Saudade, saudades…

Até pensei lhe escrever hoje em francês
Como vou dizer saudade?
Só existe em português…
A Carta (Sebastião Tapajós e Marilena Amaral)

Já faz bastante tempo que a palavra portuguesa saudade é objeto permanente de discussões, muitas delas menos linguísticas que ideológicas: há os que dizem que ela só existe em português, o que faz inflar o orgulho linguístico dos lusófonos; segundo outros, ela pode ser facilmente traduzida em outras línguas, o que faz dela um termo como outro qualquer. Como nós brasileiros geralmente nos esquecemos de que outros povos também falam o português, pomos saudade no mesmo grupo da jabuticaba e do tacacá, do samba e do cajá: são coisas que só existem no Brasil. Não tendo nossa língua a projeção internacional que gostaríamos que tivesse (devido a seu grande número de falantes e à dilatada extensão do território em que se fala), dizer que uma palavra só existe em português é uma espécie de vingança moral contra outros povos, línguas e culturas.

A palavra saudade, como se sabe, veio do latim solitas, solitatis, por meio das formas arcaicas soedade, soidade e suidade, sob a influência de saúde e saudar (ver os dicionários Caldas Aulete e Aurélio). Solitas, em latim, significa “solidão”, “desamparo”, “abandono”, “deixação” (Saraiva, Novíssimo Dicionário Latino-Português), do que resultam alguns dos significados que tem saudade: “desejo de um bem do qual se está privado”; “lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las” etc. O Aulete registra também saudade como “nome comum a diversas ervas do gênero Scabiosa”, também conhecidas como “suspiros”, além de (como brasileirismo) com o significado de “cantiga entoada em alto-mar por marinheiros”.

Não está de todo errado quem diz que saudade só existe em português; mas as pessoas que assim pensam comparam saudade com vocábulos que, com ligeiras diferenças de pronúncia ou forma, podem ser encontrados em outras línguas, como teatro, telefone, vinho, chocolate, tabaco, papel, música, ciência, religião, filosofia, café, matemática, álgebra, piano e muitíssimas outras, em sua maioria termos técnicos de origem greco-romana ou palavras que se espalharam a outras línguas a partir de um idioma de grande difusão, como francês, inglês, castelhano, italiano, árabe…

A partir da perspectiva fonética e morfológica, seguindo-se o mesmo raciocínio, portanto, tem-se então que o verbo to be só existe em inglês e être só em francês (apesar de podermos traduzi-los em português e castelhano por ser ou estar). Tal asserção leva em conta apenas a forma, sem atentar para o conteúdo, o significado; o fato de não se encontrar em outras línguas, aparentadas à nossa ou não, a forma saudade não implica que outros povos não conheçam o sentimento “saudade” e não possam expressá-lo.

As línguas descrevem de forma diferente a realidade e os sentimentos, ainda que estes possam ser os mesmos (ou semelhantes) junto aos diversos povos. Cada povo vê os fenômenos do mundo da mesma forma que os outros (processo natural ou biológico), mas “interpreta-os” de forma diferente, conforme as estruturas de sua cultura (processo cultural); ou seja, a concepção das coisas do mundo por um povo tem relação com sua cultura e também com sua língua e é, de certa forma, refletida nesta, tanto no aspecto semântico quanto no gramatical.

Um exemplo bem conhecido dessa relação entre a língua e o modo como seus falantes veem o mundo que os cerca é o das palavras que designam termos correlatos como frio, gelo, neve etc.: os esquimós têm muito mais termos do que nós para designar gelo e neve, especificando matizes de cor e pormenores do estado sólido da água os quais outro povo não distingue.

O linguista dinamarquês Louis Hjelmslev (1899-1965), em sua principal obra, Prolegômenos a uma Teoria da Linguagem (1943), cita como exemplo a repartição do espectro das cores: enquanto, diz ele, nas principais línguas europeias (como, no nosso caso, o português) uma dada área do espectro é mais ou menos coberta pelos mesmos termos (verde, azul, cinza e marrom, no caso), a mesma área é, em galês (língua céltica falada em Gales, Reino Unido), coberta por três termos (gwyrdd, glas e llwyd), que não correspondem exatamente a nenhum dos nomes portugueses:

Hjelmslev_1943
HJELMSLEV, Louis. Prolegômenos a uma Teoria da Linguagem. São Paulo: Perspectiva, 1975, p. 58.

Ainda no âmbito de nossa língua, temos como algo natural que o azul e o verde se distingam como cores diferentes; já em tupi antigo (e, segundo o que consta, também em japonês) o azul e o verde são apenas matizes de uma mesma cor, que em tupi se expressa pela forma oby: nesta língua, “a mata é verde” traduz-se por ka’a soby; para “o céu é azul” diz-se ybaka soby (este S inicial é um morfema de 3ª pessoa que, aqui, não se traduz) – ka’a = “planta, vegetação, mata”; ybaka = “céu, firmamento”.

