De “mundança”

Acho que eles não apenas se mudaram, mas caíram no mundo.

mundando-2016-11-11
Foto: Júlio César Pedrosa, 11/11/2016.
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Bairrismos linguísticos e culinários

Certas efemérides regionalistas e sua repercussão nos últimos dias, nas redes sociais, fizeram-me lembrar de fatos que presenciei há uns 16 ou 17 anos, quando eu terminava minha graduação numa universidade estadual.

Numa disciplina optativa, conheci um estudante de doutorado, vindo de outro estado. (Não cito o lugar de origem nem o curso que fazia, pois isto não importa; além disso, não critico pessoas, mas sim comportamentos e ideias. Infelizmente, em relação a algumas coisas, as pessoas só variam quanto ao número do RG…)

A pessoa era muito bairrista, orgulhosa de seu lugar de origem. Costumava vangloriar-se de sua “rusticidade”, opondo-a à urbanidade do grande centro em que estudava: “Eu como é com a mão!”

Opção dele – nada contra!

Mas, apesar de estar num doutorado, era um tolo; dizia certas coisas que só se podiam atribuir à ingenuidade, mas que me espantavam, pois vinham de um quase doutor.

Por exemplo: ele certa vez se confundiu com uma locução, uma frase feita popular do local; tinha certeza de que era a pronúncia errada de um termo relativo a culto religioso de seu estado de origem. Ora, a frase em questão nada tinha que ver com aquilo, nem o contexto o possibilitava. Completou ele: “Está errado, na minha terra a gente pronuncia assim ou assado, a pronúncia correta não é essa”!

Outra vez ele foi além e atacou a variedade linguística local: “É incrível como o povo daqui fala errado a língua portuguesa; já ouviu aquela música que diz ‘Os Mano! As mina!’? Como pode?”.

E tudo isso era dito com a maior naturalidade, num tom que beirava lamento e pena… o que só posso atribuir à ingenuidade e falta de reflexão sobre o que dizia. Falta de vivência que nenhum diploma pode proporcionar.

Não é o caso de outra historinha de que me lembrei agora.

Em 2002 eu lia certo jornal semanal (ressuscitado) de crítica e sátira social, política, econômica etc. Entre muitos nomes consagrados da imprensa brasileira crítica, alternativa e mordaz, escrevia por lá um jornalista já veterano e insensado, bem conhecido de leitores de vários jornais e revistas do País.

É um cara culto e viajado, que já chegou a gabar-se de ter uma “livraria preferida em Nova Iorque”. Sim, isso é para quem pode, não é para quem quer…

Como decíamos ayer… Num de seus artigos no jornalzim, em meados de 2002, ele disse não suportar o “sotaque do estafeta das Casas Bahia”, o qual coincidentemente é natural do mesmo estado em que as Casas Bahia têm sua sede.

Não creio se tratar de ingenuidade; foi um comentário maldoso. E não me lembro de ninguém que o tenha criticado.

Já em 2004, num programa de uma TV do tipo cultura, falando sobre culinária regional, o distinto jornalista disse que a “culinária do estado X é mais brasileira, porque tem elementos indígenas, europeus e africanos combinados; a culinária do estado Y é basicamente uma culinária africana”.

Resumindo o que foi dito: para ele, tendo como referência um suposto grau de brasilidade, a comida do estado X (um estado do Sudeste – e não se trata de São Paulo!) é superior à comida do estado Y (que é um estado do Nordeste).

O superjornalista continua por aí, vivito y coleando

Deixei de simpatizar com ele. Para mim, o local de origem e a simpatia por uma ideia política não isentam ninguém para ofender os outros.

Santarém, PA, 13/10/2016. Leia e curta também no WordPress.

Língua petralha

Enfim descobri por que tantos brasileiros (não só da classe dirigente) odeiam a língua portuguesa, consideram-na um idioma inferior e alimentam o sonho de que um dia o Brasil abandone o português e passe a falar inglês.

A resposta é fácil e óbvia, estava o tempo todo embaixo de meu nariz.

É que a sigla internacional da língua portuguesa é PT…

Santarém, PA, 11/10/2016.

