou
além de minhas lembranças
e lágrimas
absorvidas pela terra,
que nós ambos dividimos
com os assassinos
humanos e caninos.

Ela era minha vizinha
antes da guerra…
com seus
negros olhos ardentes
e voz de veludo
cheia de amor.

1980

BALBIN, Julius. Lusia. In: Imperio de l’ Koroj: Du Poemaroj. Pizo, Italujo [Pisa, Itália]: Edistudio, 1989. p. 162-163.

O autor:
balbin-imperio-001Julius Balbin (1917-2006) nasceu em Cracóvia, Polônia, no seio de uma família judia. Foi preso pelos alemães e passou por vários campos de concentração. Após o fim da II Guerra Mundial estudou em Viena, Áustria, e emigrou em 1951 para os Estados Unidos da América, onde por muitos anos foi professor universitário, retornando à Europa em 2005. Faleceu em Aye, Bélgica. Publicou vários livros de poemas em esperanto, inglês e polonês.

Mais sobre Julius Balbin:
Em inglês: “Strangled Cries: A profile of poet Julius Balbin” – Alexander Kharkovsky;
Em esperanto: “Julius Balbin” – Wikipedia.

Um artigo de Julius Balbin (em inglês): “The Secret Malady of Esperanto Poetry” (1973).

Santarém, Pará, 8/3/2017. Leia e curta também no Blogspot.

Poema sem Título [Charles Simic]

POEMA SEM TÍTULO
(Poem Without A Title)

Charles Simic
Tradução de Júlio César Pedrosa

Pergunto ao chumbo:
Por que te deixaste
Converter em bala?
Esqueceste os alquimistas?
Abandonaste a esperança
De converter-te em ouro?

Ninguém responde.
Chumbo. Bala. Com nomes
Como estes
O sono é longo e profundo.

Traduzido da versão espanhola de Isaías Garde, a qual junto com o original inglês está disponível aqui:
http://zoonphonanta.blogspot.com.br/2017/01/charles-simic-poema-sin-titulo.html.

O autor: Charles Simic é um poeta estadunidense nascido em Belgrado, Sérvia, em 1938. Emigrou com a família para os EUA em 1954. Mais sobre ele aqui:
https://en.wikipedia.org/wiki/Charles_Simic.

Santarém, PA, 21/1/2017. Leia e curta também no Blogspot.

A ascensão de uma dinastia

francis-fevre-faraoFÈVRE, Francis. Faraó. Tradução de Maria Alice Gelman. São Paulo: Mercuryo, 1990. 291 pp.
[Pharaon. Paris: Presses de la Renaissance, 1987.]

Ao contrário de dois outros livros do autor publicados no Brasil (Faraona de Tebas e O Último Faraó) – os quais eu classifico como documentários históricos –, este livro Faraó de Francis Fèvre é uma obra de ficção, um romance histórico ambientado no Egito de meados do século XVI a.C. E, como todo romance histórico, o autor usa um pano de fundo de fatos ocorridos e documentados – de conhecimento, pois, dos historiadores – para construir sua narrativa, preenchendo lacunas da história com elementos que lhe proporcionem um enredo verossímil, baseado em seu conhecimento do período.

Não é este texto uma análise literária e acadêmica, mas apenas um comentário despretensioso, e anteciparei alguns fatos do enredo, baseados em fatos históricos de conhecimento geral, sem descer aos meandros da narrativa; trata-se de informações que constam dos livros de história e podem ser facilmente encontrados em pesquisas feitas em obras de referência ou na Internet.

O contexto da história do romance Faraó é o seguinte:

No século XVIII a.C., chega ao fim o Reino ou Império Médio do Egito, com a queda da autoridade central do faraó. O Egito fragmenta-se e entra na época que os historiadores chamam II Período Intermediário, com o poder entregue aos príncipes locais, chefes dos nomos ou províncias. Aproveitando a fragmentação do país, os hicsos – povo semita originário de Canaã e Síria – conquista e submete os nomos do norte (Baixo Egito), estabelecendo sua capital em Aváris, no Delta do Nilo. Os reis hicsos adotam o título de faraó e passam a usar a coroa vermelha do Baixo Egito, ameaçando os demais nomarcas.

