Santarenices

BEMERGUY, Emir Hermes. Santarenices: coisas de Santarém. Apresentações de Lila Bemerguy, José Seixas Lourenço e Cristovam Sena. Santarém (PA): Instituto Cultural Boanerges Sena, 2010. 23 cm. 294 p.

Coletânea de artigos de Emir H. Bemerguy (1933-2012) publicados em jornais de Belém e Santarém do Pará e acrescidos de escritos inéditos.

Nascido em Fordlândia (distrito do município paraense de Aveiro), formado em odontologia e também professor respeitado, o autor viveu a maior parte de sua vida em Santarém, também no Pará, onde produziu vasta obra em verso e prosa e se tornou um dos principais nomes da literatura santarena do século XX e início do XXI.

Os artigos reunidos nesta obra distribuem-se por um período de mais de 40 anos, abrangendo assuntos os mais variados, de política a ecologia, passando por literatura, história, esportes e religião, além de pequenas biografias de personagens célebres de Santarém que foram seus contemporâneos.

Leitura obrigatória para quem deseja conhecer a história e cultura de Santarém, principalmente o que ocorreu e se fez nas últimas décadas.

Opinião:

“Santarém, evidentemente, oferece um espetáculo natural de características peculiares e atrativos culturais que todos podem ver e sentir. Mas há coisas das ‘santarenices’ que só a acuidade e o texto poético de Emir Bemerguy podem traduzir” (José Seixas Lourenço, ex-reitor da UFPA e da Ufopa, p. I).

Excerto:

“COCHICHO INAUGURAL

“Este livro estava pronto desde 1975, à espera de um milagre para ser publicado. Tenho mais umas vinte obras diversas, dormindo em gavetas e apreciadas somente por cupins analfabetos.

“O prodígio da edição fácil aconteceu através de meu grande amigo Cristovam Sena, que resolveu, espontaneamente, conseguir patrocinadores, digitar e concluir o trabalho. Só assim os meus textos insossos ficariam perenizados em um volume decente.

“Tive que recorrer a um neologismo, inventado na hora, para dar um título a este livro. Como já criara um outro – ‘SANTARENIDADE’ – objetivando expressar o estado d’alma que marca o mocorongo legítimo, o nato ou de arribação – julguei-me com o direito de partir para um novo atrevimento semântico.

“‘SANTARENICES’ – coisas de Santarém. Uma espécie de sótão da casa velha, onde há lugar para tudo. Apenas para situar bem a época em que escrevo, incluí no volume uma apreciação sobre a cidade, agora. É a crônica denominada ‘Santarém… Ontem… Hoje… Amanhã…’ Achei bom agir assim, pois dentro de uma ou duas décadas isto aqui não poderá ser lido com total indiferença: ou se zombará de tudo, por ser anacrônico, bolorento, ou se enxugarão lágrimas que a saudade, mansamente, há de semear pelos olhos, colhendo-as no coração.

“Era este o cochicho inaugural. Podemos falar mais alto.

“Santarém, fevereiro de 2010” (p. 7)

Mais do/sobre o autor no blogue http://bemerguyemir.blogspot.com.br.

Texto publicado originalmente no Orelha de Livro: http://www.orelhadelivro.com.br/livros/696054/santarenices-coisas-de-santarem/.

Santarém, PA, 19/01/2017. Leia e curta também no Blogspot.

O que Jesus (não) disse… e o que (não) se pôs no papel

EHRMAN, Bart D. O que Jesus disse? O que Jesus não disse?: Quem mudou a Bíblia e por quê. Rio de Janeiro: Pocket Ouro, 2008. 309 p.
[Misquoting Jesus: The story behind who changed the Bible and why. Harper One, 2005.]

o_que_jesus_disse_o_que_jesus_nao_disse_1323213558bLivro muito interessante e instrutivo… e para pessoas de mente aberta!

O autor, Bart D. Ehrman, é um grande especialista e divulgador científico dos métodos de crítica textual aplicados aos textos bíblicos, principalmente os manuscritos do Novo Testamento em grego. Os mais antigos são do século IV, portanto cerca de 300 anos depois dos eventos narrados – nenhum manuscrito conhecido é autógrafo, ou seja, o papiro ou pergaminho original. Existem apenas cópias das cópias das cópias das cópias das cópias das cópias…

Segundo o autor, já foram catalogados pelos especialistas mais de 5.700 manuscritos neotestamentários em grego, desde simples versículos isolados até coleções inteiras do Novo Testamento; nenhum códice é idêntico a outro, e os cálculos levam a mais de 400.000 variantes!

A maior parte delas diz respeito a erros de grafia, inversão acidental de termos ou frases, troca de letras, escorregões, deslizes da pena por pouco conhecimento da escrita, fadiga, enfado… São erros que não afetam a compreensão do texto.

Os problemas estão nas variantes propositais, feitas para direcionar o texto para a defesa ou condenação das diversas vertentes do cristianismo concorrentes nos primeiros séculos da Era Cristã (ou Era Comum).

O Deus cristão era o mesmo Deus dos judeus ou era outro? Jesus era humano, divino ou ambas as coisas ao mesmo tempo? Tinha um corpo humano ou apenas aparente? Como era/deveria ser a participação das mulheres na igreja nascente? Os judeus também podiam ser salvos por Cristo? Estas e outras questões mais eram discutidas à saciedade pelos primeiros cristãos e seus detratores pagãos.

