Salvem o Jorge, salvem-nos dele; ou a difícil arte do vocativo

São Jorge combatendo o dragão (ícone ortodoxo)
São Jorge combatendo o dragão (ícone ortodoxo)

Diz um reclame antigo e conhecidíssimo em São Paulo: O mundo gira, a Lusitana roda. Acrescento eu: E os tempos mudam muito! Quem se acostumou, desde que era criança pequena lá em Barbacena (ou em qualquer outro lugar), a ouvir sobre o “padrão de qualidade da Rede Globo”, com certeza perguntou a si mesmo o que se passou nos escritórios de redação da Vênus Platinada, em relação à correção gramatical do nome de sua telenovela SALVE JORGE, exibida de 22/10/2012 a 17/5/2013, na faixa das 21 horas.

O nome, como sabemos, é alusivo à figura de São Jorge, santo católico bastante popular e também figura cultuada por religiões afro-brasileiras, sob a invocação de Ogum ou Oxóssi, orixás de índole guerreira.

Antes, porém, de passarmos ao escopo deste artigo, vejamos uma introduçãozinha histórico-cultural.

I. O nome Jorge é muito comum no mundo cristão. Origina-se do nome grego Geórgos, que através do latim Georgius deu origem às diversas formas desse nome nas línguas modernas: Georg ou Jürgen (alemão), George (inglês), Georges (francês), Gheorghe (romeno), Giorgio (italiano), György (húngaro), Jordi (catalão), Jorge (português e castelhano) etc.

O santo, que segundo a tradição viveu entre os séculos III e IV,  tem seu dia comemorado em 23 de abril e é também conhecido como Jorge da Capadócia, pois, segundo a tradição, é originário dessa região da Anatólia, atualmente parte da Turquia. Jorge da Capadócia era soldado romano que se converteu ao cristianismo; por isso aparece em certas representações munido de escudo que traz cruz vermelha sobre campo branco, combinação presente em muitas bandeiras, como as da Geórgia (ex-república soviética), que lhe deve o nome ocidental, e também da Inglaterra e de outras regiões, das quais é o padroeiro (também é padroeiro de Portugal, Lituânia, Catalunha e da cidade do Rio de Janeiro), além de protetor de forças militares e policiais diversas.

Bandeira da Inglaterra (não confundir com a bandeira do Reino Unido, conhecida como Union Jack ou Union Flag)
Bandeira da Inglaterra (não confundir com a bandeira do Reino Unido, conhecida como Union Jack ou Union Flag)

Assim como ocorreu com outros santos militares (Santo Expedito, São Martinho e São Maurício, por exemplo) ou outros não militares (Santo Antônio, São Lourenço), a devoção a São Jorge se espalhou devido a seu apelo popular e milagreiro. É curioso que não haja devotos (pelo menos, nunca conheci nenhum) de Santo Agostinho, São Jerônimo, São Tomás de Aquino; talvez estes sejam eruditos demais para ter devotos. Valéry Larbaud, em sua obra Sob a Invocação de São Jerônimo, comenta sobre isso, e considera São Jerônimo o padroeiro dos tradutores, por seu protagonismo num dos maiores feitos de tradução de que se tem notícia: a Bíblia Vulgata, versão latina católica traduzida dos originais hebraicos e gregos; Jerônimo deixou também escritos sobre a arte de traduzir.

Bandeira da Geórgia, ex-república soviética
Bandeira da Geórgia, ex-república soviética

Mas, continuando… Esses santos estão presentes no Brasil desde o início da colonização, e “participaram” ativamente da ocupação do território: Santo Antônio, por exemplo, chegou a assentar praça nos exércitos portugueses, aparecendo na lista de combatentes e recebendo até soldo (obviamente o pagamento era repassado a alguma freguesia, paróquia, irmandade com seu nome). Atribuem-se à ajuda de Santo Antônio vitórias contra holandeses e franceses.

Santo Antônio representado com acessórios militares
Santo Antônio representado com acessórios militares

São Jorge é também conhecido como matador de dragões – o que o transporta dos domínios da religião para os da fantasia, pois sabemos que dragões nunca existiram… muito menos na Lua, onde dizem que houve o embate do santo com o monstro. O que pouca gente sabe é que, em São Paulo, o Santo Guerreiro foi matador de gente (não me refiro a conflitos ligados ao futebol). Explico-me: em sua obra São Paulo de Outrora, Paulo Cursino de Moura conta que, em fins do século XIX (ou no começo do século XX, não sei precisar – cito de memória, pois estou apartado da maior parte de minha livraria), durante uma procissão em devoção de São Jorge na cidade de São Paulo, a imagem do santo, que ia “montada” num cavalo de verdade, caiu de cima dele, matando um devoto que ia ao lado. Este, ao contrário do dragão, morreu em odor de santidade, indo direto para o céu…

II. Santo, Santa, São – Para arrematar esta introdução, aproveitando-se o gancho: as formas São e Santo, ambas originadas do latim sanctus, -a, -um, não são intercambiáveis, não se usam uma pela outra. A palavra São usa-se com nomes iniciados por consoante, e Santo se acresce aos nomes iniciados por vogal: São Bento, São Carlos, São Caetano, São Bernardo, São Mateus, São Francisco; Santo André, Santo Anastácio, Santo Inácio, Santo Onofre, Santo Antão etc. A exceção parece ser São Tomás de Aquino, à qual alguns preferem Santo Tomás; mas sempre se prefira a forma regular.

