Inveja maravilhosa

De acordo com alguns comentadores progressistas e safos das redes sociais, muitas das críticas aos gastos elevados e outros problemas da Olimpíada de 2016 são de paulistas invejosos da realização dos Jogos Olímpicos na cidade do Rio de Janeiro.

Será?

Sou suspeito para opinar, pois sou paulista e crítico da realização de eventos desse tipo; creio que os esforços humanos e financeiros do país devem convergir para outros fins de que estamos mais necessitados.

Não precisamos de megaeventos. Precisamos de melhores escolas, melhor saúde, saneamento e investimento em ciência e infraestrutura.

Não quero medalhas. Quero que crianças e jovens saibam matemática, leiam e escrevam com fluência e compreendam a evolução das espécies.

Segundo esses formadores de opinião de caixas de comentários, se alguém critica a Rio 2016, só pode ser paulista!

Portanto, ou os paulistas são mais numerosos do que se pensa, ou muita gente no Brasil tem em si – para seu infortúnio – um pouco de paulista… e não sabe!

Ou (o que é o mais provável) tais críticas nada têm que ver com o bairrismo nojento de que ainda não nos livramos – e que parece ter-se fortalecido nos últimos tempos.

Santarém, PA, 22/8/2016.

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Não choramos por ti, Argentina!

Ainda que nem sempre reconheçam isso, os brasileiros vivem olhando por cima da cerca para ver o que se passa em seu principal vizinho, a República Argentina. A reação brasileira típica ao que se passa por lá é geralmente a empáfia, às vezes o ódio, raramente a inveja.

A vitória de Mauricio Macri nas eleições presidenciais argentinas deste ano deve ter provocado todos esses sentimentos nos brasileiros, atualmente mesmerizados pela política. Muitos devem, com certeza, ter ficado com inveja dos argentinos, que elegeram um candidato de oposição que pôs fim a 12 anos de governo peronista-kirchnerista. Devem estar perguntando-se: “Que fizemos de errado? Como os argentinos conseguiram isso?” Talvez aprendam com o candidato derrotado, Daniel Scioli, a reconhecer a derrota com altivez e ostentar postura mais republicana.

O candidato eleito Macri promete dar uma guinada na política e na economia da Argentina: pretende, por exemplo, cobrar a aplicação da “cláusula democrática” em relação à Venezuela, devido às denúncias de desrespeito aos direitos humanos, o que pode suspendê-la ou até excluí-la do Mercosul; talvez isso não ocorra (pois depende dos votos de todos os membros do bloco), mas provocará, com certeza, fissuras nas relações da Argentina com os demais parceiros, principalmente o Brasil.

Macri quer também promover reformas na economia, o que pode aproximar o país dos Estados Unidos, recebendo apoio dos investidores internacionais: os portenhos parecem ter em mira o recém-criado Tratado do Pacífico. Aproximando-se dos EUA, a Argentina deixaria de fazer parte do chamado Eixo Bolivariano (!?); de quebra, conquistaria um maior protagonismo na região, talvez arrastando outros vizinhos consigo. É o que talvez preocupe muita gente no Brasil.

Mas não nos incomodemos com isso. O Brasil prepara-se para receber a Olimpíada de 2016 na cidade do Rio de Janeiro. Apesar de falido, o estado do RJ gasta o que não tem em obras de infraestrutura; a prefeitura da cidade não faz diferente.

A propaganda oficial do evento regozija-se de que conseguimos trazer os Jogos Olímpicos para a América do Sul “antes dos argentinos”…

É isso. Conseguimos sediar os jogos antes da Argentina. De que mais precisamos?

Santarém, Pará, 28/11/2015. Editado em 4/12/2015.