Santarenices

BEMERGUY, Emir Hermes. Santarenices: coisas de Santarém. Apresentações de Lila Bemerguy, José Seixas Lourenço e Cristovam Sena. Santarém (PA): Instituto Cultural Boanerges Sena, 2010. 23 cm. 294 p.

Coletânea de artigos de Emir H. Bemerguy (1933-2012) publicados em jornais de Belém e Santarém do Pará e acrescidos de escritos inéditos.

Nascido em Fordlândia (distrito do município paraense de Aveiro), formado em odontologia e também professor respeitado, o autor viveu a maior parte de sua vida em Santarém, também no Pará, onde produziu vasta obra em verso e prosa e se tornou um dos principais nomes da literatura santarena do século XX e início do XXI.

Os artigos reunidos nesta obra distribuem-se por um período de mais de 40 anos, abrangendo assuntos os mais variados, de política a ecologia, passando por literatura, história, esportes e religião, além de pequenas biografias de personagens célebres de Santarém que foram seus contemporâneos.

Leitura obrigatória para quem deseja conhecer a história e cultura de Santarém, principalmente o que ocorreu e se fez nas últimas décadas.

Opinião:

“Santarém, evidentemente, oferece um espetáculo natural de características peculiares e atrativos culturais que todos podem ver e sentir. Mas há coisas das ‘santarenices’ que só a acuidade e o texto poético de Emir Bemerguy podem traduzir” (José Seixas Lourenço, ex-reitor da UFPA e da Ufopa, p. I).

Excerto:

“COCHICHO INAUGURAL

“Este livro estava pronto desde 1975, à espera de um milagre para ser publicado. Tenho mais umas vinte obras diversas, dormindo em gavetas e apreciadas somente por cupins analfabetos.

“O prodígio da edição fácil aconteceu através de meu grande amigo Cristovam Sena, que resolveu, espontaneamente, conseguir patrocinadores, digitar e concluir o trabalho. Só assim os meus textos insossos ficariam perenizados em um volume decente.

“Tive que recorrer a um neologismo, inventado na hora, para dar um título a este livro. Como já criara um outro – ‘SANTARENIDADE’ – objetivando expressar o estado d’alma que marca o mocorongo legítimo, o nato ou de arribação – julguei-me com o direito de partir para um novo atrevimento semântico.

“‘SANTARENICES’ – coisas de Santarém. Uma espécie de sótão da casa velha, onde há lugar para tudo. Apenas para situar bem a época em que escrevo, incluí no volume uma apreciação sobre a cidade, agora. É a crônica denominada ‘Santarém… Ontem… Hoje… Amanhã…’ Achei bom agir assim, pois dentro de uma ou duas décadas isto aqui não poderá ser lido com total indiferença: ou se zombará de tudo, por ser anacrônico, bolorento, ou se enxugarão lágrimas que a saudade, mansamente, há de semear pelos olhos, colhendo-as no coração.

“Era este o cochicho inaugural. Podemos falar mais alto.

“Santarém, fevereiro de 2010” (p. 7)

Mais do/sobre o autor no blogue http://bemerguyemir.blogspot.com.br.

Texto publicado originalmente no Orelha de Livro: http://www.orelhadelivro.com.br/livros/696054/santarenices-coisas-de-santarem/.

Santarém, PA, 19/01/2017. Leia e curta também no Blogspot.

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Causos da Ditadura: O general e o bispo

Agosto de 1977. O Brasil é governado pelo general Ernesto Geisel, que visita a cidade de Santarém, PA, para a inauguração da usina hidrelétrica de Curuá-Una, no rio de mesmo nome.

O bispo de Santarém é Dom Tiago Ryan, clérigo americano radicado na região desde 1943 e responsável pela diocese desde 1957.

Ao encontrar-se com D. Tiago, o general Geisel pergunta:

– “Como vai o seu rebanho, reverendo?”

Ao que o bispo responde prontamente:

– “O meu vai bem, e o seu?”


Fonte: SENA, Cristovam (Org.). Dom Tiago: o missionário do Tapajós. Santarém, PA: Instituto Cultural Boanerges Sena – ICBS, 2012.

Santarém, PA, 16/12/2016. Leia e curta também no Blogspot.

