Podia ser a gente, amiga…

amigaA resposta ao texto da mensagem acima poderia ser:

“E você não sabe usar a pontuação, amiga, pois faltam a vírgula depois de nadar (a palavra amiga é vocativo) e o ponto final.”

A palavra em função de vocativo sempre vem acompanhada de vírgula; neste caso, a vírgula se põe antes.

Então:

“Podia ser a gente, mas você não sabe nadar, amiga.”

Saiba mais AQUI sobre o vocativo e a pontuação que deve acompanhá-lo.

Santarém, PA, 4/2/2016.

Anúncios

Paraolímpico, paralímpico

Fiz uma rápida pesquisa sobre o porquê das formas paralímpico(a) e paralimpíada, já que, de acordo com a etimologia e as regras de prefixação do português, as formas adequadas são paraolímpico(a) e paraolimpíada. A respeito deste assunto, achei explicação apenas na página Dúvidas de Português (http://duvidas.dicio.com.br/paraolimpico-ou-paralimpico/), além da Wikipédia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Jogos_Paraol%C3%ADmpicos), nas quais se diz que a palavra paralímpico veio do inglês paralympic, que é a junção de paraplegic e olympic.

Não se trata, portanto, de um simples e corriqueiro (quase instintivo) processo de prefixação (junção do prefixo para- ao substantivo olympic ou olímpico), mas sim da criação de uma nova palavra com pedaços de duas outras.

Este processo ocorre com nomes próprios de produtos ou pessoas e até de países, como é o caso da Tanzânia, cujo nome provém da junção de partes dos nomes Tanganica e Zanzibar (com adição da terminação latina -IA), as duas ex-colônias britânicas que se uniram para formar aquele país africano. (Nem vou citar os milhares de nomes próprios que se criam no Brasil com partes dos nomes dos pais, tios, avô ou prima etc.; todo brasileiro conhece alguém cujo nome tem origem nesse tipo de combinação.)

Em português o termo paraolímpico(a) é o resultado natural do processo de prefixação de para- ao substantivo/adjetivo olímpico(a). Poder-se-ia suprimir o A final do prefixo (a exemplo dos pares hidroelétrico e hidrelétrico, hidroavião e hidravião e outros), mas nunca o O inicial do radical que o recebe: parolímpico(a).

O Brasil adotou nos documentos oficiais o uso dos termos paralimpíada e paralímpico(a), seguindo tendência internacional; mas é claro que as formas paraolímpico(a) e paraolimpíada continuam valendo e podem ser usadas livremente – isto é algo que ninguém pode proibir.

Assim, aqueles que optam por usar as formas paraolímpico(a) e paraolimpíada têm razão em fazê-lo, pois tais termos já estão estabelecidos e estão de acordo com a estrutura e a tradição de nossa língua, ainda que os termos oficiais do momento sejam paralímpico(a) e paralimpíada.

Santarém, PA, 14/9/2015. Editado em 9/9/2016.

Leia e curta também no Blogspot.

Tropa ou tropas? OMAC explica!

OMAC6
Capa do número 6 de OMAC, julho-agosto de 1975. Fonte: Wikipédia.

OMAC (One Man Army Corps, “Exército de Um Só Homem”) é uma personagem futurista de histórias em quadrinhos, criação de Jack Kirby para a DC Comics. Kirby foi um dos mais talentosos e prolíficos artistas do ramos das HQs e sempre gostei de sua arte de traço inconfundível. (Podem exprobrar-me os americanófobos: gosto de quadrinhos americanos… mas só dos clássicos!)

Mas esta postagem não tem nada que ver com HQs. É que sempre me lembro de OMAC quando deparo com certo tipo, cada vez mais frequente, de erro de tradução.

Ocorreu-me isso recentemente ao ver o documentário A II Guerra Mundial Vista do Espaço, no canal History 2; ao citar a invasão da fronteira ocidental da União Soviética pelo exército alemão, o locutor diz: “Num front de mais de 2.900 km, 4 milhões de TROPAS alemãs invadem a URSS ao mesmo tempo”.

4 milhões de tropas! É muito ou pouco? É muito, mas parece que pode ser muito mais… de acordo com o pensamento de quem traduziu isso.

A palavra portuguesa tropa tem valor coletivo, refere-se a um grupo – de soldados, neste caso. Uma tropa pode ser um pelotão, uma companhia ou bateria, um batalhão ou esquadrão, uma brigada, uma divisão ou um exército inteiro; mas nunca um só indivíduo. O Dicionário Eletrônico Caldas Aulete dá diversas acepções para a palavra tropa, todas com valor coletivo, nunca referente a um só indivíduo. Não consigo entender como se continua a cometer esse erro grosseiro.

Se considerarmos que os 4 milhões de tropas referem-se a pelotões (dos grupos citados, o menor, com cerca de 30 indivíduos), a União Soviética teria sido invadida por cerca de 120 milhões de soldados, número muito maior que toda a população alemão de antes da II Guerra, que talvez fosse de uns 80 milhões. Ainda que fossem grupos de combate de cerca de 10 elementos, ainda seriam 40 milhões de soldados, número também exagerado.

O número se refere, de fato, ao contingente de militares contados individualmente; eram, portanto, 4 milhões de homens, não 4 milhões de tropas. E o mesmo erro de tradução de tropa se repetiu outras vezes; fiquei enfadado e nem vi o filme até o fim. O canal History realmente não aprende! E continua a desapontar-me, pois o mesmo erro tem ocorrido em outros programas de temática semelhante. Esse canal de TV dos Estados Unidos talvez seja bom em history (há controvérsias!); mas quando se trata de language

Por isso, lembremo-nos: uma tropa é um conjunto; 30 soldados não são 30 tropas, são 1 tropa de 30 soldados.

Somente na ficção científica existe tropa de um homem só…

Santarém, Pará, 24/10/2014. Editado em 4/9/2015.