A faraona Hatchepsut

FÈVRE, Francis. Faraona de Tebas: Hatchepsut, Filha do Sol. Tradução de Gilda Stuart. São Paulo: Mercuryo, 1991.
[La Pharaonne de Thèbes – Hatchepsout, Fille du Soleil. Presses de la Renaissance, 1986.]

faraona_de_tebasFaraona de Tebas: Hatchepsut, Filha do Sol não é um romance, tampouco uma obra estritamente acadêmica sobre o assunto; está mais para biografia, mas creio que a definição mais adequada é a de “documentário”, bem ao estilo do que ficou comum nos dias atuais em programas de TV sobre história: com base no conhecimento alcançado sobre determinada época, local e povo, traça-se uma visão panorâmica (às vezes aprofundada em certos aspectos) da época ou personagem estudada, tentando-se reconstituir, inclusive com dramatização, fatos históricos e preencher lacunas.

É o que faz nesta obra o historiador francês Francis Fèvre, autor de outros livros, incluindo-se dois romances sobre o Egito antigo. A partir do que se sabia, em meados da década de 1980, sobre a rainha-faraó (ou “faraona”) Hatchepsut, ele reconstitui a época, a cultura, as festas religiosas, a vida na corte, as intrigas palacianas e arrisca lançar hipóteses sobre a vida ainda não bem conhecida dessa soberana da XVIII dinastia egípcia.

Algumas digressões do autor servem para situar o Egito no contexto do Oriente Médio daquela época; outras descrevem rituais religiosos, o embalsamamento e sepultamento dos monarcas; o trabalho dos camponeses e dos operários das obras do Estado; o ritmo das cheias e vazantes do Nilo, fecundando a terra negra que dava nome ao país de Kemit; ou ainda traçam analogias com outras civilizações milenares, como a chinesa, além de recuperar para os dias atuais a importância de Hatchepsut para o Egito antigo.

A cronologia possivelmente mudou com as descobertas mais recentes (algo comum quando se trata de fatos ocorridos há tanto tempo e ainda muito nebulosos), mas atenho-me à do texto que comento e à grafia dos nomes egípcios citados pelo autor – baseados na ortografia francesa, o que foi em parte conservado na tradução (a forma mais comum é “Hatshepsut”).

Hatchepsut teria nascido por volta de 1535 a.C. e morrido com cerca de 50 anos de idade, possivelmente em 1484 a.C., após reinar por 20 anos no lugar de seu enteado Tutmósis III (ou Tutmós, Tutmés). Como Tutmósis era muito pequeno, Hatchepsut assumiu o trono após a morte do meio-irmão e marido, Tutmósis II, fazendo-se representar como homem em todas as situações. Não se tratava, portanto, de uma mulher ocupando o trono do Egito, como ocorreu algumas vezes durante a menoridade do herdeiro, mas de um faraó que era mulher, com todos os títulos, dignidades e indumentária do cargo (inclusive a barba falsa ou postiça). Após sua morte, assume definitivamente o trono seu enteado, Tutmósis III, filho de Tutmósis II com uma concubina. Tutmósis III reinou por cerca de 35 anos e foi o faraó mais vitorioso do Egito, e com ele o país alcançou a extensão máxima de sua fronteiras, perdidas ou conservadas a duras penas, quando possível, por seus sucessores.

Apesar de que não se trata de um romance, o autor vale-se da técnica do discurso indireto livre para entrar nas mentes das personagens históricas, e os pensamentos dele misturam-se com os das personagens que reconstitui. Às vezes decorrem disso certos anacronismos, ao que parece – intencionais ou fruto do mergulho do autor na “mente” reconstituída de suas personagens? Fèvre reconstitui as personagens históricas e entra em suas mentes, tentando saber o que pensavam, seus anseios e frustrações.