Amassando errado!

Fonte: TSE, 2016.
Fonte: TSE, 2016.

Ao chegar a Santarém, Pará, em 2009, tratei logo de transferir meu título de eleitor para o novo domicílio eleitoral. E já no ano seguinte, 2010, fui convocado pela Justiça Eleitoral para atuar como mesário nas eleições.

Fui nomeado presidente de uma seção eleitoral numa área distante de Santarém, no distrito do Lago Grande de Curuai. Partindo da sede do município, na sexta-feira anterior ao domingo da votação, depois do almoço, navegamos por cerca de sete horas em B/M (barco a motor ou, como se diz aqui, barco-motor). Chegamos a uma localidade na margem direita do Amazonas, antes da meia-noite; ali se atracaram os barcos e dormimos em redes atadas dentro das próprias embarcações.

No dia seguinte, sábado, véspera da votação, um pouco antes do meio-dia, depois de viajar horas de ônibus numa estrada de terra (e poeira, muita poeira!) e em carros ou na garupa de motocicletas por “ramais” que mais parecem trilhas, chegamos às comunidades onde seriam instaladas as aparelhagens para a “festa da democracia”!

A historinha para por aqui, pois meu intuito é outro, e vou direto ao ponto.

Fui presidente de seção ali em 2010 (dois turnos) e 2011 (plebiscito). Uma das coisas que notei naquela comunidade de ribeirinhos – cuja seção eleitoral tinha menos de 80 eleitores – foi um uso sui generis (pelo menos para mim) do verbo amassar com o sentido de “apertar teclas ou botões” ou, simplesmente, “teclar”.

De fato, vários eleitores ainda mostravam certa dificuldade e falta de intimidade com equipamentos eletrônicos e seus botões ou teclas, incluindo-se a urna eletrônica. Durante a votação, os eleitores brincam uns com os outros: “Não vá AMASSAR errado”, “Não AMASSE errado”, “Não esqueça de AMASSAR o verde”, “Ih! AMASSOU errado!” etc. Muito curioso esse uso de amassar, num contexto em que muita gente usa e vê/ouve teclar ou apertar. Uso apenas local ou comum a outras áreas da Amazônia? Cabe pesquisa sobre o assunto.

Lembrei disso tudo estes dias porque um jornalista de alta plumagem acadêmica contou numa TV “news” que uma reforma da previdência deixou de ser aprovada durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-1998, 1999-2002) por falta de um único voto. Segundo ele, o deputado Antônio Kandir (PSDB/SP) se confundiu na hora de usar o sistema de voto eletrônico e, pensando estar votando SIM, votou NÃO – e a proposta não passou na Câmara dos Deputados. Que lambança!

Fica o conselho aos tucanos de todas as plumagens: na hora de votar, se tiverem problemas com os dedos, usem o bico, pois vocês são muito bons nisso. Mas não AMASSEM o botão errado!

Santarém, PA, 9/12/2016. Leia e curta também no Blogspot.

Felisbelo Sussuarana, poeta santarenense

Meu nome é Felisbelo, um nome raro
que muito diz e não revela tudo;
mas, por capricho do destino rudo,
belo não sou nem sou feliz, é claro…
(Felisbelo Sussuarana por ele mesmo)

Em 10 de outubro de 2012 completaram-se 70 anos da morte do poeta santareno Felisbelo Sussuarana, um dos principais nomes da literatura de Santarém no século XX.

Tomei a liberdade de homenageá-lo, falando um pouco sobre esse poeta, músico e professor; citarei apenas uns poucos dados biográficos, seguidos de uma pequena seleta de seus poemas, variando do gênero lírico ao satírico, os quais transcrevi da biobibliografia de Felisbelo publicada por seu filho Felisberto Sussuarana em 1991, ano do centenário de seu nascimento. Trata-se do livro O Mergulho de Felisbelo Sussuarana no Claro-Escuro do Homem e da Obra, que, a exemplo do título, é um estudo exaustivo da vida e da obra de Felisbelo, reunindo também toda a obra conhecida do autor.

Felisbelo Sussuarana em 1942 (reproduzido de SUSSUARANA, 1991).