Até aqui temos os fatos históricos conhecidos. A narrativa do romance começa quando o domínio dos hicsos sobre o Norte já dura cerca de cem anos. Sekenenrê, príncipe de Tebas e mais poderoso nomarca do Alto Egito, prepara pacientemente suas tropas e aliados para invadir o Delta e expulsar os hicsos; ao mesmo tempo, precisa impedir o avanço dos hicsos rumo ao sul, com o intuito de sublevar os núbios contra Tebas, o que poderia dar aos asiáticos o domínio sobre todo o país.

Após as provocações e ameaças de Apópi, rei dos hicsos, Sekenenrê invade o Baixo Egito e é morto em batalha; é sucedido por seu filho Kamés, que assume o trono de Tebas e continua a luta contra os hicsos. Kamés, porém, não reina por muito tempo. Sobe ao trono seu irmão Ahmosis – inicialmente um jovem destinado ao sacerdócio –, que leva Tebas à vitória contra os hicsos, expulsando-os, destruindo sua capital e unificando o Egito novamente sob um único rei.

Inicia-se ali o período conhecido como Novo Império. Ahmosis foi o primeiro soberano e fundador da XVIII dinastia, conhecida como Améssida, a mais vitoriosa do Egito. Sob o governo dos améssidas, as fronteiras do Egito alcançaram sua extensão máxima e o país tornou-se uma potência regional expansionista. Pertencem a essa dinastia soberanos como Tutmés I; a filha deste, faraona Hatshepsut; Tutmés III, o Napoleão Egípcio; Amenhotep (ou Amenófis) IV, mais tarde conhecido como Aquenáton; Tutancâmon; e Horemheb, o último faraó desta linhagem.

No decorrer da narrativa, além das manobras militares, cenas de caçadas e batalhas, cerimônias públicas e festins no harém, tramas e alianças políticas da Núbia à Fenícia, é descrita a vida luxuosa no palácio de Tebas e as muitas intrigas ali presentes; o ódio da mãe de Sekenenrê, Tetishery, contra sua nora Ahhotep e seu neto Ahmosis; as desconfianças de Ahmosis em relação a sua irmã e esposa Nefertari; a forte amizade entre Ahmosis e seu mentor espiritual, o sacerdote Amenhotep, também conselheiro de sua mãe; as tensões com os núbios, envolvidos em guerras tribais que ameaçam a estabilidade da relação de vassalagem com Tebas e, depois, com o Egito reunificado.

Como dito mais acima, o autor usa fatos (nem todos ainda consolidados historiograficamente) da história egípcia para a construção do enredo, preenchendo as lacunas com suposições para uma melhor verossimilhança. Assim se dá, por exemplo, quanto ao grau de parentesco entre Sekenenrê, Kamés e Ahmosis, pois não se sabe com certeza se Kamés e Ahmosis eram irmãos e se eram filhos de Sekenenrê, ou se este era um irmão mais velho de Kamés e pai de Ahmosis.

Outro fato nebuloso e aproveitado no enredo diz respeito às circunstâncias da morte de Sekenenrê. Sua múmia é conhecida e foi estudada por cientistas; os ferimentos no crânio mostram que foi ferido em batalha a golpes de espada ou machado. Além disso, o exame indicou que a mumificação se iniciou com o corpo já em decomposição, o que explica seu estado: supõe-se que o corpo foi resgatado do campo de batalha e demorou a ser embalsamado.

O romance é bom, é bem constituído e tem os fatos bem encadeados. Gostei dele, que é bem escrito e prende a atenção do início ao fim. Teve apenas uma edição no Brasil, podendo ser encontrado agora apenas em sebos, mas com preços convidativos.

Boa leitura e distração garantida para os interessados em boa ficção histórica e no Egito antigo.

(Resenha publicada originalmente no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/resenhas/211718/edicao:237019.)

Santarém, PA, 1º/12/2016. Leia e curta também no Blogspot.

