Amassando errado!

Fonte: TSE, 2016.
Fonte: TSE, 2016.

Ao chegar a Santarém, Pará, em 2009, tratei logo de transferir meu título de eleitor para o novo domicílio eleitoral. E já no ano seguinte, 2010, fui convocado pela Justiça Eleitoral para atuar como mesário nas eleições.

Fui nomeado presidente de uma seção eleitoral numa área distante de Santarém, no distrito do Lago Grande de Curuai. Partindo da sede do município, na sexta-feira anterior ao domingo da votação, depois do almoço, navegamos por cerca de sete horas em B/M (barco a motor ou, como se diz aqui, barco-motor). Chegamos a uma localidade na margem direita do Amazonas, antes da meia-noite; ali se atracaram os barcos e dormimos em redes atadas dentro das próprias embarcações.

No dia seguinte, sábado, véspera da votação, um pouco antes do meio-dia, depois de viajar horas de ônibus numa estrada de terra (e poeira, muita poeira!) e em carros ou na garupa de motocicletas por “ramais” que mais parecem trilhas, chegamos às comunidades onde seriam instaladas as aparelhagens para a “festa da democracia”!

A historinha para por aqui, pois meu intuito é outro, e vou direto ao ponto.

Fui presidente de seção ali em 2010 (dois turnos) e 2011 (plebiscito). Uma das coisas que notei naquela comunidade de ribeirinhos – cuja seção eleitoral tinha menos de 80 eleitores – foi um uso sui generis (pelo menos para mim) do verbo amassar com o sentido de “apertar teclas ou botões” ou, simplesmente, “teclar”.

De fato, vários eleitores ainda mostravam certa dificuldade e falta de intimidade com equipamentos eletrônicos e seus botões ou teclas, incluindo-se a urna eletrônica. Durante a votação, os eleitores brincam uns com os outros: “Não vá AMASSAR errado”, “Não AMASSE errado”, “Não esqueça de AMASSAR o verde”, “Ih! AMASSOU errado!” etc. Muito curioso esse uso de amassar, num contexto em que muita gente usa e vê/ouve teclar ou apertar. Uso apenas local ou comum a outras áreas da Amazônia? Cabe pesquisa sobre o assunto.

Lembrei disso tudo estes dias porque um jornalista de alta plumagem acadêmica contou numa TV “news” que uma reforma da previdência deixou de ser aprovada durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-1998, 1999-2002) por falta de um único voto. Segundo ele, o deputado Antônio Kandir (PSDB/SP) se confundiu na hora de usar o sistema de voto eletrônico e, pensando estar votando SIM, votou NÃO – e a proposta não passou na Câmara dos Deputados. Que lambança!

Fica o conselho aos tucanos de todas as plumagens: na hora de votar, se tiverem problemas com os dedos, usem o bico, pois vocês são muito bons nisso. Mas não AMASSEM o botão errado!

Santarém, PA, 9/12/2016. Leia e curta também no Blogspot.

Esperando marido

Sempre houve certo desprezo (e ainda o há) contra as áreas de humanidades: dizia-se, em outros tempos, que as ciências sociais em nada contribuíam com a sociedade, pois não “salvavam vidas” nos hospitais, não ajudavam a abrir estradas, não melhoravam a produção rural nem davam formação para as carreiras do Estado.

E no âmbito das próprias ciências sociais, os cursos da área de letras eram os mais desprestigiados, até execrados: devido à grande presença de mulheres, eram chamados de “faculdades espera-marido”, porquanto alguns diziam que serviam apenas para dar formação às mulheres, sem que necessariamente entrassem no mercado de trabalho – como no filme O Sorriso de Mona Lisa.

Mas parece que as coisas mudaram.

Nossa atual primeira da classe no quesito “bela, recatada e do lar” é formada em DIREITO…

Santarém, PA, 25/4/2016.

Muro anti-ianque

Donald Trump promete que, se for eleito presidente dos Estados Unidos, construirá um muro ao longo de toda a fronteira com o México; o objetivo, segundo ele e seus adeptos, é separar de vez ambos os países e impedir que os mexicanos entrem ilegalmente nos EUA levando drogas, crimes e outras mazelas sociais atribuídas aos imigrantes.

Mas talvez a construção desse novo muro da vergonha seja uma iniciativa positiva para ambos os lados.

Sim, talvez os próprios mexicanos gostem da ideia, se pensarem nela com mais calma, e sejam beneficiados pelo muro também.

Afinal, como sabemos, todos os criminosos norte-americanos fogem ou sonham fugir para… o México!

Santarém, PA, 17/4/2016.

A espada e a toga

Uma coisa para pensar:

Em 1937, Aníbal Ponce publicava sua obra Educación y Lucha de Clases, que se encerra relembrando uma história dos tempos do tirano argentino Juan Manuel Rosas. Em 1842, para conter os focos de agitação e revolta que surgiam em oposição a seu governo nas poucas escolas do país, Rosas nomeou como diretor do ensino primário ninguém menos que o… chefe de polícia!

