Complexo canino

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Este não tem complexo nenhum: sabe exatamente o que quer!

A mídia brasileira e seus colaboradores continuam a ser as “delícias do gênero humano” que tão bem conhecemos!

19 de julho. TV Globo News. Assunto: bloqueio do aplicativo Whatsapp por uma juíza do Rio de Janeiro. Um “especialista em tecnologia” diz que a juíza agiu de modo “infantil e com complexo de vira-lata”. Por quê? Porque, segundo o “especialista”, ela reclamou de que recebeu, da empresa responsável, uma resposta em inglês. A meritíssima juíza tivera um chilique, um mimimi de quem não sabe inglês!

Ou seja, seguindo-se o raciocínio de nosso “especialista”, os gringos falam conosco em inglês e nós temos a obrigação de saber sua língua; quem reclama disso é um vira-lata.

Conclui-se então o Brasil é um grande canil (até rima!), pois creio que apenas 1% de nossa população sabe inglês de modo satisfatório para compreender falantes dessa língua e fazer-se compreender por eles; os demais são vira-latas, tomba-latas, rasga-sacos ou quaisquer outros espécimes caninos de raça não definida e falantes apenas dessa língua canina chamada português. (Eu, por exemplo, devo ser um vira-lata de porte considerável – não vou revelar aqui meus 115 kg bem mal distribuídos – ops!: assim como o notório coronel Ponciano de Azeredo Furtado, quase destronco toda e qualquer balança na qual subo!)

Não entremos no mérito da questão jurídica: não importa se o Estado pode ou não obrigar empresas de comunicação a fornecer dados de seus clientes, ainda que seja para fins de investigação policial ou judicial. O “especialista” errou feio em sua análise da conduta da juíza, pois é evidente que o conceito de complexo de vira-lata usado por ele está malandramente invertido.

Vejamos.

O complexo de vira-lata diz respeito a uma espécie de baixa autoestima, que levaria o brasileiro a sentir-se inferior a outros povos e a tentar emulá-los, imitá-los ou macaqueá-los para ser como eles – e ser aceito em seu clube. Daí a negação de tudo o que é nacional ou nativo, tido por inferior em comparação com o que vem de fora: tudo o que é nosso é inferior, por isso devemos deixá-lo de lado e assumir os modos estrangeiros. Nada podemos contra os gringos, e eles sempre sabem o que é melhor para nós.

No caso de algum revés – como a célebre derrota para o Uruguai na Copa do Mundo de 1950 – a causa seria esse complexo, pois, apesar das belas vitórias anteriores, em momentos decisivos os brasileiros já se considerariam derrotados por antecipação, conscientes de que jamais venceriam.

Eis portanto o complexo: somos reconhecidamente inferiores e não somos capazes de vencer. Ou, por outra: “A gente joga bola e não consegue ganhar”.

O menosprezo de nossa língua em favor do inglês ou qualquer outra é sintoma desse complexo; o mesmo com respeito a nossa história, nossa literatura, nossa comida – a brasilidade, enfim.

Não prego aqui um comportamento nacionalista ou xenófobo – longe disso!

Mas a atitude da juíza, ao reclamar de uma resposta institucional em inglês emitida pelo Facebook/Whatsapp, não tem nada de complexo de vira-lata, muito pelo contrário: ela exigiu tratamento respeitoso e adequado por aquela empresa estrangeira, que deve, no Brasil, utilizar em seu trato com as autoridades e clientes/consumidores a língua nacional e oficial, o português.

Sua atitude seria indício do complexo de vira-lata se ela tivesse silenciado diante da atitude grosseira (ou apenas automática) da empresa, tendo-a por normal: “Eles estão com a razão; se não sei a língua deles a culpa é minha”. Nada disso!

E o “especialista” considerou a reclamação dela um sintoma de vira-latismo.

Que sina a nossa!

Por décadas o complexo de vira-lata foi a justificativa de nosso atraso: éramos inferiores e nada conseguíamos de notável por causa disso, não tínhamos futuro, não éramos civilizados nem tínhamos direito a um lugar no concerto das nações. Nadávamos, nadávamos e morríamos na praia! Merecidamente. Um discurso de “inferioridade natural” (e de origem racial) mantinha contido, quieto, “pacificado” o nosso povo, sem esperança de um futuro melhor, pois não tínhamos direito a ele, não éramos capazes de atingi-lo.

E a fina flor de nossa brasilidade, por meio de seus “especialistas”, nos prestava o grande favor de mostrar nossa incapacidade e nos punha no devido lugar.

As coisas foram mudando. Aos poucos mostramos – inclusive a nós mesmos – que somos tão capazes quanto os demais povos. Não inferiores, tampouco superiores. Apenas iguais, apesar de nossas dificuldades. Também podemos contribuir para a civilização mundial. Fim do complexo!

Será?

Mas assim não pode, assim não dá, assim não é possível!

E a reação logo veio. O complexo de vira-lata se transformou, seu significado se alterou.

Agora, querer que uma instituição brasileira possa peitar qualquer empresa estrangeira é indício de complexo de vira-lata. Exigir tratamento de igual para igual é complexo de vira-lata. Pedir que os gringos, no Brasil, falem nossa língua é febril complexo de vira-lata. Pensar em resolver nossos problemas por nós mesmos é indicativo de complexo de vira-lata no mais alto grau!

Antes queríamos, mas não conseguíamos; agora conseguimos, mas não podemos.

Éramos um vira-lata magro, faminto, sarnento e de rabo entre as pernas, enxotado de cá para lá pelas ruas do mundo; agora que nos tornamos um cão de fila grande, robusto, decidido, nos puseram coleira, focinheira e correntes.

A inversão de sinal do complexo de vira-lata é mais um indicativo de que, no Brasil, as coisas mudam para que tudo continue como sempre foi.

Santarém, PA, 28/7/2016.

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