A Cadela de Buchenwald [poema de Julius Balbin]

A CADELA DE BUCHENWALD
OU
RÉQUIEM PARA A PELE

(La Hundulino de Buchenwald aŭ Rekviemo por la Haŭto)

Julius Balbin
Traduzido do esperanto por Júlio César Pedrosa

Rasgada e cheia de cicatrizes das pancadas
e contraída pela fome,
coberta apenas por uma
fétida
camisa
listrada
esfarrapada,
tu eras mais do que somente pele:
eras um brinquedo –
objeto de exibição
para uma curiosidade mórbida.

De todos os demônios
dos infernos de Hitler,
Frau* Ilse Koch,
a vadia de Buchenwald*,
parecia apreciar-te a ti no mais alto grau;
e, particularmente, àqueles entre vós
a portar tatuagens,
que provocavam nela
um espasmo
de ideias vibrantes
de algum desenho
para seus abajures.

Certa vez
ela arranjou uma festa
para comemorar
sua nova exposição.
A mais admirada
pelos membros da SS e pelos guardas
eras tu
tão coloridamente tatuada
com as palavras
HAENSEL UND GRETEL*
brilhando acima da lâmpada.
Sim, pele,
os comentários
e olhares elogiosos deles
teriam sido mais podres
do que tu,
se tu tivesses apodrecido
na terra infestada de vermes.

Requiescat in pacem*,
pele,
as orgias dos bárbaros
acabaram.

1982

BALBIN, Julius. La Hundulino de Buchenwald aŭ Rekviemo por la Haŭto. In: Imperio de l’ Koroj: Du Poemaroj. Pizo, Italujo [Pisa, Itália]: Edistudio, 1989. p. 197-198.


Notas:

1- Frau – Em alemão no original: “senhora”.
2- Buchenwald – Campo de concentração nas proximidades de Weimar, estado da Turíngia (Thüringen), Alemanha.
3- Hansel und Gretel – Nomes alemães dos personagens João e Maria, respectivamente, da fábula de mesmo nome, recolhida e difundida pelos irmãos Grimm.
4- Requiescat in pacem – Em latim no original: “Descansa em paz”; é a origem da abreviação RIP.

O autor:

balbin-imperio-001Julius Balbin (1917-2006) nasceu em Cracóvia, Polônia, no seio de uma família judia. Foi preso pelos alemães e passou por vários campos de concentração. Após o fim da II Guerra Mundial estudou em Viena, Áustria, e emigrou em 1951 para os Estados Unidos da América, onde por muitos anos foi professor universitário, retornando à Europa em 2005. Faleceu em Aye, Bélgica. Publicou vários livros de poemas em esperanto, inglês e polonês.

Mais sobre Julius Balbin:
Em inglês: “Strangled Cries: A profile of poet Julius Balbin” – Alexander Kharkovsky;
Em esperanto: “Julius Balbin” – Wikipedia.

Um artigo de Julius Balbin (em inglês): “The Secret Malady of Esperanto Poetry” (1973).

Santarém, Pará, 29/11/2016. Leia e curta também no Blogspot.

Cinco poemas de Olga Maria Scuoteguazza

CONTENÇÃO

scuoteguazza-001
Capa de Jerônimo Oliveira.

Lava as mãos na pia,
com o sabonete das estrelas.
Depois alisa teimosia e creme sobre o rosto.
No espelho, um riso indisposto é sorrido.
Confere a limpeza dos dentes,
e depois mente
a si própria que tem sono.
Encosta a cabeça tonta, no travesseiro macio.
O corpo é só um fio
de vida exangue.
E as mãos dormem avermelhadamente manchadas.
De beterraba.
Nunca de sangue.

 

SABEDORIA

Sei e conheço de você
involuntariamente
mais que a prova dos noves,
mais que a quinta sinfonia de Beethoven,
mais que análise sintática,
sintaxe,
concordância,
geometria plana,
aritmética.
Mais que a lei da oferta e da procura,
pré-história,
invasão holandesa…

E, por incrível que pareça,
ainda não basta.

