IMPEÇA, não IMPESSA

impedirEm português, o tempo presente do subjuntivo é formado a partir da 1ª pessoa do singular do presente do indicativo. Isto vale para quase todos os verbos, mesmo irregulares (com exceção dos verbos que não possuem aquela forma verbal).

O verbo IMPEDIR é irregular: temos aí um /s/ representado por Ç. Sua forma na 1ª pessoa do presente do indicativo é IMPEÇO, por isso todas as formas do presente do subjuntivo de IMPEDIR também são grafadas com Ç, pois são derivadas daquela:

Impeça, impeças, impeça, impeçamos, impeçais, impeçam.

Talvez a Abril tenha dispensado o revisor por engano, numa leva de demitidos; sugiro recontratá-lo.

Santarém, PA, 25/4/2016.

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Veados, viados e vírgulas

jose-de-abreu-tweeter-viadoVejam como o uso da pontuação é importante. O vocativo deve vir sempre acompanhado de vírgula. Leiam mais sobre o assunto no artigo Salvem o Jorge, salvem-nos dele; ou

Lição-bônus:
Quem diz o que quer, ouve o que não quer… E é pior ainda quando o que foi dito não é o que se queria dizer!

Adendo:
Seja qual for a pronúncia desta palavra, neste sentido (pejorativo, ofensivo em relação aos homossexuais) ou como designativo genérico de animal cervídeo, a grafia correta dela é VEADO.

Já VIADO é o “nome de um pano de lã às riscas ou veios próprio para vestuário que não seja de luto” (Dicionário Caldas Aulete); “antigo pano listrado” (Dicionário Michaelis).

Santarém, Pará, 11/4/2016.

Triplex ou tríplex?

Com as denúncias de irregularidades na aquisição do apartamento de três pavimentos mais famoso do Brasil, vem a dúvida, inclusive na imprensa: é apartamento triplex ou tríplex? Palavra oxítona ou paroxítona?

A solução da dúvida é simples, mas nem todos a conhecem.

O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (também conhecido pela sigla VOLP) é uma publicação da Academia Brasileira de Letras, que, desde o início do século XX, quando se deram as primeiras tentativas de reforma da ortografia portuguesa, cuida do registro e fixação da ortografia oficial das palavras no Brasil.

Concordemos ou não com isso (eu mesmo não concordo, pois acho que tal missão deveria estar a cargo de uma comissão nacional de notáveis das universidades e instituições culturais, inclusive da ABL), trata-se de uma missão dada à Academia Brasileira por força de lei; embora seja uma organização não governamental (ONG), a Academia Brasileira executa essa tarefa a pedido do Estado.

Não se trata de dicionário: o VOLP é uma lista de palavras, apresentadas com sua grafia oficial e informações sobre classe gramatical (substantivo, adjetivo, verbo etc.) e flexão (um gênero, dois gêneros, dois números etc.). Assim, a forma apresentada no VOLP é a oficial e que deve ser usada.

Como saber, por exemplo, se a grafia jiló está correta, ou se esta palavra é grafada com G? Basta procurar no VOLP; na edição eletrônica é só digitar a palavra e, se estiver registrada, aparecerá com seus dados. No VOLP aparece apenas jiló, o que significa que se grafa com J, não com G; o mesmo vale para chuchu (não é com X). Já a palavra morsegão está lá (não é o mesmo que morcegão, aumentativo de morcego).

Outro caso: Apesar de largamente usada, a palavra mussarela não se encontra registrada no VOLP; as formas lá encontradas são muçarela e mozarela, as únicas oficiais e que devem ser grafadas.

Buscando no VOLP eletrônico a forma triplex, encontramos o vocábulo oxítono e o paroxítono, o que significa que ambas as formas são corretas, podendo ser usadas sem medo de errar; o mesmo vale para o par formado por duplex e dúplex. (Prefiro as formas oxítonas.)

volp-triplexTriplex/tríplex e duplex/dúplex são vocábulos pertencentes a mais de uma classe: são substantivos, adjetivos e numerais, mas são invariáveis, pois não têm flexões de gênero nem de número. Vejamos alguns exemplos:

a) Apartamento triplex;
b) Estes apartamentos são duplex;
c) Nossas moradias são triplex.