A combinação São Tiago resulta do nome latino Sanctus Iacob; esta combinação sofreu queda da consoante final, sonorização de /k/ (grafado C), que se tornou /g/, e aglutinação das duas palavras: Santiago (em português e castelhano), com posterior separação dos termos, nos domínios lusófonos, causada por etimologia popular: os falantes do português na Idade Média perderam a consciência etimológica e reinterpretaram a palavra, separando-a novamente em duas formas, São Tiago. Portanto, do nome hebraico Iaakov surgiram em português, por vários caminhos, os nomes Jacó, Tiago, Iago, Jaime, Diego e Diogo.

Para os nomes femininos há apenas a forma Santa: Santa Maria, Santa Helena, Santa Bárbara, Santa Ana (ou Sant’Ana, Santana), Santa Irene (donde se originou o nome português Santarém).

Há controvérsias quanto ao uso de inicial maiúscula com as palavras Santo (a) e São. Podemos, porém, considerá-las como partes do nome do santo, grafando todos os elementos, menos as preposições, com inicial maiúscula. Em relação a outros nomes, bíblicos ou não, que não sejam de santos católicos, a palavra é um adjetivo comum, ficando com inicial minúscula: o santo Jacó; a santa Raquel; a santa heroína Judite etc.

III. Salvem o Jorge! – Voltando ao tema deste artigo, não o telefolhetim em si mesmo, mas o nome da telenovela: o que significa, então, esse SALVE JORGE? Tratar-se-ia de um imperativo? Se São Jorge estiver em perigo, é possível que seja isso… É o que parece, pela sintaxe aí presente: salve é forma subjuntiva presente, 3ª pessoa do singular, do verbo salvar, usada como imperativo relacionado ao pronome você (forma originalmente da 3ª pessoa e que assumiu funções da 2ª em várias regiões onde se fala português, e inclusive na língua culta). Jorge é, portanto, o objeto direto de salve; quem profere essa sentença quer que Jorge seja salvo de algo.

Ocorre, porém – o que é explicado por todo o contexto da telenovela –, que não se trata de imperativo, porquanto temos aí uma saudação, pelo que esse título está erradamente grafado: deveria ser SALVE, JORGE, com vírgula, pois não se trata de construção imperativa. Temos aí, na verdade, a interjeição salve, não o verbo salvar, com o nome Jorge em função de vocativo, que deve vir sempre acompanhado de vírgula. Falta a vírgula antes do nome Jorge (aí em função de vocativo) para dar à frase seu sentido exato.

IV. Vírgulas, vírgulas, vírgulas… – A ortografia e a pontuação são dois dos aspectos da língua escrita que mais trazem dúvidas aos estudantes e população em geral, devido ao tratamento incompleto, superficial e inadequado dado a elas na escola. Como nossa ortografia é ao mesmo tempo fonológica e etimológica, precisamos memorizar a grafia de muitas palavras (ou famílias delas), pois um mesmo fonema pode ter mais de um tipo de representação, o que é motivado pela origem de cada palavra.

Já a pontuação é mais racional. Os sinais de pontuação – à semelhança dos sinais diacríticos, impropriamente chamados acentos – surgiram e desenvolveram-se para indicar, na escrita, variações da entoação, curvas melódicas ascendentes e descendentes, pausas de variada duração… Mas em nenhuma língua é possível indicar, na escrita, todas as variações da entoação, todos os matizes de sentido que a mais leve mudança na modulação da voz pode produzir; tentamos aproximar-nos disso, portanto, por meio dos sinais de pontuação, dos quais o mais usado é a vírgula. Esta indica uma pausa mais breve que o ponto; trata-se de certo descanso na elocução, aproveitando-se a respiração, e muitas vezes com mudança de sentido – o que ocorre, por exemplo, nas construções explicativas (com orações adjetivas ou apostos): neste tipo de construção, a pausa indicada pela vírgula marca a introdução de um dado inerente ao termo a que se refere o conjunto explicativo.

V. Ah, o vocativo… – Mas o que é, afinal de contas, esse vocativo? O termo vocativo é originário do latim vocativus (ou uocatiuus, como se prefere usar atualmente em publicações universitárias – não trataremos disso aqui). O termo é um adjetivo derivado de vocare = “chamar”; na tradição gramatical latina designa um dos seis casos gramaticais daquela língua, o caso vocativo, em que o substantivo é flexionado para designar apelo, chamado, interpelação (a bem da verdade, o vocativo latino só ocorre com os substantivos da 2ª conjugação, e mesmo assim muitos não variam neste caso, motivo pelo qual alguns expertos atuais consideram que, em latim, não há propriamente caso vocativo, mas uma forma variante do nominativo de alguns nomes).

Em português e muitas outras línguas o vocativo é indicado na fala pela entoação da frase, ocorrendo uma pausa depois dele, quando no início da oração; uma pausa antes, quando ele vem no final; e pausas antes e depois, se o vocativo se põe no meio da oração. Em textos escritos, essa pausa é marcada com a vírgula.