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Anacronismo magiar

Coisa que (ainda) muito me espanta é ver pessoas instruídas dizendo coisas absurdas, principalmente anacronismos, isto é, ideias e conceitos fora de seu contexto histórico. Se gente que estudou nas melhores escolas brasileiras diz coisas que tais…

Numa TV do tipo news, um conhecido empresário brasileiro, filho de húngaros, dá entrevista sobre sua vida e profissão. Diz que seu pai chegou ao Brasil após a II Guerra Mundial e só falava húngaro e alemão, pois lá “a segunda língua não era o inglês, mas o alemão”, como ele sabiamente nos informa. Nosso empresário de sucesso acrescenta que, além do português e do inglês, fala também húngaro, que aprendeu em casa.

Não vou comentar que ele diz ser o húngaro um idioma que “não tem utilidade nenhuma, falado por 11 milhões de pessoas, 10 milhões delas na Hungria”.

Húngaros já foram laureados 12 vezes com o Prêmio Nobel, sendo 1 deles o de Literatura. Se o húngaro é inútil, como afirma nosso célebre amigo, que dizer de línguas com menos falantes, como o estoniano, o letão ou o frísio? E as línguas indígenas brasileiras? As australianas? As de Papua Nova Guiné? As da África?

Prefiro o personagem José Costa do romance Budapeste, de Chico Buarque, o qual diz que “o húngaro é a única língua que o Diabo respeita”. Uma saída mais esperta – acho eu.

Mas o que me interessa aqui é outra coisa.

O inglês só se tornou este fenômeno que conhecemos após a II Guerra; até então, apesar do poderio do Império Britânico e da crescente dominação político-econômica dos EUA, a língua inglesa era bem menos influente. O francês era a língua da diplomacia e da cultura; regionalmente, outras línguas exerciam as mesmas funções, como o alemão na Europa Oriental e Bálcãs.

Não se tratava de capricho. Não tinha sido uma escolha por meio de plebiscito, com a disputa entre inglês e alemão e vitória deste idioma. Não foi resultado de grupo de trabalho ou medida provisória do Ministério da Educação da Hungria. A explicação vem da história.

Até a I Guerra Mundial, a Hungria fez parte do Império Austríaco, eufemisticamente conhecido como Império Austro-Húngaro (que de húngaro tinha pouco ou nada, pois era só austro, dominado pelos Habsburgos de Viena). O alemão austríaco era a língua do governo, da administração, do comércio e da indústria, da instrução, da ciência, das discussões no parlamento. No âmbito da Áustria-Hungria, todas as pessoas instruídas falavam alemão, não importando sua origem étnica.

Não era por outro motivo que um tcheco chamado Franz Kafka escrevia em alemão, e não em tcheco (Boêmia, Morávia e Eslováquia também eram parte do Império da Áustria).

Por muito tempo o alemão foi a segunda língua dos húngaros instruídos. Não creio que o deslocamento da Hungria para a órbita da União soviética e o crescente prestígio do russo junto ao governo e a intelligentsia dos países da Cortina de Ferro tenham mudado muito isso; o inglês como segunda língua é coisa recente, e na Hungria surge, como em outros lugares, há uns 25 anos, após a queda do comunismo.

Falar em inglês como segunda língua num contexto em que isto não seria possível é um grande, um tremendo anacronismo. Quem ouve nosso empresário dizendo tal coisa (ainda que tenha saído meio sem pensar) acha que naquela época havia opções e os húngaros resolveram ir contra a tendência do mundo livre!

Não duvido de que logo apareça um sabichão dizendo que a correspondência diplomática entre egípcios e hititas nos séculos XIV e XIII antes de Cristo era feita em acadiano, com escrita cuneiforme e suporte de tabuletas de argila, apenas porque nas chancelarias de Tebas e Hattusa não havia quem soubesse inglês. Ou que a expansão do latim pela Europa Ocidental, com o posterior surgimento das línguas neolatinas, ocorreu porque os gauleses, francos, iberos e lusitanos achavam o inglês muito difícil…

Santarém, PA, 26/9/2016.