E outros mais poderíamos citar.

Resumindo: essas formas são corretas, sejam oxítonas ou paroxítonas, têm uso como substantivos, adjetivos ou numerais e são invariáveis quanto a gênero e número.

A sugestão é, optando-se por uma ou outra palavra, manter a coerência no texto, não as misturando sem necessidade.

Para concluir, lembremo-nos de que, se a palavra em questão é paroxítona (tríplex), ela deve ter sinal diacrítico (acento gráfico) agudo sobre a vogal da sílaba tônica, pois se trata de palavra paroxítona terminada em consoante que não é S nem M.

A versão eletrônica do VOLP está disponível gratuitamente aqui: http://www.academia.org.br/nossa-lingua/busca-no-vocabulario.

Santarém, Pará, 4/2/2016.

Frade, frei, irmão

Hoje em dia, quando se topa com as palavras frade e frei, quase sempre seu uso está errado ou, no mínimo, equivocado (e no mais das vezes só vemos a segunda delas). O mesmo ocorre, embora com menos frequência, com as formas femininas freira e sóror.

Vejamos, portanto, as diferenças entre frade e frei e sua relação com a palavra irmão.

I. Origens
As palavras frade e frei vieram da palavra latina frater, que significa “irmão”; seu equivalente feminino na língua do Lácio é soror (“irmã”). Estas duas palavras têm uma história muito curiosa, pois não sobreviveram em português – pelo menos não com significado semelhante ao latino. Estão presentes, por exemplo, no francês (frère e soeur), no italiano (fratello e sorella), no romeno (fratele e sora), com as marcas visíveis de séculos de evolução; mas por que em português temos irmão e irmã?

Com a fragmentação do Império Romano, no século V d.C., as províncias, agora convertidas em reinos autônomos, perderam o contato mais íntimo com Roma, que deixou de ser o centro irradiador de inovações e modas linguísticas da România (o conjunto das áreas em que se falava o latim); o latim vulgar (ou popular) falado nas regiões distantes passou a evoluir por conta própria, sem influência de Roma e com suas próprias criações lexicais, variações de pronúncia e sintaxe, até dar origem às línguas românicas ou neolatinas que conhecemos.

Não foi diferente com as comunidades latinas da Ibéria.

Um pouco antes disso, os povos germânicos ou germanos, após séculos de escaramuças e guerras, foram incorporados ao Império Romano, com direito, inclusive, à cidadania romana, passando a servir nas tropas e espalhando-se pelas províncias. Os germanos, agora, eram povos amigos dos latinos.

É provável que o termo latino germanus tenha passado, metaforicamente, a ser usado com o sentido de “aliado”, “amigo” e até “irmão”, desbancando pouco a pouco a palavra latina frater; foi esta uma inovação linguística ibérica, pois as outras regiões da România conservaram e modificaram a forma latina antiga. Germanus tornou-se, após transformações fonéticas, irmão, hermano e germà – em português, espanhol e catalão, respectivamente, com as respectivas formas femininas irmã, hermana e germana. Temos aqui, então, uma metáfora que se tornou termo corrente.

II. E frade, frei?
O termo latino frater, abandonado em português em favor de germanus, retornou mais tarde, já na Idade Média, como designativo dos membros das ordens de religiosos católicos franciscanos, dominicanos e outros. Sofrendo transformações fonéticas e de significado (de que não trataremos aqui), a palavra frater assumiu em português as formas frade e frei. Pelo mesmo caminho surgiram as palavras freira e sóror, usadas em relação a religiosas das ordens femininas.

Todas essas formas são relativas a religiosos de ordens monásticas, isto é, aquelas cujos integrantes vivem em conventos ou mosteiros. Os termos irmão e irmã também são usados nesse contexto, embora tenham maior abrangência.

As palavras latinas pater e mater originaram em português, cada uma, também duas formas, respectivamente pai e padre, mãe e madre; enquanto pai e mãe são palavras herdadas com séculos de transformações fonéticas, padre e madre são termos semieruditos surgidos já no Medievo, com uso no âmbito religioso.