Mas é aqui que o caldo entorna… A população tem grandes dificuldades com a pontuação, e é cada vez mais frequente o uso do vocativo sem vírgula, por puro desconhecimento ou por falta de domínio da pontuação. Frases mal grafadas que se distribuem ou compartilham na Internet e placas e faixas afixadas nas ruas apresentam o vocativo sem vírgula; é raro ver uma faixa de dia dos namorados, ou comemorativa do retorno de um parente ou amigo, ou alusiva a uma vitória esportiva, com a pontuação correta. Em 2012, quando retornou da Olimpíada de Londres com a medalha de ouro no peito, certo atleta brasileiro foi recebido com faixas que diziam coisas como “Parabéns Fulano”, “Valeu Beltrano”, “Bem-vindo Sicrano”, assim mesmo, sem nenhuma pontuação. Nem mesmo a publicidade oficial escapa: placas e faixas pagas pelo Erário – portanto, por nós – são feitas, às vezes, sem respeito à ortografia e pontuação oficial.

Os gramáticos, pelo menos quanto à pontuação indicativa do vocativo, são unânimes – o que é raro, dadas as grandes discrepâncias que se encontram entre as muitas gramáticas, resultado da falta de uma gramática normativa e pedagógica padronizada que oriente os professores de língua portuguesa. Em outros países, seria esta uma atribuição de academia de letras ou artes ou ciências, ou de uma comissão de notáveis nomeada pelo Estado; mas em nosso caso, nas atuais circunstâncias, creio que isso não se dará: a Academia Brasileira de Letras tem-se mostrado inepta para tais funções, pois poucos de seus membros têm capacitação, experiência e currículo para tratar deste e outros assuntos, e ela também não aceitará que se estabeleça um grupo de professores e pesquisadores universitários que lhe tome o lugar garantido pelo senso comum sobre a língua portuguesa no Brasil – é apenas isto, a “aura de autoridade” que a circunda, o que tem garantido à Academia Brasileira alguma razão de existir, não sua produção científica (!?).

A julgar pelos atuais ocupantes das célebres – ou nem tanto – 40 cadeiras, a Academia tem sido um clube de escritores – sem entrarmos em questões de mérito ou qualidade; mas não basta ser escritor para ser capaz de tratar (cientificamente ou não) de assuntos de linguagem: é preciso ter conhecimentos de linguística, filologia, semiótica, edótica, crítica textual e (teoria) literária, além de dominar o arcabouço da gramática tradicional, ainda que esta seja geralmente pouco útil além de seus fins descritivo-pedagógicos; creio que lá (na Academia Brasileira) apenas o acadêmico Evanildo Bechara tem formação para isso, pois é professor universitário, autor e tradutor de obras sobre a linguagem em geral (publicou 2 gramáticas importantes, com dezenas de edições, além de outras obras próprias e traduções). Mas uma andorinha só jamais fará verão…

Curioso ícone bizantino: São Jorge sem cavalo e sem dragão, reconhecido pela couraça, lança e escudo com a cruz vermelha (Museu Cristão Bizantino, Atenas, Grécia)
Curioso ícone bizantino: São Jorge sem cavalo e sem dragão, reconhecido pela couraça, lança e escudo com a cruz vermelha (Museu Cristão Bizantino, Atenas, Grécia)

VI. O vocativo e seu uso – Passemos então a ver o que dizem alguns gramáticos sobre o vocativo e a pontuação que o deve acompanhar.

1. Comecemos por Napoleão Mendes de Almeida, o mais notório e polêmico gramático brasileiro do século XX; diz ele em sua Gramática Metódica da Língua Portuguesa:

“702 – O vocativo pode vir no começo, no meio ou no fim da oração:
no começo: “Meninos, estudem a lição”.
no meio: “Estudem, meninos, a lição”.
no fim: “Estudem a lição, meninos”.
Observe-se que o vocativo vem sempre acompanhado de vírgulas; quando o vocativo inicia a oração, há uma vírgula depois; quando vem no meio, o vocativo se põe entre vírgulas; quando no fim da oração, põe-se uma vírgula antes” (MENDES DE ALMEIDA, 2005, p. 437).

Entenda-se aqui, por vocativo, o termo que exerce essa função. Mais adiante, após discorrer sobre as funções da vírgula (em suma: indicação de um tipo de pausa), Mendes de Almeida trata novamente de seu uso na indicação da pausa que acompanha o vocativo; repete a necessidade de vírgula a acompanhar o vocativo, e dá exemplos semelhantes aos anteriores:

Alunos, recordem as correções” – “Recordem, alunos, as correções” – “Recordem as correções, alunos (2005, p. 575).

Como não diz mais nada a respeito, deduz-se que Napoleão considera o vocativo como termo integrante do predicado.

2. Um gramático pouco conhecido e citado nos dias atuais, José de Almeida, assim define o vocativo, em sua Gramática Brasileira da Língua Portuguesa:

“É a palavra ou expressão que designa o indivíduo a que nos dirigimos ou interpelamos: Ó Paulo, que fizeste! – Henrique, proceda como lhe recomendei. – Não o faças, meu filho!” (ALMEIDA, 1968, p. 186).

Muito sucinto, e com apenas três exemplos… Vale citar, porém, o restante do trecho:

“O vocativo é um elemento que, propriamente, não pertence à oração; um termo, justamente considerado, alheio à estrutura da frase, devendo, por conseguinte, ser analisado à parte, como elemento afetivo por excelência.”