Além dos próprios textos, o cristianismo é também baseado em tradições de leitura e interpretação textual: alterações se fixaram nos textos e criaram a religião conhecida hoje; leituras foram feitas, opiniões se firmaram e disso se criaram as bases dos dogmas das igrejas (não apenas a Católica).

Leitura para pessoas de mente aberta – sejam crentes ou agnósticas, católicas ou protestantes – e cientes de que “quem conta um conto, aumenta um ponto”.


Texto publicado originalmente com o título Para Pessoas de Mente Aberta no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/resenhas/3864/edicao:230303.

Santarém, PA, 2/1/2017. Editado em 6/1/2017. Leia e curta também no Blogspot.

A ascensão de uma dinastia

francis-fevre-faraoFÈVRE, Francis. Faraó. Tradução de Maria Alice Gelman. São Paulo: Mercuryo, 1990. 291 pp.
[Pharaon. Paris: Presses de la Renaissance, 1987.]

Ao contrário de dois outros livros do autor publicados no Brasil (Faraona de Tebas e O Último Faraó) – os quais eu classifico como documentários históricos –, este livro Faraó de Francis Fèvre é uma obra de ficção, um romance histórico ambientado no Egito de meados do século XVI a.C. E, como todo romance histórico, o autor usa um pano de fundo de fatos ocorridos e documentados – de conhecimento, pois, dos historiadores – para construir sua narrativa, preenchendo lacunas da história com elementos que lhe proporcionem um enredo verossímil, baseado em seu conhecimento do período.

Não é este texto uma análise literária e acadêmica, mas apenas um comentário despretensioso, e anteciparei alguns fatos do enredo, baseados em fatos históricos de conhecimento geral, sem descer aos meandros da narrativa; trata-se de informações que constam dos livros de história e podem ser facilmente encontrados em pesquisas feitas em obras de referência ou na Internet.

O contexto da história do romance Faraó é o seguinte:

No século XVIII a.C., chega ao fim o Reino ou Império Médio do Egito, com a queda da autoridade central do faraó. O Egito fragmenta-se e entra na época que os historiadores chamam II Período Intermediário, com o poder entregue aos príncipes locais, chefes dos nomos ou províncias. Aproveitando a fragmentação do país, os hicsos – povo semita originário de Canaã e Síria – conquista e submete os nomos do norte (Baixo Egito), estabelecendo sua capital em Aváris, no Delta do Nilo. Os reis hicsos adotam o título de faraó e passam a usar a coroa vermelha do Baixo Egito, ameaçando os demais nomarcas.

Até aqui temos os fatos históricos conhecidos. A narrativa do romance começa quando o domínio dos hicsos sobre o Norte já dura cerca de cem anos. Sekenenrê, príncipe de Tebas e mais poderoso nomarca do Alto Egito, prepara pacientemente suas tropas e aliados para invadir o Delta e expulsar os hicsos; ao mesmo tempo, precisa impedir o avanço dos hicsos rumo ao sul, com o intuito de sublevar os núbios contra Tebas, o que poderia dar aos asiáticos o domínio sobre todo o país.

Após as provocações e ameaças de Apópi, rei dos hicsos, Sekenenrê invade o Baixo Egito e é morto em batalha; é sucedido por seu filho Kamés, que assume o trono de Tebas e continua a luta contra os hicsos. Kamés, porém, não reina por muito tempo. Sobe ao trono seu irmão Ahmosis – inicialmente um jovem destinado ao sacerdócio –, que leva Tebas à vitória contra os hicsos, expulsando-os, destruindo sua capital e unificando o Egito novamente sob um único rei.

Inicia-se ali o período conhecido como Novo Império. Ahmosis foi o primeiro soberano e fundador da XVIII dinastia, conhecida como Améssida, a mais vitoriosa do Egito. Sob o governo dos améssidas, as fronteiras do Egito alcançaram sua extensão máxima e o país tornou-se uma potência regional expansionista. Pertencem a essa dinastia soberanos como Tutmés I; a filha deste, faraona Hatshepsut; Tutmés III, o Napoleão Egípcio; Amenhotep (ou Amenófis) IV, mais tarde conhecido como Aquenáton; Tutancâmon; e Horemheb, o último faraó desta linhagem.

No decorrer da narrativa, além das manobras militares, cenas de caçadas e batalhas, cerimônias públicas e festins no harém, tramas e alianças políticas da Núbia à Fenícia, é descrita a vida luxuosa no palácio de Tebas e as muitas intrigas ali presentes; o ódio da mãe de Sekenenrê, Tetishery, contra sua nora Ahhotep e seu neto Ahmosis; as desconfianças de Ahmosis em relação a sua irmã e esposa Nefertari; a forte amizade entre Ahmosis e seu mentor espiritual, o sacerdote Amenhotep, também conselheiro de sua mãe; as tensões com os núbios, envolvidos em guerras tribais que ameaçam a estabilidade da relação de vassalagem com Tebas e, depois, com o Egito reunificado.

Como dito mais acima, o autor usa fatos (nem todos ainda consolidados historiograficamente) da história egípcia para a construção do enredo, preenchendo as lacunas com suposições para uma melhor verossimilhança. Assim se dá, por exemplo, quanto ao grau de parentesco entre Sekenenrê, Kamés e Ahmosis, pois não se sabe com certeza se Kamés e Ahmosis eram irmãos e se eram filhos de Sekenenrê, ou se este era um irmão mais velho de Kamés e pai de Ahmosis.

