E os gregos falavam inglês…

Não me canso de ser surpreendido pela falta de cultura geral que campeia na televisão brasileira. Nem a TV paga escapa!

Assistindo no canal History 2 a um documentário sobre as Guerras Médicas (ocorridas no século V a.C. entre gregos e persas, estes conhecidos também como medas ou medos), vejo ser contada a famosa façanha do soldado grego que, em 490 a.C., correu mais de 40 quilômetros, do campo de batalha em Maratona até Atenas, para informar que os gregos haviam vencido aquela importante batalha.

Ao chegar a Atenas, gritou “Vitória!”… e caiu morto.

É fato conhecidíssimo; deu origem à prova olímpica moderna chamada Maratona.

Mas a novidade é que o programa do History 2 mostra, para espanto geral, que os gregos daquela época não falavam grego, mas INGLÊS.

Por quê?

Porque o dublador de um dos historiadores entrevistados, ao pronunciar a palavra dita pelo soldado, disse NÁIKE!

Ora, mas esta é a pronúncia do nome inglês Nike, que designa uma marca de produtos esportivos. A palavra inglesa veio da palavra grega Νίκη (transliterada modernamente em caracteres latinos como Níkē). A pronúncia grega era [nike:], com acento tônico no [i] e a vogal [e] alongada.

Era o nome da deusa grega Nice (chamada VICTORIA pelos romanos), divindade relacionada à vitória, força e velocidade. Os romanos, quando usavam o nome grego da deusa, grafavam a palavra como NICE – assim mesmo, com C – e pronunciavam à maneira grega; a grafia romana é, portanto, a forma de origem do nome feminino Nice no português e noutras línguas modernas europeias, com pronúncias variadas. Já nossa palavra vitória – substantivo comum e também nome próprio – veio do nome latino, obviamente.

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“Vitória de Samotrácia”, Museu do Louvre, Paris, França. Foto de Adrian Pingstone. Fonte: Wikipedia.

O nome Vitória designa também as estátuas que representam essa divindade greco-latina, das quais uma das mais conhecidas e admiradas é a Vitória de Samotrácia (cerca de 200 a.C.), atualmente no Museu do Louvre, Paris, França. A figura feminina presente na Taça Jules Rimet, dada ao campeão mundial de futebol desde 1930 até 1970, também era uma representação da deusa Vitória ou Nice.

Que os falantes de inglês pronunciem nike como NÁIKE é problema deles; mas pronunciarmos assim como se fossem os gregos a falar é uma tolice. Ou se diz simplesmente vitória, em português (traduzindo-se o termo grego), ou se pronuncia a palavra grega à maneira grega: NIKE.

O que não é aceitável é sair por aí pensando que todas e quaisquer palavras de outras línguas se pronunciam como as palavras inglesas.

Uma sugestão: Se você não sabe como se pronuncia uma palavra estrangeira, seja natural e pronuncie-a como se fosse palavra portuguesa ou o mais próximo disso; não há demérito nenhum em assim proceder. Ninguém é obrigado a saber palavras de outras línguas.

Mas não leia palavras espanholas, francesas, italianas, gregas etc. como se fossem inglesas. Isto pega mal.

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Tataravó, tetravó ou trisavó?

Hoje os britânicos comemoram que a rainha Isabel II (ou Elizabeth, para os íntimos) completa 63 anos e 217 dias de reinado, superando o recorde da rainha Vitória, que reinou de 1837 a 1901, período conhecido como Era Vitoriana.

Mas enquanto a monarquia britânica retoma cada vez mais seu prestígio, nossa imprensa derrapa, pois além das acusações de parcialidade, partidarismo, manipulação, golpismo e coisas que tais, soma-se o pecado de não conhecer direito o vocabulário da própria língua.

Toda a imprensa tupiniquim noticia que a rainha Isabel II “quebrou o recorde de sua TATARAVÓ Vitória”.

Isto é um erro dos mais grosseiros!

A rainha Vitória foi TRISAVÓ de Isabel II. Vejamos a linha genealógica:

  • Vitória foi mãe de Eduardo VII;
  • Eduardo VII foi pai de Jorge V;
  • Jorge V foi pai de Jorge VI;
  • Jorge VI foi pai de… Isabel (Elizabeth) II.

Se Vitória foi mãe do bisavô de Isabel II, logo foi sua TRISAVÓ. Claro como o sol.

Para completar: TATARAVÓ é forma popular, que devemos evitar nos textos escritos e formais; a forma adequada e indicada é TETRAVÓ, feminino de TETRAVÔ.

A tetravó de Isabel II foi a princesa Vitória de Saxe-Coburgo-Saalfeld, esposa do príncipe Eduardo, que era filho do rei Jorge III e irmão dos reis Jorge IV e Guilherme IV.

Além de não ter vergonha do mal que faz ao país, parte de nossa imprensa ainda precisa aprender a consultar dicionários e enciclopédias.

Santarém, Pará, 9/9/2015.