A definição de José de Almeida é bem próxima do que se concebe atualmente, e distante da dos gramáticos mais tradicionais, embora ele mesmo um tradicionalista. Retorna Almeida ao vocativo, na página 250, para dizer dele que “não tem posição fixa: pode vir no início, no meio ou no fim da frase: Geraldo, vem cá – Eu gostaria, Adalberto, de ajudá-lo – Não te convém ir, Fábio”. Finalmente, nas páginas 408 e 409, diz Almeida que a “vírgula indica uma pequena pausa na leitura, e emprega-se para separar (…) o vocativo: Carlos, que tens?”.

3. Clóvis Oswaldo Gregorim, em Português: Gramática Prática, diz, sucintamente:

“Emprega-se a vírgula (uma breve pausa): […]
b) Para isolar o vocativo:
Cristina, desligue já esse telefone!
Por favor, Ricardo, venha até o meu gabinete.” (GREGORIM, 2006, p. 111-112).

Volta Gregorim adiante (p. 471-472) a tratar do vocativo; diz ele que o “vocativo pode vir precedido de interjeição e é sempre seguido de uma pausa. Na modalidade escrita é isolado por vírgula ou seguido de ponto de exclamação”, dando outros exemplos:

“A política, meus amigos, é a arte da conciliação.
Meu Deus! O que faremos agora?
Até quando nos perseguirão, ó insensatos!”

Dando um bom passo à frente de outros gramáticos, diz Gregorim que:

“O vocativo apresenta uma função autônoma na oração, pois não pertence ao sujeito nem ao predicado. Não deve ser classificado como um termo acessório, visto que não tem relação alguma com os demais termos da frase” (2006, p. 472).

É uma descrição adequada da função sintática do vocativo, e bem de acordo com os modernos estudos da sintaxe.

4. Com Gregorim já concordava Tássilo Orpheu Spalding, segundo o qual o vocativo “não deve ser incluído na constituição nem do sujeito nem do predicado; analisa-se à parte, porque não pertence à estrutura da oração. Não é complemento” (Dicionário Brasileiro de Gramática, 1971, p. 261).

5. Outro gramático bem conhecido, Adriano da Gama Kury, em suas Novas Lições de Análise Sintática, também diz ser o vocativo um termo “à parte tanto do sujeito como do predicado”, “com que se interpela o ouvinte”; “só raramente aparece o vocativo independente; na maior parte das vezes, liga-se a uma 2ª pessoa do discurso, representada seja por um pronome pessoal, reto ou oblíquo, seja por um possessivo ou demonstrativo”; pode a ele subordinar-se uma oração, como neste exemplo:

Ó Deus, [que estás no Céu], tem piedade de mim” (1986, p. 61).

6. Também Márcia Angélica dos Santos, em Aprenda Análise Sintática, considera o vocativo como termo independente, pois “é o termo que não faz parte da oração”, conforme os exemplos:

Ó sono! Unge-me as pálpebras…” (Castro Alves) – “Anda, moleque.” (Machado de Assis) – “Já rompe, Nise, a matutina aurora.” (Cláudio Manuel da Costa)” (apud SANTOS, 2003, p. 58).

7. Em Escreva Certo, Édison de Oliveira e Maria Elyse Bernd tratam também, didática e sucintamente, da pontuação que acompanha o vocativo, citando vários exemplos (conservei os grifos originais):

“Sempre que for possível imaginar o vocábulo ó antes de um substantivo, esse substantivo estará funcionando como vocativo e provocará, necessariamente, uma vírgula ou um entre-vírgulas.
Pedestre, atravesse na faixa! (Ó pedestre, atravesse na faixa!)
O futuro vos pertence, jovens! (O futuro vos pertence, ó jovens!)
O futuro, jovens, vos pertence! (O futuro, ó jovens, vos pertence!)
Avança, Brasil!
Aguenta, coração!
Ave (= salve), Maria, cheia de graças…” (OLIVEIRA; BERND, 2002, p. 128).

Este último exemplo é bem parecido com o que motivou este artigo.

8. O mais conhecido gramático brasileiro da atualidade, Pasquale Cipro Neto, em Ao Pé da Letra, trata também do vocativo. Cita os exemplos “Pedro, nosso primo comprou uma casa” e “Pedro, nosso primo, comprou uma casa” – no primeiro, Pedro é vocativo, e nosso primo é o sujeito; no segundo, Pedro é o sujeito, com o aposto nosso primo. Aponta para a necessidade de vírgula a marcar o vocativo, e dá como exemplos de erro frases como “Acorda Brasil. Está na hora da escola”, propaganda oficial da época, sem a vírgula antes do vocativo Brasil. Explica ainda Cipro Neto que o vocativo

“Nomeia o interlocutor ao qual se dirige a palavra. É um termo independente: não faz parte do sujeito nem do predicado. Pode ser representado por substantivos, pronomes e numerais substantivos, ou ainda, por palavras substantivadas.
Alguns exemplos: “Meu querido, o que aconteceu?”; “Antônio, pare já com isso!”; “Essa proposta é inaceitável, senhor Ministro”.” (CIPRO NETO, 2001, p. 115).

9. Também Celso Pedro Luft, em sua Moderna Gramática Brasileira, considera o vocativo termo independente: “quando se inclui num período (isto é, numa frase sintaticamente organizada), ele não integra nenhuma oração, não se anexa à estrutura do sujeito ou do predicado. Pode ser precedido de interjeição de chamamento” (1989, p. 44).

