À vaidade do mundo

Salomão retratado por Gustave Doré. Fonte: Wikipedia.
Salomão retratado por Gustave Doré. Fonte: Wikipedia.

Vanitas vanitatum, omnia vanitas.
(Liber Ecclesiastes, I, 2)

“Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!” – diz o milenar livro hebraico do Qoheleth ou Eclesiastes, atribuído ao rei Salomão. O filho e sucessor de Davi, já entrado em anos, experiente e no fim da vida, enumera e condena toda a vaidade e os desenganos do mundo, e termina advertindo os homens para a importância do temor de Deus e observância de Seus preceitos (Eclesiastes XII, 13-14).

Mas nem todos concordam quanto aos reais motivos que levaram o sábio rei Salomão, identificado como o próprio (autor do) Eclesiastes, a clamar em palácio contra o orgulho do mundo: em seu romance A Cidade e as Serras, Eça de Queirós põe na boca da personagem Jacinto a explicação do porquê de Salomão se voltar, no fim da vida, à condenação da vaidade e dos prazeres:

Quando descobre esse sublime retórico que o mundo é ilusão e vaidade? Aos setenta e cinco anos, quando o poder lhe escapa das mãos trêmulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se lhe torna ridiculamente supérfluo. Então rompem os pomposos queixumes! Tudo é vaidade e aflição de espírito! nada existe estável sob o Sol! Com efeito, meu bom Salomão, tudo passa – principalmente o poder de usar trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho sultão asiático, besuntado de literatura, a sua virilidade – e onde se sumirá o lamento do Eclesiastes? Então voltará em segunda e triunfal edição, o êxtase do Livro dos Cantares!… (A Cidade e as Serras, capítulo IX.)

Um dos sete pecados capitais, classificados e descritos pela teologia católica na Idade Média – os outros são avareza, gula, inveja, ira, luxúria e preguiça –, dos quais fosse talvez o mais grave, a vaidade, também chamada orgulho ou soberba, parece ter perdido seu posto de primazia para a preguiça, pecado ou comportamento tão pouco aceito hoje, tempos de valorização do trabalho e do esforço, existindo inclusive cada vez mais pessoas viciadas em trabalho: workaholics.

Na Idade Média havia mesmo quem temesse ser considerado vaidoso por seu conhecimento das letras: literatos muito versados nos clássicos grego-latinos esforçavam-se para redigir em baixo latim, mais próximo dos falares populares românicos, ou mesmo nas línguas vernáculas que principiam a estabelecer-se, com o propósito de não serem tidos por orgulhosos de sua erudição, como conta o linguista Benvenuto Terracini, a certa altura de sua obra Conflictos de Lenguas y de Cultura (1).

Já o trabalho era visto como um mal necessário: é preciso trabalhar e alguém precisa fazê-lo. A sociedade medieval europeia era dividida em três grupos principais ou estamentos: o clero (os orantes), a nobreza (os militantes ou guerreiros) e a plebe (os laborantes ou trabalhadores), presa à terra e encarregada de produzir os necessários suprimentos para a sociedade, enquanto os nobres garantiam a segurança do feudo, do reino e da Cristandade e o clero cuidava das coisas do espírito e do bom comércio dos homens com Deus…

Nos dias atuais, porém, a vaidade – ou orgulho ou soberba – deixou de ser tida por comportamento condenável. Sob sua forma prática, o exibicionismo ou ostentação, é posta a público em todos os lugares e situações; nem a Igreja e seus fiéis escapam disso. Nos muros e na publicidade oficial de importante escola católica paraense era possível ler, até certo tempo atrás, a frase DÁ ORGULHO (?!), destacada e em letras garrafais, o que seria coisa de causar espécie a São Jerônimo, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Santa Clara ou qualquer outro santo, pai ou doutor da Igreja que, embarcado numa máquina do tempo, viesse parar em nossa época e visse tais dizeres na porta de um colégio confessional…

Seja como for, o assunto é bastante recorrente na literatura do Ocidente. No mundo lusófono, produziu um dos mais belos sonetos da língua portuguesa, atribuído ao poeta brasileiro Gregório de Matos Guerra (1636-1696), conhecido como Boca do Inferno:

Desenganos da Vida Humana, Metaforicamente

É a vaidade, Fábio, nesta vida,
Rosa, que da manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.

