Por tabela

Publica-se uma lista de vários indivíduos bem conhecidos acusados de malfeitos diversos, todos eles nascidos, coincidentemente, em certo estado etiquetado como “conservador”. 🤔
Então se grita: “Viva o …!” (nome de uma região do Brasil que não citarei aqui; mas trata-se de lugar onde, segundo rezam antigas lendas coligidas no Livre Rouge, não há nenhuma pessoa má, conservadora ou reacionária, só gente progressista…). 😱 Ufa! Ainda bem!
Só rindo de tudo isso! 😂🤣😂🤣😂 Quanta ingenuidade!
É incrível como as pessoas se apegam a certas ilusões; deve ser porque elas lhes alimentam um delírio de superioridade moral.
Neste caso, uma superioridade indireta, por tabela.
Está criado o bairrismo por procuração.

Bairrismos linguísticos e culinários

Certas efemérides regionalistas e sua repercussão nas redes sociais fazem-me lembrar de fatos que presenciei há uns 16 ou 17 anos, quando eu terminava minha graduação numa universidade estadual.

Numa disciplina optativa, conheci um estudante de doutorado, vindo de outro estado. (Não cito o lugar de origem nem o curso que fazia, pois isto não importa; além disso, não critico pessoas, mas sim comportamentos e ideias. Infelizmente, em relação a algumas coisas, as pessoas só variam quanto ao número do RG…)

A pessoa era muito bairrista, orgulhosa de seu lugar de origem. Costumava vangloriar-se de sua “rusticidade”, opondo-a à urbanidade do grande centro em que estudava: “Eu como é com a mão!”

Opção dele – nada contra!

Mas, apesar de estar num doutorado, era um tolo; dizia certas coisas que só se podiam atribuir à ingenuidade, mas que me espantavam, pois vinham de um quase doutor.

Por exemplo: ele certa vez se confundiu com uma locução, uma frase feita popular do local; tinha certeza de que era a pronúncia errada de um termo relativo a culto religioso de seu estado de origem. Ora, a frase em questão nada tinha que ver com aquilo, nem o contexto o possibilitava. Completou ele: “Está errado, na minha terra a gente pronuncia assim ou assado, a pronúncia correta não é essa”!

Outra vez ele foi além e atacou a variedade linguística local: “É incrível como o povo daqui fala errado a língua portuguesa; já ouviu aquela música que diz ‘Os Mano! As mina!’? Como pode?”.

E tudo isso era dito com a maior naturalidade, num tom pernóstico que me causava lamento e pena… o que só posso atribuir à ingenuidade e falta de reflexão sobre o que dizia. Falta de vivência que nenhum diploma pode proporcionar.

Não é o caso de outras historinhas de que me lembrei agora.

Em 2002 eu lia certo jornal semanal (ressuscitado) de crítica e sátira social, política, econômica etc. Entre muitos nomes consagrados da imprensa brasileira crítica, alternativa e mordaz, escrevia por lá um jornalista já veterano e insensado, cultuado e adulado, bem conhecido de leitores de vários jornais e revistas do País.

É um cara culto e viajado, que já chegou a gabar-se de ter uma “livraria preferida em Nova Iorque”. Sim, isso é para quem pode, não é para quem quer…

Conheço pessoas que têm um restaurante preferido, uma lanchonete, um bar, um barbeiro; eu mesmo tinha uma livraria preferida – na verdade, um sebo, o que é a mesma coisa; mas livraria preferida em Nova Iorque já é o topo da sofisticação!

E me causa espécie, espanta-me como esse povo consegue viajar com tanta frequência e desenvoltura para os States; como conseguem vistos com tanta facilidade?

Como decíamos ayer… Num de seus artigos no jornalzim, em meados de 2002, ele disse não suportar o “sotaque do estafeta das Casas Bahia”, o qual coincidentemente é natural do mesmo estado em que as Casas Bahia têm sua sede. Parece que o articulista também não gosta de ouvir o /r/ vibrante no final (travamento) de silaba, variante característica do português paulista.

O comentário não era irônico, e não creio que se tratasse de ingenuidade; foi um comentário maldoso e preconceituoso. E não me lembro de ninguém que o tenha criticado.

Fosse o tal estafeta originário de um estado do Nordeste, por exemplo, tal comentário ao sotaque dele não passaria impune, e o cancelamento do escrevinhador seria fatal. Mas São Paulo é a Geni nacional…

Já em 2004, num programa de uma TV do tipo cultura, falando sobre culinária regional, o distinto jornalista, do alto de sua augusta posição, disse que a “culinária do estado X é mais brasileira do que a do estado Y, porque a de X tem elementos indígenas, europeus e africanos combinados; a culinária do estado Y é basicamente uma culinária africana”.

Resumindo o que foi dito: para ele, tendo como referência um suposto grau de brasilidade, a comida do estado X (um estado do Sudeste – e não, não é São Paulo!) é superior à comida do estado Y (que é um estado do Nordeste).

O superjornalista continua por aí, vivito y coleando

Peguei nojo, antipatia por ele. Para mim, o local de origem, o alegado progressismo ou a simpatia por uma ideia política não dão a ninguém isenção para ofender os outros.

“Ninguém é inocente, muito menos tu.”

Santarém, PA, 13/10/2016. Leia e curta também no Blogspot.

Inveja maravilhosa

De acordo com alguns comentadores progressistas e safos das redes sociais, muitas das críticas aos gastos elevados e outros problemas da Olimpíada de 2016 são de paulistas invejosos da realização dos Jogos Olímpicos na cidade do Rio de Janeiro.

Será?

Sou suspeito para opinar, pois sou paulista e crítico da realização de eventos desse tipo; creio que os esforços humanos e financeiros do país devem convergir para outros fins de que estamos mais necessitados.

Não precisamos de megaeventos. Precisamos de melhores escolas, melhor saúde, saneamento e investimento em ciência e infraestrutura.

Não quero medalhas. Quero que crianças e jovens saibam matemática, leiam e escrevam com fluência e compreendam a evolução das espécies.

Segundo esses formadores de opinião de caixas de comentários, se alguém critica a Rio 2016, só pode ser paulista!

Portanto, ou os paulistas são mais numerosos do que se pensa, ou muita gente no Brasil tem em si – para seu infortúnio – um pouco de paulista… e não sabe!

Ou (o que é o mais provável) tais críticas nada têm que ver com o bairrismo nojento de que ainda não nos livramos – e que parece ter-se fortalecido nos últimos tempos.

Santarém, PA, 22/8/2016.

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