Descreve e/ou sugere a formação de Hatchepsut e seu casamento com o meio-irmão; a altivez e a consciência de ter sido talhada para o exercício do poder; o desgosto de ter nascido mulher num contexto de domínio masculino; a possível frustração de ver, pela terceira vez, um bastardo no trono do Egito (o autor levanta a hipótese de que Tutmósis I era filho bastardo de Amenófis I, que o teria casado com a filha legítima para conservar o sangue divino dos faraós – o casamento entre irmãos era fato comum nas casas reais egípcias; a esposa de Tutmósis III era sua meia-irmã, filha de Hatchepsut). Quanto a Tutmósis III, seu fortalecimento como comandante militar, enquanto espera o momento de reinar; o ódio àquela mulher que não lhe permite ocupar o trono que lhe é de direito; o alívio e satisfação com sua morte; a posterior decisão de apagá-la da história.

O autor tenta também responder a algumas questões: Teria Hatchepsut tentado iniciar um matriarcado no Egito, instituindo a possibilidade de uma mulher ocupar o trono após ela (sua filha Neferurê)? Se tentou isso, não o conseguiu. Teria havido uma relação amorosa entre Hatchepsut e Senenmut, seu vizir e arquiteto, construtor do maravilhoso templo de Deir-el-Bahari? Se não, por que Senenmut se fez representar no templo de sua rainha? Como ela teria conseguido reinar como faraó por tanto tempo (cerca de 20 anos ou um pouco mais)?

Fèvre defende que o reinado de Hatchepsut foi um período de estabilidade, de fortalecimento interno, de apego às tradições e à religião, mais voltado à diplomacia e ao comércio do que à armas; depois dela o Egito se abre para o mundo e se torna potência militar sob Tutmósis III, o Grande.

Após sua morte, Hatchepsut começa a ser apagada da história. Seus sucessores destroem suas estátuas, apagam seu nome e imagens dos templos que ela construíra, riscam seu nome dos registros; mas nem tudo conseguiram destruir, e o que restou ajuda a reconstituir, pelo menos em parte, sua vida e importância para a história egípcia.

O texto apresenta alguns erros tipográficos, o que não atrapalha a leitura. Destaco o fato de aparecer em todo o texto a forma amessida (nome da XVIII dinastia, fundada por Ahmósis I, bisavô de Hatchepsut); a forma correta em português é améssida, análoga a raméssida (designativo da XIX dinastia, fundada por Ramsés I).

Apesar de publicado originalmente há quase  30 anos, é livro ainda atual e que se lê com grande proveito e prazer.

Santarém, PA, 21/1/2015. Editado em 28/2/2015.

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Cama, mesa e banho

DIBIE, Pascal. O Quarto de Dormir: um estudo etnológico. Tradução de Paulo Azevedo Neves da Silva. Rio de Janeiro: Globo, 1988.
[Ethnologie de la Chambre a Coucher. Éditions Grasset & Fasquelle, 1987.]

dibie_quartodedormirO Quarto de Dormir: Um Estudo Etnológico de Pascal Dibie é uma leitura muito instigante. Li-o há uns 10 anos, com muito interesse, e gostei. O autor considera-se “amante da preguiça” e, quando lhe é infiel, produz suas pesquisas, como este livro, em que traça um estudo histórico e etnológico de como o ser humano tem dormido até hoje, desde as cavernas, enrolado em peles, até as camas modernas de hoje (ou da década de 1980, quando a obra foi escrita).

Assim, o autor debruça-se sobre o sono de nossos ancestrais das cavernas (boa proteção contra o frio e os animais), sobre esteiras, nas primeiras camas, em nichos em paredes, tatâmis, além da origem dos colchões e edredons, até as extensões do quarto de dormir, que mudou de natureza e foi incorporando outras funções e apetrechos, como o banheiro.

A posição do quarto dentro da casa, do porão ao sótão (por exemplo, atrás da cozinha, para ser aquecido); as relações do quarto com os demais cômodos da casa, os comportamentos de “cama, mesa e banho”, o surgimento das privadas (chamadas no início “cadeiras de latrina”, pois se tratava de cadeiras com uma abertura no assento, embaixo da qual se punha um vaso para recolha dos dejetos) – tudo isso é comentado, e se vê a história do comportamento de parte da humanidade dentro de casa, principalmente no quarto.