Felisbelo Jaguar Sussuarana nasceu em Santarém, Pará, em 28 de abril de 1891, filho de Alexandre Alves Sussuarana e Filomena Nóvoa Sussuarana. Teve três irmãos: Raimundo Jaguar, Lena Jaci e Evarinta. Estudou em Belém, não chegando a fazer curso superior; precisou retornar a sua cidade natal e pelo resto da vida foi autodidata, alcançando grande cultura, demonstrada, entre outras coisas, por seu domínio da língua portuguesa.

Casou-se duas vezes: sua primeira esposa foi Raimunda Miranda; desposou, depois de viúvo, Antônia Ceci, em 1929. Teve dez filhos. Foi músico, ator, professor, fundou e dirigiu jornais (e, obviamente, escreveu neles), jogou futebol e foi diretor de clube esportivo, escreveu para teatro e fez letras de canções. Compôs poemas e textos em prosa. Como professor de português, escreveu artigos sobre a língua portuguesa, tendo-se envolvido – ao que parece, com gosto – em polêmicas gramaticais e filológicas, por meio de artigos, que se sucediam, em jornais da região. Em suma: participou ativa e intensamente da vida cultural de Santarém.

Felisbelo Sussuarana enviuvou pela segunda vez em fevereiro de 1942, e meses depois, em 10 de outubro daquele mesmo ano, faleceu. Wilson Fonseca escreveu à época de seu passamento:

“Santarém perdeu o seu mais ilustre filho, o cérebro mais aprimorado e fecundo nascido sob o sol brilhante da formosa “Pérola do Tapajós” (…). Quando já estava acometido da doença que o vitimou, várias visitas fizemos ao querido amigo e dele sempre ouvimos que não se julgava infeliz, pois do povo de sua terra, somente do povo, sempre frisava, recebia o maior conforto, o que muito o alegrava” (apud SUSSUARANA, 1991, p. 87).

Felisbelo Sussuarana foi admirado e respeitado em sua cidade; isto, porém, não lhe possibilitou publicar seus textos na forma mais perene do livro. Sua vasta produção ficou esparsa em diversos jornais e revistas, além do que ficou inédito e se perdeu. O esforço de amigos, admiradores e familiares salvou muitos de seus escritos, dos quais Wilson Fonseca publicou uma seleção na obra Meu Baú Mocorongo (FONSECA, 2006). Seu amigo Paulo Rodrigues dos Santos, também como ele um autodidata e erudito, disse a esse respeito:

“Embora não tenha intenção de trocadilhar, direi que Felisbelo Sussuarana foi um poeta de raça que se perdeu na roça. Se tivesse vivido em meio mais adiantado, os conterrâneos teriam orgulho de ver seu nome nas antologias nacionais. (…) Lamentável não tivesse o escritor mocorongo um parente, um amigo ou um conterrâneo de recursos que tomasse a peito reunir em volumes, arrancando-a do olvido e da destruição total, a fabulosa produção de Felisbelo, que ainda rola pelas páginas esfrangalhadas de antigos jornais, comida das traças, roída das baratas e delida da ação do tempo… Lamentável e triste para a tradição cultural de nossa terra…” (RODRIGUES DOS SANTOS, 1999, p. 410-411).

O próprio Paulo Rodrigues dos Santos viria a passar por algo semelhante: só com a intervenção de Fernando Guilhon, então governador do Pará, pôde ele ver publicada, em 1971, sua monumental obra Tupaiulândia, extenso repositório de fatos históricos e culturais de Santarém.

Antologia – A produção conhecida de Felisbelo veio a público em livro em 1991, ano do centenário de seu nascimento (SUSSUARANA, 1991). É livro hoje esgotado, e a obra de Felisbelo Sussuarana é ainda pouco ou nada conhecida fora do Pará, e parece-me que também em outras regiões deste enorme estado pouco se sabe dela – é claro que os naturais de Santarém a conhecem e a divulgam. Tomei a liberdade de selecionar alguns poemas de Felisbelo e transcrevê-los aqui, para conhecimento, principalmente, dos leitores de língua portuguesa de outras regiões. A seleção que fiz é pessoal, e sei que não agradará a todos; escolhi os poemas de que gosto mais, e tenho certeza de que outros poderão oferecer uma antologia mais representativa da obra do poeta.

