Espírito de porco, Diabo e Cia.

I. Perguntou-me certa vez um aluno sobre a origem da locução espírito de porco, e o porquê de ser empregada com sentido negativo, com referência a maus procedimentos ou ao Diabo. A questão também me interessou, e resolvi pesquisar para obter alguma explicação. Seguem abaixo os dados que consegui, os quais permitiram chegar a algumas conclusões (1).

II. A única referência direta que encontrei quanto à locução espírito de porco é a de Antenor Nascentes no Tesouro da Fraseologia Brasileira (2). Na página 117, sob o verbete “Espírito”, diz o seguinte o estudioso patrício:

ESPÍRITO — das trevas. O demônio. — de contradição. Pessoa que se compraz em levantar objeções. — de porco. Aquele que, nas sessões espíritas, aparece para se divertir à custa dos crentes. Pessoa de má índole, sempre disposta a dizer ou fazer coisas que desagradem. V. S. Mateus, VIII, 30-2; S. Marcos, V, 11-3; S. Lucas, VIII, 32-3. — de sedução. O demônio. (…) — forte. Pessoa que, sobretudo em matéria de religião, se compraz em atacar as opiniões da maioria, em pôr-se acima das idéias comumente admitidas. — maluco. O demônio. (…) Levantar os —s. Excitar os ânimos. (…) Ser um — de porco. Pessoa sempre disposta a dizer ou a fazer coisa que contrarie. (…) (Ortografia atualizada ­­— grifos meus.)

Como se verifica no trecho acima citado, a palavra espírito, quando acompanhada de epítetos como maligno, maluco, de porco e outros, é associada ao Diabo. Tais locuções foram difundidas no Ocidente pela cultura e fé cristã, por meio de alusões e referências às Escrituras Sagradas. Com efeito, há na Bíblia muitas passagens que contam casos de expulsão de espíritos malignos ou demônios do corpo de pessoas.

III. No verbete “Espritado” das Locuções Tradicionais no Brasil (3), diz Câmara Cascudo, citando o dicionário de Antônio de Morais Silva, que “todo brasileiro conhece e aplica o vocábulo Espritado, espritou-se, valendo pessoa inquieta, que parece ter o espírito malino, f. travesso, mui inquieto”. De fato, espritar ou espiritar é “endemoninhar; tornar endiabrado, travesso, inquieto; irritar, danar” (Cândido de Figueiredo, Novo Dicionário da Língua Portuguesa).

Na esteira do que diz Câmara Cascudo, encontrei também que espritar-se é “encolerizar-se, enfurecer-se, exceder-se”, segundo o Caldas Aulete Digital; diz este mesmo dicionário eletrônico que espiritar-se é “1 Meter o demônio no corpo; ficar endemoniado; 2 Fig. Tornar agitado endiabrado, inquieto; 3 P.us. Transformar(-se) em espírito; 4 Fig. Provocar estímulo, excitação; 5 Provocar estado de transe”.

Acrescenta o folclorista potiguar: “Estar espritado era estar possesso. Em fevereiro de 1581, em Roma, Montaigne assistiu a cerimônia de exorcismos, aplicados por um sacerdote embésongné à guérir un spiritato”. Ainda de acordo com Cascudo, para nós é espritado o irriquieto, buliçoso, turbulento; está espritado o animal que arranca subitamente, disparando sem motivo; está espritado o cão hidrófobo, sendo esse nome aplicado, ainda, a moléstias mentais.

Com tudo isso, não é a toa que, nos meios populares, a suposta possessão pelo Diabo ou por um seu espírito maligno ainda hoje se tenha como a causa de muitas taras e desvios de conduta que a ciência antiga não podia explicar. É também a justificativa de muitos crimes hediondos, passionais ou não. Os programas sensacionalistas de televisão mostram sempre casos de crimes cujos autores alegam de nada se lembrar por estarem possessos ou se terem tornado “cavalos do Cão”, ou seja, endemoniados, fazendo-se alusão ao termo cavalo no sentido de “médium”, com o Diabo incorporado nele.

Codex_Gigas_Biblia_do_Demonio
O Diabo retratado no Codex Gigas (século XIII), também conhecido como Bíblia do Diabo.

