Esperando marido

Sempre houve certo desprezo (e ainda o há) contra as áreas de humanidades: dizia-se, em outros tempos, que as ciências sociais em nada contribuíam com a sociedade, pois não “salvavam vidas” nos hospitais, não ajudavam a abrir estradas, não melhoravam a produção rural nem davam formação para as carreiras do Estado.

E no âmbito das próprias ciências sociais, os cursos da área de letras eram os mais desprestigiados, até execrados: devido à grande presença de mulheres, eram chamados de “faculdades espera-marido”, porquanto alguns diziam que serviam apenas para dar formação às mulheres, sem que necessariamente entrassem no mercado de trabalho – como no filme O Sorriso de Mona Lisa.

Mas parece que as coisas mudaram.

Nossa atual primeira da classe no quesito “bela, recatada e do lar” é formada em DIREITO…

Santarém, PA, 25/4/2016.

Língua materna ou língua-mãe?

Erro – e grave, parece-me – é traduzir a locução inglesa mother tongue como LÍNGUA-MÃE. A tradução correta é LÍNGUA MATERNA ou PRIMEIRA LÍNGUA.

Explico-me.

LÍNGUA-MÃE é aquela que deu origem a outras línguas, como é o caso do latim em relação às línguas que dele evoluíram: português, castelhano/espanhol, catalão, francês, italiano, romeno, rético, galego etc.

Já LÍNGUA MATERNA é aquela à qual somos expostos desde que nascemos, língua em cujo ambiente crescemos, língua por meio da qual se desenvolve em nós a faculdade da linguagem. É a primeira língua que cada um de nós aprende. No meu caso – junto com mais uns 240 milhões de pessoas – a língua materna é o português.

Num documentário exibido na TV Escola – sobre países africanos e asiáticos que tentam fortalecer suas línguas maternas em face do avanço do inglês – tal erro de tradução de mother tongue se repete várias vezes.

A confusão entre ambos os termos é mais um exemplo de que estamos formando tradutores que não dominam a própria língua.

Santarém, PA, 25/4/2016.

Biblioteca Digital Paulo Freire

Paulo_Freire_foto
Paulo Freire (Fonte: Wikipedia).

A Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), lançou o projeto Biblioteca Digital Paulo Freire, tornando acessível na Internet a obra e fortuna crítica do educador pernambucano Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997).

Já estão disponíveis em PDF, para baixar gratuitamente, alguns livros do autor e dezenas de artigos, resenhas e livros sobre ele e sua obra. Entre as obras de Paulo Freire disponíveis, estão Pedagogia da Indignação e A Importância do Ato de Ler.

Sobre a vida e obra de Paulo Freire, estão disponíveis os livros Boniteza de um Sonho, de Moacyr Gadotti; Paulo Freire para Educadores, de Vera Barreto; Fontes do Pensamento de Paulo Freire, de Paulo Rosas, entre outros, além de muitos artigos.

A “Biblioteca Digital Paulo Freire” está disponível no sítio http://www.paulofreire.ufpb.br/paulofreire/.

Santarém, PA, 9/8/2011. Editado em 14/4/2016.

Capes na Rio +20: livro disponível em PDF

Capes_Rio+20_Contribuicao_capa_2Está disponível para download gratuito, em formato PDF, o livro Contribuição da Pós-Graduação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável: Capes na Rio +20, lançado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) durante a Conferência Mundial da ONU sobre o Desenvolvimento Sustentável Rio +20, ocorrida de 13 a 22 de junho de 2012 na cidade do Rio de Janeiro.

A Capes foi convidada pela organização da conferência para elaborar uma síntese do avanço do conhecimento, pesquisa e formação de recursos humanos desenvolvidos nos programas do Sistema Nacional de Pós-Graduação. O livro, publicado em português e inglês e distribuído durante a Conferência, é baseado nos textos que constam no Plano Nacional de Pós-Graduação 2011-2020, também editado pela Capes e Ministério da Educação (MEC).

O livro pode ser baixado/descarregado aqui (página da UFGD) ou lido online no Issuu.

Santarém, PA, 22/8/2012. Editado em 26/2/2016.

Janusz Korczak

Foto: Monumento
“Korczak e as Crianças do Gueto”, escultura de Boris Saktsier (Museu do Holocausto, Yad Vashem, Jerusalém, Israel). Fotografia de Berthold Werner (Fonte: Wikipedia).

O Dia do Professor veio e passou. Eu não ia publicar nada sobre isso, já que a Internet e as redes sociais se encheram de publicações diversas, muitas delas melosas e algumas até jocosas, sobre educação, professores, escolas etc. Mas hoje me lembrei da história de uma figura heroica, lendária até: Janusz Korczak, pedagogo judeu polonês que pereceu no campo de concentração de Treblinka em 1942.

Não vou discorrer sobre a obra de Korczak, pois não sou professor nem pedagogo; nem vou contar a história de sua vida, pois o artigo sobre ele na Wikipedia (inclusive em português) apresenta bastante informação.