Nos textos que transcrevi, conservei o uso, feito pelo autor, de versos iniciados com letra minúscula, pouco comum entre poetas de língua portuguesa.

Tendo-se passado mais de 70 anos da morte de Felisbelo Sussuarana, toda a sua obra é hoje de domínio público, portanto qualquer pessoa ou instituição pode divulgá-la. Espero que as autoridades, inclusive as estaduais – que tanto amam Santarém e o Oeste do Pará, a ponto de nem sequer aceitarem falar em divórcio… –, aproveitem o ensejo para reeditar a obra de Felisbelo Jaguar Sussuarana, pondo-a ao alcance do público leitor, pois todo autor tem o direito de ser lido.

SELETA POÉTICA DE FELISBELO SUSSUARANA

RIO SÍMBOLO
Soberbo flúmen, Tapajós altivo,
de longe vens nesse lutar sem tréguas,
vivo,
vencendo léguas e mais léguas,
ora a espraiar-te
em fúlgidos lençóis,
ora a estreitar-te
em veios
de oiro cheios,
fertilizando as terras
por onde erras,
altivo Tapajós.

Vens de longe correndo,
vens vencendo
saltos
e cachoeiras
altaneiras,
beijando praias e barrancos altos,
dando vida e valor,
dando alegria
à ubertosa região de que és senhor.

A marcha a te deter quem ousaria,
ó rico e belo flúmen brasileiro?

E vens vindo, vens vindo, prazenteiro,
atrás deixando tudo
nesse rudo
marchar glorioso,
rápido, nervoso,
e nada te detém…

E após tanto lutar e tanta glória,
vens, alcançando rútila vitória,
morrer aos pés da linda Santarém!

Assim do poeta os surtos criadores,
ó belo Tapajós
dos meus amores:
de mundos luminosos e distantes
partem, soberbos, fartos de esplendores,
chispando sóis
e fluidos cintilantes,
e descem, descem, céleres, radiantes,
para deter-se, alfim, nessa arrancada,
vencidos, juntos da Mulher Amada!

VERSOS… VERSOS… VERSOS…
Versos… quantos nem sei, chorando ou rindo
desperdicei no meu peregrinar…
Versos, versos de amor que nasce lindo
e nos ilude para nos deixar…

Versos nascidos em momentos nobres
de ânsias infindas de lutar, vencer…
Versos carpindo desditados pobres,
rimas plangendo agruras do viver…

Versos moldados na amizade terna
que nos enleia e que nos faz feliz…
Versos cultuando a natureza eterna,
glorificando as glórias do país…

Versos festivos, versos de noivados,
rimas gentis, garridos madrigais…
Galanteios medidos e rimados,
doiradas ilusões, não voltam mais…

Versos… quantos nem sei, calmo ou nervoso
qual desperdiçador, quantos compus…
Versos, versos de amor, versos de gozo,
versos feitos de lágrimas e luz…

Versos que eu fiz, cantando a mocidade,
a mocidade em flor do meu torrão…
Versos de dor e de infelicidade,
mas versos naturais do coração…

E quantos versos meus hoje dispersos,
perdidos como os ais dum sofredor…
E até no cemitério eu tenho versos,
a traduzir saudade e alheia dor…

Quando eu morrer, fugindo à desventura,
quem sabe se terei – o mundo é assim –
quem vá deitar na minha sepultura
um punhado de versos sobre mim…

CUIEIRAS
I
São afamadas, são procuradas
as belas cuias de Santarém!
Cuias bordadas, cuias pintadas
como estas minhas, ninguém as tem. Ah!

Para um presente de namorado
que coisa linda, meu bom senhor!
Serviço limpo, bem acabado,
arte, bom gosto, puro lavor.

(Coro)
Para tomar-se um mingau a gosto,
para tomar-se um bom tacacá,
só numa cuia, vaso bem posto
e preferido no meu Pará!

II
Um vinho grosso, roxo e gostoso
do conhecido, belo açaí,
é mais suave, mais saboroso
se numa cuia se bebe aqui. Ah!

Cuias bordadas, cuias pintadas
como estas minhas, ninguém as tem.
São afamadas, são procuradas
as belas cuias de Santarém!