III. O uso
As palavras frade e frei, assim como freira e sóror, não são morfossintaticamente equivalentes e não se usam, indiscriminadamente, uma pela outra: enquanto frade e freira são substantivos comuns, frei e sóror são formas de tratamento usadas com nomes próprios.

Vejamos alguns exemplos:

a) Meu primo João é frade.
b) Ontem estiveram aqui os dois frades espanhóis.
c) Os frades Antônio e Paulo viajaram a Roma.
d) O frade João é meu primo.
e) Bocage criticou frei Efraim em um poema.
f) Frei João é meu primo.
g) Frei Antônio e frei Paulo viajaram a Roma.
h) Minha irmã Maria tornou-se freira.
i) As freiras daquele convento assam pães.
j) As freiras Paula e Cecília chegaram à cidade.
k) Minha irmã é sóror Maria.
l) Sóror Paula e sóror Cecília chegaram à cidade.

Creio que fica bem claro o seguinte:

1. As formas frei e sóror só se usam com o nome próprio e não vêm precedidas de artigo. São títulos.
2. As formas frade e freira usam-se como substantivos comuns, com ou sem artigo, com ou sem o nome próprio (aposto), e variam em número (singular e plural), conforme a necessidade.
3. Não é necessário que essas formas venham com letra inicial maiúscula, obrigatória apenas quando em início de período ou frase.
4. Sóror possui as variantes soror e sor.

Adendo:
Assim como frei e sóror, as formas de tratamento dom e dona vêm acompanhadas do nome próprio e não se usam com artigo (pelo menos na língua culta).

Dom e dona vieram das formas latinas dominus e domina: “senhor” e “senhora”, respectivamente; também de dominus veio dono.

Na linguagem popular, dona é o equivalente feminino das formas de tratamento masculinas sor ou seu; neste contexto a palavra dona é muitas vezes usada com artigo definido: a dona Maria.

Santarém, Pará, 26/1/2016. Editado em 27/1/2016.

Por que temos sotaque?

sotaque
Ilustração de Alvim (Ciência Hoje das Crianças)

Um artigo curtinho da revista eletrônica Ciência Hoje das Crianças trata rapidamente da questão dos sotaques: “Por que temos sotaque?” De fato, sotaque é coisa que todos têm, mas nós nos esquecemos disso.

Todo brasileiro acha que apenas os brasileiros de outras regiões é que têm sotaque, “puxam o R e/ou o S”, “falam arrastado ou cantado” etc. Quem mora ou já morou fora de sua região de origem sabe bem disso.

Na verdade, todos “falam cantado ou arrastado”, “puxam o R e o S”. Como é possível isso? Segundo Ferdinand de Saussure, um dos fundadores da linguística moderna, em sua obra póstuma Curso de Linguística Geral, “o ponto de vista é que faz o objeto”, ou seja, é tudo uma questão de perspectiva de quem vê/ouve em relação a quem é visto/ouvido. Estamos acostumados ao modo de falar de nossa região e não percebemos nossos próprios hábitos linguísticos, o que só ocorre quando encontramos pessoas de outras regiões, falando a mesma língua mas com pronúncia e/ou vocabulário diferente; então usamos nosso dialeto como parâmetro para analisar a fala do outro, comparando-a com a nossa.

Isto ocorre em todos os lugares: as pessoas sempre partem de seus próprios hábitos para comparar-se com outras pessoas, inclusive os hábitos linguísticos; quando vamos a outros lugares, a passeio ou para morar, passamos a ser objeto também de comparação. Nada mais natural, pois essas diferenças existem e não há problema nenhum nisso, e tudo o que apresenta alguma diferença em relação à maioria tende a destacar-se, evidenciar-se; o problema passa a existir quando as diferenças são usadas para ofender, discriminar, oprimir.

As diferenças de pronúncia surgem da própria dinâmica da linguagem, que está sempre variando para adaptar-se aos falantes e às circunstâncias, enquanto os falantes também se adaptam à própria língua. Não há duas pessoas que falem da mesma maneira, a fala de cada indivíduo é única. Mas os indivíduos tendem a imitar uns aos outros para manter a língua inteligível e permitir a comunicação; por isso, grupos de falantes que habitam uma mesma região tendem a falar de modo parecido, para manter a comunicação sem ruídos e conservar também a coesão do grupo e sua identidade. É o que podemos chamar de contrato social da língua.