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Getsêmani

O Jardim das Oliveiras ou Getsêmani. Fonte: Wikipédia.
O Jardim das Oliveiras ou Getsêmani. Fonte: Wikipédia.

Num programa de rádio, ouvi discussão sobre a pronúncia do nome Getsêmani, localidade de Jerusalém também conhecida como Jardim das Oliveiras. Segundo o Novo Testamento, Jesus dirigiu-se a esse lugar para orar, antes de ser preso. O episódio é conhecido pelos cristãos (principalmente os católicos) como Agonia no Getsêmani ou, simplesmente, Agonia.

Mas a dúvida dos locutores do programa de rádio era: este GE é pronunciado como GUÊ ou JÊ?

Discussão tola, e seu motivo foi mesmo o nome de um cemitério famoso da cidade de São Paulo cujo nome é grafado Gethsêmani, com um H depois do T.

O fato é que em português o G antes de E e I é sempre lido como J e a grafia desse nome não tem H (em Portugal se escreve Getsémani, com É, pois lá a pronúncia da vogal tônica é aberta).

A palavra Getsêmani difundiu-se a partir do nome grego Γεθσημανή, usado nos evangelhos de Mateus e Marcos (Novo Testamento) e originário do nome aramaico גת שמנא, transliterado em caracteres latinos Gat Shmānê; em hebraico é גת שמנים, Gat Shmanim. Foi da forma latina Gethsemani que provieram a forma portuguesa e as demais em outras línguas.

Possivelmente a direção do cemitério adotou tal grafia híbrida (com H e acento gráfico) para diferenciar o nome da instituição do nome próprio do local citado na Bíblia.

Vejamos o texto bíblico na clássica tradução de João Ferreira de Almeida (Versão Corrigida e Revisada Fiel):

“Então chegou Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani, e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto vou além orar.” – Mateus 26:36.

“E foram a um lugar chamado Getsêmani, e disse aos seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu oro.” – Marcos 14:32.

Ao passar de uma língua a outra(s), as palavras sempre se adaptam à fonologia e pronúncia da língua receptora; a pronúncia de uma palavra na língua de origem não implica que no português deva ser também daquele jeito. Seja como for, o nome Getsêmani, mesmo sendo nome próprio, é tradicional, antigo e está incorporado ao patrimônio lexical do português e da cultura lusófona, pelo que se grafa e se pronuncia de acordo com as regras de escrita e fonologia de nossa língua: a pronúncia é JETSÊMANI ou JETSÉMANI, nunca GUETSÊMANI ou GUETSÉMANI.

É triste saber que parte de nossa população passa pela escola e sai dela sem conhecer as mais comezinhas normas de escrita e pronúncia da própria língua.

Creio que pelo menos os leitores costumeiros da Bíblia não têm a dúvida aqui citada – ainda que a leitura da Bíblia ou qualquer outro livro religioso não seja pré-requisito ou garantia de domínio da língua.

P.S.: Aos “primitivistas” e outros que rejeitam a pronúncia tradicional portuguesa de Getsêmani, sob a alegação de que não corresponde ao original, sugiro que usem o nome do local, então, na forma original em aramaico – mas está claro que muitos pensam ser a forma “original” aquela usada em inglês…

Santarém, PA, 7/7/2016.

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Espírito de porco, Diabo e Cia.

I. Perguntou-me certa vez um aluno sobre a origem da locução espírito de porco, e o porquê de ser empregada com sentido negativo, com referência a maus procedimentos ou ao Diabo. A questão também me interessou, e resolvi pesquisar para obter alguma explicação. Seguem abaixo os dados que consegui, os quais permitiram chegar a algumas conclusões (1).