O PEDIDO
Almofadinha fofo e sem dinheiro,
vivendo duns rabiscos que fazia,
o bardo futurista não podia
mais suportar aquele olhar brejeiro.

Enamorou-se logo e, verdadeiro
aquele amor, de certo o mataria
se a divinal e cândida Maria
não fosse engalanar-lhe o lar fagueiro.

E decidiu-se então sem mais aquela
a procurar o pai da jovem bela
para pedir-lhe a mão da filha; o Duarte,

o genitor, porém, que não é tolo,
em vez da mão da filha, seu consolo,
meteu-lhe o pé com força em certa parte.

LONGE DE TI
Hoje estou triste e pesaroso e, certo,
este pesar agora me acabrunha.
Longe de ti vegeto num deserto,
só tendo minha dor por testemunha.

É que, formosa, quando vives perto
do teu cantor que versos te rascunha,
é meu viver, florindo, um céu aberto:
morre a saudade, morre a caramunha.

É que não posso mais sem teu carinho
passar nestas – da vida transitória –
ondas revoltas de perigo cheias.

É que, se longe estás do nosso ninho,
eu sou forçado – que dorida história! –
a remendar, que jeito, as minhas meias.

POLÍTICA
Dois filhos tem Miguel José Veludo
que gêmeos são, nascidos faz um ano;
um, pobrezinho, veio ao mundo – mudo;
o outro, coitado, é surdo como um cano.

Não se apoquente o pobre pai, contudo,
nem se amofine porque, sendo humano,
recebe os golpes do destino rudo
com fortaleza forte de espartano.

Ontem me disse: – Sabes, meu amigo?
Eu, que a doutrina modernista sigo,
um grande plano tenho, alevantado:

Fazer dos dois meninos, com perícia,
quando formados – Chefe de Polícia
o surdo… E o mudo? – O mudo, Deputado.

A ENTREVISTA
Dez horas… dez e meia… As horas voam
e ela não vem, não vem para a entrevista!
Anseio e fremo, e quanto me contrista
a sua ausência… E as onze, lentas, soam…

Do galo, no terreiro, me atordoam
os repetidos cocoricós, e egoísta
do meu amor, maldigo esse corista
a remarcar as horas que se escoam.

Geme o relógio – doze… Meio-dia!
E ela não vem, mentiu-me… Que ironia!…
…………………………………………………………
Escuto: alguém bateu… É o meu amor!

Vou tê-la, enfim, rendida, nos meus braços!
E, antegozando os beijos e os abraços,
descerro a porta… oh! raiva! Era um credor!…

DUMA ANEDOTA
O primo mais a priminha
(o Carlos e a Margarida)
sustentam na sala clara
uma conversa entretida.

De repente, na priminha
o primo pespega um beijo:
“Oh! Carlos, tu me assustaste…”
disse-lhe a prima com pejo.

Já se passam dez minutos
(para as nove faltam dez).
Diz a prima muito séria:
“Carlos, me assusta outra vez?!”