IV. O nome diabo é originário do termo latino diabolus, por sua vez originário do grego diábolos, com o sentido de “aquele que divide ou separa, que se interpõe”; numa tradução livre, de acordo com as concepções cristãs e de outras religiões, é aquele que se põe no caminho reto do homem, desviando-o. Seus sinônimos mais comuns são Satanás, Satã, Demônio, Lúcifer, Belzebu (usa-se inicial maiúscula quando se faz referência ao Diabo como chefe do Inferno e dos anjos caídos ou diabos; quando em sentido comum, a inicial é minúscula).

O vocábulo diabo sofreu transformações fonéticas típicas das palavras herdadas, a saber, as que passaram de uma geração a outra, durante séculos: desapareceu a consoante /l/ intervocálica e ocorreu a posterior crase das duas vogais finais: diabolus > diabolo > diaboo > diabo. Note-se que o espanhol, o francês e o italiano mantiveram o /l/: diablo, diable, diavolo, o mesmo ocorrendo em inglês: devil. Aquele fenômeno fonético, ocorrido também com outras consoantes sonoras, é comum na história da língua portuguesa e a distingue de outras línguas românicas. Outros exemplos:

pala > paa > pá; tabula > tábua; pila > pia; populus > pobolo > povoo > povo
lana > lãã > lã; luna > lua; matiana > maciã > maçã
nudus > nuu > nu; pedes > pee > pé

O fenômeno deu-se com os termos populares; as palavras eruditas, porquanto introduzidas na língua bem tardiamente, trazidas diretamente do latim clássico, conservam-se bem próximas deste, formando-se pares contrastantes: pá, paleta; tábua, tabular; lã, lanífero, lanígero, lanifício; lua, lunar, alunissar; nu, nudez; pé, pedal, pedioso

De diabo há duas outras variantes populares, também originárias de diabolus, por meio de outros processos fonéticos: dianho e diacho. Compare-se diacho com mancha (< macula) e chave (<clavis).

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O Martírio de Eleazar (Gustave Doré, 1866).

V. Mas onde entra, nisto tudo, a figura do porco, e que papel lhe cabe? Também para isto devemos buscar explicações na Bíblia e tradição judaico-cristã.

De fato, já para os hebreus antigos o porco era animal impuro, de cuja carne o consumo era proibido pela lei de Moisés. O porquê disso confesso que não sei; é coisa para os especialistas em assuntos judaicos. Mas lembro-me de ter lido no Talmud, edição de José Pérez (4), a explicação de que “a carne de porco é proibida porque é gostosa demais e leva o homem à gula” (cito de memória).

A resistência ao consumo da carne de animal tido como tão impuro e proibido trouxe, em certos momentos, perseguição aos judeus. Foi o que ocorreu nos últimos séculos antes da Era Cristã, quando a Judeia esteve sob o domínio de reis gregos ou helenizados. No contexto dessas perseguições, cita-se o episódio da execução de Eleazar, doutor da lei, em Jerusalém, contado no II Livro dos Macabeus, VI: por se recusar a comer carne de porco, foi torturado até a morte (ver as traduções católicas da Bíblia). No mesmo livro, no capítulo VII, conta-se o martírio de sete irmãos judeus com sua mãe: o rei sírio Antíoco IV Epífanes (ou Epifânio), que dominava a Palestina no século II a. C. e tentou helenizar o território, queria, entre outras coisas, fazê-los também comer carne de porco; por não acatarem a ordem do rei, foram todos mortos com as mais terríveis torturas, morrendo por último a mãe, após assistir ao suplício dos filhos um a um (5).

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Os Sete Irmãos e sua Mãe (Julius Schnorr von Carolsfeld, 1826).

Em artigo publicado em 2004, Alzira Simões (6) estuda o porco sob diversos aspectos sociais, culturais, econômicos, e enumera diversas conotações positivas e negativas do porco. Dentre os epítetos negativos, diz ela que o porco “é praticamente sinónimo de dorminhoco, teimoso, egoísta, invejoso, manhoso, rabão, voraz, diabólico, indolente, imundo, sujo, enfim, porco!” (p. 50-51).