II. A única referência direta que encontrei quanto à locução espírito de porco é a de Antenor Nascentes no Tesouro da Fraseologia Brasileira (2). Na página 117, sob o verbete “Espírito”, diz o seguinte o estudioso patrício:

ESPÍRITO — das trevas. O demônio. — de contradição. Pessoa que se compraz em levantar objeções. — de porco. Aquele que, nas sessões espíritas, aparece para se divertir à custa dos crentes. Pessoa de má índole, sempre disposta a dizer ou fazer coisas que desagradem. V. S. Mateus, VIII, 30-2; S. Marcos, V, 11-3; S. Lucas, VIII, 32-3. — de sedução. O demônio. (…) — forte. Pessoa que, sobretudo em matéria de religião, se compraz em atacar as opiniões da maioria, em pôr-se acima das idéias comumente admitidas. — maluco. O demônio. (…) Levantar os —s. Excitar os ânimos. (…) Ser um — de porco. Pessoa sempre disposta a dizer ou a fazer coisa que contrarie. (…) (Ortografia atualizada ­­— grifos meus.)

Como se verifica no trecho acima citado, a palavra espírito, quando acompanhada de epítetos como maligno, maluco, de porco e outros, é associada ao Diabo. Tais locuções foram difundidas no Ocidente pela cultura e fé cristã, por meio de alusões e referências às Escrituras Sagradas. Com efeito, há na Bíblia muitas passagens que contam casos de expulsão de espíritos malignos ou demônios do corpo de pessoas.

III. No verbete “Espritado” das Locuções Tradicionais no Brasil (3), diz Câmara Cascudo, citando o dicionário de Antônio de Morais Silva, que “todo brasileiro conhece e aplica o vocábulo Espritado, espritou-se, valendo pessoa inquieta, que parece ter o espírito malino, f. travesso, mui inquieto”. De fato, espritar ou espiritar é “endemoninhar; tornar endiabrado, travesso, inquieto; irritar, danar” (Cândido de Figueiredo, Novo Dicionário da Língua Portuguesa).

Na esteira do que diz Câmara Cascudo, encontrei também que espritar-se é “encolerizar-se, enfurecer-se, exceder-se”, segundo o Caldas Aulete Digital; diz este mesmo dicionário eletrônico que espiritar-se é “1 Meter o demônio no corpo; ficar endemoniado; 2 Fig. Tornar agitado endiabrado, inquieto; 3 P.us. Transformar(-se) em espírito; 4 Fig. Provocar estímulo, excitação; 5 Provocar estado de transe”.

Acrescenta o folclorista potiguar: “Estar espritado era estar possesso. Em fevereiro de 1581, em Roma, Montaigne assistiu a cerimônia de exorcismos, aplicados por um sacerdote embésongné à guérir un spiritato”. Ainda de acordo com Cascudo, para nós é espritado o irriquieto, buliçoso, turbulento; está espritado o animal que arranca subitamente, disparando sem motivo; está espritado o cão hidrófobo, sendo esse nome aplicado, ainda, a moléstias mentais.

Com tudo isso, não é a toa que, nos meios populares, a suposta possessão pelo Diabo ou por um seu espírito maligno ainda hoje se tenha como a causa de muitas taras e desvios de conduta que a ciência antiga não podia explicar. É também a justificativa de muitos crimes hediondos, passionais ou não. Os programas sensacionalistas de televisão mostram sempre casos de crimes cujos autores alegam de nada se lembrar por estarem possessos ou se terem tornado “cavalos do Cão”, ou seja, endemoniados, fazendo-se alusão ao termo cavalo no sentido de “médium”, com o Diabo incorporado nele.

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O Diabo retratado no Codex Gigas (século XIII), também conhecido como Bíblia do Diabo.

IV. O nome diabo é originário do termo latino diabolus, por sua vez originário do grego diábolos, com o sentido de “aquele que divide ou separa, que se interpõe”; numa tradução livre, de acordo com as concepções cristãs e de outras religiões, é aquele que se põe no caminho reto do homem, desviando-o. Seus sinônimos mais comuns são Satanás, Satã, Demônio, Lúcifer, Belzebu (usa-se inicial maiúscula quando se faz referência ao Diabo como chefe do Inferno e dos anjos caídos ou diabos; quando em sentido comum, a inicial é minúscula).