COMEMORAÇÃO CÍVICA
15 de Novembro.
A praça regurgita.
É grande a massa que se agita.
Povo.
Autoridades.
Gente de fato novo.
Crianças das escolas.
Com galhardetes.
Com bandeirolas.
Banda de música.
Orador oficial.
“Meus senhores!
Neste solene momento
puramente nacional,
em que, na praça pública,
todos, irmanados pelo mesmo sentimento,
comemoramos, por entre vibrações interiores,
o dia magno da República…”
E prossegue o discurso
fluente. Escachoante.
Como o curso do rio-mar…
Só se ouve da brisa o brando ciciar.
Peroração.
Surtos magníficos.
Miríficos.
Palmas. Muito bem! Muito bem!
Viva o doutor Juiz de Direito!
Viva o meu compadre capitão prefeito!
Viva o povo de Santarém!
De novo em movimento.
Foguetes doidos furam o ar,
de momento a momento.
A fanfarra torna a vibrar.
“Já podeis, da Pátria filhos,
ver contente a Mãe gentil;
já raiou a liberdade
no horizonte do Brasil…”
A enorme serpe coleia
densa, larga, cheia.
A meninada,
suarenta,
cansada.
O sol caustica. Enfara. Assedenta.
– Para! Para! Psiu! Psiu!
Vai falar o doutor
Promotor!
Transbordante como um rio,
o verbo magistral
atroa.
Alcandora-se. Voa.
Flui. Flui
em destaque.
Citações de Rui.
Versos adoráveis de Bilac.
História de Rocha Pombo.
Torre do Tombo.
Circunvoluções.
Palmas. Hurras. Vivas.
Ovações.
Prossegue a grande serpe coleando.
Vivas roucos. Abafados.
Meninos coxeando
alagados.
Vem a noite, afinal,
pôr termo à bela festa nacional.
Palmas em profusão.
Viva o Brasil!
Viva nossa bandeira!
Viva a República!
Viva a Pátria Brasileira!
A banda executa o Hino.
“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
de um povo o heroico brado retumbante…”
Num frêmito divino,
todos cantam. Todos. Delirantes!…
Põe-se em marcha a passeata.
Alas de crianças.
A bandeira auriverde
entre a multidão se perde.
Fitas cor de ouro e de esperança.
Marcha que arrebata.
“Nós somos da Pátria
a guarda,
fiéis soldados
por ela amados;
nas cores de nossa farda
rebrilha a glória,
fulge a vitória…”
– Para! Para! Para!
Estanca o préstito. A casa do Juiz.
Da janela,
sorridente, feliz,
o Juiz, de flor à lapela,
deixa o verbo escorrer…
Flores de retórica.
Pátria.
Liberdade.
Fraternidade.
Obra.
Dever.
Digressão histórica.
Deodoro.
Benjamin.
Rui Barbosa.
Silva Jardim.
E os manifestantes,
“alma febril”,
desfazem o préstito, radiantes,
suados, extenuados,
esfomeados,
mas cheios de Brasil…

FELICIDADE
Quando eu era assinzinho
– como tão longe vai aquele dia! –
para entreter-me, minha mãe bondosa
tomava-me a mãozinha e, cariciosa,
a dedilhar dedinho por dedinho,
rindo, feliz, assim dizia:

– “Dedo mindinho,
seu vizinho,
pai de todos,
fura-bolo
mata-piolho…
Cadê o docinho,
diga, meu filhinho,
que aqui deixei, aqui, na sua mão?
– O rato comeu!…
E o rato, para onde foi o comilão?
– Foi por aqui… por aqui,
por aqui ele correu!…”

E os dedos ágeis, pelo tenro braço,
como quem tamborila,
iam correndo até chegar à axila,
onde a mãezinha, com desembaraço,
cocegava, cocegava,
rindo, feliz, por ver tornar-me em riso.

E hoje, quando vejo em meio à estrada
que, palmilhando, sigo
a passos tardos,
entre espinhos e cardos,
é o Destino que vem brincar comigo
na vida atribulada:

“Dedo mindinho,
seu vizinho,
pai de todos,
fura-bolo,
mata-piolho…
Cadê a felicidade que aqui estava?
Por que a deixou fugir, seu grande tolo?”

E eu nem sei responder se foi o rato,
se foi o gato,
que carregou,
que devorou
o Bem que era só meu e me bastava!…

AUSÊNCIA
Ausência – coração que foi gemendo,
coração que ficou na dor voraz…
Alma que voeja, em ais se debatendo,
em busca de outra já perdida em ais…

Ausência!…
Negação de tudo quanto
traduz na vida a essência
do Prazer…

Em cada extremo um coração em pranto,
e a saudade no meio, a florescer…


Obras consultadas:

FONSECA, Wilson Dias da. Meu Baú Mocorongo. Belém (Pará): Secretaria Estadual de Cultura, 2006. 6 volumes.

RODRIGUES DOS SANTOS, Paulo. Tupaiulândia. 3ª edição. Prefácio de Lúcio Flávio Pinto. Santarém (Pará): Instituto Cultural Boanerges Sena, 1999.

SUSSUARANA, Felisberto. O Mergulho de Felisbelo Sussuarana no Claro-Escuro do Homem e da Obra: ensaio biográfico. Santarém (Pará): Prefeitura Municipal de Santarém, 1991.

Santarém, PA, 20/10/2012. Editado em 26/8/2016.

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Caça-fantasmas em Santarém

Você acredita em fantasmas e aparições? Em almas penadas e assombrações?