 

A NOITE

A noite é uma vigia
de olhos de estrela.
Uma vadia
febril, obscena.
A noite é o dia
no tempo do cio.
A noite é um fio
que eletriza a poesia.
A noite é o dia
vestido no avesso.
A noite é começo
da luz prepotente.
A noite é valente
sem medo do escuro.
O dia é um muro
e atrás vem a noite.
O dia é a pressa
da noite seguinte.
O dia é o ouvinte
das coisas da noite.
O dia é o açoite.
A noite o deleite.
O dia é o aceite.
A noite o revide.
O dia é o dia.
E a noite é à toa.
O dia se vinga.
E a noite perdoa.

 

RELICÁRIO

Na primeira gaveta do armário
no relicário de todos os meus pertences,
guardo uma caixa de afetos permanentes,
prediletos,
como por excelência.
Um outro embrulho
de conteúdo semelhante,
a prata de um quarto minguante,
um poema do pessoa,
e um terço.

E por debaixo da sutil e pessoal riqueza
respaldo a insistência e a firmeza
com que sempre apostei na tua vinda:

Guardo uma toalha de mesa, sem uso,
e um lençol, muito branco, de linho.

 

PAIXÃO

Num determinado instante
teu semblante limpo
me comove à beça.
Teu olhar bonito
me atravessa forte.
Tua íris brinca o meu olhar
em cortes,
tão fundos.
Como uma lua cheia
teu brilho azul passeia
minha surpresa atônita.
Como um flash instantâneo
tua íris faz planos
e conta.
Fotografo, muda,
todos os seus mistérios.
E tonta,
de tantas revelações
a me ocorrer por dentro,
fecho os olhos devagar,
como se houvesse tempo.
E já não há.

In: SCUOTEGUAZZA, Olga Maria. Ensaios de Foyer. São Paulo: Syllaba, 1989. p. 20, 23, 25, 31, 43.

Santarém, PA, 23/11/2016. Leia e curta também no Blogspot.

O beijo segundo Cyrano de Bergerac

Um beijo? Mas que vem a ser um beijo ao certo?
É um juramento feito um pouco mais de perto,
É uma confissão de amor, que bem depressa
Queremos confirmada. O beijo é uma promessa,
É um segredo que toma a boca pelo ouvido,
Momento divinal, que faz como um zumbido
Caricioso de abelha. O beijo, meu amor,
É uma comunhão, tendo gosto de flor,
Maneira deliciosa e maneira inebriante
De haurir-se todo o aroma a um coração amante,
E de gozar-se uma alma, à flor de uns lábios quentes.

Edmont Rostand, Cyrano de Bergerac, Ato III, Cena X. Tradução de Ricardo Gonçalves.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês. São Paulo: Monteiro Lobato e Cia., [1921]. p. 104.

Santarém, PA, 23/9/2016.

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Felisbelo Sussuarana, poeta santarenense

Meu nome é Felisbelo, um nome raro
que muito diz e não revela tudo;
mas, por capricho do destino rudo,
belo não sou nem sou feliz, é claro…
(Felisbelo Sussuarana por ele mesmo)

Em 10 de outubro de 2012 completaram-se 70 anos da morte do poeta santareno Felisbelo Sussuarana, um dos principais nomes da literatura de Santarém no século XX.

Tomei a liberdade de homenageá-lo, falando um pouco sobre esse poeta, músico e professor; citarei apenas uns poucos dados biográficos, seguidos de uma pequena seleta de seus poemas, variando do gênero lírico ao satírico, os quais transcrevi da biobibliografia de Felisbelo publicada por seu filho Felisberto Sussuarana em 1991, ano do centenário de seu nascimento. Trata-se do livro O Mergulho de Felisbelo Sussuarana no Claro-Escuro do Homem e da Obra, que, a exemplo do título, é um estudo exaustivo da vida e da obra de Felisbelo, reunindo também toda a obra conhecida do autor.

Felisbelo Sussuarana em 1942 (reproduzido de SUSSUARANA, 1991).

Felisbelo Jaguar Sussuarana nasceu em Santarém, Pará, em 28 de abril de 1891, filho de Alexandre Alves Sussuarana e Filomena Nóvoa Sussuarana. Teve três irmãos: Raimundo Jaguar, Lena Jaci e Evarinta. Estudou em Belém, não chegando a fazer curso superior; precisou retornar a sua cidade natal e pelo resto da vida foi autodidata, alcançando grande cultura, demonstrada, entre outras coisas, por seu domínio da língua portuguesa.

