A maldição do faraó

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Aquenáton, Nefertíti e duas de suas filhas. Fonte: http://www.arqueologiaegipcia.com.br.

Há algum tempo, numa manhã de domingo, tive a impressão de que havia baixado em um de meus vizinhos o espírito do faraó Aquenáton (ex-Amenófis ou Amenhotep IV).

Tão logo o Sol deu as caras, o vizinho tratou de dar início às homenagens ao disco solar Áton, que a tudo ilumina e abençoa com seus raios, possibilitando a fecundação da terra e do ventre das mulheres, enchendo de leite as mamas das fêmeas para a nutrição dos rebentos, fazendo subir as águas do Nilo, as quais, quando se vão, deixam suas margens cobertas dos nutrientes que levarão a abundantes, fartas colheitas, evitando-se os sete anos de espigas finas e vacas magras preditos por um hebreu de nome Zé.

Mas parece que a incorporação do faraó em nosso amigo tupiniquim não foi bem sucedida. Ao invés do Hino ao Sol, o que se ouviu foi uma procissão de cantos profanos e blasfemos, que nos feriam e ensurdeciam os ouvidos do corpo e da alma! E o danado do felá amazônida não se apercebia disso, enquanto fazia, paralelamente à execução de tais cânticos, o ritual semanal de lavagem de sua carruagem de quatro rodas, que ele julga talvez mais bela que a conduzida por Ramsés II, o Grande, na gloriosa batalha de Kadesh.

O tempora! O mores! Blasfêmia! Anátema! Um grito de horror ecoou por todo o Alto e Baixo Egito, da Quarta Catarata ao Delta do Nilo, de Abidos (ou seria Óbidos?) a Alexandria! Juntei minha voz ao coro dos aflitos, rasguei as vestes, vesti-me com um saco e cobri-me de cinza, prostrando-me de rosto ao solo e orando à deusa Ártemis de Éfeso (também conhecida como Diana ou Míriam), pedindo um milagre, um alívio para tal situação. E ela respondeu, enviando-me a musa Euterpe, que me orientou a atacar com o que de melhor se produziu sob a inspiração das Nove Irmãs.

Enquanto lá fora ele ofendia os deuses, dentro de casa eu me defendia…

Disso tudo escapou Aquenáton: tão logo desceu ele à tumba, juntando-se a seus ancestrais, os sacerdotes egípcios de Ámon, em conluio com as autoridades da terra de Kemit, fizeram o país retornar à antiga religião, amaldiçoando e riscando da História o nome e a memória do faraó rebelde e sua família.

Mas a História e a Arqueologia o reencontraram.

Santarém, Pará, 13/11/2013. Editado em 3/8/2015.

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