Nacionalité… française?

Num programa de TV, um dos comentaristas convidados declina a pergunta que já se tornou chavão nas últimas semanas após os atentados de 13 de novembro em Paris: “Como é possível que jovens franceses, jovens nascidos e criados na França cometam esses atentados contra a própria França?” A pergunta vale também para os belgas envolvidos e é repetida à exaustão nos meios de imprensa.

Talvez a pergunta esteja sendo mal formulada; ou talvez nem seja essa a pergunta a ser feita.

As pessoas nascidas em território da França têm nacionalidade francesa, não importando de onde tenham vindo seus pais; o processo é semelhante no Brasil e na própria Bélgica, além de muitos outros países. Não há dúvida, portanto, de que os terroristas em questão eram franceses, assim reconhecidos pelo estado francês.

Mas será que eles consideravam a si mesmos franceses? Será que se sentiam, se viam a si mesmos franceses? Tinham-se e eram tidos como tais pelos demais? Olhando ao redor de si em Paris, Lião, Bordéus ou na Provença eles se sentiam como parte daquele ambiente, daquela paisagem?

Mais: será que a França de seus sonhos não seria um país de população majoritariamente muçulmana, com a história e a cultura marcadas pelo islamismo? Ao invés de “Filha Predileta da Igreja”, não gostariam que a França fosse a “Filha Predileta do Islã”?

Discute-se nos tempos atuais a fluidez, a imprecisão das identidades, além da autodeterminação: o indivíduo tem o direito de identificar-se como quiser, mas ao mesmo tempo essa identidade pode ser múltipla, pois o cidadão participa de vários grupos, várias identidades a um só tempo. Não há um só modo de “ser brasileiro” ou “ser francês”; por outro lado, um brasileiro pode ser também, concomitantemente, francês – e vice-versa. O que não é coisa de hoje, pois se atribui a Thomas Jefferson a seguinte frase, que descreve o espírito de uma época: “Todo homem tem duas pátrias: a sua e a França”. O brasileiro Tomás Lopes enriqueceu-a: “Paris é a segunda pátria de toda pessoa inteligente”.

Voltando à imprecisão da identidade, temos que Mário de Andrade já nos tinha adiantado isso em seu Macunaíma: o “Herói sem Nenhum Caráter” é filho da “índia Tapanhumas”, nasce “uma criança feia” e torna-se depois “branco”; e em seu trânsito pelo espaço brasileiro, ao qual se molda, mostra-se diferente em cada local.

Ainda que se aceitasse haver um só modo de “ser brasileiro”, por exemplo, isso estaria em constante mudança, detectando-se na mesma sociedade estágios diversos de um mesmo processo de evolução cultural.

Assim, o que se deve perguntar é o que a República Francesa (incluindo-se aqui o Estado e seu povo) tem feito para a integração dos imigrantes e seus filhos à cidadania e cultura do país, respeitando ao mesmo tempo suas particularidades, as identidades dos grupos menores. O fato de alguém ser muçulmano, judeu, cigano ou filho de africanos ou latino-americanos não é empecilho para que seja tão francês quanto os demais ou para ser reconhecido (inclusive por si mesmo) como tal.

Trata-se, portanto, de um processo de mão dupla: educar a pessoa desde a infância para reconhecer no outro um concidadão, apesar de suas diferenças, ao mesmo tempo em que se educa esse cidadão para reconhecer-se como integrante daquela comunidade, apesar de saber ser diferente dos demais.

A simples ação tradicional do Estado já não basta, está ultrapassada. É preciso repensar o conceito de nacionalidade, mas sem cair no nacionalismo chauvinista – o que pode ser difícil.

Não é mesmo um trabalho fácil. Mais do que política de Estado, deve ser um debate da própria sociedade, a atravessar gerações.

Vale também para o Brasil.

Santarém, Pará, 27/11/2015.

Anúncios