10. Dos autores que consultamos, o já citado Evanildo Bechara é o que melhor e mais extensamente descreve o vocativo, em sua Moderna Gramática Portuguesa (2000, p. 460-461), obra a um só tempo científica e didática, bastante abrangente e destinada a estudos superiores. Diz ele que o vocativo é elemento “desligado da estrutura argumental da oração e desta separado por curva de entoação exclamativa”; “cumpre uma função apelativa de 2ª pessoa, pois, por seu intermédio, chamamos ou pomos em evidência a pessoa ou coisa a que nos dirigimos”. Classifica ele, ainda, a tradicional interjeição ó como “um morfema de vocativo, dada a característica entonacional que a diferencia das interjeições propriamente ditas:

Deus, ó Deus, onde estás que não respondes? (Castro Alves, Vozes d’África)”.

Ainda segundo Bechara, o vocativo constitui “uma frase exclamativa à parte ou um fragmento de oração, à semelhança das interjeições”. Pode ser constituído de pronome ou substantivo, podendo este vir acompanhado de expansões, como adjuntos adnominais, orações adjetivas etc., como nestes outros exemplos de Castro Alves, citados por ele:

“Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!”
Senhor Deus, que após a noite
Mandas a luz do arrebol,
Que vestes a esfarrapada,
Com o manto rico do sol.”

Todo este segundo trecho é o vocativo, com o núcleo Senhor Deus acompanhado de orações adjetivas explicativas.

À página 609, diz Bechara sobre o uso da vírgula para intercalar o vocativo, informando ainda que na redação oficial o vocativo costuma vir acompanhado de dois pontos (:).

11. Conclusão – Outros autores poderiam ser citados, mas creio que os trechos arrolados acima são suficientes. O objetivo deste texto era discorrer sobre o uso do vocativo, mostrando que ele vem sempre acompanhado de pausa, que deve ser marcada por vírgula, mesmo em frases mais simples ou em títulos de livros e outras obras; acabou-se, porém, por adentrar sua definição e função, ainda que de forma superficial. Podemos então concluir – pois este artigo já se vai tornando longo –, que o vocativo:

  1. Pode vir no início, no meio ou no fim da oração ou do período;
  2. Vem acompanhado de pausa, que deve ser necessariamente marcada por vírgula;
  3. Quando vem no início, há pausa, necessariamente marcada por vírgula, depois do vocativo; se este vem no fim, põe-se antes a vírgula; se o vocativo vem no meio da oração ou período, vem ele entre duas vírgulas;
  4. Pode o vocativo vir acompanhado de complementos, que também farão parte do vocativo, sendo o termo principal o núcleo de todo o sintagma (isto é, o conjunto de palavras que formam um só elemento sintático);
  5. Para efeito de análise sintática, o vocativo é termo independente, não se prendendo nem ao sujeito, nem ao predicado.

VII. The Happy End… – Goste ou não de telenovelas, e tenha ou não dado audiência a essa telenovela da TV Globo, você pelo menos já sabe que o nome correto dela é SALVE, JORGE, com vírgula.

E mais: se você conhece algum figurão da Poderosa (a Rede Globo, of course), repasse este texto a ele; avise que pode lê-lo, distribuí-lo e até odiá-lo (e a mim também) à vontade – não faz mal, não cobrarei cachê ou pró-labore. Foi gostoso escrever este texto, e só isso já me deixou satisfeito e bem pago. Como dizem por aí: não tem preço

Brasão da polícia de Moscou, Rússia, cujo patrono é São Jorge
Brasão da polícia de Moscou, Rússia, cujo patrono é São Jorge

OBRAS CONSULTADAS

ALMEIDA, José de. Gramática Brasileira da Língua Portuguesa. São Paulo: Obelisco, 1968.

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37. ed. revista e ampliada, 5. reimpressão. Rio de Janeiro: Lucerna, 2000.

CIPRO NETO, Pasquale. Ao Pé da Letra. Rio de Janeiro: EP&A, 2001.

GREGORIM, Clóvis Oswaldo. Michaelis SOS Português: Gramática Prática. 10. ed. São Paulo: Melhoramentos, 2006.

KURY, Adriano da Gama. Novas Lições de Análise Sintática. 2. ed. São Paulo: Ática, 1986.

LARBAUD, Valéry. Sob a Invocação de São Jerônimo. Trad. Joana Angélica. São Paulo: Mandarim, 2001.

LUFT, Celso Pedro. Moderna Gramática Brasileira. 9. ed. Rio de Janeiro: Globo, 1989.

MENDES DE ALMEIDA, Napoleão. Gramática Metódica da Língua Portuguesa. 45. ed. revista, 1. tiragem. São Paulo: Saraiva, 2005.

OLIVEIRA, Édison de; BERND, Maria Elyse. Escreva Certo. Porto Alegre: L&PM, 2002.

SANTOS, Márcia Angélica dos. Aprenda Análise Sintática. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2003.

SPALDING, Tássilo Orpheu. Dicionário Brasileiro de Gramática. São Paulo: Cultrix, 1971.

[Santarém, Pará, 30/10/2012. Editado em 23/4/2015.]

O retorno do nheengatu, língua geral amazônica

Navarro_NheengatuNAVARRO, Eduardo de Almeida. Curso de língua geral (nheengatu ou tupi moderno). A língua das origens da civilização amazônica. Prefácio de D. Edson Damian. Capa, fotos e ilustrações de Célio Cardoso. São Paulo: Edição do autor, 2011. 112 págs. ISBN 978-85-912620-0-7. Contato com o autor: edalnava@yahoo.com.br.

