Açaí com bife

Em seu Vocabulário de Crendices Amazônicas, o erudito paraense Osvaldo Orico (1900-1981) registrou o seguinte no verbete açaí:

Euterpe oleracea, Mart. – A mais festejada das palmeiras da várzea. Do seu fruto extrai-se a popular bebida da região: um vinho grosso e arroxeado, que se toma com açúcar e farinha e é, ao mesmo tempo, o regalo dos ricos e a sopa dos pobres. Depois do meio-dia, em várias cidades da Amazônia, é comum ver-se em certas casas de comércio e até em casas particulares, uma bandeira vermelha na porta. Dentro e fora das casas um movimento constante de rapariguinhas e moleques com grandes cuias na mão. Não há que errar. Vende-se ali o açaí, o vinho por excelência da região. Onde o açaí deixa de ser uma realidade, para tornar-se uma crendice, é neste ponto: o paraense preza tanto essa beberagem que chega a dizer:
“Quem vai ao Pará, parou; tomou açaí, ficou.”
O açaí é obtido depois de haver sido a fruta amolecida n’água quente e amassada com água fria. Sofre depois a peneiragem, de que resulta aquele caldo grosso a que os indígenas davam o nome de Asai-yukicé.
Existe a suposição de que o puraqué favorece aos nativos a colheita do açaí, despedindo choques elétricos nos açaizeiros e derramando no chão os cachos suspensos. É uma hipótese muito discutível, mas que a imaginação do caboclo acha aceitável.”
ORICO, Osvaldo. Vocabulário de Crendices Amazônicas. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1937. p. 27-28. Ortografia atualizada.

Conheci esta obra há mais de 15 anos – eu nem imaginava que um dia pisaria na Amazônia – e não resisti à tentação de citar todo este verbete do delicioso livro de Orico, ainda que aqui só um trecho nos interesse mais diretamente.

Quando cheguei a Santarém, topei com as mesmas bandeiras vermelhas em diversos pontos da cidade, mas reparei que estavam postas na frente de açougues. Perguntei a uma pessoa conhecida o que significavam, e ela me disse que indicavam a chegada de carne fresca. E esses açougues não vendem açaí, apenas carne – é o que geralmente se espera.

Não demorou muito e encontrei as tais bandeiras vermelhas ou roxas dos pontos de venda de açaí. Mas com um pormenor: as bandeiras que indicam os pontos de açaí trazem a palavra açaí escrita nelas, com o flagrante objetivo de distingui-las das bandeiras vermelhas da carne.

Nas duas vezes em que visitei a capital do estado, Belém, vi locais de venda e consumo de açaí, alguns com as tradicionais bandeiras vermelhas ou roxas, mas não me lembro de ter visto nenhuma com a palavra açaí escrita.

Será a bandeira vermelha com a inscrição açaí uma inovação aqui surgida, algo típico de Santarém e do Oeste do Pará? Não sei dizer, pois seria preciso pesquisar mais a fundo, inclusive visitando outros municípios da região.

Seja como for, estando-se em Santarém e querendo saborear uma cuiada de açaí com um bom bife, as bandeiras vermelhas ou roxas indicam onde encontrá-los; já tempero e acompanhamentos ficam ao gosto do freguês.

Santarém, PA, 15/3/2018. Leia e curta também no Blogspot.

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Autor: Júlio César Pedrosa

Santarém, Pará, Brasil.

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