Amor-perfeito [poema de Laurindo Rabelo]

amor-perfeito-vermelho
Amor-perfeito (Viola tricolor L.) – Fonte: https://fiorebellafloresecestas.wordpress.com

AMOR-PERFEITO

Laurindo Rabelo (1826-1864)

Secou-se a rosa… era rosa;
Flor tão fraca e melindrosa,
Muito não pôde durar.
Exposta a tantos calores,
Embora fossem de amores,
Cedo devia secar.

Porém tu, amor-perfeito,
Tu, nascido, tu afeito
Aos incêndios que amor tem,
Tu que abrasas, tu que inflamas,
Tu que vegetas nas chamas,
Por que secaste também?!

Ah! bem sei. De acesas fráguas
As chamas são tuas águas,
O fogo é água de amor.
Como as rosas se murcharam,
Porque as águas lhes faltaram,
Sem fogo murchaste, flor.

É assim, que bem florente
Eras, quando o fogo ardente
De uns olhos que raios são,
Em breve, mas doce prazo
Te orvalhou naquele vaso
Que já foi meu coração.

Secaste, porque esse pranto
Que chorei, que choro há tanto,
De todo o fogo apagou.
Triste, sem fogo, sem frágua
Secaste, como sem água,
A triste rosa secou.

Que olhos foram aqueles!
Quando eu mais fiava deles
Meu presente e meu porvir,
Faziam cruéis ensaios
Para matar-me. Eram raios,
Tinham por fim destruir.

Destruíram-me: contudo
Perdoo o pesar agudo,
Perdoo a pungente dor
Que sofri nos meus tormentos,
Pelos felizes momentos
Que me deram nesta flor.

Ai! querido amor-perfeito!
Como vivi satisfeito,
Quando te vi florescer!
Ai! não houve criatura
No prazer e na ventura
Que me pudesse exceder.

Ai! seca flor, de bom grado,
Se tanto pedisse o fado,
Quisera sacrificar
Liberdade e pensamento,
Sangue, vida movimento,
Luz, olfato, sons e ar

Só para ver-te florente,
Como quando o fogo ardente,
De uns olhos que raios são,
Em breve, mas doce prazo,
Te orvalhou naquele vaso
Que já foi meu coração.

In: RABELO, Laurindo José da Silva. Obras Completas: Poesia, Prosa e Gramática. Organização, introdução e notas de Osvaldo Melo Braga. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1946. (Livros do Brasil, 8). p. 289-291. Ortografia atualizada.


O autor:
Laurindo José da Silva Rabelo, médico, militar e poeta brasileiro, nasceu no Rio de Janeiro em 8 de julho de 1826 e faleceu na mesma cidade em 28 de setembro de 1864. Foi seminarista, mas não chegou a ordenar-se. Formou-se em medicina e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, servindo no Rio Grande do Sul; foi também professor da Academia Militar. Mais sobre Laurindo Rabelo: https://pt.wikipedia.org/wiki/Laurindo_Rabelo.

Santarém, PA, 18/7/2016.

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