Outro fato nebuloso e aproveitado no enredo diz respeito às circunstâncias da morte de Sekenenrê. Sua múmia é conhecida e foi estudada por cientistas; os ferimentos no crânio mostram que foi ferido em batalha a golpes de espada ou machado. Além disso, o exame indicou que a mumificação se iniciou com o corpo já em decomposição, o que explica seu estado: supõe-se que o corpo foi resgatado do campo de batalha e demorou a ser embalsamado.

O romance é bom, é bem constituído e tem os fatos bem encadeados. Gostei dele, que é bem escrito e prende a atenção do início ao fim. Teve apenas uma edição no Brasil, podendo ser encontrado agora apenas em sebos, mas com preços convidativos.

Boa leitura e distração garantida para os interessados em boa ficção histórica e no Egito antigo.

(Resenha publicada originalmente no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/resenhas/211718/edicao:237019.)

Santarém, PA, 1º/12/2016. Leia e curta também no Blogspot.

Hititas, Povo dos Mil Deuses

LEHMANN, Johannes. Os Hititas: Povo dos Mil Deuses. Tradução de Carlos Antonio Lauand. São Paulo: Hemus, 1980. 294 pp. (Enigmas e Mistérios do Universo). Título original alemão: Die Hethiter.

OS_HITITAS_1245267970BLi Os Hititas há uns 15 anos (creio que em 1999 ou 2000). Já havia lido, algum tempo antes, o clássico de C. W. Ceram, O Segredo dos Hititas, mas este livro de Johannes Lehmann me deixou uma impressão mais duradoura após a leitura.

Lembro-me de alguns erros tipográficos do texto, além de topar, mais ou menos no meio do livro, com uns períodos gramaticais um pouco confusos, que eu precisei ler e reler para entender melhor; as orações pareciam não se encaixar direito umas nas outras, talvez deslizes da revisão. Mas nada que atrapalhasse a leitura e compreensão da obra em geral.

O livro de Lehmann consta de três partes. Na primeira o autor descreve o processo de pesquisa que levou ao “descobrimento” da civilização hitita, que só se conhecia, até meados do século XIX, devido a alguns versículos da Bíblia. A tradução do relato da “vitória” de Ramsés II sobre os hititas na célebre Batalha de Kadesh; a descoberta de correspondência diplomática trocada pelos egípcios com os hititas; e depois a escavação das ruínas de Hattusa, capital dos hititas, na Anatólia, onde se encontrou uma biblioteca com milhares de tabuletas de argila com escrita cuneiforme em várias línguas – tudo isto contribuiu, no fim do século XIX e começo do XX, para levantar o véu do tempo que cobria esse povo misterioso.

Decifrando-se sua língua – o que constituiu um esforço semelhante ao de Champollion na decifração da Pedra de Roseta -, descobriu-se que os hititas eram indo-europeus, aparentados linguisticamente, portanto, aos persas, gregos, romanos, armênios e povos indianos falantes do sânscrito e outras línguas de mesma origem. Numa época em que a linguística era predominantemente histórico-comparativa e parecia constituir área de domínio quase exclusivo de sábios alemães (como se fosse uma “ciência germânica”), até o Kaiser da Alemanha de então acompanhava as discussões e publicações acadêmicas sobre se os hititas eram ou não indo-europeus e a semelhança de sua língua com o alemão.

A segunda parte do livro descreve os processos empregados pelos arqueólogos na escavação e datação dos sítios de localidades da Anatólia, Síria e Mesopotâmia onde os hititas se estabeleceram. Estudos feitos nesses sítios mostraram elementos culturais que podem ter influenciado os hititas ou até sido absorvidos por eles. Num dos sítios encontraram-se restos de casas com entrada pelo teto e indícios de sepultamentos feitos dentro das residências; noutro, mostras de um culto ao touro, que pode ter deixado resquícios em culturas posteriores no Oriente Médio e Europa e também na dos hititas. Relação com o mito grego do Minotauro e as acrobacias taurinas pintadas nos afrescos do palácio de Cnossos na Creta minoica? Forma ancestral dos folguedos de Bumba Meu Boi do Brasil atual? É possível que sim.

Lehmann ainda descreve o processo de datação por carbono 14, exemplificando-o por meio dos achados relacionados aos hititas, o que acrescenta uma faceta didática ao livro, a respeito dos procedimentos arqueológicos.

A terceira e última parte descreve o que se sabia até então da cultura dos hititas. Sua língua era indo-europeia, formando um sub-ramo do ramo anatólico, portanto independente dos demais ramos (armênio, indo-irânico, germânico, ítalo-céltico, balto-eslavo etc.). Restaram umas poucas peças literárias hititas, das quais o autor faz citações; o estudo do vocabulário mostra as semelhanças com o das demais línguas indo-europeias (a semelhança de palavras hititas com palavras alemãs chamou a atenção de muitos na época).

Os hititas possuíam uma espécie de conselho, semelhante ao boulé dos gregos ou senatus romano, o qual parecia limitar um pouco o poder real. Suas divindades eram representadas portando chapéus ou barretes com vários pares de chifres de touro; segundo o autor, a hierarquia das divindades era marcada pela quantidade de pares desses chifres. Os hititas, ao dominar outros povos e pilhar as cidades destes, levavam para sua capital os ídolos dos templos saqueados, os quais eram postos nos altares junto com os deuses próprios hititas, o que lhes valeu o apelido de “Povo dos Mil Deuses”.