Casou-se duas vezes: sua primeira esposa foi Raimunda Miranda; desposou, depois de viúvo, Antônia Ceci, em 1929. Teve dez filhos. Foi músico, ator, professor, fundou e dirigiu jornais (e, obviamente, escreveu neles), jogou futebol e foi diretor de clube esportivo, escreveu para teatro e fez letras de canções. Compôs poemas e textos em prosa. Como professor de português, escreveu artigos sobre a língua portuguesa, tendo-se envolvido – ao que parece, com gosto – em polêmicas gramaticais e filológicas, por meio de artigos, que se sucediam, em jornais da região. Em suma: participou ativa e intensamente da vida cultural de Santarém.

Felisbelo Sussuarana enviuvou pela segunda vez em fevereiro de 1942, e meses depois, em 10 de outubro daquele mesmo ano, faleceu. Wilson Fonseca escreveu à época de seu passamento:

“Santarém perdeu o seu mais ilustre filho, o cérebro mais aprimorado e fecundo nascido sob o sol brilhante da formosa “Pérola do Tapajós” (…). Quando já estava acometido da doença que o vitimou, várias visitas fizemos ao querido amigo e dele sempre ouvimos que não se julgava infeliz, pois do povo de sua terra, somente do povo, sempre frisava, recebia o maior conforto, o que muito o alegrava” (apud SUSSUARANA, 1991, p. 87).

Felisbelo Sussuarana foi admirado e respeitado em sua cidade; isto, porém, não lhe possibilitou publicar seus textos na forma mais perene do livro. Sua vasta produção ficou esparsa em diversos jornais e revistas, além do que ficou inédito e se perdeu. O esforço de amigos, admiradores e familiares salvou muitos de seus escritos, dos quais Wilson Fonseca publicou uma seleção na obra Meu Baú Mocorongo (FONSECA, 2006). Seu amigo Paulo Rodrigues dos Santos, também como ele um autodidata e erudito, disse a esse respeito:

“Embora não tenha intenção de trocadilhar, direi que Felisbelo Sussuarana foi um poeta de raça que se perdeu na roça. Se tivesse vivido em meio mais adiantado, os conterrâneos teriam orgulho de ver seu nome nas antologias nacionais. (…) Lamentável não tivesse o escritor mocorongo um parente, um amigo ou um conterrâneo de recursos que tomasse a peito reunir em volumes, arrancando-a do olvido e da destruição total, a fabulosa produção de Felisbelo, que ainda rola pelas páginas esfrangalhadas de antigos jornais, comida das traças, roída das baratas e delida da ação do tempo… Lamentável e triste para a tradição cultural de nossa terra…” (RODRIGUES DOS SANTOS, 1999, p. 410-411).

O próprio Paulo Rodrigues dos Santos viria a passar por algo semelhante: só com a intervenção de Fernando Guilhon, então governador do Pará, pôde ele ver publicada, em 1971, sua monumental obra Tupaiulândia, extenso repositório de fatos históricos e culturais de Santarém.

Antologia – A produção conhecida de Felisbelo veio a público em livro em 1991, ano do centenário de seu nascimento (SUSSUARANA, 1991). É livro hoje esgotado, e a obra de Felisbelo Sussuarana é ainda pouco ou nada conhecida fora do Pará, e parece-me que também em outras regiões deste enorme estado pouco se sabe dela – é claro que os naturais de Santarém a conhecem e a divulgam. Tomei a liberdade de selecionar alguns poemas de Felisbelo e transcrevê-los aqui, para conhecimento, principalmente, dos leitores de língua portuguesa de outras regiões. A seleção que fiz é pessoal, e sei que não agradará a todos; escolhi os poemas de que gosto mais, e tenho certeza de que outros poderão oferecer uma antologia mais representativa da obra do poeta.

Nos textos que transcrevi, conservei o uso, feito pelo autor, de versos iniciados com letra minúscula, pouco comum entre poetas de língua portuguesa.

