Pesadelo em Nova Iorque

Não costumo sonhar. Melhor dizendo, raramente me lembro dos sonhos que tenho. Mas há poucos dias tive um sonho – ou pesadelo – que me deixou lembranças bem vivas, por isso eu o conto aqui enquanto ainda me lembro dele.

Sonhei que estava em Nova Iorque (New York, para os habitués). Eu e minha esposa tínhamos viajado para lá a fim de participar de uma festividade, talvez de fim de ano, sei lá, não tenho certeza do porquê. Também não sei como chegamos lá – de avião, imagino. Mas nada de neve, apenas fazia frio e o tempo estava fechado, nebuloso – isto quando não estava chovendo torrencialmente. Os States enfrentavam uma temporada de chuvas fora do comum.

Chegamos muito cansados e minha esposa ficou no hotel. Eu saí para dar um rolê pela Big Apple. Entrei num ônibus e fiquei circulando pela cidade, numa viagem que parecia não ter fim.

Ruas e avenidas apinhadas de gente e carros, prédios altíssimos, um trânsito infernal. De repente começou a chover. As pessoas fugiam da chuva e as ruas se enchiam de água. Chuva cada vez mais forte. O tráfego ficou mais lento até que parou de vez. Lembrei-me dos congestionamentos de São Paulo em dias de chuva.

(Longe de mim a audácia de querer comparar uma metrópole subdesenvolvida como São Paulo com a Meca do Mundo Livre… mas é a única referência que tenho!)

O ônibus estava parado em cima de um viaduto. Da fileira de carros vinha um buzinaço sem fim, interrompido pelos trovões. Olhei pela janela e estremeci: a avenida de várias pistas sob o viaduto agora era um rio caudaloso. Carros e pessoas eram levados pela corrente, gente passava agarrada a objetos flutuantes. Um ônibus gigantesco e de feitio futurista, amarelo e bastante envidraçado, cheio de gente que gritava desesperada, vinha flutuando, jogado para lá e para cá pela água como uma barca ou balsa. Foi arremessado contra as pilastras do viaduto e se despedaçou, cuspindo os passageiros para todos os lados.

A chuva caía sem cessar. Escurecia. O tempo passava e eu tentava falar com minha esposa, mas o telefone celular não completava a ligação. No meu ônibus, os passageiros se desesperavam. Uns ouviam pelo rádio que o alagamento tomava conta não só de Nova Iorque, mas de grande parte do país. Outros liam nos telefones as notícias sobre as mortes por afogamento, os desabamentos… Depois as comunicações se interromperam, silenciando-se.

(Não sei como eu entendia o que diziam, pois não falo inglês.)

Estávamos num lugar alto, o viaduto, a salvo da enchente. Ainda chovia e equipes de salvamento surgiam de vários lados para resgatar os que se afogavam, tirando-os dos carros ou da água que enchia as ruas. O motorista abriu a porta do ônibus e entraram militares fardados. Um deles era de origem asiática, tinha um fuzil a tiracolo e uma pistola na cintura. Encarou-me como se me conhecesse, e eu o reconheci imediatamente: ele tinha servido comigo num batalhão de infantaria do Exército Brasileiro, em 1991! Não conseguia lembrar do nome dele. Meia dúzia dos companheiros de minha companhia de fuzileiros eram de origem japonesa. Aquele era o Miyagi? Era o Katsuhiro? O Urozaki? Yashida? Toshio? Ednélson? Sei lá… era um daqueles japas. Mas o que fazia ali?

– Você por aqui? – disse o ex-colega fuzileiro.

– Pois é… E você?!

– Você ainda é um guerreiro? Um soldado?

– Acho que sim… – disse eu, sem saber bem o que dizer e lembrando daquele ano de treinamento militar.

– Ótimo! Você está convocado como voluntário da Guarda Nacional dos Estados Unidos da América. 😀

– !? 😦

Saímos do ônibus acompanhados de outros “voluntários” e seguimos em fila entre carros parados. A chuva diminuía; as ruas estavam cheias de entulho, lama e corpos. Entramos num ônibus militar grande e alto, com rodas enormes, já cheio de outros alistados compulsoriamente. Deram a partida e seguimos à toda pelas ruas alagadas e sujas, escuras e com pouca gente. O ex-colega japonês tinha sumido e a tropa do ônibus estava sob a comando de uma mulher, cuja patente não reconheci e de cuja fisionomia não me lembro.

O veículo parou. Descemos e seguimos andando em fila entre mais lama, escombros e pessoas encolhidas, chorando e gritando de frio, enroladas em cobertores, ao lado de corpos de parentes ou conhecidos mortos. Casas e pequenos prédios haviam caído pela força da água, lugares baixos – inclusive o metrô – estavam alagados, agentes da defesa civil distribuíam comida e roupas. O cenário era de guerra, um cataclismo. Não havia eletricidade. A luz vinha de lamparinas e fogueiras dentro de latões de lixo e a única comunicação era feita pelos rádios dos militares.

