Gritos Estrangulados

GRITOS ESTRANGULADOS
(Strangolitaj Krioj)

Julius Balbin (1917-2006)

Passamos a noite inteira seguros,
amparando um ao outro com ternura,
escondidos numa pequena câmara
atrás de pesadíssimo armário.

Amanheceu com a ameaça da morte
que rugia dos alto-falantes
a todos os moradores do gueto escondidos.
Emboscados pelo pânico,
tremendo, caminhamos das portas
para as ruas cinzentas
onde fomos, em meio a uma multidão aterrorizada,
capturados pelos homens da SS
e policiais judeus
que nos batiam com coronhas e chicotes.

Em nosso pânico e terror
nós corríamos caoticamente,
mas as coronhas e chicotes
separaram-nos em duas colunas.

Minha mãe e eu,
ainda agarrados um ao outro,
fomos separados
pelo chicote de um judeu.

Apenas um golfar
de obscenidades alemãs
rompia o silêncio
de gritos estrangulados.

Entre os cativos
ninguém sabia
qual das duas colunas
seria agora transportada
às distantes fábricas da morte.

Ainda consigo ver
através da bruma de lágrimas
o rosto de minha mãe,
submetida, assim como
seu gesto desesperado
para que eu ficasse tranquilo.

(Traduzido do esperanto por Júlio César Pedrosa.)

BALBIN, Julius. Strangolitaj krioj. In: Imperio de l’ koroj. Du poemaroj. Pizo, Italujo [Pisa, Itália]: Edistudio, 1989. p. 174-175.

Vacas gordas e espigas cheias

Documentário do canal History fala sobre escavações arqueológicas na ilha de Gozo, em Malta: descobertos restos de templos e sepulcros de cerca de 2400 a.C. Uma mudança climática parece ter afetado o frágil equilíbrio do ecossistema em que vivia o “povo dos templos”, levando ao seu desaparecimento.
Os achados mostram que, assim como em outras civilizações do passado, os templos desse povo antigo eram usados como armazéns para estoque de alimentos, distribuídos ao povo em épocas de vacas magras e espigas mirradas.
Que evolução tivemos desde então: hoje os templos acumulam dinheiro, mas para benefício apenas dos líderes das seitas: para estes as vacas são sempre gordas, e as espigas são cheias…

Campeonato Paulista de 1988

17 de julho: o já desclassificado Palmeiras enfrenta o São Paulo, o então campeão, que precisa apenas de um empate para ir a mais uma final seguida, desta vez contra o Guarani. O Corinthians acompanha o Choque Rei e reza por um milagre: para enfrentar o Guarani, além de vencer o Santos (o que faz no mesmo dia por 2×0), precisa de que o Palmeiras vença o São Paulo. Os corintianos torcem por seu arquirrival contra o Tricolor do Morumbi!
A pressão sobre o Palmeiras é enorme: além das chacotas por amargar 12 anos sem títulos, os palmeirenses ainda têm de aturar a denúncia de que pretendem deixar o São Paulo vencer para evitar que o Corinthians seja finalista. Parte da torcida deseja mesmo isso: “Entrega o jogo! Entrega o jogo!” — o grito ecoa no estádio do Morumbi…
Mas a história é outra: com gol de Gerson Caçapa, o Palmeiras vence o São Paulo, o que põe o Corinthians na final contra o Guarani.
Parte da torcida odiou isso. A manchete de capa da revista Placar dizia: PORCORINTHIANS! Torcedores manifestaram-se na porta do Parque Antártica: “Filial, filial, filial da Marginal!” — era o que gritavam.
E o resto da história? Bem… Após empate por 1×1 no Morumbi — o gol bugrino foi de Neto, numa antológica bicicleta —, o Corinthians venceu o Guarani na finalíssima no Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas, com gol de Viola, e conquistou seu vigésimo título.
Um figurão da diretoria do Corinthians, após o primeiro jogo da final, fizera pouco caso do gol de Neto: “Não precisamos de gol de bicicleta!” Bata-se na boca! Suprema ironia: dois anos depois, Neto se consagrava no Alvinegro da Marginal.
Passados mais de 30 anos, não sei se o Corinthians teve a oportunidade de retribuir o “favor” de seu maior rival (a de hoje ele perdeu…); mas muitos palmeirenses jamais perdoaram a vitória do Verdão naquele Choque Rei de 17 de julho de 1988.

Santarém, Pará, 3 de novembro de 2019.