Tendo-se passado mais de 70 anos da morte de Felisbelo Sussuarana, toda a sua obra é hoje de domínio público, portanto qualquer pessoa ou instituição pode divulgá-la. Espero que as autoridades, inclusive as estaduais – que tanto amam Santarém e o Oeste do Pará, a ponto de nem sequer aceitarem falar em divórcio… –, aproveitem o ensejo para reeditar a obra de Felisbelo Jaguar Sussuarana, pondo-a ao alcance do público leitor, pois todo autor tem o direito de ser lido.

SELETA POÉTICA DE FELISBELO SUSSUARANA

RIO SÍMBOLO
Soberbo flúmen, Tapajós altivo,
de longe vens nesse lutar sem tréguas,
vivo,
vencendo léguas e mais léguas,
ora a espraiar-te
em fúlgidos lençóis,
ora a estreitar-te
em veios
de oiro cheios,
fertilizando as terras
por onde erras,
altivo Tapajós.

Vens de longe correndo,
vens vencendo
saltos
e cachoeiras
altaneiras,
beijando praias e barrancos altos,
dando vida e valor,
dando alegria
à ubertosa região de que és senhor.

A marcha a te deter quem ousaria,
ó rico e belo flúmen brasileiro?

E vens vindo, vens vindo, prazenteiro,
atrás deixando tudo
nesse rudo
marchar glorioso,
rápido, nervoso,
e nada te detém…

E após tanto lutar e tanta glória,
vens, alcançando rútila vitória,
morrer aos pés da linda Santarém!

Assim do poeta os surtos criadores,
ó belo Tapajós
dos meus amores:
de mundos luminosos e distantes
partem, soberbos, fartos de esplendores,
chispando sóis
e fluidos cintilantes,
e descem, descem, céleres, radiantes,
para deter-se, alfim, nessa arrancada,
vencidos, juntos da Mulher Amada!

VERSOS… VERSOS… VERSOS…
Versos… quantos nem sei, chorando ou rindo
desperdicei no meu peregrinar…
Versos, versos de amor que nasce lindo
e nos ilude para nos deixar…

Versos nascidos em momentos nobres
de ânsias infindas de lutar, vencer…
Versos carpindo desditados pobres,
rimas plangendo agruras do viver…

Versos moldados na amizade terna
que nos enleia e que nos faz feliz…
Versos cultuando a natureza eterna,
glorificando as glórias do país…

Versos festivos, versos de noivados,
rimas gentis, garridos madrigais…
Galanteios medidos e rimados,
doiradas ilusões, não voltam mais…

Versos… quantos nem sei, calmo ou nervoso
qual desperdiçador, quantos compus…
Versos, versos de amor, versos de gozo,
versos feitos de lágrimas e luz…

Versos que eu fiz, cantando a mocidade,
a mocidade em flor do meu torrão…
Versos de dor e de infelicidade,
mas versos naturais do coração…

E quantos versos meus hoje dispersos,
perdidos como os ais dum sofredor…
E até no cemitério eu tenho versos,
a traduzir saudade e alheia dor…

Quando eu morrer, fugindo à desventura,
quem sabe se terei – o mundo é assim –
quem vá deitar na minha sepultura
um punhado de versos sobre mim…

CUIEIRAS
I
São afamadas, são procuradas
as belas cuias de Santarém!
Cuias bordadas, cuias pintadas
como estas minhas, ninguém as tem. Ah!

Para um presente de namorado
que coisa linda, meu bom senhor!
Serviço limpo, bem acabado,
arte, bom gosto, puro lavor.

(Coro)
Para tomar-se um mingau a gosto,
para tomar-se um bom tacacá,
só numa cuia, vaso bem posto
e preferido no meu Pará!

II
Um vinho grosso, roxo e gostoso
do conhecido, belo açaí,
é mais suave, mais saboroso
se numa cuia se bebe aqui. Ah!

Cuias bordadas, cuias pintadas
como estas minhas, ninguém as tem.
São afamadas, são procuradas
as belas cuias de Santarém!

O PEDIDO
Almofadinha fofo e sem dinheiro,
vivendo duns rabiscos que fazia,
o bardo futurista não podia
mais suportar aquele olhar brejeiro.