Entramos numa sala enorme, onde receberíamos equipamento. Estava cheia de gente, homens e mulheres com idades de 20 a 45 anos. Cerca de metade dos “voluntários” eram estrangeiros, supostamente turistas. Destes – além de asiáticos, africanos e europeus – a maior parte era de latino-americanos, o que se percebia pela língua que falavam. Eram negros, brancos, índios e mestiços de todos os matizes. A mulher que viera conosco no ônibus comandava tudo, distribuindo ordens, roupas, armas e ferramentas.

Um sujeito barbudo puxou conversa.

– “¿Dónde eres?”

– “De Brasil.”

– “Soy de Puerto Canal.” (Não sei se essa cidade existe, mas algo me dizia que ele era do Panamá.) Só pude soltar uma pergunta tola que me estava na ponta da língua:

– “¿Panamá ha hecho el Canal o el Canal ha hecho a Panamá?”

Ele a princípio sorriu, depois emendou uma enorme gargalhada, seguida por vários dos que estavam presentes. Nós todos sabíamos que o (Canal do) Panamá tinha sido feito pelos ianques – à força!

Outros entraram na conversa, cada um falando sua língua. Curiosamente, nós nos entendíamos. Vestíamos as fardas e testávamos o equipamento, enquanto conversávamos. Nossa equipe era a do trabalho pesado: iríamos sair para efetuar os salvamentos, arrombando portas, arrancando janelas e tirando pessoas que não tinham conseguido sair de casa. Outro grupo teria a tarefa de coibir saques ao comércio e residências.

Estávamos saindo para a primeira missão, quando…

… acordei com as lambidas de nosso cachorro, o Thor! Eu estava com a garganta seca, rouco e com um horrível gosto de cabo de guarda-chuva na boca. E uma tremenda azia!

Uma pena que não pude sonhar até o fim, para saber o final da história. Mas o sonho, ainda que interrompido, deu-me muito o que pensar. Nunca pensei que, mesmo num sonho, eu seria “voluntário” da Guarda Nacional dos EUA numa enchente em Nova Iorque.

Logo eu, que nunca tive a menor vontade de conhecer os Estados Unidos…

Talvez Freud explique isso.

Santarém, PA, 17/1/2017. Leia e curta também no Blogspot.

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Acidente argentino

Uma jornalista da TV Globo News disse que o cineasta Héctor Babenco, recentemente falecido, era brasileiríssimo, e só “nasceu na Argentina por acidente”.

Quer dizer que nascer na Argentina é acidente?

Aguardo há tempos que os defensores do “politicamente correto” se manifestem contra o preconceito de nossos meios de comunicação contra a Argentina e seu povo. Se não se aceitam comentários ou gracejos desse tipo contra outros grupos, por que aceitá-los quando se referem aos argentinos?

E há ofensas até piores do que esta. Dois exemplos:

  • Em outra TV do tipo news, um jornalista e apresentador, ao referir-se a uma famosa chef argentina radicada no Brasil, e que seria entrevistada por ele, disse que “ela é argentina MAS é gente boa”. Ato falho?
  • Num programa reality show de atendimento médico de urgência, médicos conversam enquanto cuidam de um paciente; a conversa referia-se a algum tipo de procedimento médico: “Está brincando! Duvido que isso tenha sido inventado por um argentino! Já viu alguma coisa boa vir da Argentina?”

E tudo transmitido pela TV!

Esse tipo de preconceito é inculcado em nossa população o tempo todo – e não se trata apenas de rivalidade esportiva.

Dizem que é esta a diferença entre brasileiros e argentinos: enquanto dizemos que Deus é brasileiro, os portenhos TÊM CERTEZA de que Ele NÃO É argentino.

Está explicado, pois!

Santarém, PA, 29/7/2016.

Sobremesa paraguaia

Há vários anos, um amigo meu, professor universitário de geografia, teve a ideia de visitar alguns dos países vizinhos do Brasil como complemento de suas aulas. Reuniu alguns alunos que podiam acompanhá-lo durante o período de férias escolares e fez o planejamento necessário para uma viagem econômica – ou seja, no estilo mochileiro.

O primeiro país a ser visitado foi o Paraguai.

Não, eles não foram a Ciudad del Este e Pedro Juan Caballero para as famosas compras de bugigangas “importadas”. Nada de muamba. Passaram direto por ali e se dirigiram a um departamento distante (chamam-se departamentos as divisões administrativas paraguaias).

Professor e alunos queriam conhecer o Paraguai profundo, rural, com o intuito de fugir aos estereótipos e ter contato mais direto com a população “autêntica”. Queriam conhecer o meio rural do país vizinho e compará-lo com o equivalente no Brasil.