É planta, que de abril favorecida,
Por mares de soberba desatada,
Florida galeota empavesada,
Sulca ufana, navega destemida.

É nau enfim, que em breve ligeireza,
Com presunção de Fênix generosa,
Galhardias apresta, alentos presa:

Mas ser planta, ser rosa, nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa? (2)

Este mesmo poema é também atribuído, com ligeiras variações, inclusive de título, ao padre português Antônio da Fonseca Soares (1631-1682), também conhecido como Frei Antônio das Chagas:

À vaidade do mundo

É a vaidade, Fábio, desta vida
Rosa que na manhã lisonjeada
Púrpuras mil com ambição coroada
Airosa rompe, arrasta presumida;

É planta que de abril favorecida
Por mares de soberba desatada,
Florida galera empavesada,
Sulca ufana, navega destemida;

É nau, enfim, que em breve ligeireza,
Com presunção de fénix generosa,
Galhardias apresta, alentos presa.

Mas ser planta, rosa e nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa? (3)

Este é apenas um dos exemplos da problemática ligada à obra de Gregório de Matos, que se apresenta como objeto de polêmicas, devido à dificuldade de indicar com precisão a autoria de parte dela. É algo que ocorre também com os poetas Luís Vaz de Camões e Manuel Maria du Bocage e com o escultor Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

Mas, como também dizem as Escrituras: “A quem tem, mais se lhe dará” (Mateus, XIII, 12). Portanto parece ser praxe atribuir a autoria questionável de um objeto a quem já tem muito em seu nome. E assim o catálogo das obras atribuídas a Gregório de Matos, Camões, Bocage e Aleijadinho só segue aumentando!

Coisas da vaidade do mundo…

Notas:
1- TERRACINI, Benvenuto. Conflictos de Lenguas y de Cultura. Buenos Aires: Imán, 1951.
2- In: SPINA, Segismundo. A Poesia de Gregório de Matos. São Paulo: Edusp, 1995. p. 108.
3- In: http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/fchagas.htm (ortografia atualizada).

Santarém, Pará, 21/2/2015. Editado em 22/2/2015.

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A língua portuguesinha e seus diminutivos

Propaganda da Coca-Cola para a Copa do Mundo de 2014 apelava para o uso do diminutivo por brasileiros. Não falamos português, mas sim portuguesinho:

http://economia.ig.com.br/empresas/2014-04-19/coca-cola-lanca-video-em-que-faz-piada-com-o-jeito-de-falar-do-brasileiro.html

Pois é… Esqueceram-se de dizer que o português não é falado apenas no Brasil; além disso, o uso de diminutivos sem real função de diminuição (ou seja, como “linguagem afetiva”) ocorre em todo o domínio da língua portuguesa, não apenas no português brasileiro. Trata-se de estrutura que herdamos do latim, de que descende nossa língua, pois no latim vulgar (ou popular) os diminutivos tinham grande presença.

Exemplos não faltam: a palavra portuguesa abelha veio do latim APICULA, diminutivo de APIS, “abelha”; ovelha veio de OVICULA, diminutivo de OVIS, “ovelha”; orelha veio de AURICULA, diminutivo de AURIS, “orelha”; agulha veio de ACUCULA, diminutivo de ACUS, “agulha”.

Em latim também se usava o diminutivo para formar nomes femininos: galinha veio de GALLINA, diminutivo/feminino de GALLUS, “galo”.

A falta que não faz um linguista ou filólogo numa hora destas…

Menos personal trainers, mais personal teachers!

