São Jerônimo, Padroeiro dos Tradutores

"São Jerônimo" (Hendrick Bloemaert, 1601/1602-1672) - Fonte: www.wikigallery.org
“São Jerônimo” (Hendrick Bloemaert, 1601/1602-1672) – Fonte: www.wikigallery.org

Hoje, 30 de setembro, é dia de São Jerônimo e também Dia Internacional dos Tradutores.

Por sua tarefa hercúlea de tradução da Bíblia em latim, a partir dos originais em hebraico e grego, São Jerônimo é tido como o patrono dos tradutores. Legou-nos ainda muitíssimos textos, inclusive sobre técnicas de tradução.

Dizia ele que se devem traduzir não as palavras, mas o sentido. Prescrição muito moderna, principalmente quando se sabe que, ainda hoje, há gente querendo traduzir coisas ao pé da letra…

Por isso, se você já leu algum livro traduzido, agradeça aos tradutores, que se põem à sombra dos autores para, com seu talento e a duras penas, pôr os escritos destes ao alcance de leitores de outras línguas.

Obrigado, Jerônimo!

Santarém, Pará, 30/9/2014. Editado em 30/9/2015.

Cartilha em PDF sobre quelônios da Amazônia

O projeto Tartarugas da Amazônia lançou uma cartilha em quadrinhos sobre as principais espécies de quelônios (tartarugas, jabutis e cágados) da região amazônica. O objetivo da publicação é informar sobre essas espécies, que vivem sob risco de extinção, e contribuir para o melhor conhecimento delas e sua conservação. Explicam-se, entre outras coisas, os perigos da caça ilegal e os modos de conservar o meio ambiente e garantir a sobrevivência dessas e outras espécies.

De autoria de Adriana Terra, Fernanda Rodrigues e Romildo de Souza, a história tem como pano de fundo a chegada de uma irapuca (Podocnemis erythrocephala), que passa a fazer parte de um grupo formado por outros quelônios encontrados na Amazônia: tracajá (Podocnemis unifilis), iaçá (Podocnemis sextuberculata), cabeçudo (Peltocephalus dumerilianus), matamatá (Chelus fimbriata) e tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa).

Matamatá (Chelus fimbriata)
Matamatá (Chelus fimbriata)

A cartilha foi inicialmente distribuída na forma impressa, e sua disponibilização em PDF visa a atender à grande procura que a obra tem tido. O texto foi produzido em linguagem regional amazônica e educativa; traz também descrição e fotos das 6 espécies citadas e atividades educativas.

A parte os vários erros de ortografia e pontuação (alguns deles motivados pela tentativa de aproximação com a linguagem popular da região), o texto é bastante instrutivo e pode ser aproveitado em todo o país, como instrumento de divulgação para conhecermos melhor o meio ambiente e planejar a ocupação do solo e as atividades econômicas, de modo que se garanta a preservação dos recursos naturais e dos seres vivos.

O livro eletrônico pode ser lido na rede (online) no sítio www.tartarugasdaamazonia.org.br ou diretamente AQUI e AQUI.

Quelônios – O nome quelônio designa os membros do grande grupo de répteis da ordem dos testudíneos (ou Testudinata, em latim); são centenas de espécies espalhadas por quase todas as regiões da Terra, e cujo corpo é recoberto por casco, integrado à espinha dorsal e aos ossos. Formado de carapaça (a parte superior) e plastrão (a parte inferior), esse casco geralmente é duro, mas há espécies de tartarugas e cágados que possuem casco mole.

Embora o nome tartaruga seja popularmente um sinônimo de quelônio, é termo usado tecnicamente para os quelônios marinhos. Os de água doce, dentre os quais as espécies amazônicas, são designados como cágados, enquanto o termo jabuti é reservado para os quelônios terrestres. O termo jabuti é originário da língua tupi e nela designava os quelônios terrestres, especificação esta que passou à nossa língua, mormente no Brasil, mas pode ser aplicado aos quelônios terrestres de todas as partes do mundo.

Santarém, Pará, 14/2/2012. Editado em 23/9/2015.

Caça-fantasmas em Santarém

Você acredita em fantasmas e aparições? Em almas penadas e assombrações?

Muita gente hoje, em pleno século XXI, ainda crê na existência desses seres sobrenaturais. Há gente que nunca os viu, mas crê que eles existem, pois conhece outras pessoas – fidedignas, assegura-se – que viram uma mula-sem-cabeça ou toparam com uma noiva cadáver nas proximidades de um cemitério, numa noite escura.

Uma pessoa me contou que, certa vez, um parente seu foi perseguido por um lobisomem numa estrada rural. Ele conseguiu escapar; mas enquanto corria em desabalada carreira, ouvia os uivos distantes do lobo humano e, ao mesmo tempo, sentia seu fungado no cangote…

Também aqui na cidade de Santarém, no Pará – onde as assombrações são mais comumente chamadas visagens – não era diferente há cem ou mais anos.