Muita gente hoje, em pleno século XXI, ainda crê na existência desses seres sobrenaturais. Há gente que nunca os viu, mas crê que eles existem, pois conhece outras pessoas – fidedignas, assegura-se – que viram uma mula-sem-cabeça ou toparam com uma noiva cadáver nas proximidades de um cemitério, numa noite escura.

Uma pessoa me contou que, certa vez, um parente seu foi perseguido por um lobisomem numa estrada rural. Ele conseguiu escapar; mas enquanto corria em desabalada carreira, ouvia os uivos distantes do lobo humano e, ao mesmo tempo, sentia seu fungado no cangote…

Também aqui na cidade de Santarém, no Pará – onde as assombrações são mais comumente chamadas visagens – não era diferente há cem ou mais anos.

Numa crônica chamada “Garimpando ao Léu”, publicada no número 1.287 (29/4/1967) do extinto periódico O Jornal de Santarém e recolhida pelo maestro Wilson “Isoca” Fonseca em sua coletânea Meu Baú Mocorongo, o historiador santareno Paulo Rodrigues dos Santos (1890-1974) diz que em outros tempos a cidade de Santarém era “infestada de fantasmas e assombrações de toda espécie: – curupiras, matintapereras, lobisomens, botos, lêmures, trasgos e outras coisas”, havendo inclusive muitas casas “mal assombradas”, que perturbavam os mais supersticiosos.

Mas vejamos o que ele conta sobre um dos fantasmas que noutros tempos assombravam a cidade de Santarém (o cronista não precisa a data, mas o fato deve ter ocorrido entre o fim do século XIX e início do XX):

“Pelas imediações da chamada Rua Nova ou Rua de Cima* [atual Avenida Rui Barbosa] que passava pela frente do atual cemitério [de Nossa Senhora dos Mártires], surgiam vez por outra uns fantasmas de camisolão branco que davam carreiras nos transeuntes retardatários. Esses faziam campo das suas diabruras às proximidades de barracas ocupadas por algumas bonitas mulatinhas solteiras ou casadas, que, aliás, ao que parecia, não temiam a alma do outro mundo e até lhe davam “teco”…

Certo dia ou certa noite, alguns rapazes resolveram apanhar vivo o fantasma do camisolão. Prepararam sigilosamente o cerco e o apanharam com a boca na botija.

Ao ver-se rodeado de ameaçadores cacetes e chicotes, o fantasma se deu a conhecer: – era o delegado de polícia, naqueles tempos intitulado “prefeito de polícia”!…

Com um sorriso amarelo alegou que fora uma coincidência, pois ele também se disfarçara de camisolão para ver se apanhava o verdadeiro fantasma…

O policial livrou-se da surra, mas não se livrou da chacota popular. Ninguém acreditou na sua história.”

SANTOS, Paulo Rodrigues dos. Garimpando ao Léu. In: FONSECA, Wilson Dias da. Meu Baú Mocorongo. Belém (Pará): Secult; Seduc, 2006. 6 v. V. 5, pp. 1343-1344.

* Nota: Atualmente, o Cemitério de Nossa Senhora dos Mártires, o mais antigo da cidade, tem frente para a Avenida São Sebastião, que no início se chamou Rua Novo Mundo. De acordo com Wilde Dias da Fonseca (Santarém: Logradouros Públicos. Santarém (PA): Instituto Cultural Boanerges Sena, 2007. p. 11-12), o logradouro conhecido, à época do fato aqui narrado, como Rua Nova ou Rua de Cima era a atual Avenida Rui Barbosa, não a Avenida São Sebastião. Como se explica isto? Segundo o mesmo Wilde Fonseca, para a abertura da futura Avenida São Sebastião foi preciso recuar a parte da frente do cemitério, que perdeu parte de sua área original; isto quer dizer que a frente do cemitério era bem mais próxima da Avenida Rui Barbosa.

Santarém, Pará, 21/9/2015.

As aparências enganam…

Jose_Agostinho_Fonseca_1928
José Agostinho da Fonseca em 1928. Fonte: http://www.wilsonfonseca.com.br.

As aparências enganam, não poucas vezes.