Enamorou-se logo e, verdadeiro
aquele amor, de certo o mataria
se a divinal e cândida Maria
não fosse engalanar-lhe o lar fagueiro.

E decidiu-se então sem mais aquela
a procurar o pai da jovem bela
para pedir-lhe a mão da filha; o Duarte,

o genitor, porém, que não é tolo,
em vez da mão da filha, seu consolo,
meteu-lhe o pé com força em certa parte.

LONGE DE TI
Hoje estou triste e pesaroso e, certo,
este pesar agora me acabrunha.
Longe de ti vegeto num deserto,
só tendo minha dor por testemunha.

É que, formosa, quando vives perto
do teu cantor que versos te rascunha,
é meu viver, florindo, um céu aberto:
morre a saudade, morre a caramunha.

É que não posso mais sem teu carinho
passar nestas – da vida transitória –
ondas revoltas de perigo cheias.

É que, se longe estás do nosso ninho,
eu sou forçado – que dorida história! –
a remendar, que jeito, as minhas meias.

POLÍTICA
Dois filhos tem Miguel José Veludo
que gêmeos são, nascidos faz um ano;
um, pobrezinho, veio ao mundo – mudo;
o outro, coitado, é surdo como um cano.

Não se apoquente o pobre pai, contudo,
nem se amofine porque, sendo humano,
recebe os golpes do destino rudo
com fortaleza forte de espartano.

Ontem me disse: – Sabes, meu amigo?
Eu, que a doutrina modernista sigo,
um grande plano tenho, alevantado:

Fazer dos dois meninos, com perícia,
quando formados – Chefe de Polícia
o surdo… E o mudo? – O mudo, Deputado.

A ENTREVISTA
Dez horas… dez e meia… As horas voam
e ela não vem, não vem para a entrevista!
Anseio e fremo, e quanto me contrista
a sua ausência… E as onze, lentas, soam…

Do galo, no terreiro, me atordoam
os repetidos cocoricós, e egoísta
do meu amor, maldigo esse corista
a remarcar as horas que se escoam.

Geme o relógio – doze… Meio-dia!
E ela não vem, mentiu-me… Que ironia!…
…………………………………………………………
Escuto: alguém bateu… É o meu amor!

Vou tê-la, enfim, rendida, nos meus braços!
E, antegozando os beijos e os abraços,
descerro a porta… oh! raiva! Era um credor!…

DUMA ANEDOTA
O primo mais a priminha
(o Carlos e a Margarida)
sustentam na sala clara
uma conversa entretida.

De repente, na priminha
o primo pespega um beijo:
“Oh! Carlos, tu me assustaste…”
disse-lhe a prima com pejo.

Já se passam dez minutos
(para as nove faltam dez).
Diz a prima muito séria:
“Carlos, me assusta outra vez?!”