Numa crônica chamada “Garimpando ao Léu”, publicada no número 1.287 (29/4/1967) do extinto periódico O Jornal de Santarém e recolhida pelo maestro Wilson “Isoca” Fonseca em sua coletânea Meu Baú Mocorongo, o historiador santareno Paulo Rodrigues dos Santos (1890-1974) diz que em outros tempos a cidade de Santarém era “infestada de fantasmas e assombrações de toda espécie: – curupiras, matintapereras, lobisomens, botos, lêmures, trasgos e outras coisas”, havendo inclusive muitas casas “mal assombradas”, que perturbavam os mais supersticiosos.

Mas vejamos o que ele conta sobre um dos fantasmas que noutros tempos assombravam a cidade de Santarém (o cronista não precisa a data, mas o fato deve ter ocorrido entre o fim do século XIX e início do XX):

“Pelas imediações da chamada Rua Nova ou Rua de Cima* [atual Avenida Rui Barbosa] que passava pela frente do atual cemitério [de Nossa Senhora dos Mártires], surgiam vez por outra uns fantasmas de camisolão branco que davam carreiras nos transeuntes retardatários. Esses faziam campo das suas diabruras às proximidades de barracas ocupadas por algumas bonitas mulatinhas solteiras ou casadas, que, aliás, ao que parecia, não temiam a alma do outro mundo e até lhe davam “teco”…

Certo dia ou certa noite, alguns rapazes resolveram apanhar vivo o fantasma do camisolão. Prepararam sigilosamente o cerco e o apanharam com a boca na botija.

Ao ver-se rodeado de ameaçadores cacetes e chicotes, o fantasma se deu a conhecer: – era o delegado de polícia, naqueles tempos intitulado “prefeito de polícia”!…

Com um sorriso amarelo alegou que fora uma coincidência, pois ele também se disfarçara de camisolão para ver se apanhava o verdadeiro fantasma…

O policial livrou-se da surra, mas não se livrou da chacota popular. Ninguém acreditou na sua história.”

SANTOS, Paulo Rodrigues dos. Garimpando ao Léu. In: FONSECA, Wilson Dias da. Meu Baú Mocorongo. Belém (Pará): Secult; Seduc, 2006. 6 v. V. 5, pp. 1343-1344.

* Nota: Atualmente, o Cemitério de Nossa Senhora dos Mártires, o mais antigo da cidade, tem frente para a Avenida São Sebastião, que no início se chamou Rua Novo Mundo. De acordo com Wilde Dias da Fonseca (Santarém: Logradouros Públicos. Santarém (PA): Instituto Cultural Boanerges Sena, 2007. p. 11-12), o logradouro conhecido, à época do fato aqui narrado, como Rua Nova ou Rua de Cima era a atual Avenida Rui Barbosa, não a Avenida São Sebastião. Como se explica isto? Segundo o mesmo Wilde Fonseca, para a abertura da futura Avenida São Sebastião foi preciso recuar a parte da frente do cemitério, que perdeu parte de sua área original; isto quer dizer que a frente do cemitério era bem mais próxima da Avenida Rui Barbosa.

Santarém, Pará, 21/9/2015.

Anacronismo

Matei um pouco da saudade das aulas que tive com o Prof. João Adolfo Hansen no curso de Letras da FFLCH/USP. Diz ele logo no começo de seu livro sobre o Padre Manoel da Nóbrega e a educação no século XVI:

“Quando se fala da educação, do ensino, da instrução e da catequese desenvolvidos pela missão jesuítica, deve-se especificar a historicidade desses conceitos nas circunstâncias luso-brasileiras em que ocorrem para não generalizar anacronicamente os modos como são entendidos hoje. A sociedade portuguesa do século XVI não é burguesa, iluminista ou liberal. Sua experiência do tempo é outra, diferente da experiência temporal moderna, pois pressupõe a presença providencial de Deus como Causa e Fim da sua história. Também é outra sua doutrina de poder, que não é democrática; de “pessoa humana”, que é escolástica; de linguagem e realidade, que é motivada como participação das coisas, homens, eventos e palavras na substância metafísica de Deus. Fundamentadas metafisicamente e ordenadas pela teologia-política católica, as doutrinas de tempo, história, poder, pessoa, linguagem e realidade mobilizadas nas práticas do programa catequese e escola são corporativas, integrando-se nas malhas das relações pessoais que constituem a hierarquia do Estado monárquico português.”
HANSEN, João Adolfo. Manuel da Nóbrega. Recife: Massangana, 2010. p. 11-12.