Continua a autora:

O porco é também, contraditoriamente, na nossa cultura como noutras, identificado com a gula, a voracidade, a sujidade, a imundície, simbolizando, igualmente, a obscenidade, a ignorância, a luxúria e o egoísmo, sendo, como referimos, considerado um animal impuro em várias religiões, e, por consequência, o consumo da sua carne é proibido ou restringido em várias culturas (islâmica, judaica…).
Objecto de repulsa, passa pela identificação com o homem em certos provérbios (onde, além dos supra-enunciados com eventual carga negativa, encontramos ainda muitos outros como: “dar pérolas a porcos”, “quem se mistura com os porcos come lavagem”, “judeu e porco, algarvio e mouro – são quatro nações e oito canalhas”, “nem moinho por contínuo, nem porco por vizinho”, etc., etc.) e pela antropomorfização caricatológica em que o ser humano assume formas porcinas, é com o porco identificado, na maioria das vezes, de um modo pejorativo e mordaz.
Encontra-se, além disto, na língua portuguesa inúmeras designações e expressões antropónimas, metafóricas, com valência sócio-culturais desfavoráveis. Para tal servem de exemplo os termos e ditos: “porcaria”, “porcalhona”, “marrão”, “marranço”, “gordo como um porco”, “só se lava quem é porco”, “teimoso como um porco”, “dormir como um porco”, “sangrar como um porco”, etc., etc. (p. 51).

O trecho acima faz lembrar A Revolução dos Bichos, de George Orwell, que Alzira Simões também cita (p. 54-55). Nesta obra, os animais do sítio expulsam seu opressor, o homem, e decidem cuidar de seu próprio destino, vivendo em comunidade; mas pouco a pouco outro dominador surge de entre os próprios animais: o porco.  Os porcos acabam por aliar-se a seus antigos senhores, e quando todos se sentam em torno de uma mesa para selar o acordo, quem os vê de fora não consegue distinguir quem é homem e quem é porco…

VI. Mais do que ser reputado o porco um animal impuro, o espírito de porco é também sempre relacionado ao Demônio, por meio da ideia de possessão. Ora, é exatamente isso que se encontra nos versículos bíblicos aludidos por Nascentes em sua obra citada acima, os quais narram um conhecidíssimo episódio da pregação de Jesus Cristo na Palestina. Passava Ele por Gerasa, local próximo da Galileia, quando encontrou um homem (ou dois, segundo S. Mateus) possesso por uma legião de demônios; estes, temendo que Jesus os enviasse para o abismo, pediram-Lhe que os mandasse para cima de uma vara de porcos que ali perto pastavam. Feito isso, os porcos, com os demônios em si, precipitaram-se no mar por um despenhadeiro e afogaram-se. (Conferir a Bíblia das Edições Paulinas, tradução de Matos Soares.)

Parece que, da narrativa sobre a legião de demônios que Jesus Cristo expulsou, deriva também a locução diabo a quatro, com o sentido de “grande tumulto, desordem, alarido e confusão”. João Ribeiro, nas Frases Feitas, p. 313 (7), cita a explicação do padre Tuet, segundo o qual nos antigos autos e mistérios medievais “apareciam sempre quatro personagens vestidas de diabos e que faziam horrível barulho com o intuito de atemorizar os espectadores, instruindo-os das penas infernais”. Entre nós, foi continuador dessa tradição o padre José de Anchieta, que em seu auto Na Aldeia de Guaraparim, composto em língua tupi, põe em cena quatro diabos a queixar-se da ação dos jesuítas; já no Auto de São Lourenço, também em tupi, ele não arrola quatro, mas sete diabos, sendo três os principais e quatro os subalternos. Não bastasse o próprio Diabo, vinha ele ainda acompanhado de seu séquito!

VII. Voltando ao porco: na mesma obra citada trata João Ribeiro do curioso dito popular “Cada porco tem seu São Martinho”, que ele diz confirmar a relação do porco com o Diabo e as más ações e procedimentos. De acordo com João Ribeiro, o sentido desta última locução é o de que

São Martinho os [porcos] fará melhores, e lá virá um dia que não sejam porcos. Porque, na lenda medieval de São Martinho, este santo sarava os doentes ainda contra a vontade deles. O que fazia com que os falsos mendigos com suas ricas chagas fugissem a todas as gâmbias do santo, por não perderem o emprego (p. 166, ortografia atualizada).