Assim, o que explica o fato de que os elementos de um grupo falam de modo parecido é a convivência e necessidade de união, coesão; e da mesma forma que tendem a manter-se coesos, os grupos buscam certa diferenciação em relação aos grupos vizinhos.

Quando surge uma inovação linguística, seja ela de pronúncia ou lexical, ela espalha-se pois é imitada (mesmo que de forma pouco consciente) por outros falantes, até que se torna dominante; pode continuar assim ou desaparecer depois, substituída por outra variação. Isto é mais evidente quando se trata de vocabulário, mas ocorre também com a pronúncia.

A expansão de uma língua tende a criar novos sotaques. No começo, o grupo que migrou para a nova região continua falando como seus ancestrais; depois, a perda de contato com o lugar de origem faz a fala do grupo variar, pois surgem inovações de pronúncia que não existem na fala de origem, criando-se um sotaque novo. Também a chegada de grupos de migrantes traz novos traços linguísticos à fala da região, tornando-a, pouco a pouco, diferente.

E quanto mais se expande, geográfica e demograficamente, uma língua, mais variações ela apresenta, por isso o número de sotaques do português, por exemplo, só tende a aumentar – apesar de haver a tensão contrária, exercida pelos centros irradiadores de cultura (as capitais ou grandes metrópoles), de assimilar os sotaques circunvizinhos, principalmente quando estes apresentam menor prestígio social em relação àqueles.

Para terminar: sotaque e suas variações não devem ser confundidos com a língua ou norma culta – que é um conjunto de usos baseados na escrita e dependentes desta (ao mesmo tempo que a abarcam) – nem com as diferenças entre a língua culta e as normas ou variedades populares; o sotaque diz respeito à pronúncia, simplesmente.

Leia o artigo da Ciência Hoje das Crianças aqui: http://chc.cienciahoje.uol.com.br/por-que-temos-sotaque/.

Homenagem impontual

fapespaO uso correto da pontuação em nossa língua tem sido um problema para muitas pessoas, principalmente quando se trata de vírgulas. Em se tratando do vocativo, então, a situação é ainda mais complicada, pois muita gente nem mesmo se dá conta da necessidade do uso de vírgula a acompanhar este elemento frasal. E a vírgula, aí, não é elemento decorativo, pois tem função: marcar a pausa, que sempre acompanha o vocativo.

Este cartaz é exemplo da incompreensão de muitos quanto ao uso e função da vírgula. Ficou à mostra no sítio da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas do Pará – Fapespa (www.fapespa.pa.gov.br), órgão estadual paraense de fomento à pesquisa, como homenagem do Dia Internacional da Mulher.

As mulheres que visitaram a página nos últimos dias certamente agradecem, com sinceridade, a homenagem.

Mas onde foram parar as duas vírgulas que deveriam acompanhar – uma antes e outra depois – o vocativo mulheres, separando-o dos outros elementos da frase?

Talvez se tenham posto a correr, alarmadas com os altíssimos índices de violência doméstica e contra as mulheres no Brasil e no Pará.

Escrevi em 2012 um artigo sobre isto (o vocativo, of course), ainda disponível em Língua e Cultura (no Blogspot).

Resumindo-se a coisa, temos o seguinte:

  • O vocativo deve vir sempre acompanhado de vírgula; esta é a marcação da pausa que acompanha o vocativo em todas as situações.
  • Se a palavra em função de vocativo está no início da frase, a vírgula vem depois dela; se ela vem no fim da frase, a vírgula deve estar antes.
  • No caso de que aqui tratamos, como temos a palavra vocativa – mulheres – no meio da frase ou oração, ela deve vir acompanhada de duas vírgulas, uma antes e outra depois, pois na entoação da frase há duas pausas, uma antes e outra depois da palavra mulheres.

Homenagem é coisa boa, todo mundo aprecia. Mas não nos esqueçamos da pontuação, inclusive a do vocativo.