O nheengatu está de volta! Após um século e meio de progressiva retração, sob o risco de ser esquecido, falado apenas por comunidades ribeirinhas do extremo noroeste do Brasil, o nheengatu – ou língua geral amazônica – vem tornando-se novamente, nos últimos anos, objeto de interesse cada vez maior dos estudiosos das línguas indígenas brasileiras. Mais do que isso: está agora disponível a todos os interessados em aprendê-lo, por meio deste curso do Prof. Eduardo de Almeida Navarro.

Mas o que é, afinal de contas, o nheengatu?

À época da chegada dos portugueses ao Brasil, falava-se, em grande parte da costa nordeste e leste da América do Sul, mais especificamente na região que vai do Maranhão a São Paulo, uma mesma língua, que os cronistas coloniais, mais tarde, chamaram língua mais usada na Costa do Brasil ou língua da costa. Esta língua, que conhecemos hoje pelo nome tupi antigo ou simplesmente tupi, apresentava-se sob a forma de vários dialetos, pouco discrepantes entre si, dos quais os mais conhecidos eram o tupi (falado na atual Baixada Santista e no planalto de Piratininga, em São Paulo) e o tupinambá, falado daí para o norte.

Vários povos, cujos nomes ficaram marcados na história do Brasil, falavam essa língua: além dos próprios tupis de São Vicente e Piratininga e dos tupinambás de várias latitudes, falavam-no os temiminós, caetés, potiguaras, tupinaés, tamoios, tupiniquins e outros. Essa faixa de língua tupi não era contínua, pois vários trechos do litoral eram ocupados por indígenas de outros grupos culturais, como os goitacás, os aimorés e os guaianás, que falavam línguas de outro(s) grupo(s). No período colonial, as línguas não aparentadas ao tupi eram conhecidas como línguas travadas; já os povos que não falavam o tupi eram conhecidos como tapuias (do tupi tapy’yia, termo aplicado aos povos de outras culturas e mais ou menos equivalente a “bárbaro”).

Com o avanço do domínio português, em algumas regiões da América Portuguesa as línguas indígenas foram-se extinguindo, em favor da língua portuguesa, principalmente nas áreas de colonização com presença mais intensa de reinóis; já em outras capitanias, como em São Vicente e no Maranhão, as uniões de portugueses com mulheres índias geraram grande número de filhos mestiços, denominados mamelucos, que falavam a língua das mães – o tupi – e às vezes também o português. Esse tupi, bastante influenciado pela cultura colonial, cheio de termos novos emprestados do português ou criados por meio de calcos dele, é o que se convencionou chamar língua geral, com dois dialetos principais: a língua geral paulista e a língua geral amazônica, que se expandiram a partir de dois pontos principais de difusão: São Paulo de Piratininga e São Luís, respectivamente.

A língua geral paulista espalhou-se por Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás e as capitanias do sul, desaparecendo em fins do século XIX, enquanto a língua geral amazônica, a partir de São Luís, e depois mais intensamente a partir de Belém, acompanhou a expansão lusa e da Igreja no vale amazônico, num contexto em que poucos dominavam o português. Também na Amazônia, portanto, a presença portuguesa estabeleceu-se por meio de duas línguas trazidas com a colonização: o português, língua do Estado, com todos os sentidos e implicações que isto possa ter; e a língua geral, meio de comunicação da maior parte da população – índios, negros, brancos e mestiços – e instrumento da catequese, o que não se fez, também, sem resistência, fartamente documentada nos registros da época. A língua geral era vista, nos séculos XVII e XVIII, como um importante instrumento de assimilação cultural e domínio do Estado português e da Igreja de Roma no Grão-Pará, e seu uso chegava a ser imposto com violência às comunidades indígenas e mestiças.

Ainda que isso se tenha dado de forma violenta, podemos dizer que a língua geral amazônica, surgida desse tupi trazido do Maranhão e leste do Grão-Pará, ajudou a moldar a civilização brasileira na Amazônia, e moldou-se também a ela; de “língua mais usada na Costa do Brasil”, como a chamou José de Anchieta, o tupi amazonizou-se, tornando-se o nheengatu, a “língua boa”, um dos principais elementos constitutivos da cultura amazônica, porquanto esteve presente e foi falada em quase toda a Amazônia Brasileira.

Após dominar inconteste o rio Amazonas e seus tributários por mais de 250 anos, o nheengatu começou a declinar devido ao avanço da língua portuguesa na Amazônia, mais intenso a partir da segunda metade do século XIX, o qual forçou a retração e o consequente desaparecimento da língua geral em quase toda a região. Costuma-se culpar o notório Diretório que se deve observar nas povoações dos índios do Pará e Maranhão… (1758), um dos principais instrumentos da política portuguesa na Amazônia durante o período pombalino, como o causador da quase extinção da língua geral, por sua imposição do uso exclusivo do português como língua da administração e demais atividades da Colônia; o Diretório, por si só, seria insuficiente para fazer isso: diversos outros processos ocorridos na Amazônia é que levaram o nheengatu ao quase desaparecimento.