Em seu livro José Agostinho da Fonseca: o Músico Poeta, em que traça a biografia de seu pai, o maestro, compositor e instrumentista José Agostinho da Fonseca (Manaus, AM, 1886-Santarém, PA, 1945), o escritor santareno Wilmar Dias da Fonseca (1915-1984) conta a seguinte e curiosa história, que, com certeza, deve ter-se passado também com outras pessoas.

O fato ocorreu em Belém, Pará, no início do século XX, quando o futuro maestro José Agostinho estudava no Instituto Lauro Sodré, lá sediado. Num dia de festa do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, José Agostinho e uns amigos resolveram arrematar alguma das comidas prontas oferecidas em leilão no Arraial do Círio. Nada conseguiram e a fome os apertava. Vejamos, nas palavras de Wilmar, o que sucedeu:

“Um deles sugeriu:
– Vamos comprar sardinha em lata.
O alvitre foi aceito.
Numa das barracas do arraial viram na prateleira uma lata bem maior do que a comum, com um bonito peixe estampado. Perguntaram ao barraqueiro:
– Quanto custa aquela lata?
1$500 [mil e quinhentos réis], é de quilo.
Embrulha, por favor.
Ao sentirem nas mãos o peso e o tamanho do embrulho, comentaram:
– Puxa vida, aqui tem muito peixe!
Adiante compraram pães e num botequim duas garrafas de cerveja gelada. Com os trocados restantes tomaram um trago de vermute.
Uma peixada com uma geladinha ia muito bem, todos concordaram.
Essa extravagância nem o diretor nem o prof. Jerônimo podiam saber. O álcool era-lhes proibido e a estória do bombo ainda estava fresca…
A seguir, arranjaram folhas de jornal e saíram em busca de um local sossegado, por trás do templo. Encontraram-no, exatamente como queriam: uma rua deserta e escura. Lá fizeram da calçada mesa e do jornal toalha. Tudo arrumadinho, acocorados cuidaram avidamente de libertar os peixinhos da apertura incômoda em que se encontravam… Aberta a lata, eles se entreolharam espantados: não era sardinha – era goiabada!”

Fonseca, Wilmar Dias da. José Agostinho da Fonseca: o Músico Poeta. Santarém, Pará: Edição do Autor, 1978.

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Publicidade de produtos da Peixe na década de 1950. Fonte: http://www.almanaque.blog.br.

A leitura do trecho acima deixa fora de questão que se tratava de uma lata de goiabada produzida pela Fábrica Peixe, grupo industrial que já foi um dos principais produtores de conservas do país. Fundada em Pesqueira, Pernambuco, em fins do século XIX, a Peixe foi uma das pioneiras da industrialização na região Nordeste e chegou a ter unidades em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo; foi premiada no exterior e obteve reconhecimento, mas entrou em declínio. Foi nos anos 1990 comprada pelo grupo italiano Cirio e desapareceu, lamentavelmente.

Mais sobre a Fábrica Peixe.

Mais sobre Wilmar Dias da Fonseca.

Mais sobre José Agostinho da Fonseca.

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Santarém, Pará, 4/5/2014. Editado em 25/5/2015.

Cuieiras [poema de Felisbelo Sussuarana]

Cuias pintadas de Santarém, PA - Fonte: www.obidense.com.br
Cuias pintadas de Santarém, PA – Fonte: http://www.obidense.com.br

CUIEIRAS

I
São afamadas, são procuradas
as belas cuias de Santarém!
Cuias bordadas, cuias pintadas
como estas minhas, ninguém as tem. Ah!

Para um presente de namorado
que coisa linda, meu bom senhor!
Serviço limpo, bem acabado,
arte, bom gosto, puro lavor.

(Coro)
Para tomar-se um mingau a gosto,
para tomar-se um bom tacacá,
só numa cuia, vaso bem posto
e preferido no meu Pará!

II
Um vinho grosso, roxo e gostoso
do conhecido, belo açaí,
é mais suave, mais saboroso
se numa cuia se bebe aqui. Ah!

Cuias bordadas, cuias pintadas
como estas minhas, ninguém as tem.
São afamadas, são procuradas
as belas cuias de Santarém!

Felisbelo Sussuarana, poeta santareno (1891-1942)

Santarém, PA, 11/3/2015. Editado em 6/5/2016.