Ao que parece, os hititas foram um grupo que, ao conquistar os povos da Anatólia, assimilou muito de suas culturas; sua civilização era um amálgama de várias origens culturais. Vindos, há uns 4.000 anos, da Ásia Central, ponto de origem das várias ondas migratórias indo-europeias, os hititas estabeleceram-se na Anatólia, assimilaram elementos da cultura local e, quando tiveram a oportunidade, tomaram o poder e criaram um império que rivalizou com as potências da época, entre elas o Egito.

Coisa curiosa: o autor sugere que o chapéu ou barrete mostrado na arte hitita teria dado origem ao chapéu semelhante usado pelos frígios (barrete frígio), usado depois por gregos e romanos com simbologia variada e, hoje, associado à liberdade. Assim, as figuras que vemos, por exemplo, em nossas moedas a representar a personificação da liberdade são certamente, em sua origem, uma herança ainda viva dos hititas.

Apesar de antigo e certamente desatualizado – muito deve ter sido descoberto sobre os hititas, nas últimas décadas – Os Hititas de Johannes Lehmann é um livro ainda importante como instrumento de divulgação sobre esse povo que teve seu apogeu há mais de 3.500 anos.

(Originalmente publicado, com o título Hititas e Arqueologia, em https://www.skoob.com.br/os-hititas-31933ed34808.html.)

Santarém, Pará, 1º/12/2015. Editado em 7/1/2016.

O retorno do nheengatu, língua geral amazônica

Navarro_NheengatuNAVARRO, Eduardo de Almeida. Curso de língua geral (nheengatu ou tupi moderno). A língua das origens da civilização amazônica. Prefácio de D. Edson Damian. Capa, fotos e ilustrações de Célio Cardoso. São Paulo: Edição do autor, 2011. 112 págs. ISBN 978-85-912620-0-7. Contato com o autor: edalnava@yahoo.com.br.

O nheengatu está de volta! Após um século e meio de progressiva retração, sob o risco de ser esquecido, falado apenas por comunidades ribeirinhas do extremo noroeste do Brasil, o nheengatu – ou língua geral amazônica – vem tornando-se novamente, nos últimos anos, objeto de interesse cada vez maior dos estudiosos das línguas indígenas brasileiras. Mais do que isso: está agora disponível a todos os interessados em aprendê-lo, por meio deste curso do Prof. Eduardo de Almeida Navarro.

Mas o que é, afinal de contas, o nheengatu?

À época da chegada dos portugueses ao Brasil, falava-se, em grande parte da costa nordeste e leste da América do Sul, mais especificamente na região que vai do Maranhão a São Paulo, uma mesma língua, que os cronistas coloniais, mais tarde, chamaram língua mais usada na Costa do Brasil ou língua da costa. Esta língua, que conhecemos hoje pelo nome tupi antigo ou simplesmente tupi, apresentava-se sob a forma de vários dialetos, pouco discrepantes entre si, dos quais os mais conhecidos eram o tupi (falado na atual Baixada Santista e no planalto de Piratininga, em São Paulo) e o tupinambá, falado daí para o norte.

Vários povos, cujos nomes ficaram marcados na história do Brasil, falavam essa língua: além dos próprios tupis de São Vicente e Piratininga e dos tupinambás de várias latitudes, falavam-no os temiminós, caetés, potiguaras, tupinaés, tamoios, tupiniquins e outros. Essa faixa de língua tupi não era contínua, pois vários trechos do litoral eram ocupados por indígenas de outros grupos culturais, como os goitacás, os aimorés e os guaianás, que falavam línguas de outro(s) grupo(s). No período colonial, as línguas não aparentadas ao tupi eram conhecidas como línguas travadas; já os povos que não falavam o tupi eram conhecidos como tapuias (do tupi tapy’yia, termo aplicado aos povos de outras culturas e mais ou menos equivalente a “bárbaro”).

Com o avanço do domínio português, em algumas regiões da América Portuguesa as línguas indígenas foram-se extinguindo, em favor da língua portuguesa, principalmente nas áreas de colonização com presença mais intensa de reinóis; já em outras capitanias, como em São Vicente e no Maranhão, as uniões de portugueses com mulheres índias geraram grande número de filhos mestiços, denominados mamelucos, que falavam a língua das mães – o tupi – e às vezes também o português. Esse tupi, bastante influenciado pela cultura colonial, cheio de termos novos emprestados do português ou criados por meio de calcos dele, é o que se convencionou chamar língua geral, com dois dialetos principais: a língua geral paulista e a língua geral amazônica, que se expandiram a partir de dois pontos principais de difusão: São Paulo de Piratininga e São Luís, respectivamente.

A língua geral paulista espalhou-se por Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás e as capitanias do sul, desaparecendo em fins do século XIX, enquanto a língua geral amazônica, a partir de São Luís, e depois mais intensamente a partir de Belém, acompanhou a expansão lusa e da Igreja no vale amazônico, num contexto em que poucos dominavam o português. Também na Amazônia, portanto, a presença portuguesa estabeleceu-se por meio de duas línguas trazidas com a colonização: o português, língua do Estado, com todos os sentidos e implicações que isto possa ter; e a língua geral, meio de comunicação da maior parte da população – índios, negros, brancos e mestiços – e instrumento da catequese, o que não se fez, também, sem resistência, fartamente documentada nos registros da época. A língua geral era vista, nos séculos XVII e XVIII, como um importante instrumento de assimilação cultural e domínio do Estado português e da Igreja de Roma no Grão-Pará, e seu uso chegava a ser imposto com violência às comunidades indígenas e mestiças.