Durante a Cabanagem morreram mais de 30.000 pessoas, cifra correspondente a cerca de 30% da população grão-paraense da época, o que causou grande impacto no contingente de falantes do nheengatu. Depois, as precárias condições e baixa expectativa de vida nos centros urbanos, as epidemias e a migração em massa de brasileiros de outras regiões, principalmente do Nordeste, levaram à expansão do português e retração final do nheengatu. O preço cobrado pelo terreno cedido ao português foram as marcas deixadas na (nova) língua recém-chegada, que também se enriqueceu na Amazônia: a juçara passou a chamar-se açaí; o cajá tornou-se o taperebá, “fruto das taperas”; e a piracaia, de simples “peixe na grelha”, tornou-se uma peixada na praia, acompanhada de canto e música, importantíssimo momento de lazer e confraternização. Que o digam os moradores de Santarém, para os quais uma piracaia é sempre um grande acontecimento social, e ainda os turistas que para ali vão, os quais têm na piracaia uma espécie de inserção intensiva na cultura local santarena!

Assim, ainda que o nheengatu tenha desaparecido em quase toda a Amazônia, suas marcas permanecem indeléveis no vocabulário e na alma do homem amazônico.

Depois desta digressão histórica, passemos então ao livro de que se trata aqui.

O autor, Prof. Eduardo de Almeida Navarro, há cerca de 20 anos é professor da área de Línguas Indígenas do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas (DLCV) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, onde ministra aulas de tupi antigo, nheengatu e literatura colonial brasileira (pós-graduação). Além das aulas de tupi na USP, Navarro manteve, por alguns anos, um curso básico de tupi antigo gratuito e disponível na Internet. Seu Método Moderno de Tupi Antigo, lançado em 1998 (e já na 3ª edição), tornou-se referência obrigatória para aqueles que desejam estudar seriamente o tupi, devido ao conhecimento profundo que possibilita da língua, porquanto tem por base todos os textos conhecidos produzidos em tupi ou sobre essa língua no período colonial. O Método apresenta centenas de exemplos originais em tupi, colhidos dos textos de autores coloniais como José de Anchieta, Luís Figueira, Bartolomeu de Leão, Antônio de Araújo, Jean de Léry, Hans Staden, Yves d’Evreux, Claude d’Abbeville e outros, além de amparar-se também no que se tem produzido nas universidades, pelo autor e outros pesquisadores, sobre o tupi antigo.

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Capa da 5ª edição (1955) da gramática de Simpson.

Até muito recentemente, os interessados em aprender o nheengatu contavam apenas com manuais antigos, como o de Pedro Luís Simpson (Gramática da língua brasileira: brasílica, tupi ou nheengatu) e outros encontrados apenas em bibliotecas de grande porte. Há alguns anos o padre A. Casasnovas publicou Noções de língua geral ou nheengatu (2. ed. Manaus: UFAM; Faculdade Salesiana Dom Bosco, 2006), atualmente esgotado. Com o livro de Eduardo Navarro, porém, a bibliografia sobre o nheengatu ganha um manual moderno e de fácil estudo.

Composto de 13 lições e um glossário nheengatu-português, o Curso de Língua Geral é resultado de uma disciplina que Navarro ministra há 3 anos na FFLCH da USP. Assim como o Método Moderno de Tupi Antigo, o Curso de Língua Geral foi testado e burilado antes de se tornar livro. Os textos de suas lições são baseados no dia a dia de uma família típica de falantes de nheengatu vivendo nas imediações de São Gabriel da Cachoeira, o principal município do Alto Rio Negro, imensa região de mais de 300.000 km2, onde a língua ainda é falada. Deve-se acrescentar que o nheengatu não ocupa uma posição insignificante na região: em São Gabriel da Cachoeira é uma das quatro línguas oficiais, ao lado do português, do baníua e do tucano, e tem servido, como há séculos, de língua franca entre os diversos grupos indígenas, mestiços, ribeirinhos e outros que ali vivem.

O livro inicia-se com uma breve explicação que apresenta os fonemas da língua e sua ortografia. A grafia proposta por Navarro para o nheengatu é bastante regular, baseada na usada atualmente por ele para o tupi antigo; já sua fonologia não apresenta dificuldades para o falante de português, pois a língua sofreu muitas influências do idioma luso: das seis vogais do tupi (/a/, /e/, /i/, /o/, /u/, /y/) o nheengatu conservou quatro (/a/, /e/, /i/, /u/), com suas correspondentes nasais. As consonâncias são semelhantes às nossas, não havendo, porém, /f/, /l/, /r/ e /z/; a acentuação gráfica é baseada na portuguesa. Da perspectiva fonológico-fonética, portanto, resulta que, para nós lusófonos, o nheengatu é mais fácil de aprender que o tupi, pois perdeu os fonemas tupis que apresentavam maior contraste com a fonologia portuguesa e constituíam, no período colonial, grande empecilho para o pleno domínio da língua pelos ádvenas.

Assim, a grafia do nheengatu usa as letras A, B, D, E, G, I, K, M, N, P, R, S, T, U, X, com as seguintes observações:

  • G representa sempre o fonema /g/, como nas palavras portuguesas gato, guri;
  • R representa o fonema /ɾ/, semelhante ao que temos em português nas palavras barata, caro, areia, ira (em nossa língua ocorre apenas entre vogais);
  • S é sempre sibilante surda, equivalente ao nosso S, SS, C, Ç como nas palavras sapo, sina, som, aceite, cebola, ação etc.;
  • X representa o fonema /ʃ/, como nas palavras portuguesas xarope, roxo, eixo.