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São Martinho de Tours a cavalo (Mosteiro de Tibães, Portugal).

Houve vários santos com o nome Martinho, mas parece que a lenda citada por João Ribeiro se refere a São Martinho de Tours, nascido na Panônia, atual Hungria (assim como São Martinho de Braga), que viveu no século IV, foi bispo de Tours e está sepultado nessa cidade francesa.

Segundo a tradição, Martinho era soldado romano e encontrou, num dia frio, um mendigo desagasalhado; tocado por aquela situação de penúria, cortou metade de seu manto e deu-o ao pobre. Mais tarde foi visitado por Jesus Cristo, que lhe agradeceu a caridade. Isto o levou a converter-se.

Martinho de Tours tinha a fama de curar até mesmo quem não queria ser curado, por isso os pedintes aleijados ou chagados fugiam dele, com medo de perder seu ganha-pão. Mas Martinho os curava mesmo assim, até depois de morto, por isso eles temiam aproximar-se de sua tumba em Tours. (A exploração da doença pelos esmoleiros é bem mais antiga do que se pensa.)

Em Portugal registram-se adágios referentes à festa de São Martinho, celebrada no outono europeu, relacionando-a ao vinho, às castanhas e ao porco; neste caso, trata-se da destinação do porco ao abate e consumo em honra do santo.

Termina João Ribeiro dizendo que, por serem porco e porco sujo nomes dados pelo povo ao Diabo, este tem suas razões para fugir daquele santo, que o desmascara e afugenta.

Para concluir: Sendo o porco, na nossa cultura, um animal considerado por muitos como impuro, por motivos religiosos, e apontando-se a possessão pelo(s) demônio(s) como causa de diversas condutas inadequadas, não é difícil entender porque a locução espírito de porco aponta para os maus procedimentos e ações e, por extensão, para seu suposto responsável, o Diabo.

Notas:

  1. A primeira versão deste artigo esteve disponível entre 1999 e 2006 em http://www.napoleao.com, sítio do extinto Curso do Prof. Napoleão Mendes de Almeida. Foi também publicada, em duas partes, no boletim mensal da Ordem dos Velhos Jornalistas de São Paulo (OVJ/SP), sob a direção de Antônio Carvalho Mendes (1933-2011), além de ter aparecido também em outras páginas Web.
  2. NASCENTES, Antenor. Tesouro da Fraseologia Brasileira. 2.ª edição. Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos, 1966.
  3. CÂMARA CASCUDO, Luís da. Locuções Tradicionais no Brasil. Coisas que o Povo Diz. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1986.
  4. PÉREZ, José (Org.). Talmud. São Paulo: Edições Cultura, 1942.
  5. Os quatro livros dos Macabeus foram escritos originalmente em grego e narram episódios da vida dos judeus na época helenística; receberam esse nome devido aos irmãos Judas e Simão Macabeu, fundadores da dinastia dos Asmoneus, que governou a Judeia antes do domínio romano. Os quatro livros dos Macabeus não fazem parte da Bíblia protestante nem do cânone judaico, mas estão presentes na Bíblia da Igreja Ortodoxa. A Bíblia católica contém apenas I e II Macabeus. Mais aqui: https://pt.wikipedia.org/wiki/Livros_dos_Macabeus.
  6. SIMÕES, Alzira. O porco: animal sociocultural total. Mneme: Revista de Humanidades. Caicó (RN), V. 04. N. 09, fev./mar. de 2004. pp. 41-64. Disponível em: <http://www.periodicos.ufrn.br/mneme/article/viewFile/181/169>.
  7. RIBEIRO, João. Frases Feitas. 2.ª edição. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1960.

Santarém, PA, 12/9/2012. Editado em 29/4/2016.

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E os gregos falavam inglês…

Não me canso de ser surpreendido pela falta de cultura geral que campeia na televisão brasileira. Nem a TV paga escapa!