O vocábulo diabo sofreu transformações fonéticas típicas das palavras herdadas, a saber, as que passaram de uma geração a outra, durante séculos: desapareceu a consoante /l/ intervocálica e ocorreu a posterior crase das duas vogais finais: diabolus > diabolo > diaboo > diabo. Note-se que o espanhol, o francês e o italiano mantiveram o /l/: diablo, diable, diavolo, o mesmo ocorrendo em inglês: devil. Aquele fenômeno fonético, ocorrido também com outras consoantes sonoras, é comum na história da língua portuguesa e a distingue de outras línguas românicas. Outros exemplos:

pala > paa > pá; tabula > tábua; pila > pia; populus > pobolo > povoo > povo
lana > lãã > lã; luna > lua; matiana > maciã > maçã
nudus > nuu > nu; pedes > pee > pé

O fenômeno deu-se com os termos populares; as palavras eruditas, porquanto introduzidas na língua bem tardiamente, trazidas diretamente do latim clássico, conservam-se bem próximas deste, formando-se pares contrastantes: pá, paleta; tábua, tabular; lã, lanífero, lanígero, lanifício; lua, lunar, alunissar; nu, nudez; pé, pedal, pedioso

De diabo há duas outras variantes populares, também originárias de diabolus, por meio de outros processos fonéticos: dianho e diacho. Compare-se diacho com mancha (< macula) e chave (<clavis).

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O Martírio de Eleazar (Gustave Doré, 1866).

V. Mas onde entra, nisto tudo, a figura do porco, e que papel lhe cabe? Também para isto devemos buscar explicações na Bíblia e tradição judaico-cristã.

De fato, já para os hebreus antigos o porco era animal impuro, de cuja carne o consumo era proibido pela lei de Moisés. O porquê disso confesso que não sei; é coisa para os especialistas em assuntos judaicos. Mas lembro-me de ter lido no Talmud, edição de José Pérez (4), a explicação de que “a carne de porco é proibida porque é gostosa demais e leva o homem à gula” (cito de memória).

A resistência ao consumo da carne de animal tido como tão impuro e proibido trouxe, em certos momentos, perseguição aos judeus. Foi o que ocorreu nos últimos séculos antes da Era Cristã, quando a Judeia esteve sob o domínio de reis gregos ou helenizados. No contexto dessas perseguições, cita-se o episódio da execução de Eleazar, doutor da lei, em Jerusalém, contado no II Livro dos Macabeus, VI: por se recusar a comer carne de porco, foi torturado até a morte (ver as traduções católicas da Bíblia). No mesmo livro, no capítulo VII, conta-se o martírio de sete irmãos judeus com sua mãe: o rei sírio Antíoco IV Epífanes (ou Epifânio), que dominava a Palestina no século II a. C. e tentou helenizar o território, queria, entre outras coisas, fazê-los também comer carne de porco; por não acatarem a ordem do rei, foram todos mortos com as mais terríveis torturas, morrendo por último a mãe, após assistir ao suplício dos filhos um a um (5).

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Os Sete Irmãos e sua Mãe (Julius Schnorr von Carolsfeld, 1826).

Em artigo publicado em 2004, Alzira Simões (6) estuda o porco sob diversos aspectos sociais, culturais, econômicos, e enumera diversas conotações positivas e negativas do porco. Dentre os epítetos negativos, diz ela que o porco “é praticamente sinónimo de dorminhoco, teimoso, egoísta, invejoso, manhoso, rabão, voraz, diabólico, indolente, imundo, sujo, enfim, porco!” (p. 50-51).

Continua a autora:

O porco é também, contraditoriamente, na nossa cultura como noutras, identificado com a gula, a voracidade, a sujidade, a imundície, simbolizando, igualmente, a obscenidade, a ignorância, a luxúria e o egoísmo, sendo, como referimos, considerado um animal impuro em várias religiões, e, por consequência, o consumo da sua carne é proibido ou restringido em várias culturas (islâmica, judaica…).
Objecto de repulsa, passa pela identificação com o homem em certos provérbios (onde, além dos supra-enunciados com eventual carga negativa, encontramos ainda muitos outros como: “dar pérolas a porcos”, “quem se mistura com os porcos come lavagem”, “judeu e porco, algarvio e mouro – são quatro nações e oito canalhas”, “nem moinho por contínuo, nem porco por vizinho”, etc., etc.) e pela antropomorfização caricatológica em que o ser humano assume formas porcinas, é com o porco identificado, na maioria das vezes, de um modo pejorativo e mordaz.
Encontra-se, além disto, na língua portuguesa inúmeras designações e expressões antropónimas, metafóricas, com valência sócio-culturais desfavoráveis. Para tal servem de exemplo os termos e ditos: “porcaria”, “porcalhona”, “marrão”, “marranço”, “gordo como um porco”, “só se lava quem é porco”, “teimoso como um porco”, “dormir como um porco”, “sangrar como um porco”, etc., etc. (p. 51).

