Ressurreição de Ícaro [poema de Hermes Fontes]

RESSURREIÇÃO DE ÍCARO

Hermes Fontes (1888-1930)

Draper_Herbert_James_The_Lament_for_Icarus
Herbert James Draper, “The Lament for Icarus” (1898). Fonte: Wikipedia.

Ícaro pôs o olhar no Azul infindo
e no esplêndido sol que a fímbria azul redoura
ao claror da alvorada
e enche toda a amplidão do céu, ao Meio-Dia.
O tempo estava lindo.
E a terra, de ouro fúlgido toucada,
estava linda, estava encantadora.

Dir-se-ia
do Sol, que está fulgindo
à Terra, ingênua, que se adorna e touca,
ser alguém que está rindo
a rubra, a escandalosa gargalhada
do Orgulho e da Ironia.

O disco astral era radiosa boca
jorrando risos de ouro para o mundo:

Ícaro se encontrou trêmulo e frio,
o homem sentiu-se inútil e infecundo.

E, entendendo o desdém por desafio,
consigo mesmo concentrou-se, a fundo.

Olhando o voo às aves e aos insetos,
fechou os olhos para o seu destino:
– Teve a vertigem dos alucinados…

E previu novos céus, além do céu visível,
repletos de astros múltiplos, repletos
de orbes irrevelados.

Mas, ao querer tocá-los – impossível!
Sentia os pés chumbados
à gleba do Planeta,
à lei do destino…

Sob o anátema, ao peso da grilheta,
Ícaro se julgou deveras pequenino.

Veio o desejo cego, a ideia ousada
de pôr aos ombros um par de asas. Veio
dessa ideia arrojada
a pleno espaço, em meio à luz, em meio
à ondulação aérea inavegada,
em meio aos imprevistos e aos mistérios
sidéreos.

O homem levara à Abóbada encantada
o seu grito de guerra:

Havia de arrancar ao Sol candente e vivo
o motivo
daquela escandalosa gargalhada
à pequenez humílima da Terra.

Ícaro pôs o olhar no Espaço infindo,
no momento em que o Sol – fiel da eterna balança –
pende, aos poucos, descansa
na concha vesperal, em que a Terra se doura.

O dia estava lindo.
A tarde fez-se linda e encantadora,
e Ícaro foi subindo, foi subindo…

E, enquanto o herói subia
para quebrar ao sol os ígneos raios,
entardecia, pouco a pouco, entardecia.
O dia
tinha, um sobre o outro, os seus agônicos desmaios.

Mas, na loucura de subir, nem vira
na cega aspiração com que ascendera,
que as suas asas eram de mentira,
eram asas efêmeras de cera.

A tarde estava linda.
No braseiro do Ocaso, ao longe, ainda,
ruborejavam dois ou três milhões de brasas.
Ícaro, lentamente
e ousadamente,
foi procurando o Poente,
com a incerteza hostil daquelas asas.

O Sol, que ia baixar às paragens tranquilas,
antes de libertar, em lúcida revoada,
os passarinhos brancos das estrelas,
notou a temerária, intrépida escalada
daquelas asas novas.

E, para dissuadi-las
de novas experiências, de outras provas,
mandou um dos seus raios derretê-las.

E deu-se aquela queda desastrada
sob o sorriso ingênuo das estrelas
que abriam as pupilas…

E foi-se o sonho mentiroso e pícaro,
que o sol inflama, o sol derrete, o sol condena
a diluir-se no oceano.

Efêmeras e eternas asas de Ícaro,
imagem dupla do Desejo humano.

A cera dessas asas redentoras,
frágeis como uma antena,
asas de pousamouras,
não se diluiu no mar, caiu no seio
das gerações futuras!

Cera das asas de Ícaro! Semente
das grandes Aventuras!
Gota que fez a fonte e originou o veio
que vai dar ao estuário do Porvir…

Ícaro voa ainda. Triunfalmente,
continua a subir.

Continua a subir, em voo suave,
isócrono, consciente.

Na glorificação tranquila da Aeronave,
Ícaro ressurgiu definitivamente.

Agora, o próprio Sol, na Realidade
daquele desafio vingador,
glorifica e eterniza a efêmera vaidade
do Primeiro Voador.

In: FONTES, Hermes. Poesias Escolhidas. Com um Pequeno Retrato de Hermes Fontes por Oliveira e Lima. [Rio de Janeiro]: Epasa, [1944]. p. 112-117.