Nas línguas indo-européias (neolatinas, germânicas, eslavas etc.) faz-se distinção muito nítida entre pai e tio, entre mãe e tia; para nós, tio é qualquer irmão do pai ou da mãe, valendo o mesmo para as irmãs deles. No tupi, porém, o pai e os irmãos homens deste eram designados pela mesma palavra, ocorrendo o mesmo com a mãe e suas irmãs: sy, portanto, pode ser tanto “mãe” como “tia materna”; tuba, tanto “pai” como “tio paterno”. Esses termos e seu uso espelham as relações de parentesco na vida social do grupo em questão: devido ao parentesco formado pela consanguinidade paterna ou patrilinear (e sendo esta a base da delimitação do incesto), todos os irmãos do pai são considerados pais também, ocorrendo o mesmo com as irmãs da mãe, que também são indistintas desta. Nessa cultura, um homem podia, portanto, casar-se com uma filha de sua irmã, mas não com uma filha de seu irmão (o que, neste caso, seria incesto, pois a filha do irmão seria sua filha também). Para os antigos tupis (e talvez para outros povos), o parentesco relaciona-se apenas ao pai (a mulher era tida apenas como o receptáculo da semente masculina que se tornaria a criança).

Por tudo isso, o fato de uma língua não ter palavra que, por si mesma ou indiretamente, possa traduzir-se por “saudade” não significa que o povo que a fala não conheça tal sentimento: tal conceito pode ser, na língua em questão, expresso por mais de uma palavra, ou em combinação com outro(s) sentimento(s), do que resulta novo conceito, veiculado por uma ou mais palavras. Diz, e com certa razão, Napoleão Mendes de Almeida no verbete “Saudade, saudades” de seu Dicionário de Questões Vernáculas:

A capacidade de receber impressões é uma só na humanidade; não existe rigidez filológica capaz de obumbrar o sentimento de uma nação. Cremos ser procedimento psicofilológico correto este de aceitar em outros idiomas, ainda que não se conheçam, a existência de equivalências a palavra e a expressões nossas; que orgulho é este de achar que outros povos não vivem?

Portanto, ainda que não se encontre em outras línguas tradução exata de saudade, isto não quer dizer que os falantes de tais línguas não “sintam saudade”; por mais que levemos em consideração a grande variação cultural entre os grupamentos humanos, nunca devemos desprezar o fato de que todos constituímos a mesma espécie, portanto há condicionantes biológicas que afetam a todos os seres humanos, inclusive quanto à linguagem.

Algumas dicas gramaticais:

  • Podemos usar a palavra saudade no singular e no plural, com o mesmo sentido, o que ocorre também, por exemplo, com boda (/bôda/ = “cerimônia de noivado ou casamento”), parabém e pêsame (embora estas duas últimas sejam hoje empregadas quase que exclusivamente no plural: parabéns, pêsames). Portanto, podemos escrever ou dizer tanto parabém, pêsame e boda quanto parabéns, pêsames e bodas, embora as formas no plural sejam as mais usadas; já quanto a saudade ou saudades, parece haver atualmente equilíbrio na distribuição do uso, com leve tendência para o uso dessa palavra no singular.
  • Não se confunda a palavra boda aqui citada com boda (/bóda/ = “fêmea de bode, cabra”); são termos diferentes, apesar da mesma grafia. A reforma ortográfica de 1971 eliminou o acento diferencial da palavra bôda /bôda/, que passou a ser grafada boda, mas com a mesma pronúncia, que costuma vir indicada nos bons dicionários. Outro par de palavras que se enquadram no mesmo caso é o formado por sede /séde/ e sede /sêde/, ambas também de origens diversas e, por isso, com pronúncia e significado distintos, apesar da mesma grafia atual – a palavra sede (/sêde/ = “apetite para bebidas; sensação causada pela necessidade de beber”) era antigamente grafada sêde.
  • Na língua culta, quando usada a palavra saudade com possessivos, a posição destes implica mudança no sentido da frase, como vemos nas orações Senti saudades suas e Tais são suas saudades. A primeira significa o mesmo que Senti saudades de você, enquanto a outra tem o sentido de Tais são as saudades que você sente.

A primeira versão deste artigo esteve disponível entre 1999 e 2006 em http://www.napoleao.com, página do extinto Curso do Prof. Napoleão Mendes de Almeida.
Este artigo foi também publicado no boletim mensal da Ordem dos Velhos Jornalistas de São Paulo – OVJ/SP, então sob a direção de Antônio Carvalho Mendes (1933-2011).

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