Ainda que isso se tenha dado de forma violenta, podemos dizer que a língua geral amazônica, surgida desse tupi trazido do Maranhão e leste do Grão-Pará, ajudou a moldar a civilização brasileira na Amazônia, e moldou-se também a ela; de “língua mais usada na Costa do Brasil”, como a chamou José de Anchieta, o tupi amazonizou-se, tornando-se o nheengatu, a “língua boa”, um dos principais elementos constitutivos da cultura amazônica, porquanto esteve presente e foi falada em quase toda a Amazônia Brasileira.

Após dominar inconteste o rio Amazonas e seus tributários por mais de 250 anos, o nheengatu começou a declinar devido ao avanço da língua portuguesa na Amazônia, mais intenso a partir da segunda metade do século XIX, o qual forçou a retração e o consequente desaparecimento da língua geral em quase toda a região. Costuma-se culpar o notório Diretório que se deve observar nas povoações dos índios do Pará e Maranhão… (1758), um dos principais instrumentos da política portuguesa na Amazônia durante o período pombalino, como o causador da quase extinção da língua geral, por sua imposição do uso exclusivo do português como língua da administração e demais atividades da Colônia; o Diretório, por si só, seria insuficiente para fazer isso: diversos outros processos ocorridos na Amazônia é que levaram o nheengatu ao quase desaparecimento.

Durante a Cabanagem morreram mais de 30.000 pessoas, cifra correspondente a cerca de 30% da população grão-paraense da época, o que causou grande impacto no contingente de falantes do nheengatu. Depois, as precárias condições e baixa expectativa de vida nos centros urbanos, as epidemias e a migração em massa de brasileiros de outras regiões, principalmente do Nordeste, levaram à expansão do português e retração final do nheengatu. O preço cobrado pelo terreno cedido ao português foram as marcas deixadas na (nova) língua recém-chegada, que também se enriqueceu na Amazônia: a juçara passou a chamar-se açaí; o cajá tornou-se o taperebá, “fruto das taperas”; e a piracaia, de simples “peixe na grelha”, tornou-se uma peixada na praia, acompanhada de canto e música, importantíssimo momento de lazer e confraternização. Que o digam os moradores de Santarém, para os quais uma piracaia é sempre um grande acontecimento social, e ainda os turistas que para ali vão, os quais têm na piracaia uma espécie de inserção intensiva na cultura local santarena!

Assim, ainda que o nheengatu tenha desaparecido em quase toda a Amazônia, suas marcas permanecem indeléveis no vocabulário e na alma do homem amazônico.

Depois desta digressão histórica, passemos então ao livro de que se trata aqui.

O autor, Prof. Eduardo de Almeida Navarro, há cerca de 20 anos é professor da área de Línguas Indígenas do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas (DLCV) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, onde ministra aulas de tupi antigo, nheengatu e literatura colonial brasileira (pós-graduação). Além das aulas de tupi na USP, Navarro manteve, por alguns anos, um curso básico de tupi antigo gratuito e disponível na Internet. Seu Método Moderno de Tupi Antigo, lançado em 1998 (e já na 3ª edição), tornou-se referência obrigatória para aqueles que desejam estudar seriamente o tupi, devido ao conhecimento profundo que possibilita da língua, porquanto tem por base todos os textos conhecidos produzidos em tupi ou sobre essa língua no período colonial. O Método apresenta centenas de exemplos originais em tupi, colhidos dos textos de autores coloniais como José de Anchieta, Luís Figueira, Bartolomeu de Leão, Antônio de Araújo, Jean de Léry, Hans Staden, Yves d’Evreux, Claude d’Abbeville e outros, além de amparar-se também no que se tem produzido nas universidades, pelo autor e outros pesquisadores, sobre o tupi antigo.

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Capa da 5ª edição (1955) da gramática de Simpson.

Até muito recentemente, os interessados em aprender o nheengatu contavam apenas com manuais antigos, como o de Pedro Luís Simpson (Gramática da língua brasileira: brasílica, tupi ou nheengatu) e outros encontrados apenas em bibliotecas de grande porte. Há alguns anos o padre A. Casasnovas publicou Noções de língua geral ou nheengatu (2. ed. Manaus: UFAM; Faculdade Salesiana Dom Bosco, 2006), atualmente esgotado. Com o livro de Eduardo Navarro, porém, a bibliografia sobre o nheengatu ganha um manual moderno e de fácil estudo.

Composto de 13 lições e um glossário nheengatu-português, o Curso de Língua Geral é resultado de uma disciplina que Navarro ministra há 3 anos na FFLCH da USP. Assim como o Método Moderno de Tupi Antigo, o Curso de Língua Geral foi testado e burilado antes de se tornar livro. Os textos de suas lições são baseados no dia a dia de uma família típica de falantes de nheengatu vivendo nas imediações de São Gabriel da Cachoeira, o principal município do Alto Rio Negro, imensa região de mais de 300.000 km2, onde a língua ainda é falada. Deve-se acrescentar que o nheengatu não ocupa uma posição insignificante na região: em São Gabriel da Cachoeira é uma das quatro línguas oficiais, ao lado do português, do baníua e do tucano, e tem servido, como há séculos, de língua franca entre os diversos grupos indígenas, mestiços, ribeirinhos e outros que ali vivem.