Assistindo no canal History 2 a um documentário sobre as Guerras Médicas (ocorridas no século V a.C. entre gregos e persas, estes conhecidos também como medas ou medos), vejo ser contada a famosa façanha do soldado grego que, em 490 a.C., correu mais de 40 quilômetros, do campo de batalha em Maratona até Atenas, para informar que os gregos haviam vencido aquela importante batalha.

Ao chegar a Atenas, gritou “Vitória!”… e caiu morto.

É fato conhecidíssimo; deu origem à prova olímpica moderna chamada Maratona.

Mas a novidade é que o programa do History 2 mostra, para espanto geral, que os gregos daquela época não falavam grego, mas INGLÊS.

Por quê?

Porque o dublador de um dos historiadores entrevistados, ao pronunciar a palavra dita pelo soldado, disse NÁIKE!

Ora, mas esta é a pronúncia do nome inglês Nike, que designa uma marca de produtos esportivos. A palavra inglesa veio da palavra grega Νίκη (transliterada modernamente em caracteres latinos como Níkē). A pronúncia grega era [nike:], com acento tônico no [i] e a vogal [e] alongada.

Era o nome da deusa grega Nice (chamada VICTORIA pelos romanos), divindade relacionada à vitória, força e velocidade. Os romanos, quando usavam o nome grego da deusa, grafavam a palavra como NICE – assim mesmo, com C – e pronunciavam à maneira grega; a grafia romana é, portanto, a forma de origem do nome feminino Nice no português e noutras línguas modernas europeias, com pronúncias variadas. Já nossa palavra vitória – substantivo comum e também nome próprio – veio do nome latino, obviamente.

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“Vitória de Samotrácia”, Museu do Louvre, Paris, França. Foto de Adrian Pingstone. Fonte: Wikipedia.

O nome Vitória designa também as estátuas que representam essa divindade greco-latina, das quais uma das mais conhecidas e admiradas é a Vitória de Samotrácia (cerca de 200 a.C.), atualmente no Museu do Louvre, Paris, França. A figura feminina presente na Taça Jules Rimet, dada ao campeão mundial de futebol desde 1930 até 1970, também era uma representação da deusa Vitória ou Nice.

Que os falantes de inglês pronunciem nike como NÁIKE é problema deles; mas pronunciarmos assim como se fossem os gregos a falar é uma tolice. Ou se diz simplesmente vitória, em português (traduzindo-se o termo grego), ou se pronuncia a palavra grega à maneira grega: NIKE.

O que não é aceitável é sair por aí pensando que todas e quaisquer palavras de outras línguas se pronunciam como as palavras inglesas.

Uma sugestão: Se você não sabe como se pronuncia uma palavra estrangeira, seja natural e pronuncie-a como se fosse palavra portuguesa ou o mais próximo disso; não há demérito nenhum em assim proceder. Ninguém é obrigado a saber palavras de outras línguas.

Mas não leia palavras espanholas, francesas, italianas, gregas etc. como se fossem inglesas. Isto pega mal.

Mr. Tupperware e os tapoés

TupperwareUma das formas por que se transformam todas as línguas, inclusive a nossa, é a recepção de palavras de origem estrangeira; cada língua tem seus recursos próprios (fonológicos, morfológicos, sintáticos etc.), e os termos estrangeiros sempre se adaptam fonologicamente – mesmo que, às vezes, não na grafia – à língua que os recebe.

Quem reconhece, nas palavras chulipasinuca, os termos ingleses sleepersnooker, respectivamente? A grafia futebol resulta de nossa pronúncia do inglês football; os nomes Josué e Jesus vieram ambos do hebraico Yehoshua (através da forma reduzida Yeshua, de que proveio a forma latina Iesu); Tiago, Diego, DiogoIago, Jaime e Jacó são (pasme-se!) formas originárias (por caminhos diversos) do mesmo nome hebraico Yaakov, e assim sucessivamente…

As formas tapoé, tapoer, tapaué e tapué nada mais são que representações gráficas das pronúncias brasileiras correntes do nome Tupperware, empresa multinacional americana fabricante de plásticos, fundada por Earl Silas Tupper; mesmo quem conhece a grafia original do nome e escreve Tupperware não o pronuncia como em inglês, por influência da prosódia do português. A grafia adaptada sempre aparece e se consolida bem depois da adaptação fonética: quando se passou a escrever futebol, já fazia muito tempo que se pronunciava assim, bem diferente de football. É questão de tempo até que se fixe uma grafia vernácula dessa palavra (talvez a própria forma tapoé), sendo depois registrada em dicionários e no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras (ABL).