Nada para espantar-nos. Os latino-americanos nos acostumamos a ver os militares como protagonistas em momentos de agitação política.

Mas parece que as coisas mudaram. Em dezembro de 2001, quando caiu Fernando de la Rúa e a Argentina teve três presidentes em um mês, lembro-me de ter lido um comentário de que nem os militares argentinos queriam assumir o governo de lá.

Hoje no Brasil os militares estão em paz, recolhidos à caserna, respeitando a lei e as instituições como se nada de anormal estivesse acontecendo. Nada “militar”, digamos.

O protagonismo que temos visto é da Justiça: juízes, promotores, procuradores, Ministério Público, ministros do STJ, TCU, TSE, STF…

Enquanto isso, o governador de São Paulo nomeia como secretário de Educação… um desembargador.

Espero que seja apenas coincidência.

Santarém, PA, 15/4/2016.

Democracia cordial

Cada dia me convenço mais de que a sociedade brasileira é doente. Trata-se de uma doença crônica de mais de 500 anos, cujos sintomas se mostram mais graves nos dias atuais.

Não vou nem mesmo citar os inúmeros preconceitos que ainda persistem em nosso país. (E é lamentável que muitas pessoas não tenham consciência ou vergonha de suas falhas morais nem se esforcem para vencê-las.)

É normal que haja opiniões políticas divergentes em todos os lugares – somente os néscios não sabem disso.

Mas agredir ou incitar a agressão (física ou apenas moral) de pessoas com opiniões diferentes; negar atendimento médico por motivos de divergência política; pedir que uma intervenção militar instaure uma ditadura; usar cargo público (eletivo ou não) e a máquina do Estado para assumir protagonismo e influir na opinião da sociedade; enfim, achar que os fins justificam os meios e assim agir; além de outras coisas, como apoiar condutas execráveis apenas para que se realizem seus desejos políticos – tudo isto é, para mim, demonstrações de que, como disse Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil:

“A democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido.”

Parece que ainda o é. Infelizmente.

Santarém, PA, 14/4/2016.

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Monarquia à brasileira

640px-Flag_of_Empire_of_Brazil_(1870-1889).svgAssistindo a um filme sobre a monarquia britânica, convenci-me de que devemos ser muito gratos a Deodoro da Fonseca, Quintino Bocaiuva, Benjamin Constant e os demais que, em 15 de novembro de 1889, com um golpe de estado derrubaram o Império Brasileiro e nos deram a República dos Estados Unidos do Brasil.

O motivo?

Os Próceres da República pouparam-nos da vergonha de ser a monarquia mais ridícula do mundo!

Duvidam disso?

Já imaginaram como seria se, além das presepadas diárias de nossos políticos, ainda tivéssemos de aturar os escândalos de nossa casa real e sua farândola de nobres parasitas e perdulários?

De manhã, veríamos no sisudo jornal A Província de S. Paulo que, na noite anterior, o duque das Neves Gerais, acompanhado de uma beldade da família real da Frísia ou do Irã, fora pego dirigindo bêbedo seu veículo automóvel da marca Jaguar e se recusara a fazer teste de bafômetro – pois aos nobres esse exame não é obrigatório.

Depois leríamos na Carta Imperial que o barão das Cunhas é acusado de ter dinheiro ilegal em suas contas na Suíça.

Já o marquês das Alagoas de Renânia tenta escapar de mais um processo no Senado do Império, enquanto Dom Santana, gentil-homem da Bahia, é preso para explicar a campanha de reeleição da primeira-ministra, sob investigação.

Tudo isso mostrado com os habituais cortes e retoques no Jornal Imperial da TV Orbe do jornalista Dom Robert Marinus…

Sim, escapamos de ser a monarquia mais ridícula do mundo; mas entre as republiquetas ainda temos bastante concorrência!

Santarém, PA, 1º/3/2016.

A lei e o terrorismo

Não sei o que dizer da Lei Antiterrorismo ora em discussão no Congresso Nacional. O projeto, originário do Senado, foi discutido na Câmara e lá sofreu alterações; mas parece não estar agradando a gregos nem a troianos.

Movimentos sociais e militantes de esquerda acusam a lei de ser muito DURA; segundo eles, ela permite considerar como terroristas esses próprios movimentos e as manifestações e protestos em favor dos direitos humanos ou reivindicações sociais.

Já a oposição ao governo e militantes de direita acham que a lei é MOLE demais, pois para estes ela permite que atos violentos e de destruição (tidos em outros países como atos de terror) sejam cometidos sob a alegação de ocorrerem em contexto de manifestações sociais.

Ou ambos os lados têm alguma razão… ou nenhum deles tem. Eis aí o busílis: saber o que é ou não um ato terrorista.

Mas talvez a coisa nem seja assim tão difícil: todos têm sua própria noção do que seja terrorismo.

Terrorismo é aquilo que os outros fazem.

Santarém, PA, 29/2/2016.