O livro inicia-se com uma breve explicação que apresenta os fonemas da língua e sua ortografia. A grafia proposta por Navarro para o nheengatu é bastante regular, baseada na usada atualmente por ele para o tupi antigo; já sua fonologia não apresenta dificuldades para o falante de português, pois a língua sofreu muitas influências do idioma luso: das seis vogais do tupi (/a/, /e/, /i/, /o/, /u/, /y/) o nheengatu conservou quatro (/a/, /e/, /i/, /u/), com suas correspondentes nasais. As consonâncias são semelhantes às nossas, não havendo, porém, /f/, /l/, /r/ e /z/; a acentuação gráfica é baseada na portuguesa. Da perspectiva fonológico-fonética, portanto, resulta que, para nós lusófonos, o nheengatu é mais fácil de aprender que o tupi, pois perdeu os fonemas tupis que apresentavam maior contraste com a fonologia portuguesa e constituíam, no período colonial, grande empecilho para o pleno domínio da língua pelos ádvenas.

Assim, a grafia do nheengatu usa as letras A, B, D, E, G, I, K, M, N, P, R, S, T, U, X, com as seguintes observações:

  • G representa sempre o fonema /g/, como nas palavras portuguesas gato, guri;
  • R representa o fonema /ɾ/, semelhante ao que temos em português nas palavras barata, caro, areia, ira (em nossa língua ocorre apenas entre vogais);
  • S é sempre sibilante surda, equivalente ao nosso S, SS, C, Ç como nas palavras sapo, sina, som, aceite, cebola, ação etc.;
  • X representa o fonema /ʃ/, como nas palavras portuguesas xarope, roxo, eixo.

Uma rápida olhadela no texto do Curso já nos mostra o quanto o tupi antigo se transformou ao ser levado a regiões muito distantes de onde era falado no início da colonização portuguesa. Os pronomes pessoais mudaram pouco, como se vê no quadro abaixo:

tupiA principal diferença pronominal em relação ao tupi é a perda da 1ª pessoa do plural exclusiva (oré), cujas funções se fundiram com a 1ª pessoal do plural inclusiva (iandé), criando-se um equivalente do português nós, nos. (O tupi antigo, assim como outras línguas, possuía duas formas para a 1ª pessoa do plural: a exclusiva – que exclui o ouvinte – e a inclusiva – que o inclui no discurso. O português possui uma só forma para ambas as funções, o mesmo ocorrendo em nheengatu, sendo o contexto o indicador da diferenciação.)

As diferenças quanto ao vocabulário são explicadas em parte pelo desaparecimento da oclusão glotal (representada em tupi com o sinal ‘) e das vogais /o/ e /y/, substituídas por /u/ ou /i/, conforme o caso: porang > puranga “belo”, pysasu > pisasu “novo”, apyaba > apigaua “varão, homem”, ky’a > kiá “sujo”, tembi’u > timbiú “comida”, ygara > igara “canoa”, pytuna ou pyxuna “noite; escuro” > pixuna “preto”, pytá > pitá “ficar”, mbo’esaba > mbuesaua “ensinamento, lição”, -pora > -pura “morador, habitante”, kuab > kuau “saber”, mondá > mundá “roubar”, iybá > iuuá “braço” etc. (o sinal > indica a passagem da forma anterior tupi à forma atual nheengatu).

Os verbos e adjetivos tupis terminados em consoante (que recebiam uma vogal temática, -a, nas composições) passaram a vir acompanhados sempre desse -a, ou de -i ou -u, que se fundiram ao nome, tornando-se este invariável, como porang > puranga, pytun ou pyxun > pixuna, pinim > pinima “pintado”, pindaityk > pinaitika “pescar”, ker > kíri “dormir”, sem > sému “sair”, potar > putári “querer”; outros termos perderam os fonemas finais: monhang > munhã “fazer”, me’eng > meẽ “dar”.

Outros vocábulos, apesar das transformações sofridas, mostram-se ainda semelhantes aos termos tupis originais e aos tupinismos presentes no português: ybaka > iuaka “céu”, ygara > igara, pindá-‘yba > pindaíua “vara de pescar”, pindoba > pindaua “pindoba, espécie de palmeira”.

Alguns termos de parentesco mudaram, sob a influência do português. Enquanto, para designar “pai” e “mãe” (os significados não são exatamente estes, mas não trataremos disso aqui), o tupi tinha tuba e sy, o nheengatu tem paia e manha, respectivamente, termos de origem portuguesa (de pai e mãe).

Outros termos parentais tupis se conservaram no nheengatu com pouca ou nenhuma mudança fonética, mantendo-se em certa medida significado semelhante ao do tupi antigo na época colonial, ainda que as estruturas sociais (e portanto também as de parentesco) tenham mudado bastante: anama “família, parente, parentela”, mena “marido”, membyra > mimbira “filho ou filha (de mulher)”, ta’yra > taíra “filho (de homem), taiyra > taiera “filha (de homem)”. Vê-se que o nheengatu conservou a indistinção tupi quanto ao sexo do filho ou filha em relação à mãe, e manteve a distinção em relação ao pai.

Em suma, o livro do Prof. Eduardo Navarro é uma boa introdução ao estudo do nheengatu, possibilitando o domínio do vocabulário mais usado na língua e suas estruturas gramaticais mais complexas, e sua eficácia tem sido comprovada: Navarro viajou a São Gabriel da Cachoeira, acompanhado de um grupo de alunos, e eles tiveram a oportunidade de praticar a língua, conversando com falantes nativos. Além disso, comunidades indígenas de Santarém e outras localidades do Baixo Amazonas e do Tapajós têm interesse em aprender o nheengatu; o livro de Eduardo Navarro já se tornou conhecido por professores e lideranças dessas comunidades.