A parte a polêmica sobre a aceitação ou não de termos emprestados de outras línguas, o fato é que a adaptação de palavras importadas sempre ocorre e é, inicialmente, fonética (pois a palavra estrangeira nunca é pronunciada exatamente como é na língua de origem). Depois se cria uma forma vernácula (isto é, de acordo com a língua receptora) para representar a palavra estrangeira. Vejam o exemplo de abajur, que veio do francês abat-jour; nossa grafia atual é a representação da adaptação fonológico-fonética da palavra francesa à nossa língua. É o mesmo que ocorre com tapoé; se grafamos Taperuér ou coisa parecida, a grafia está obviamente errada em relação ao original inglês; mas, no caso que temos aqui, trata-se uma adaptação da pronúncia à nossa grafia, pois as pessoas ouvem a palavra mas nem sempre sabem que se trata de termo estrangeiro; pensam que é português (e não são obrigadas a pensar de outro modo) e escrevem o que ouvem – ou como acham que ouvem.

Escrever “caza” ou “Brasiu” é errar na grafia; mas em casos como o de Tupperware/tapoé, em que não há palavra portuguesa (a não ser que se chame de “potinho de plástico”) para o objeto, como considerar errado ou inadequado?

Gillete
King Camp Gillette retratado na embalagem do produto que o tornou célebre.

Para terminar, observemos que Tupperware é um dos nomes próprios ou de marcas de produtos que se tornaram designativos de objetos genéricos. Talvez os mais notórios exemplos sejam carrasco (do nome do verdugo português Belquior Nunes Carrasco, século XV); macadame (processo de pavimentação de estradas criado pelo engenheiro escocês John Loudon McAdam) e gilete (do nome do inventor da lâmina de barbear descartável, King Camp Gillete); tapoé, portanto, no português coloquial brasileiro é qualquer “pote plástico com tampa”.

Exemplos como estes mostram a língua em plena atividade, dinâmica e saudável… apesar de opiniões em contrário.

Santarém, PA, 14/2/2014. Editado em 12/2/2016.

Pílulas de inglês

Não se deixe influenciar por propagandas enganosas de escolas de inglês ou outros idiomas: se você está lendo isto e não fala outra língua além do português, você até poderá aprender outras línguas, mas não aprenderá nenhuma delas da mesma forma por que aprendeu o português.

Por quê?

Porque, quando somos expostos, após o nascimento, à língua materna (no nosso caso, o português), desenvolvemos também, concomitantemente, a linguagem e formamos nosso aparelho fonador (o conjunto de órgãos envolvidos na fala, incluindo-se o cérebro, obviamente).

A linguagem é uma faculdade inata do ser humano, mas não se desenvolve (ou não é adquirida) sem que a criança esteja exposta a uma ou mais línguas, pois a exposição à(s) língua(s), desde os primeiros dias após o nascimento, é que ativa os mecanismos psicofísicos da linguagem.

Ao sairmos da infância, nosso aparelho fonador já está formado e ajustado à(s) nossa(s) língua(s) materna(s); depois disso, ao aprendermos outra(s) língua(s), nosso cérebro tenta ajustar, “casar” os fonemas e a gramática da(s) nova(s) línguas àquilo que já temos na mente. É o que gera o sotaque de língua estrangeira – quanto aos aspectos fonético-fonológicos, é claro.

Por isso a melhor idade para aprender línguas é a infância; depois dessa idade, dificuldades e sotaque são inevitáveis – a não ser que se trate de um dos Super-Humanos de Stan Lee ou um(a) Language Boy ou Girl da Legião dos Super-Heróis.