Hermes Fontes nasceu em Boquim, SE (1888) e faleceu no Rio de Janeiro, RJ (1930). Formado em direito (1911), foi poeta, caricaturista, jornalista, funcionário público. Mais sobre ele aqui: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hermes_Fontes.

Nota: Atualizei a grafia para a atualmente em vigor no Brasil; conservei a pontuação original, mantendo também o uso de maiúsculas em certos termos, de acordo com a edição consultada.

Santarém, PA, 20/7/2017. Leia e curta também no Blogspot.

O Poeta-Operário [poema de Vladimir Maiakovski]

O POETA-OPERÁRIO

Vladimir Maiakovski
Tradução de Emílio Carrera Guerra

Grita-se ao poeta:
“Queria te ver numa fábrica!
O quê? Versos? Pura bobagem!
Para trabalhar não tens coragem.”
Talvez
ninguém como nós
ponha tanto coração
no trabalho.
Eu sou uma fábrica.
E se chaminés
me faltam
talvez
sem chaminés
seja preciso
ainda mais coragem.
Sei.
Frases vazias não agradam.
Quando serrais madeira
é para fazer lenha.
E nós que somos
senão entalhadores a esculpir
a tora da cabeça humana?
Certamente que a pesca
é coisa respeitável.
Atira-se a rede e quem sabe?
Pega-se um esturjão!
Mas o trabalho do poeta
é muito mais difícil.
Pescamos gente viva e não peixes.
Penoso é trabalhar nos altos-fornos
onde se tempera o ferro em brasa.
Mas pode alguém
acusar-nos de ociosos?
Nós polimos as almas
com a lixa do verso.
Quem vale mais:
o poeta ou o técnico
que produz comodidades?
Ambos!
Os corações também são motores.
A alma é poderosa força motriz.
Somos iguais.
Camaradas dentro da massa operária.
Proletários do corpo e do espírito.
Somente unidos,
somente juntos remoçaremos o mundo,
fá-lo-emos marchar num ritmo célere.
Diante da vaga de palavras
levantemos um dique!
Mãos à obra!
O trabalho é vivo e novo!
Com os aradores vazios, fora!
Moinho com eles!
Com a água de seus discursos
que façam mover-se a mó!

(1918)

MAIACOVSKI, Vladímir. Antologia Poética. Estudo biográfico e tradução de E. Carrera Guerra. 2. ed. Rio de Janeiro: Leitura, [ca. 1965]. p. 146-147.


Vladimir V. Maiakovski (1893-1930), artista e revolucionário, foi um dos principais nomes da literatura russa no século XX. Mais sobre ele aqui:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Vladimir_Maiakovski

Santarém, PA, 18/7/2017.

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Lusia [poema de Julius Balbin]

LUSIA

Julius Balbin (1917-2006)
Traduzido do esperanto por Júlio César Pedrosa

Ela era minha vizinha
antes da guerra –
e aos catorze anos
eu em segredo sonhava com ela,
enamorado de seus
negros olhos ardentes
e sua voz de veludo
cheia de amor.

E nada resta dela
além de sua roupa rasgada
e flocos de sangue
que a terra absorve.

Porque ela teve a audácia
de dirigir a palavra a um jovem guarda da SS,
o chefe do campo de concentração
ordenou
lançá-la
na jaula
de seus amados cães assassinos.

Em poucos minutos
sua carne foi devorada
e seus ossos quebrados,
e nada mais restou
além de minhas lembranças
e lágrimas
absorvidas pela terra,
que nós ambos dividimos
com os assassinos
humanos e caninos.

Ela era minha vizinha
antes da guerra…
com seus
negros olhos ardentes
e voz de veludo
cheia de amor.

1980

BALBIN, Julius. Lusia. In: Imperio de l’ Koroj: Du Poemaroj. Pizo, Italujo [Pisa, Itália]: Edistudio, 1989. p. 162-163.

O autor:
balbin-imperio-001Julius Balbin (1917-2006) nasceu em Cracóvia, Polônia, no seio de uma família judia. Foi preso pelos alemães e passou por vários campos de concentração. Após o fim da II Guerra Mundial estudou em Viena, Áustria, e emigrou em 1951 para os Estados Unidos da América, onde por muitos anos foi professor universitário, retornando à Europa em 2005. Faleceu em Aye, Bélgica. Publicou vários livros de poemas em esperanto, inglês e polonês.