Grupos de índios aloglotas (que deixaram de falar seus idiomas em favor de outro, no caso o português) da Amazônia Brasileira veem hoje o nheengatu como elemento a mais no processo de recuperação de sua dignidade indígena, de sua etnogênese…

Língua odiada no período colonial, tida – e não sem razão – como instrumento de opressão religiosa e secular, o nheengatu reencontra seu espaço, agora, como língua de resistência de comunidades tradicionais, o que até a imprensa estrangeira já percebeu, como se lê em artigo de Larry Rohter publicado no jornal The New York Times. Apesar de suas imprecisões históricas e linguísticas, o texto de Rohter descreve uma mudança de direção do status da língua, que caminhava para o desaparecimento e hoje se revigora aos poucos. Cresce o interesse por seu aprendizado, para além das fronteiras da Amazônia Brasileira, porquanto o estudo do nheengatu interessa a todos os brasileiros, como instrumento de melhor conhecimento de nossa história e cultura.

Que possa o nheengatu recuperar a importância de outrora, sendo aprendido nas escolas e universidades e ocupando o lugar que merece. Antônio Lemos Barbosa, estudioso do tupi e autor de várias obras sobre a língua, dizia ser o conhecimento do tupi, ainda que superficial, parte da cultura nacional; saber o nheengatu, ainda que superficialmente, faz parte da cultura amazônica.

Santarém, PA, 12/7/2012. Editado em 7/7/2016.

A faraona Hatchepsut

FÈVRE, Francis. Faraona de Tebas: Hatchepsut, Filha do Sol. Tradução de Gilda Stuart. São Paulo: Mercuryo, 1991.
[La Pharaonne de Thèbes – Hatchepsout, Fille du Soleil. Presses de la Renaissance, 1986.]

faraona_de_tebasFaraona de Tebas: Hatchepsut, Filha do Sol não é um romance, tampouco uma obra estritamente acadêmica sobre o assunto; está mais para biografia, mas creio que a definição mais adequada é a de “documentário”, bem ao estilo do que ficou comum nos dias atuais em programas de TV sobre história: com base no conhecimento alcançado sobre determinada época, local e povo, traça-se uma visão panorâmica (às vezes aprofundada em certos aspectos) da época ou personagem estudada, tentando-se reconstituir, inclusive com dramatização, fatos históricos e preencher lacunas.

É o que faz nesta obra o historiador francês Francis Fèvre, autor de outros livros, incluindo-se dois romances sobre o Egito antigo. A partir do que se sabia, em meados da década de 1980, sobre a rainha-faraó (ou “faraona”) Hatchepsut, ele reconstitui a época, a cultura, as festas religiosas, a vida na corte, as intrigas palacianas e arrisca lançar hipóteses sobre a vida ainda não bem conhecida dessa soberana da XVIII dinastia egípcia.

Algumas digressões do autor servem para situar o Egito no contexto do Oriente Médio daquela época; outras descrevem rituais religiosos, o embalsamamento e sepultamento dos monarcas; o trabalho dos camponeses e dos operários das obras do Estado; o ritmo das cheias e vazantes do Nilo, fecundando a terra negra que dava nome ao país de Kemit; ou ainda traçam analogias com outras civilizações milenares, como a chinesa, além de recuperar para os dias atuais a importância de Hatchepsut para o Egito antigo.

A cronologia possivelmente mudou com as descobertas mais recentes (algo comum quando se trata de fatos ocorridos há tanto tempo e ainda muito nebulosos), mas atenho-me à do texto que comento e à grafia dos nomes egípcios citados pelo autor – baseados na ortografia francesa, o que foi em parte conservado na tradução (a forma mais comum é “Hatshepsut”).

Hatchepsut teria nascido por volta de 1535 a.C. e morrido com cerca de 50 anos de idade, possivelmente em 1484 a.C., após reinar por 20 anos no lugar de seu enteado Tutmósis III (ou Tutmós, Tutmés). Como Tutmósis era muito pequeno, Hatchepsut assumiu o trono após a morte do meio-irmão e marido, Tutmósis II, fazendo-se representar como homem em todas as situações. Não se tratava, portanto, de uma mulher ocupando o trono do Egito, como ocorreu algumas vezes durante a menoridade do herdeiro, mas de um faraó que era mulher, com todos os títulos, dignidades e indumentária do cargo (inclusive a barba falsa ou postiça). Após sua morte, assume definitivamente o trono seu enteado, Tutmósis III, filho de Tutmósis II com uma concubina. Tutmósis III reinou por cerca de 35 anos e foi o faraó mais vitorioso do Egito, e com ele o país alcançou a extensão máxima de sua fronteiras, perdidas ou conservadas a duras penas, quando possível, por seus sucessores.

Apesar de que não se trata de um romance, o autor vale-se da técnica do discurso indireto livre para entrar nas mentes das personagens históricas, e os pensamentos dele misturam-se com os das personagens que reconstitui. Às vezes decorrem disso certos anacronismos, ao que parece – intencionais ou fruto do mergulho do autor na “mente” reconstituída de suas personagens? Fèvre reconstitui as personagens históricas e entra em suas mentes, tentando saber o que pensavam, seus anseios e frustrações.