O trecho acima faz lembrar A Revolução dos Bichos, de George Orwell, que Alzira Simões também cita (p. 54-55). Nesta obra, os animais do sítio expulsam seu opressor, o homem, e decidem cuidar de seu próprio destino, vivendo em comunidade; mas pouco a pouco outro dominador surge de entre os próprios animais: o porco.  Os porcos acabam por aliar-se a seus antigos senhores, e quando todos se sentam em torno de uma mesa para selar o acordo, quem os vê de fora não consegue distinguir quem é homem e quem é porco…

VI. Mais do que ser reputado o porco um animal impuro, o espírito de porco é também sempre relacionado ao Demônio, por meio da ideia de possessão. Ora, é exatamente isso que se encontra nos versículos bíblicos aludidos por Nascentes em sua obra citada acima, os quais narram um conhecidíssimo episódio da pregação de Jesus Cristo na Palestina. Passava Ele por Gerasa, local próximo da Galileia, quando encontrou um homem (ou dois, segundo S. Mateus) possesso por uma legião de demônios; estes, temendo que Jesus os enviasse para o abismo, pediram-Lhe que os mandasse para cima de uma vara de porcos que ali perto pastavam. Feito isso, os porcos, com os demônios em si, precipitaram-se no mar por um despenhadeiro e afogaram-se. (Conferir a Bíblia das Edições Paulinas, tradução de Matos Soares.)

Parece que, da narrativa sobre a legião de demônios que Jesus Cristo expulsou, deriva também a locução diabo a quatro, com o sentido de “grande tumulto, desordem, alarido e confusão”. João Ribeiro, nas Frases Feitas, p. 313 (7), cita a explicação do padre Tuet, segundo o qual nos antigos autos e mistérios medievais “apareciam sempre quatro personagens vestidas de diabos e que faziam horrível barulho com o intuito de atemorizar os espectadores, instruindo-os das penas infernais”. Entre nós, foi continuador dessa tradição o padre José de Anchieta, que em seu auto Na Aldeia de Guaraparim, composto em língua tupi, põe em cena quatro diabos a queixar-se da ação dos jesuítas; já no Auto de São Lourenço, também em tupi, ele não arrola quatro, mas sete diabos, sendo três os principais e quatro os subalternos. Não bastasse o próprio Diabo, vinha ele ainda acompanhado de seu séquito!

VII. Voltando ao porco: na mesma obra citada trata João Ribeiro do curioso dito popular “Cada porco tem seu São Martinho”, que ele diz confirmar a relação do porco com o Diabo e as más ações e procedimentos. De acordo com João Ribeiro, o sentido desta última locução é o de que

São Martinho os [porcos] fará melhores, e lá virá um dia que não sejam porcos. Porque, na lenda medieval de São Martinho, este santo sarava os doentes ainda contra a vontade deles. O que fazia com que os falsos mendigos com suas ricas chagas fugissem a todas as gâmbias do santo, por não perderem o emprego (p. 166, ortografia atualizada).

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São Martinho de Tours a cavalo (Mosteiro de Tibães, Portugal).

Houve vários santos com o nome Martinho, mas parece que a lenda citada por João Ribeiro se refere a São Martinho de Tours, nascido na Panônia, atual Hungria (assim como São Martinho de Braga), que viveu no século IV, foi bispo de Tours e está sepultado nessa cidade francesa.

