Bairrismos linguísticos e culinários

Certas efemérides regionalistas e sua repercussão nos últimos dias, nas redes sociais, fizeram-me lembrar de fatos que presenciei há uns 16 ou 17 anos, quando eu terminava minha graduação numa universidade estadual.

Numa disciplina optativa, conheci um estudante de doutorado, vindo de outro estado. (Não cito o lugar de origem nem o curso que fazia, pois isto não importa; além disso, não critico pessoas, mas sim comportamentos e ideias. Infelizmente, em relação a algumas coisas, as pessoas só variam quanto ao número do RG…)

A pessoa era muito bairrista, orgulhosa de seu lugar de origem. Costumava vangloriar-se de sua “rusticidade”, opondo-a à urbanidade do grande centro em que estudava: “Eu como é com a mão!”

Opção dele – nada contra!

Mas, apesar de estar num doutorado, era um tolo; dizia certas coisas que só se podiam atribuir à ingenuidade, mas que me espantavam, pois vinham de um quase doutor.

Por exemplo: ele certa vez se confundiu com uma locução, uma frase feita popular do local; tinha certeza de que era a pronúncia errada de um termo relativo a culto religioso de seu estado de origem. Ora, a frase em questão nada tinha que ver com aquilo, nem o contexto o possibilitava. Completou ele: “Está errado, na minha terra a gente pronuncia assim ou assado, a pronúncia correta não é essa”!

Outra vez ele foi além e atacou a variedade linguística local: “É incrível como o povo daqui fala errado a língua portuguesa; já ouviu aquela música que diz ‘Os Mano! As mina!’? Como pode?”.

E tudo isso era dito com a maior naturalidade, num tom que beirava lamento e pena… o que só posso atribuir à ingenuidade e falta de reflexão sobre o que dizia. Falta de vivência que nenhum diploma pode proporcionar.

Não é o caso de outra historinha de que me lembrei agora.

Em 2002 eu lia certo jornal semanal (ressuscitado) de crítica e sátira social, política, econômica etc. Entre muitos nomes consagrados da imprensa brasileira crítica, alternativa e mordaz, escrevia por lá um jornalista já veterano e insensado, bem conhecido de leitores de vários jornais e revistas do País.

É um cara culto e viajado, que já chegou a gabar-se de ter uma “livraria preferida em Nova Iorque”. Sim, isso é para quem pode, não é para quem quer…

Como decíamos ayer… Num de seus artigos no jornalzim, em meados de 2002, ele disse não suportar o “sotaque do estafeta das Casas Bahia”, o qual coincidentemente é natural do mesmo estado em que as Casas Bahia têm sua sede.

Não creio se tratar de ingenuidade; foi um comentário maldoso. E não me lembro de ninguém que o tenha criticado.

Já em 2004, num programa de uma TV do tipo cultura, falando sobre culinária regional, o distinto jornalista disse que a “culinária do estado X é mais brasileira, porque tem elementos indígenas, europeus e africanos combinados; a culinária do estado Y é basicamente uma culinária africana”.

Resumindo o que foi dito: para ele, tendo como referência um suposto grau de brasilidade, a comida do estado X (um estado do Sudeste – e não se trata de São Paulo!) é superior à comida do estado Y (que é um estado do Nordeste).

O superjornalista continua por aí, vivito y coleando

Deixei de simpatizar com ele. Para mim, o local de origem e a simpatia por uma ideia política não isentam ninguém para ofender os outros.

Santarém, PA, 13/10/2016. Leia e curta também no WordPress.

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Língua petralha

Enfim descobri por que tantos brasileiros (não só da classe dirigente) odeiam a língua portuguesa, consideram-na um idioma inferior e alimentam o sonho de que um dia o Brasil abandone o português e passe a falar inglês.

A resposta é fácil e óbvia, estava o tempo todo embaixo de meu nariz.

É que a sigla internacional da língua portuguesa é PT…

Santarém, PA, 11/10/2016.