Mas os fatos que lhe ocorreram no fim da vida valem uma reflexão.

Ao ser confinado no infame Gueto de Varsóvia, Janusz Korczak era já um pedagogo, professor e escritor reconhecido e respeitado, autor de 24 livros e cerca de 1.400 textos publicados em revistas. Editou periódicos e teve programa no rádio. Em 1937, pelo conjunto de sua obra, foi laureado com um prêmio da Academia Polonesa de Literatura. Um currículo que causaria inveja numa lista de indicados ao Prêmio Nobel, mas que de nada lhe valeu contra a crueldade da guerra.

No gueto, Korczak e outros professores eram responsáveis por cerca de 200 crianças órfãs.

Em 5 ou 6 de agosto de 1942, o Gueto de Varsóvia foi evacuado pelos alemães e Korczak se recusou a fugir, pois não queria abandonar as crianças. Ele e seus colaboradores permaneceram com elas até o fim. Korczak ficou ao lado de suas crianças, com elas foi deportado a Treblinka e com elas pereceu.

Morreu fiel àquilo que defendeu por toda a vida.

Glória imortal à memória de Janusz Korczak e daqueles, famosos ou anônimos, que trataram e tratam a educação como coisa séria!

E vergonha, execração, anátema a todos aqueles que, principalmente no Brasil, transformaram a educação em caso de polícia…

Mais sobre Janusz Korczak: https://pt.wikipedia.org/wiki/Janusz_Korczak

Santarém, Pará, 17/10/2015.

Anacronismo

Matei um pouco da saudade das aulas que tive com o Prof. João Adolfo Hansen no curso de Letras da FFLCH/USP. Diz ele logo no começo de seu livro sobre o Padre Manoel da Nóbrega e a educação no século XVI:

“Quando se fala da educação, do ensino, da instrução e da catequese desenvolvidos pela missão jesuítica, deve-se especificar a historicidade desses conceitos nas circunstâncias luso-brasileiras em que ocorrem para não generalizar anacronicamente os modos como são entendidos hoje. A sociedade portuguesa do século XVI não é burguesa, iluminista ou liberal. Sua experiência do tempo é outra, diferente da experiência temporal moderna, pois pressupõe a presença providencial de Deus como Causa e Fim da sua história. Também é outra sua doutrina de poder, que não é democrática; de “pessoa humana”, que é escolástica; de linguagem e realidade, que é motivada como participação das coisas, homens, eventos e palavras na substância metafísica de Deus. Fundamentadas metafisicamente e ordenadas pela teologia-política católica, as doutrinas de tempo, história, poder, pessoa, linguagem e realidade mobilizadas nas práticas do programa catequese e escola são corporativas, integrando-se nas malhas das relações pessoais que constituem a hierarquia do Estado monárquico português.”
HANSEN, João Adolfo. Manuel da Nóbrega. Recife: Massangana, 2010. p. 11-12.

Não se trata de defender práticas de outras épocas e gentes que pensavam de outra maneira; au contraire! Mas a muitas pessoas falta discernimento para não cair no anacronismo tosco e fácil de condenar homens do passado de acordo com padrões do presente. Que dirão nossos descendentes, daqui a 200 anos, de práticas que temos hoje por corretas?

Diz-se que o rei persa Cambises, ao “comemorar” a conquista do Egito, há 2.500 anos, surrou a múmia de um faraó. Acho que estamos um pouquinho mais evoluídos do que os persas de então, porquanto já consideramos coisas como essas uma abominação.

O livro está disponível no repositório do Domínio Público, no formato PDF, e pode ser baixado gratuitamente pelo atalho abaixo:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/me4709.pdf

Santarém, Pará, 17/4/2014. Editado em 19/9/2015.

A tradição universitária do preconceito

iluminura_sec_xv_univ_bolonha

Em sua obra Educación y Lucha de Clases, o psicólogo e professor argentino Aníbal Ponce cita o seguinte trecho de August Messer sobre os estudantes das universidades medievais:

Um hino da época, de caráter blasfemo, muito popular entre os estudantes ingleses, ressalta muito claramente o caráter da classe a que pertencia o estudante medieval:
Deus, tu que hás criado os camponeses para servirem aos cavaleiros e aos estudantes, que puseste em nós ódio a eles, deixa-nos viver às expensas do seu trabalho, aproveitar de suas mulheres e matá-los por fim; pelo nosso senhor Baco, que bebe e levanta o seu copo, pelos séculos dos séculos, amém.

PONCE, Aníbal. Educação e Luta de Classes. Trad. José Severo de Camargo Pereira. São Paulo: Fulgor, 1962.

Qualquer semelhança com as práticas violentas e discriminatórias de estudantes de conceituadas universidades brasileiras atuais não será mera coincidência; é tradição de longa data.

Aliás, para quem gosta de manter tradições, este é um prato cheio.

Já eu penso que tradições, principalmente deste tipo, devem ser quebradas. Uma sociedade ou instituição que resiste a mudanças, sob a alegação de conservar tradições, acaba por manter-se esclerosada e rançosa.