COMEMORAÇÃO CÍVICA
15 de Novembro.
A praça regurgita.
É grande a massa que se agita.
Povo.
Autoridades.
Gente de fato novo.
Crianças das escolas.
Com galhardetes.
Com bandeirolas.
Banda de música.
Orador oficial.
“Meus senhores!
Neste solene momento
puramente nacional,
em que, na praça pública,
todos, irmanados pelo mesmo sentimento,
comemoramos, por entre vibrações interiores,
o dia magno da República…”
E prossegue o discurso
fluente. Escachoante.
Como o curso do rio-mar…
Só se ouve da brisa o brando ciciar.
Peroração.
Surtos magníficos.
Miríficos.
Palmas. Muito bem! Muito bem!
Viva o doutor Juiz de Direito!
Viva o meu compadre capitão prefeito!
Viva o povo de Santarém!
De novo em movimento.
Foguetes doidos furam o ar,
de momento a momento.
A fanfarra torna a vibrar.
“Já podeis, da Pátria filhos,
ver contente a Mãe gentil;
já raiou a liberdade
no horizonte do Brasil…”
A enorme serpe coleia
densa, larga, cheia.
A meninada,
suarenta,
cansada.
O sol caustica. Enfara. Assedenta.
– Para! Para! Psiu! Psiu!
Vai falar o doutor
Promotor!
Transbordante como um rio,
o verbo magistral
atroa.
Alcandora-se. Voa.
Flui. Flui
em destaque.
Citações de Rui.
Versos adoráveis de Bilac.
História de Rocha Pombo.
Torre do Tombo.
Circunvoluções.
Palmas. Hurras. Vivas.
Ovações.
Prossegue a grande serpe coleando.
Vivas roucos. Abafados.
Meninos coxeando
alagados.
Vem a noite, afinal,
pôr termo à bela festa nacional.
Palmas em profusão.
Viva o Brasil!
Viva nossa bandeira!
Viva a República!
Viva a Pátria Brasileira!
A banda executa o Hino.
“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
de um povo o heroico brado retumbante…”
Num frêmito divino,
todos cantam. Todos. Delirantes!…
Põe-se em marcha a passeata.
Alas de crianças.
A bandeira auriverde
entre a multidão se perde.
Fitas cor de ouro e de esperança.
Marcha que arrebata.
“Nós somos da Pátria
a guarda,
fiéis soldados
por ela amados;
nas cores de nossa farda
rebrilha a glória,
fulge a vitória…”
– Para! Para! Para!
Estanca o préstito. A casa do Juiz.
Da janela,
sorridente, feliz,
o Juiz, de flor à lapela,
deixa o verbo escorrer…
Flores de retórica.
Pátria.
Liberdade.
Fraternidade.
Obra.
Dever.
Digressão histórica.
Deodoro.
Benjamin.
Rui Barbosa.
Silva Jardim.
E os manifestantes,
“alma febril”,
desfazem o préstito, radiantes,
suados, extenuados,
esfomeados,
mas cheios de Brasil…

FELICIDADE
Quando eu era assinzinho
– como tão longe vai aquele dia! –
para entreter-me, minha mãe bondosa
tomava-me a mãozinha e, cariciosa,
a dedilhar dedinho por dedinho,
rindo, feliz, assim dizia:

– “Dedo mindinho,
seu vizinho,
pai de todos,
fura-bolo
mata-piolho…
Cadê o docinho,
diga, meu filhinho,
que aqui deixei, aqui, na sua mão?
– O rato comeu!…
E o rato, para onde foi o comilão?
– Foi por aqui… por aqui,
por aqui ele correu!…”

E os dedos ágeis, pelo tenro braço,
como quem tamborila,
iam correndo até chegar à axila,
onde a mãezinha, com desembaraço,
cocegava, cocegava,
rindo, feliz, por ver tornar-me em riso.

E hoje, quando vejo em meio à estrada
que, palmilhando, sigo
a passos tardos,
entre espinhos e cardos,
é o Destino que vem brincar comigo
na vida atribulada:

“Dedo mindinho,
seu vizinho,
pai de todos,
fura-bolo,
mata-piolho…
Cadê a felicidade que aqui estava?
Por que a deixou fugir, seu grande tolo?”

E eu nem sei responder se foi o rato,
se foi o gato,
que carregou,
que devorou
o Bem que era só meu e me bastava!…

AUSÊNCIA
Ausência – coração que foi gemendo,
coração que ficou na dor voraz…
Alma que voeja, em ais se debatendo,
em busca de outra já perdida em ais…

Ausência!…
Negação de tudo quanto
traduz na vida a essência
do Prazer…

Em cada extremo um coração em pranto,
e a saudade no meio, a florescer…


Obras consultadas:

FONSECA, Wilson Dias da. Meu Baú Mocorongo. Belém (Pará): Secretaria Estadual de Cultura, 2006. 6 volumes.

RODRIGUES DOS SANTOS, Paulo. Tupaiulândia. 3ª edição. Prefácio de Lúcio Flávio Pinto. Santarém (Pará): Instituto Cultural Boanerges Sena, 1999.

SUSSUARANA, Felisberto. O Mergulho de Felisbelo Sussuarana no Claro-Escuro do Homem e da Obra: ensaio biográfico. Santarém (Pará): Prefeitura Municipal de Santarém, 1991.

Santarém, PA, 20/10/2012. Editado em 26/8/2016.

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