Visitaram comunidades rurais, igrejas, escolas; participaram até de um programa de rádio numa das cidadezinhas em que estiveram.

Numa dessas localidades, ficaram hospedados num alojamento paroquial, junto com seminaristas e padres. Antes de partir de volta ao Brasil, e para agradecer aos responsáveis pelo local a acolhida que ele e seus alunos tiveram, o professor quis fazer-lhes uma surpresa: iria preparar um doce, uma deliciosa sobremesa brasileira.

Que doce era esse? Segredo! Eles só saberiam na hora em que fosse servido.

O chef foi para a cozinha. Depois de certo tempo lá vinha ele, com uma enorme travessa de arroz-doce.

“¡Qué maravilla! ¡Arroz com leche!” – exclamaram os convivas locais, diante do espanto dos estrangeiros.

Não é preciso dizer que todos se deliciaram, mesmo porque a sobremesa misteriosa já era conhecida no país vizinho… com outro nome!

Santarém, PA, 20/6/2016.

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Fonte: blog.purosabor.com.br
Fonte: blog.purosabor.com.br

Muro anti-ianque

Donald Trump promete que, se for eleito presidente dos Estados Unidos, construirá um muro ao longo de toda a fronteira com o México; o objetivo, segundo ele e seus adeptos, é separar de vez ambos os países e impedir que os mexicanos entrem ilegalmente nos EUA levando drogas, crimes e outras mazelas sociais atribuídas aos imigrantes.

Mas talvez a construção desse novo muro da vergonha seja uma iniciativa positiva para ambos os lados.

Sim, talvez os próprios mexicanos gostem da ideia, se pensarem nela com mais calma, e sejam beneficiados pelo muro também.

Afinal, como sabemos, todos os criminosos norte-americanos fogem ou sonham fugir para… o México!

Santarém, PA, 17/4/2016.

Limpas o teu, sujas o meu

Se eu acreditasse em azar, diria que sou muito azarado. Certas coisas já me ocorreram mais de uma vez, deixando-me aquela sensação de déjà vu.

Exemplifico.

Jamais coloquei lixo na frente de casas de vizinhos; para a coleta, cada um deve pôr o lixo na porta de sua casa. É algo tão obviamente próprio da civilitas, que nem consigo pensar em um proceder diferente disso.

Mas um vizinho meu colabora com a limpeza pública de modo peculiar: ele atravessa a rua e põe seus enormes sacos de lixo na frente do condomínio onde moro: quando os cães e urubus (e haja urubus em Santarém!) rasgam os sacos e espalham o lixo, a imundície toda fica na minha calçada, e a dele fica limpinha!

Um bom lema para um brasão de família: “Levando vantagem em tudo!”.

Alguns dirão que se trata de coisa de pouca monta, sem importância; afinal, temos problemas mais graves para resolver.

Não o nego.

Mas nossos problemas têm uma base comum cultural que precisa ser mudada.

Santarém, PA, 13/4/2016.

Indústria das multas?

Vejo, num programa de TV sobre infrações e multas de trânsito nos Estados Unidos, um aplicador de multas a carros mal estacionados mandar um recado a cada um dos infratores:

– “Não gostou de ser multado? Estacione direito de agora em diante e jamais verá minha cara feia novamente!”

Lá como cá, o Estado incentiva a venda de carros, mas ninguém pode estacionar onde quer; e assim como os brasileiros, os ianques também reclamam muito das multas aplicadas devido às infrações que cometem.

O fenômeno é mundial. E não tenho dó de quem é multado – a não ser que a multa tenha sido aplicada indevidamente.

Os brasileiros que reclamam de multas têm uma coisa a fazer: respeitar as normas de trânsito – e não serão multados.

Ou elejam políticos que prometam abolir as multas – criando o caos em nossas cidades.

Santarém, Pará, 10/4/2016.

Modernidade irlandesa

thomas-cahill“Um homem é melhor do que sua origem.”

Segundo o historiador Thomas Cahill (*), esta máxima dos primórdios do cristianismo na Irlanda (séculos V a IX) era evocada para afirmar “a primazia do espírito individual sobre noções de sangue e estirpe”.

Modernos, sui generis esses irlandeses dos tempos dos santos Patrício, Brígida, Columba e Columbano!

Pelo menos é a minha impressão, quando comparo tal pensamento com o que vejo nos dias atuais: ao invés de definir-se pelo que é, muita gente prefere fazê-lo pelo que foram seus ancestrais.

Tais indivíduos e grupos, que se consideram tão livres e senhores de si mesmos, deixam-se, na verdade, governar por seus antepassados. E não se apercebem disso.


* CAHILL, Thomas. Como os Irlandeses Salvaram a Civilização. Tradução de José Roberto O’Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. (A História não Contada, 1). p. 195.

Santarém, PA, 27/2/2016.