Descreve e/ou sugere a formação de Hatchepsut e seu casamento com o meio-irmão; a altivez e a consciência de ter sido talhada para o exercício do poder; o desgosto de ter nascido mulher num contexto de domínio masculino; a possível frustração de ver, pela terceira vez, um bastardo no trono do Egito (o autor levanta a hipótese de que Tutmósis I era filho bastardo de Amenófis I, que o teria casado com a filha legítima para conservar o sangue divino dos faraós – o casamento entre irmãos era fato comum nas casas reais egípcias; a esposa de Tutmósis III era sua meia-irmã, filha de Hatchepsut). Quanto a Tutmósis III, seu fortalecimento como comandante militar, enquanto espera o momento de reinar; o ódio àquela mulher que não lhe permite ocupar o trono que lhe é de direito; o alívio e satisfação com sua morte; a posterior decisão de apagá-la da história.

O autor tenta também responder a algumas questões: Teria Hatchepsut tentado iniciar um matriarcado no Egito, instituindo a possibilidade de uma mulher ocupar o trono após ela (sua filha Neferurê)? Se tentou isso, não o conseguiu. Teria havido uma relação amorosa entre Hatchepsut e Senenmut, seu vizir e arquiteto, construtor do maravilhoso templo de Deir-el-Bahari? Se não, por que Senenmut se fez representar no templo de sua rainha? Como ela teria conseguido reinar como faraó por tanto tempo (cerca de 20 anos ou um pouco mais)?

Fèvre defende que o reinado de Hatchepsut foi um período de estabilidade, de fortalecimento interno, de apego às tradições e à religião, mais voltado à diplomacia e ao comércio do que à armas; depois dela o Egito se abre para o mundo e se torna potência militar sob Tutmósis III, o Grande.

Após sua morte, Hatchepsut começa a ser apagada da história. Seus sucessores destroem suas estátuas, apagam seu nome e imagens dos templos que ela construíra, riscam seu nome dos registros; mas nem tudo conseguiram destruir, e o que restou ajuda a reconstituir, pelo menos em parte, sua vida e importância para a história egípcia.

O texto apresenta alguns erros tipográficos, o que não atrapalha a leitura. Destaco o fato de aparecer em todo o texto a forma amessida (nome da XVIII dinastia, fundada por Ahmósis I, bisavô de Hatchepsut); a forma correta em português é améssida, análoga a raméssida (designativo da XIX dinastia, fundada por Ramsés I).

Apesar de publicado originalmente há quase  30 anos, é livro ainda atual e que se lê com grande proveito e prazer.

Santarém, PA, 21/1/2015. Editado em 28/2/2015.

Cama, mesa e banho

DIBIE, Pascal. O Quarto de Dormir: um estudo etnológico. Tradução de Paulo Azevedo Neves da Silva. Rio de Janeiro: Globo, 1988.
[Ethnologie de la Chambre a Coucher. Éditions Grasset & Fasquelle, 1987.]

dibie_quartodedormirO Quarto de Dormir: Um Estudo Etnológico de Pascal Dibie é uma leitura muito instigante. Li-o há uns 10 anos, com muito interesse, e gostei. O autor considera-se “amante da preguiça” e, quando lhe é infiel, produz suas pesquisas, como este livro, em que traça um estudo histórico e etnológico de como o ser humano tem dormido até hoje, desde as cavernas, enrolado em peles, até as camas modernas de hoje (ou da década de 1980, quando a obra foi escrita).

Assim, o autor debruça-se sobre o sono de nossos ancestrais das cavernas (boa proteção contra o frio e os animais), sobre esteiras, nas primeiras camas, em nichos em paredes, tatâmis, além da origem dos colchões e edredons, até as extensões do quarto de dormir, que mudou de natureza e foi incorporando outras funções e apetrechos, como o banheiro.

A posição do quarto dentro da casa, do porão ao sótão (por exemplo, atrás da cozinha, para ser aquecido); as relações do quarto com os demais cômodos da casa, os comportamentos de “cama, mesa e banho”, o surgimento das privadas (chamadas no início “cadeiras de latrina”, pois se tratava de cadeiras com uma abertura no assento, embaixo da qual se punha um vaso para recolha dos dejetos) – tudo isso é comentado, e se vê a história do comportamento de parte da humanidade dentro de casa, principalmente no quarto.

Nem a nossa popular rede, herdada dos indígenas, foi esquecida – o autor a experimentou e apreciou!

Acrescente-se que o estudo abrange também tudo o que se pode relacionar com esta parte tão importante da casa: do comportamento social familiar através dos tempos até o surgimento dos relógios despertadores…

Uma leitura que recomendo, de preferência numa poltrona bem confortável ou numa rede bem preguiçosa, não necessariamente no quarto de dormir.

Texto da contracapa:

Simples canto de caverna coberto de peles de animais ou suntuoso aposento de palácio com grande leito de dossel, o quarto de dormir foi e continua sendo a peça mais importante da habitação, onde o homem passa pelo menos a terça parte de seu tempo. Ao contar a história dessas quatro paredes – testemunhas dos atos mais íntimos do ser humano – o etnólogo francês Pascal Dibie constrói um estudo original, em que aponta as diversas relações entre o objeto de sua análise e os mais variados aspectos culturais nos quais se inserem, como a religião e a sexualidade, a arquitetura e a decoração.

Santarém, PA, 27/2/2015. Editado em 26/4/2016.