Mais sobre Julius Balbin:
Em inglês: “Strangled Cries: A profile of poet Julius Balbin” – Alexander Kharkovsky;
Em esperanto: “Julius Balbin” – Wikipedia.

Um artigo de Julius Balbin (em inglês): “The Secret Malady of Esperanto Poetry” (1973).

Santarém, Pará, 8/3/2017. Leia e curta também no Blogspot.

Poema sem Título [Charles Simic]

POEMA SEM TÍTULO
(Poem Without A Title)

Charles Simic
Tradução de Júlio César Pedrosa

Pergunto ao chumbo:
Por que te deixaste
Converter em bala?
Esqueceste os alquimistas?
Abandonaste a esperança
De converter-te em ouro?

Ninguém responde.
Chumbo. Bala. Com nomes
Como estes
O sono é longo e profundo.

Traduzido da versão espanhola de Isaías Garde, a qual junto com o original inglês está disponível aqui:
http://zoonphonanta.blogspot.com.br/2017/01/charles-simic-poema-sin-titulo.html.

O autor: Charles Simic é um poeta estadunidense nascido em Belgrado, Sérvia, em 1938. Emigrou com a família para os EUA em 1954. Mais sobre ele aqui:
https://en.wikipedia.org/wiki/Charles_Simic.

Santarém, PA, 21/1/2017. Leia e curta também no Blogspot.

A ascensão de uma dinastia

francis-fevre-faraoFÈVRE, Francis. Faraó. Tradução de Maria Alice Gelman. São Paulo: Mercuryo, 1990. 291 pp.
[Pharaon. Paris: Presses de la Renaissance, 1987.]

Ao contrário de dois outros livros do autor publicados no Brasil (Faraona de Tebas e O Último Faraó) – os quais eu classifico como documentários históricos –, este livro Faraó de Francis Fèvre é uma obra de ficção, um romance histórico ambientado no Egito de meados do século XVI a.C. E, como todo romance histórico, o autor usa um pano de fundo de fatos ocorridos e documentados – de conhecimento, pois, dos historiadores – para construir sua narrativa, preenchendo lacunas da história com elementos que lhe proporcionem um enredo verossímil, baseado em seu conhecimento do período.

Não é este texto uma análise literária e acadêmica, mas apenas um comentário despretensioso, e anteciparei alguns fatos do enredo, baseados em fatos históricos de conhecimento geral, sem descer aos meandros da narrativa; trata-se de informações que constam dos livros de história e podem ser facilmente encontrados em pesquisas feitas em obras de referência ou na Internet.

O contexto da história do romance Faraó é o seguinte:

No século XVIII a.C., chega ao fim o Reino ou Império Médio do Egito, com a queda da autoridade central do faraó. O Egito fragmenta-se e entra na época que os historiadores chamam II Período Intermediário, com o poder entregue aos príncipes locais, chefes dos nomos ou províncias. Aproveitando a fragmentação do país, os hicsos – povo semita originário de Canaã e Síria – conquista e submete os nomos do norte (Baixo Egito), estabelecendo sua capital em Aváris, no Delta do Nilo. Os reis hicsos adotam o título de faraó e passam a usar a coroa vermelha do Baixo Egito, ameaçando os demais nomarcas.

Até aqui temos os fatos históricos conhecidos. A narrativa do romance começa quando o domínio dos hicsos sobre o Norte já dura cerca de cem anos. Sekenenrê, príncipe de Tebas e mais poderoso nomarca do Alto Egito, prepara pacientemente suas tropas e aliados para invadir o Delta e expulsar os hicsos; ao mesmo tempo, precisa impedir o avanço dos hicsos rumo ao sul, com o intuito de sublevar os núbios contra Tebas, o que poderia dar aos asiáticos o domínio sobre todo o país.

Após as provocações e ameaças de Apópi, rei dos hicsos, Sekenenrê invade o Baixo Egito e é morto em batalha; é sucedido por seu filho Kamés, que assume o trono de Tebas e continua a luta contra os hicsos. Kamés, porém, não reina por muito tempo. Sobe ao trono seu irmão Ahmosis – inicialmente um jovem destinado ao sacerdócio –, que leva Tebas à vitória contra os hicsos, expulsando-os, destruindo sua capital e unificando o Egito novamente sob um único rei.