Não se trata de defender práticas de outras épocas e gentes que pensavam de outra maneira; au contraire! Mas a muitas pessoas falta discernimento para não cair no anacronismo tosco e fácil de condenar homens do passado de acordo com padrões do presente. Que dirão nossos descendentes, daqui a 200 anos, de práticas que temos hoje por corretas?

Diz-se que o rei persa Cambises, ao “comemorar” a conquista do Egito, há 2.500 anos, surrou a múmia de um faraó. Acho que estamos um pouquinho mais evoluídos do que os persas de então, porquanto já consideramos coisas como essas uma abominação.

O livro está disponível no repositório do Domínio Público, no formato PDF, e pode ser baixado gratuitamente pelo atalho abaixo:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/me4709.pdf

Santarém, Pará, 17/4/2014. Editado em 19/9/2015.

Asterix, Obelix e os franceses

“Lá vem a romana legião!”

Assistindo ao filme “Asterix e Obelix a serviço de Sua Majestade” (Astérix et Obélix: au service de Sa Majesté. França, 2012), lembrei-me das aulas de linguística e semiótica do saudoso professor Cidmar Teodoro Pais (1940-2009) na FFLCH da USP.

Dizia ele que as historinhas de Asterix não são simples histórias em quadrinhos, mas uma metáfora da França atual, com seus problemas, medos, preconceitos e mitos.

Se non è vero, è ben trovato.

Santarém, Pará, 6/3/2014. Editado em 18/9/2015.

Paraolímpico, paralímpico

Fiz uma rápida pesquisa sobre o porquê das formas paralímpico(a) e paralimpíada, já que, de acordo com a etimologia e as regras de prefixação do português, as formas adequadas são paraolímpico(a) e paraolimpíada. A respeito deste assunto, achei explicação apenas na página Dúvidas de Português (http://duvidas.dicio.com.br/paraolimpico-ou-paralimpico/), além da Wikipédia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Jogos_Paraol%C3%ADmpicos), nas quais se diz que a palavra paralímpico veio do inglês paralympic, que é a junção de paraplegic e olympic.

Não se trata, portanto, de um simples e corriqueiro (quase instintivo) processo de prefixação (junção do prefixo para- ao substantivo olympic ou olímpico), mas sim da criação de uma nova palavra com pedaços de duas outras.

Este processo ocorre com nomes próprios de produtos ou pessoas e até de países, como é o caso da Tanzânia, cujo nome provém da junção de partes dos nomes Tanganica e Zanzibar (com adição da terminação latina -IA), as duas ex-colônias britânicas que se uniram para formar aquele país africano. (Nem vou citar os milhares de nomes próprios que se criam no Brasil com partes dos nomes dos pais, tios, avô ou prima etc.; todo brasileiro conhece alguém cujo nome tem origem nesse tipo de combinação.)

Em português o termo paraolímpico(a) é o resultado natural do processo de prefixação de para- ao substantivo/adjetivo olímpico(a). Poder-se-ia suprimir o A final do prefixo (a exemplo dos pares hidroelétrico e hidrelétrico, hidroavião e hidravião e outros), mas nunca o O inicial do radical que o recebe: parolímpico(a).

O Brasil adotou nos documentos oficiais o uso dos termos paralimpíada e paralímpico(a), seguindo tendência internacional; mas é claro que as formas paraolímpico(a) e paraolimpíada continuam valendo e podem ser usadas livremente – isto é algo que ninguém pode proibir.

Assim, aqueles que optam por usar as formas paraolímpico(a) e paraolimpíada têm razão em fazê-lo, pois tais termos já estão estabelecidos e estão de acordo com a estrutura e a tradição de nossa língua, ainda que os termos oficiais do momento sejam paralímpico(a) e paralimpíada.

Santarém, PA, 14/9/2015. Editado em 9/9/2016.

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Domingão da Independência

Foto: Júlio César Pedrosa, 9/9/2015 Local: Travessa Turiano Meira, esquina com Av. São Sebastião – Santarém, PA

Parece que este ano os festejos de Sete de Setembro foram bastante animados em Santarém, Pará: os organizadores do 1º Domingão da Independência estavam “alegres” bem antes das comemorações, já durante a preparação e divulgação do evento, como se vê pelos erros do cartaz abaixo.

Se não, como explicar INDENPENDÊNCIA, ÍNICIO, PRÊMIAÇÃO, HRS?

Já a crase em até às é possível, desde que se tenha aqui a preposição a depois de até e antes de as 15:00h. (A locução até a é equivalente a até; é correta, mas julgo desnecessária, pois só até já expressa o sentido preciso.)

Mas uma coisa é certa: se o revisor de texto deles for demitido, quem assume é o Aécio…

Santarém, Pará, 9/9/2015.