É claro que um adulto pode aprender línguas estrangeiras, variando a velocidade e facilidade de aprendizado, assim como a agilidade na(s) nova(s) língua(s), de acordo com vários fatores, tanto pessoais quanto externos; mas jamais poderemos aprender novas línguas, depois da infância, como se crianças ainda fôssemos.

Santarém, PA, 10/2/2016.

Frade, frei, irmão

Hoje em dia, quando se topa com as palavras frade e frei, quase sempre seu uso está errado ou, no mínimo, equivocado (e no mais das vezes só vemos a segunda delas). O mesmo ocorre, embora com menos frequência, com as formas femininas freira e sóror.

Vejamos, portanto, as diferenças entre frade e frei e sua relação com a palavra irmão.

I. Origens
As palavras frade e frei vieram da palavra latina frater, que significa “irmão”; seu equivalente feminino na língua do Lácio é soror (“irmã”). Estas duas palavras têm uma história muito curiosa, pois não sobreviveram em português – pelo menos não com significado semelhante ao latino. Estão presentes, por exemplo, no francês (frère e soeur), no italiano (fratello e sorella), no romeno (fratele e sora), com as marcas visíveis de séculos de evolução; mas por que em português temos irmão e irmã?

Com a fragmentação do Império Romano, no século V d.C., as províncias, agora convertidas em reinos autônomos, perderam o contato mais íntimo com Roma, que deixou de ser o centro irradiador de inovações e modas linguísticas da România (o conjunto das áreas em que se falava o latim); o latim vulgar (ou popular) falado nas regiões distantes passou a evoluir por conta própria, sem influência de Roma e com suas próprias criações lexicais, variações de pronúncia e sintaxe, até dar origem às línguas românicas ou neolatinas que conhecemos.

Não foi diferente com as comunidades latinas da Ibéria.

Um pouco antes disso, os povos germânicos ou germanos, após séculos de escaramuças e guerras, foram incorporados ao Império Romano, com direito, inclusive, à cidadania romana, passando a servir nas tropas e espalhando-se pelas províncias. Os germanos, agora, eram povos amigos dos latinos.

É provável que o termo latino germanus tenha passado, metaforicamente, a ser usado com o sentido de “aliado”, “amigo” e até “irmão”, desbancando pouco a pouco a palavra latina frater; foi esta uma inovação linguística ibérica, pois as outras regiões da România conservaram e modificaram a forma latina antiga. Germanus tornou-se, após transformações fonéticas, irmão, hermano e germà – em português, espanhol e catalão, respectivamente, com as respectivas formas femininas irmã, hermana e germana. Temos aqui, então, uma metáfora que se tornou termo corrente.

II. E frade, frei?
O termo latino frater, abandonado em português em favor de germanus, retornou mais tarde, já na Idade Média, como designativo dos membros das ordens de religiosos católicos franciscanos, dominicanos e outros. Sofrendo transformações fonéticas e de significado (de que não trataremos aqui), a palavra frater assumiu em português as formas frade e frei. Pelo mesmo caminho surgiram as palavras freira e sóror, usadas em relação a religiosas das ordens femininas.

Todas essas formas são relativas a religiosos de ordens monásticas, isto é, aquelas cujos integrantes vivem em conventos ou mosteiros. Os termos irmão e irmã também são usados nesse contexto, embora tenham maior abrangência.

As palavras latinas pater e mater originaram em português, cada uma, também duas formas, respectivamente pai e padre, mãe e madre; enquanto pai e mãe são palavras herdadas com séculos de transformações fonéticas, padre e madre são termos semieruditos surgidos já no Medievo, com uso no âmbito religioso.

III. O uso
As palavras frade e frei, assim como freira e sóror, não são morfossintaticamente equivalentes e não se usam, indiscriminadamente, uma pela outra: enquanto frade e freira são substantivos comuns, frei e sóror são formas de tratamento usadas com nomes próprios.