Inicia-se ali o período conhecido como Novo Império. Ahmosis foi o primeiro soberano e fundador da XVIII dinastia, conhecida como Améssida, a mais vitoriosa do Egito. Sob o governo dos améssidas, as fronteiras do Egito alcançaram sua extensão máxima e o país tornou-se uma potência regional expansionista. Pertencem a essa dinastia soberanos como Tutmés I; a filha deste, faraona Hatshepsut; Tutmés III, o Napoleão Egípcio; Amenhotep (ou Amenófis) IV, mais tarde conhecido como Aquenáton; Tutancâmon; e Horemheb, o último faraó desta linhagem.

No decorrer da narrativa, além das manobras militares, cenas de caçadas e batalhas, cerimônias públicas e festins no harém, tramas e alianças políticas da Núbia à Fenícia, é descrita a vida luxuosa no palácio de Tebas e as muitas intrigas ali presentes; o ódio da mãe de Sekenenrê, Tetishery, contra sua nora Ahhotep e seu neto Ahmosis; as desconfianças de Ahmosis em relação a sua irmã e esposa Nefertari; a forte amizade entre Ahmosis e seu mentor espiritual, o sacerdote Amenhotep, também conselheiro de sua mãe; as tensões com os núbios, envolvidos em guerras tribais que ameaçam a estabilidade da relação de vassalagem com Tebas e, depois, com o Egito reunificado.

Como dito mais acima, o autor usa fatos (nem todos ainda consolidados historiograficamente) da história egípcia para a construção do enredo, preenchendo as lacunas com suposições para uma melhor verossimilhança. Assim se dá, por exemplo, quanto ao grau de parentesco entre Sekenenrê, Kamés e Ahmosis, pois não se sabe com certeza se Kamés e Ahmosis eram irmãos e se eram filhos de Sekenenrê, ou se este era um irmão mais velho de Kamés e pai de Ahmosis.

Outro fato nebuloso e aproveitado no enredo diz respeito às circunstâncias da morte de Sekenenrê. Sua múmia é conhecida e foi estudada por cientistas; os ferimentos no crânio mostram que foi ferido em batalha a golpes de espada ou machado. Além disso, o exame indicou que a mumificação se iniciou com o corpo já em decomposição, o que explica seu estado: supõe-se que o corpo foi resgatado do campo de batalha e demorou a ser embalsamado.

O romance é bom, é bem constituído e tem os fatos bem encadeados. Gostei dele, que é bem escrito e prende a atenção do início ao fim. Teve apenas uma edição no Brasil, podendo ser encontrado agora apenas em sebos, mas com preços convidativos.

Boa leitura e distração garantida para os interessados em boa ficção histórica e no Egito antigo.

(Resenha publicada originalmente no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/resenhas/211718/edicao:237019.)

Santarém, PA, 1º/12/2016. Leia e curta também no Blogspot.

A Cadela de Buchenwald [poema de Julius Balbin]

A CADELA DE BUCHENWALD
OU
RÉQUIEM PARA A PELE

(La Hundulino de Buchenwald aŭ Rekviemo por la Haŭto)

Julius Balbin
Traduzido do esperanto por Júlio César Pedrosa

Rasgada e cheia de cicatrizes das pancadas
e contraída pela fome,
coberta apenas por uma
fétida
camisa
listrada
esfarrapada,
tu eras mais do que somente pele:
eras um brinquedo –
objeto de exibição
para uma curiosidade mórbida.

De todos os demônios
dos infernos de Hitler,
Frau* Ilse Koch,
a vadia de Buchenwald*,
parecia apreciar-te a ti no mais alto grau;
e, particularmente, àqueles entre vós
a portar tatuagens,
que provocavam nela
um espasmo
de ideias vibrantes
de algum desenho
para seus abajures.

Certa vez
ela arranjou uma festa
para comemorar
sua nova exposição.
A mais admirada
pelos membros da SS e pelos guardas
eras tu
tão coloridamente tatuada
com as palavras
HAENSEL UND GRETEL*
brilhando acima da lâmpada.
Sim, pele,
os comentários
e olhares elogiosos deles
teriam sido mais podres
do que tu,
se tu tivesses apodrecido
na terra infestada de vermes.

Requiescat in pacem*,
pele,
as orgias dos bárbaros
acabaram.

1982

BALBIN, Julius. La Hundulino de Buchenwald aŭ Rekviemo por la Haŭto. In: Imperio de l’ Koroj: Du Poemaroj. Pizo, Italujo [Pisa, Itália]: Edistudio, 1989. p. 197-198.