Uma rápida olhadela no texto do Curso já nos mostra o quanto o tupi antigo se transformou ao ser levado a regiões muito distantes de onde era falado no início da colonização portuguesa. Os pronomes pessoais mudaram pouco, como se vê no quadro abaixo:

tupiA principal diferença pronominal em relação ao tupi é a perda da 1ª pessoa do plural exclusiva (oré), cujas funções se fundiram com a 1ª pessoal do plural inclusiva (iandé), criando-se um equivalente do português nós, nos. (O tupi antigo, assim como outras línguas, possuía duas formas para a 1ª pessoa do plural: a exclusiva – que exclui o ouvinte – e a inclusiva – que o inclui no discurso. O português possui uma só forma para ambas as funções, o mesmo ocorrendo em nheengatu, sendo o contexto o indicador da diferenciação.)

As diferenças quanto ao vocabulário são explicadas em parte pelo desaparecimento da oclusão glotal (representada em tupi com o sinal ‘) e das vogais /o/ e /y/, substituídas por /u/ ou /i/, conforme o caso: porang > puranga “belo”, pysasu > pisasu “novo”, apyaba > apigaua “varão, homem”, ky’a > kiá “sujo”, tembi’u > timbiú “comida”, ygara > igara “canoa”, pytuna ou pyxuna “noite; escuro” > pixuna “preto”, pytá > pitá “ficar”, mbo’esaba > mbuesaua “ensinamento, lição”, -pora > -pura “morador, habitante”, kuab > kuau “saber”, mondá > mundá “roubar”, iybá > iuuá “braço” etc. (o sinal > indica a passagem da forma anterior tupi à forma atual nheengatu).

Os verbos e adjetivos tupis terminados em consoante (que recebiam uma vogal temática, -a, nas composições) passaram a vir acompanhados sempre desse -a, ou de -i ou -u, que se fundiram ao nome, tornando-se este invariável, como porang > puranga, pytun ou pyxun > pixuna, pinim > pinima “pintado”, pindaityk > pinaitika “pescar”, ker > kíri “dormir”, sem > sému “sair”, potar > putári “querer”; outros termos perderam os fonemas finais: monhang > munhã “fazer”, me’eng > meẽ “dar”.

Outros vocábulos, apesar das transformações sofridas, mostram-se ainda semelhantes aos termos tupis originais e aos tupinismos presentes no português: ybaka > iuaka “céu”, ygara > igara, pindá-‘yba > pindaíua “vara de pescar”, pindoba > pindaua “pindoba, espécie de palmeira”.

Alguns termos de parentesco mudaram, sob a influência do português. Enquanto, para designar “pai” e “mãe” (os significados não são exatamente estes, mas não trataremos disso aqui), o tupi tinha tuba e sy, o nheengatu tem paia e manha, respectivamente, termos de origem portuguesa (de pai e mãe).

Outros termos parentais tupis se conservaram no nheengatu com pouca ou nenhuma mudança fonética, mantendo-se em certa medida significado semelhante ao do tupi antigo na época colonial, ainda que as estruturas sociais (e portanto também as de parentesco) tenham mudado bastante: anama “família, parente, parentela”, mena “marido”, membyra > mimbira “filho ou filha (de mulher)”, ta’yra > taíra “filho (de homem), taiyra > taiera “filha (de homem)”. Vê-se que o nheengatu conservou a indistinção tupi quanto ao sexo do filho ou filha em relação à mãe, e manteve a distinção em relação ao pai.

Em suma, o livro do Prof. Eduardo Navarro é uma boa introdução ao estudo do nheengatu, possibilitando o domínio do vocabulário mais usado na língua e suas estruturas gramaticais mais complexas, e sua eficácia tem sido comprovada: Navarro viajou a São Gabriel da Cachoeira, acompanhado de um grupo de alunos, e eles tiveram a oportunidade de praticar a língua, conversando com falantes nativos. Além disso, comunidades indígenas de Santarém e outras localidades do Baixo Amazonas e do Tapajós têm interesse em aprender o nheengatu; o livro de Eduardo Navarro já se tornou conhecido por professores e lideranças dessas comunidades.

Grupos de índios aloglotas (que deixaram de falar seus idiomas em favor de outro, no caso o português) da Amazônia Brasileira veem hoje o nheengatu como elemento a mais no processo de recuperação de sua dignidade indígena, de sua etnogênese…

Língua odiada no período colonial, tida – e não sem razão – como instrumento de opressão religiosa e secular, o nheengatu reencontra seu espaço, agora, como língua de resistência de comunidades tradicionais, o que até a imprensa estrangeira já percebeu, como se lê em artigo de Larry Rohter publicado no jornal The New York Times. Apesar de suas imprecisões históricas e linguísticas, o texto de Rohter descreve uma mudança de direção do status da língua, que caminhava para o desaparecimento e hoje se revigora aos poucos. Cresce o interesse por seu aprendizado, para além das fronteiras da Amazônia Brasileira, porquanto o estudo do nheengatu interessa a todos os brasileiros, como instrumento de melhor conhecimento de nossa história e cultura.

Que possa o nheengatu recuperar a importância de outrora, sendo aprendido nas escolas e universidades e ocupando o lugar que merece. Antônio Lemos Barbosa, estudioso do tupi e autor de várias obras sobre a língua, dizia ser o conhecimento do tupi, ainda que superficial, parte da cultura nacional; saber o nheengatu, ainda que superficialmente, faz parte da cultura amazônica.

Santarém, PA, 12/7/2012. Editado em 7/7/2016.