Santarém, PA, 19/4/2014. Editado em 22/2/2015.

Reforma ortográfica radical

Eis que pinta por aí mais uma proposta de reforma ortográfica do português, desta vez de forma radical: querem eliminar o H, o Ç, o SS, o CH, fixar Z como única representação do fonema /z/ etc. Mas tem-se a impressão de que a proposta de reforma ortográfica é movida menos pela vontade de racionalizar a escrita do que pela preocupação com a dificuldade de dominar a escrita em português, sua acentuação gráfica e pontuação.

Um resumo da proposta pode ser visto aqui:
http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/08/comissao-do-senado-estuda-abolir-c-ch-e-ss-da-lingua-portuguesa-4577821.html.

A ortografia do português é resultado de um processo histórico. A língua transformou-se com o tempo, o sistema fonológico reorganizou-se e a ortografia não acompanhou isso.

Escrevemos casa com S porque em latim se escrevia assim, apesar de ter pronúncia diferente; o mesmo se diga de exército, exame, cebola, face, gelo, axila, sintaxe, almoxarifado, alface, gesso, agasalho, camisa e muitíssimas outras palavras de origem latina, grega, árabe, germânica etc. Isto é exemplo de escrita etimológica, isto é, de acordo com a origem das palavras.

Grafamos chama, chapéu e chave com CH porque a pronúncia, até o século XVII (e talvez XVIII), era diferente: o CH do português representava o mesmo fonema do espanhol CH; portanto, nossos ancestrais linguísticos pronunciavam TCHEIRO, TCHAPÉU, TCHAMA, TCHAVE, FATCHADA, CATCHORRO etc. A pronúncia mudou, a grafia ficou. (Em algumas regiões rurais de Portugal, porém, ainda é funcional a oposição entre os fonemas representados por X (como em roxo) e CH (como em chapéu), o que significa que o processo de neutralização ainda se encontra em curso.)

Parece-me esta apenas mais uma proposta radical (como outras que já apareceram) de reformar a ortografia, combinando grafia com pronúncia, sem levar em conta os hábitos linguísticos dos demais países que falam português e as diversas variações decorrentes da posição ou combinatória dos fonemas; além disso, seus proponentes parecem conhecer pouco sobre a dinâmica das línguas em geral ou sobre fonologia e fonética (são áreas de estudo diferentes, apesar de próximas e com base no aspecto sonoro das línguas).

A ortografia de uma língua deve abranger todas as suas pronúncias. Todos escrevemos porta, falar, pasta e asma do mesmo jeito, apesar das muitas pronúncias possíveis dos fonemas /r/ e /s/ em português; isto é possível porque nossa grafia, apesar de apresentar elementos etimológicos, é fonológica (não fonética, o que não existe): representamos fonemas, que são modelos mentais sonoros, e não pronúncias, que são acidentais e particulares.

Se vivo estivesse, o mais polêmico gramático brasileiro do século XX, Napoleão Mendes de Almeida, com certeza diria que se trata de mais uma “reforma ortográfica para analfabetos”…

Não concordo com todas as ideias de Napoleão, mas considero essa e outras propostas parecidas de reforma ortográfica uma grande imbecilidade – assim mesmo, com C, pois veio do latim imbecillitas; a pronúncia romana era [imbekíllitas], e os dois LL não estão aí como enfeites, pois se trata de consoante dupla, que se simplificou na passagem do latim para o português.

Quem quiser grafar imbecilidade com S, fique a gosto.

Dr. Funk explica… o recalque!

keep-calm-and-pare-de-recalqueEnganam-se os que pensam que o funk brasileiro e seus formadores de opinião nada têm com que contribuir para a cultura contemporânea.