Segundo a tradição, Martinho era soldado romano e encontrou, num dia frio, um mendigo desagasalhado; tocado por aquela situação de penúria, cortou metade de seu manto e deu-o ao pobre. Mais tarde foi visitado por Jesus Cristo, que lhe agradeceu a caridade. Isto o levou a converter-se.

Martinho de Tours tinha a fama de curar até mesmo quem não queria ser curado, por isso os pedintes aleijados ou chagados fugiam dele, com medo de perder seu ganha-pão. Mas Martinho os curava mesmo assim, até depois de morto, por isso eles temiam aproximar-se de sua tumba em Tours. (A exploração da doença pelos esmoleiros é bem mais antiga do que se pensa.)

Em Portugal registram-se adágios referentes à festa de São Martinho, celebrada no outono europeu, relacionando-a ao vinho, às castanhas e ao porco; neste caso, trata-se da destinação do porco ao abate e consumo em honra do santo.

Termina João Ribeiro dizendo que, por serem porco e porco sujo nomes dados pelo povo ao Diabo, este tem suas razões para fugir daquele santo, que o desmascara e afugenta.

Para concluir: Sendo o porco, na nossa cultura, um animal considerado por muitos como impuro, por motivos religiosos, e apontando-se a possessão pelo(s) demônio(s) como causa de diversas condutas inadequadas, não é difícil entender porque a locução espírito de porco aponta para os maus procedimentos e ações e, por extensão, para seu suposto responsável, o Diabo.

Notas:

  1. A primeira versão deste artigo esteve disponível entre 1999 e 2006 em http://www.napoleao.com, sítio do extinto Curso do Prof. Napoleão Mendes de Almeida. Foi também publicada, em duas partes, no boletim mensal da Ordem dos Velhos Jornalistas de São Paulo (OVJ/SP), sob a direção de Antônio Carvalho Mendes (1933-2011), além de ter aparecido também em outras páginas Web.
  2. NASCENTES, Antenor. Tesouro da Fraseologia Brasileira. 2.ª edição. Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos, 1966.
  3. CÂMARA CASCUDO, Luís da. Locuções Tradicionais no Brasil. Coisas que o Povo Diz. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1986.
  4. PÉREZ, José (Org.). Talmud. São Paulo: Edições Cultura, 1942.
  5. Os quatro livros dos Macabeus foram escritos originalmente em grego e narram episódios da vida dos judeus na época helenística; receberam esse nome devido aos irmãos Judas e Simão Macabeu, fundadores da dinastia dos Asmoneus, que governou a Judeia antes do domínio romano. Os quatro livros dos Macabeus não fazem parte da Bíblia protestante nem do cânone judaico, mas estão presentes na Bíblia da Igreja Ortodoxa. A Bíblia católica contém apenas I e II Macabeus. Mais aqui: https://pt.wikipedia.org/wiki/Livros_dos_Macabeus.
  6. SIMÕES, Alzira. O porco: animal sociocultural total. Mneme: Revista de Humanidades. Caicó (RN), V. 04. N. 09, fev./mar. de 2004. pp. 41-64. Disponível em: <http://www.periodicos.ufrn.br/mneme/article/viewFile/181/169>.
  7. RIBEIRO, João. Frases Feitas. 2.ª edição. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1960.

Santarém, PA, 12/9/2012. Editado em 29/4/2016.

IMPEÇA, não IMPESSA

impedirEm português, o tempo presente do subjuntivo é formado a partir da 1ª pessoa do singular do presente do indicativo. Isto vale para quase todos os verbos, mesmo irregulares (com exceção dos verbos que não possuem aquela forma verbal).

O verbo IMPEDIR é irregular: temos aí um /s/ representado por Ç. Sua forma na 1ª pessoa do presente do indicativo é IMPEÇO, por isso todas as formas do presente do subjuntivo de IMPEDIR também são grafadas com Ç, pois são derivadas daquela:

Impeça, impeças, impeça, impeçamos, impeçais, impeçam.

Talvez a Abril tenha dispensado o revisor por engano, numa leva de demitidos; sugiro recontratá-lo.

Santarém, PA, 25/4/2016.