Nem a nossa popular rede, herdada dos indígenas, foi esquecida – o autor a experimentou e apreciou!

Acrescente-se que o estudo abrange também tudo o que se pode relacionar com esta parte tão importante da casa: do comportamento social familiar através dos tempos até o surgimento dos relógios despertadores…

Uma leitura que recomendo, de preferência numa poltrona bem confortável ou numa rede bem preguiçosa, não necessariamente no quarto de dormir.

Texto da contracapa:

Simples canto de caverna coberto de peles de animais ou suntuoso aposento de palácio com grande leito de dossel, o quarto de dormir foi e continua sendo a peça mais importante da habitação, onde o homem passa pelo menos a terça parte de seu tempo. Ao contar a história dessas quatro paredes – testemunhas dos atos mais íntimos do ser humano – o etnólogo francês Pascal Dibie constrói um estudo original, em que aponta as diversas relações entre o objeto de sua análise e os mais variados aspectos culturais nos quais se inserem, como a religião e a sexualidade, a arquitetura e a decoração.

Santarém, PA, 27/2/2015. Editado em 26/4/2016.

Enquanto alguém ainda se lembrar destes homens…

RASPAIL, Jean. Quem se Lembra dos Homens? São Paulo: Globo, 1989.
[Qui se Souvient des Hommes, 1986.]

raspail_quemselembradoshomensLi-o há cerca de 10 anos e fiquei bastante impressionado com a história deste povo dos confins de nosso continente.

Quem se Lembra dos Homens? de Jean Raspail é um livro fantástico que, numa combinação de estudo antropológico e narrativa (semi)ficcional, tenta reconstituir a história de um dos mais singulares povos que já habitaram as Américas, o qual chamava a si mesmo “os homens” – como muitos outros grupos humanos em todos os tempos.

Numa migração cuja lembrança se perdeu na noite da história, os alakalufs (como são conhecidos hoje) chegaram a um dos extremos do mundo, a Terra do Fogo, e lá viram passar os conquistadores do Sul da América, fugindo deles como de todos os povos com que toparam, tentando apenas sobreviver.

Uma leitura emocionante, que ninguém fará sem refletir profundamente, depois da última página, sobre a Humanidade e sua(s) História(s).

Trecho da orelha do livro:

E eles chamavam a si mesmos de Homens. Haviam chegado àquele extremo da Terra que, bem mais tarde, foi nomeado Terra do Fogo – ao término de uma migração tão longa que já a haviam perdido na memória. Empurrados incessantemente por novos invasores, tinham atravessado um continente e milênios na ignorância e no medo. Haviam se estabelecido num lugar onde, ao que tudo indicava, ninguém poderia alcançá-los, de tão cruéis que eram o céu, a terra e o mar naquele inferno austral. Foram talvez um povo, depois não passaram de clãs, de famílias. Um dia, e será amanhã, não existirá mais ninguém além de Lafko – Lafko, filho de Lafko, filho de Lafko, desde o início dos tempos -, o último do Homens, aquele que vemos, na primeira e na última página deste livro, tentando encontrar na tempestade a praia onde ele poderá morrer, sob os olhos de Deus, solitário.
Neste intervalo entre o sonho de Henrique, o Navegador, a aparição dos navios de Magalhães e o desaparecimento dos Homens, estes “selvagens” viram a história passar e submeteram-se a ela. Amanhã, Lafko vai se perder na noite.
Quem se lembra dos Homens? Jean Raspail, após ter encontrado uma das últimas canoas dos alakalufs (esta é a denominação moderna deste povo), não os esqueceu. Neste livro – que, por falta de opção, ele qualifica como “romance”, mas “epopeia” ou “tragédia” talvez fossem mais exatos -, ele recria o destino destes seres, nossos irmãos, que os Homens que os viram hesitaram em reconhecer como Homens.

Santarém, PA, 27/2/2015. Editado em 26/4/2016.