Au contraire! A reintrodução, na cultura popular e de massa, dos conceitos de recalque, recalcamento, recalcado(a) etc. só merece elogios – mereceria também panegíricos, não estivesse tão fora de moda este estilo de composição clássico e “elitista”. Fora de moda e distante do estilo leve, descontraído, moderno do alegre funk…

Popularizar o conceito de recalque, antes restrito ao domínio da psicanálise e psicologia, é uma das maiores contribuições da cultura brasileira à discussão sobre os problemas de comportamento e de inserção social de muitos indivíduos – ou para, simplesmente, explicar o porquê de tantas pessoas ranzinzas e irritantes que vivem a reclamar do que acham que está errado e teimam em dar sua opinião, mesmo sendo ela o contrário do que pensa a maioria das pessoas. Sim, pois não há nada errado, tudo está na mais perfeita ordem.

Afinal, já dizia há tempos o doutor Pangloss, em sua cândida sabedoria: “Vivemos no melhor dos mundos”. É isso! Não há motivo ou razão para queixar-se de nada. E por que razão, em assim sendo, tanta gente reclama disto ou daquilo, se a vida é tão boa? A explicação é uma só: o recalque!

A Teoria do Recalque é, portanto, a explicação mais satisfatória para tudo de ruim – ou nem tanto assim – que ocorre em nossa sociedade.

Se não, vejamos.

Por que reclamar dos motoristas que passam com seus carros tocando música (?) em altíssimo volume? Só podem ser uns recalcados os que reclamam disto, pois gostariam, na verdade, de estar lá também, curtindo o som “maneiro”.

Por que comentar negativamente a saia curta daquela mulher? Recalque, pois quem critica gostaria de ter pernas como aquelas, que só com a saia curtinha se podem mostrar.

Por que clamar contra a corrupção, se não por recalque? Gostaríamos de estar no grupo que participou daquela negociata, não é mesmo? Os apresentadores de programas policiais ou do “mundo cão” são recalcados, pois reclamam dos crimes cometidos pelos outros, quando eles mesmos também gostariam de sair cometendo uns crimezinhos por aí.

Por que duvidar da capacidade de discernimento dos eleitores do outro candidato? Só pode ser por causa do maldito recalque, já que nosso candidato não foi eleito.

Por que reclamar dos bugs do Windows, se não pelo fato de que, na verdade, somos uns recalcados e gostaríamos de ter um Macintosh?

A Miss Brasil não foi eleita Miss Universo? Retaliação motivada pelo recalque, é claro, pois nenhuma gringa tem a ginga, a classe, a beleza que as brasileiras têm.

Eles querem separar sua região para criar uma província independente? Recalcados, obviamente. Nós somos contra? Somos recalcados também – mas não espalhe!

A cerveja deles espuma mais do que a nossa? Recalque espumoso!

E, por fim, por que reclamar dos pobres índios, que não aceitam a construção de hidrelétricas, rodovias, ferrovias, fábricas e outras coisinhas boas da civilização nas terras federais que ocupam? A resposta é o recalque: gostaríamos de ser como eles, andando nus pela mata, caçando, pescando, colhendo, banhando-nos em riachos de água pura e cristalina, integrados à natureza e à Mãe Terra-Gaia e sem preocupação com falta de água ou energia, engarrafamentos de trânsito, poluição, contas para pagar, IR, IPI, IPVA, IPTU, ICMS, ISS, INSS, iOS, CPMF, Cide, Cid, Sabesp, Celpa, Cosanpa, OVNI, USA, URSS, PT, PSDB, PMDB…

Por isso, não seja recalcado(a), não se queixe de nada, pois não há nada de que se queixar. E não expresse sua opinião, pois ninguém quer saber dela.

Lembre-se: tudo o que você disser ou fizer, em relação a qualquer coisa, poderá ser usado como recalque contra você mesmo!

Sim, de fato o funk deu uma contribuição de suma importância para a cultura contemporânea brasileira. Eis um fato que somente uma pessoa recalcada não reconheceria.

P. S.: É claro que eu também sou um recalcado, caso contrário não teria escrito isto.