Notas:

1- Frau – Em alemão no original: “senhora”.
2- Buchenwald – Campo de concentração nas proximidades de Weimar, estado da Turíngia (Thüringen), Alemanha.
3- Hansel und Gretel – Nomes alemães dos personagens João e Maria, respectivamente, da fábula de mesmo nome, recolhida e difundida pelos irmãos Grimm.
4- Requiescat in pacem – Em latim no original: “Descansa em paz”; é a origem da abreviação RIP.

O autor:

balbin-imperio-001Julius Balbin (1917-2006) nasceu em Cracóvia, Polônia, no seio de uma família judia. Foi preso pelos alemães e passou por vários campos de concentração. Após o fim da II Guerra Mundial estudou em Viena, Áustria, e emigrou em 1951 para os Estados Unidos da América, onde por muitos anos foi professor universitário, retornando à Europa em 2005. Faleceu em Aye, Bélgica. Publicou vários livros de poemas em esperanto, inglês e polonês.

Mais sobre Julius Balbin:
Em inglês: “Strangled Cries: A profile of poet Julius Balbin” – Alexander Kharkovsky;
Em esperanto: “Julius Balbin” – Wikipedia.

Um artigo de Julius Balbin (em inglês): “The Secret Malady of Esperanto Poetry” (1973).

Santarém, Pará, 29/11/2016. Leia e curta também no Blogspot.

Cinco poemas de Olga Maria Scuoteguazza

CONTENÇÃO

scuoteguazza-001
Capa de Jerônimo Oliveira.

Lava as mãos na pia,
com o sabonete das estrelas.
Depois alisa teimosia e creme sobre o rosto.
No espelho, um riso indisposto é sorrido.
Confere a limpeza dos dentes,
e depois mente
a si própria que tem sono.
Encosta a cabeça tonta, no travesseiro macio.
O corpo é só um fio
de vida exangue.
E as mãos dormem avermelhadamente manchadas.
De beterraba.
Nunca de sangue.

 

SABEDORIA

Sei e conheço de você
involuntariamente
mais que a prova dos noves,
mais que a quinta sinfonia de Beethoven,
mais que análise sintática,
sintaxe,
concordância,
geometria plana,
aritmética.
Mais que a lei da oferta e da procura,
pré-história,
invasão holandesa…

E, por incrível que pareça,
ainda não basta.

 

A NOITE

A noite é uma vigia
de olhos de estrela.
Uma vadia
febril, obscena.
A noite é o dia
no tempo do cio.
A noite é um fio
que eletriza a poesia.
A noite é o dia
vestido no avesso.
A noite é começo
da luz prepotente.
A noite é valente
sem medo do escuro.
O dia é um muro
e atrás vem a noite.
O dia é a pressa
da noite seguinte.
O dia é o ouvinte
das coisas da noite.
O dia é o açoite.
A noite o deleite.
O dia é o aceite.
A noite o revide.
O dia é o dia.
E a noite é à toa.
O dia se vinga.
E a noite perdoa.

 

RELICÁRIO

Na primeira gaveta do armário
no relicário de todos os meus pertences,
guardo uma caixa de afetos permanentes,
prediletos,
como por excelência.
Um outro embrulho
de conteúdo semelhante,
a prata de um quarto minguante,
um poema do pessoa,
e um terço.

E por debaixo da sutil e pessoal riqueza
respaldo a insistência e a firmeza
com que sempre apostei na tua vinda:

Guardo uma toalha de mesa, sem uso,
e um lençol, muito branco, de linho.

 

PAIXÃO

Num determinado instante
teu semblante limpo
me comove à beça.
Teu olhar bonito
me atravessa forte.
Tua íris brinca o meu olhar
em cortes,
tão fundos.
Como uma lua cheia
teu brilho azul passeia
minha surpresa atônita.
Como um flash instantâneo
tua íris faz planos
e conta.
Fotografo, muda,
todos os seus mistérios.
E tonta,
de tantas revelações
a me ocorrer por dentro,
fecho os olhos devagar,
como se houvesse tempo.
E já não há.

In: SCUOTEGUAZZA, Olga Maria. Ensaios de Foyer. São Paulo: Syllaba, 1989. p. 20, 23, 25, 31, 43.

Santarém, PA, 23/11/2016. Leia e curta também no Blogspot.