Vejamos alguns exemplos:

a) Meu primo João é frade.
b) Ontem estiveram aqui os dois frades espanhóis.
c) Os frades Antônio e Paulo viajaram a Roma.
d) O frade João é meu primo.
e) Bocage criticou frei Efraim em um poema.
f) Frei João é meu primo.
g) Frei Antônio e frei Paulo viajaram a Roma.
h) Minha irmã Maria tornou-se freira.
i) As freiras daquele convento assam pães.
j) As freiras Paula e Cecília chegaram à cidade.
k) Minha irmã é sóror Maria.
l) Sóror Paula e sóror Cecília chegaram à cidade.

Creio que fica bem claro o seguinte:

1. As formas frei e sóror só se usam com o nome próprio e não vêm precedidas de artigo. São títulos.
2. As formas frade e freira usam-se como substantivos comuns, com ou sem artigo, com ou sem o nome próprio (aposto), e variam em número (singular e plural), conforme a necessidade.
3. Não é necessário que essas formas venham com letra inicial maiúscula, obrigatória apenas quando em início de período ou frase.
4. Sóror possui as variantes soror e sor.

Adendo:
Assim como frei e sóror, as formas de tratamento dom e dona vêm acompanhadas do nome próprio e não se usam com artigo (pelo menos na língua culta).

Dom e dona vieram das formas latinas dominus e domina: “senhor” e “senhora”, respectivamente; também de dominus veio dono.

Na linguagem popular, dona é o equivalente feminino das formas de tratamento masculinas sor ou seu; neste contexto a palavra dona é muitas vezes usada com artigo definido: a dona Maria.

Santarém, Pará, 26/1/2016. Editado em 27/1/2016.

Uma notinha sobre tradutibilidade

Com pequenas variações, um comentário que postei no blogue de Carlos Carrion, num artigo dele sobre dificuldades de tradução: http://omniglotbrasil.wordpress.com/2012/12/27/mais-intraduziveis/.

A facilidade e a dificuldade da tradução de textos dependem menos da estrutura das línguas em questão e mais do contexto delas, expresso por seu vocabulário, que expressa a cultura e o ambiente em que os falantes estão imersos.

É possível traduzir A República ou Os Lusíadas na língua xavante ou guarani? Pode ser difícil, trabalhoso, mas não impossível, do ponto de vista da estrutura. O que dificulta mais é o contexto, o conjunto de referências, que precisaria ser criado na cultura dos falantes, transposto para ela, para depois ser expresso em palavras.

Foi o que os missionários jesuítas, por exemplo, fizeram no trabalho de catequese: explicavam ou mostravam os conceitos cristãos e europeus na língua indígena (o tupi, por exemplo), criando nela um conceito e jungindo-o a um termo novo (criado a partir de elementos da própria língua ou importado do português) para poder ser ele veiculado por meio daquela língua.

Assim, foi possível falar em “cavalo” (kabaru), “pecado” (tekoa’iba ou angaipaba = “mau procedimento”), “mandamento” (Tupã rekomonhangaba = “aquilo que Tupã quer que se faça”), “cruz” (kurusu ou ybyrá-ioasaba = “paus cruzados”), “igreja” (Tupã roka = “casa de Tupã”) etc., conceitos que os tupis não conheciam.

Em geral, o senso comum concebe a tradução como equivalência “palavra por palavra”, como se os termos fossem etiquetas ou rótulos que pudessem ser facilmente trocados por outros: manteiga = burro = butter = butero; se não é possível fazer isso, já então se diz que a palavra não tem tradução em outras línguas. Infla-se o ego linguístico nacional!

Já dizia, e com toda a razão, São Jerônimo, padroeiro dos tradutores: “Deve-se traduzir o sentido, não as palavras”.

Santarém, Pará, 4/2/2013. Editado em 9/10/2015.

Asterix, Obelix e os franceses

“Lá vem a romana legião!”

Assistindo ao filme “Asterix e Obelix a serviço de Sua Majestade” (Astérix et Obélix: au service de Sa Majesté. França, 2012), lembrei-me das aulas de linguística e semiótica do saudoso professor Cidmar Teodoro Pais (1940-2009) na FFLCH da USP.

Dizia ele que as historinhas de Asterix não são simples histórias em quadrinhos, mas uma metáfora da França atual, com seus problemas, medos, preconceitos e mitos.

Se non è vero, è ben trovato.

Santarém, Pará, 6/3/2014. Editado em 18/9/2015.