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Anacronismo magiar

Coisa que (ainda) muito me espanta é ver pessoas instruídas dizendo coisas absurdas, principalmente anacronismos, isto é, ideias e conceitos fora de seu contexto histórico. Se gente que estudou nas melhores escolas brasileiras diz coisas que tais…

Numa TV do tipo news, um conhecido empresário brasileiro, filho de húngaros, dá entrevista sobre sua vida e profissão. Diz que seu pai chegou ao Brasil após a II Guerra Mundial e só falava húngaro e alemão, pois lá “a segunda língua não era o inglês, mas o alemão”, como ele sabiamente nos informa. Nosso empresário de sucesso acrescenta que, além do português e do inglês, fala também húngaro, que aprendeu em casa.

Não vou comentar que ele diz ser o húngaro um idioma que “não tem utilidade nenhuma, falado por 11 milhões de pessoas, 10 milhões delas na Hungria”.

Húngaros já foram laureados 12 vezes com o Prêmio Nobel, sendo 1 deles o de Literatura. Se o húngaro é inútil, como afirma nosso célebre amigo, que dizer de línguas com menos falantes, como o estoniano, o letão ou o frísio? E as línguas indígenas brasileiras? As australianas? As de Papua Nova Guiné? As da África?

Prefiro o personagem José Costa do romance Budapeste, de Chico Buarque, o qual diz que “o húngaro é a única língua que o Diabo respeita”. Uma saída mais esperta – acho eu.

Mas o que me interessa aqui é outra coisa.

O inglês só se tornou este fenômeno que conhecemos após a II Guerra; até então, apesar do poderio do Império Britânico e da crescente dominação político-econômica dos EUA, a língua inglesa era bem menos influente. O francês era a língua da diplomacia e da cultura; regionalmente, outras línguas exerciam as mesmas funções, como o alemão na Europa Oriental e Bálcãs.

Não se tratava de capricho. Não tinha sido uma escolha por meio de plebiscito, com a disputa entre inglês e alemão e vitória deste idioma. Não foi resultado de grupo de trabalho ou medida provisória do Ministério da Educação da Hungria. A explicação vem da história.

Até a I Guerra Mundial, a Hungria fez parte do Império Austríaco, eufemisticamente conhecido como Império Austro-Húngaro (que de húngaro tinha pouco ou nada, pois era só austro, dominado pelos Habsburgos de Viena). O alemão austríaco era a língua do governo, da administração, do comércio e da indústria, da instrução, da ciência, das discussões no parlamento. No âmbito da Áustria-Hungria, todas as pessoas instruídas falavam alemão, não importando sua origem étnica.

Não era por outro motivo que um tcheco chamado Franz Kafka escrevia em alemão, e não em tcheco (Boêmia, Morávia e Eslováquia também eram parte do Império da Áustria).

Por muito tempo o alemão foi a segunda língua dos húngaros instruídos. Não creio que o deslocamento da Hungria para a órbita da União soviética e o crescente prestígio do russo junto ao governo e a intelligentsia dos países da Cortina de Ferro tenham mudado muito isso; o inglês como segunda língua é coisa recente, e na Hungria surge, como em outros lugares, há uns 25 anos, após a queda do comunismo.

Falar em inglês como segunda língua num contexto em que isto não seria possível é um grande, um tremendo anacronismo. Quem ouve nosso empresário dizendo tal coisa (ainda que tenha saído meio sem pensar) acha que naquela época havia opções e os húngaros resolveram ir contra a tendência do mundo livre!

Não duvido de que logo apareça um sabichão dizendo que a correspondência diplomática entre egípcios e hititas nos séculos XIV e XIII antes de Cristo era feita em acadiano, com escrita cuneiforme e suporte de tabuletas de argila, apenas porque nas chancelarias de Tebas e Hattusa não havia quem soubesse inglês. Ou que a expansão do latim pela Europa Ocidental, com o posterior surgimento das línguas neolatinas, ocorreu porque os gauleses, francos, iberos e lusitanos achavam o inglês muito difícil…

Santarém, PA, 26/9/2016.

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