Michael S. Hart, um visionário

Oh! Bendito o que semeia
Livros… livros à mão cheia…
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.

Castro Alves, O Livro e a América

No dia 4 de julho de 1971, o americano Michael Stern Hart recebeu um presente inusitado: uma cópia impressa de distribuição gratuita da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América. Aquilo lhe deu uma ideia: digitar o texto no computador (um Sigma V da Xerox, com a espantosa memória de 16K!) que ele usava num laboratório na Universidade de Illinois e distribuí-lo através da rede interna de computadores da universidade, e daí para as demais universidades e bibliotecas conectadas à Internet – que já existia havia alguns anos, mas era muito diferente e bem menos abrangente do que é hoje; o filme War Games (“Jogos de Guerra”, 1983) dá-nos uma ideia do que era a Internet comercial e doméstica por volta de 30 anos atrás.

Michael Stern Hart (1947-2011)
Michael Stern Hart (1947-2011)

Estava então criado o livro eletrônico, ou e-book. E os que receberam pela rede o arquivo da Declaration of Independence fizeram a primeira descarga (ou download, como queiram) conhecida de um livro eletrônico! Tornava-se realidade o que até ali era apenas um elemento de ficção científica, como visto, por exemplo, nos episódios de Jornada nas Estrelas.

Depois daquele título pioneiro, vieram outros: a Bíblia, Aventuras de Alice no País das Maravilhas, obras de Shakespeare, Homero, Melville… Nascia assim a biblioteca digital livre Project Gutenberg, a primeira e mais conhecida iniciativa de produção e distribuição de livros eletrônicos, baseada em arquivos de texto (.TXT), leves e de fácil armazenamento e transmissão, podendo depois ser postos em outros formatos, como o PDF. O Projeto Gutenberg apostava na Internet – à época, recém-criada e em lenta expansão – para a difusão gratuita da literatura. A aposta, como vimos, mostrou-se vencedora.

Por cerca de 25 anos, Hart trabalhou sozinho, digitalizando em média 1 livro por mês, até que a explosão da informática e da Internet e o surgimento da World Wide Web, trazendo maior facilidade de contato e distribuição dos arquivos eletrônicos, possibilitaram a chegada de voluntários de diversas partes do mundo, multiplicando muitas vezes o número de títulos e línguas do catálogo. Hoje o Projeto Gutenberg possui quase 50.000 títulos em mais de 60 línguas.

O catálogo possui textos em domínio público e outros publicados com autorização dos autores. A maior parte do acervo é constituída de títulos em inglês (mais de 41.000); a língua portuguesa está representada com 539 obras, dentre as quais Os Lusíadas, de Camões, Como e por que sou Romancista, de José de Alencar, inúmeras obras de Camilo Castelo Branco, João de Deus, Júlio Dinis, Alexandre Herculano, Guerra Junqueiro, além de muitas raridades, como o hilário Álbum Chulo-Gaiato, as Trovas do Bandarra e textos de autores pouco conhecidos na atualidade, com o paraense João Marques de Carvalho (1866-1910), do qual estão disponíveis Contos do Norte, Contos Paraenses e Entre as Ninfeias.

O português é a sétima língua do catálogo em número de títulos, superada, além do inglês, pelo francês (2.593), alemão (1.306), finlandês (1.143), holandês (710) e italiano (639), e à frente, entre outras línguas, do espanhol (464) e chinês (410). O latim está presente com 95 títulos; o esperanto, língua internacional planejada lançada em 1887 por L. L. Zamenhof, está presente no catálogo com 104 obras.

Hoje completam-se 4 anos da morte de Michael S. Hart, que tinha 64 anos e vinha trabalhando havia 4 décadas na digitalização e divulgação de livros. Seu falecimento, ocorrido em 6 de setembro de 2011, foi noticiado em vários meios de comunicação, inclusive no Brasil, e muito lamentado. Teotônio Simões, no sítio www.ebooksbrasil.org, foi sucinto e direto ao noticiar a morte de Hart, chamando-o “um ser humano exemplar”. Creio que Michael Hart tenha partido com a sensação de dever cumprido. Sua iniciativa rendeu ótimos frutos e tornou mais fácil o acesso a textos aos quais, de outro modo, as pessoas ficariam alheias.

A Internet é uma das maiores criações da humanidade em todos os tempos, e talvez a principal das últimas décadas, possibilitada que foi pelas descobertas dos últimos séculos, desde que o domínio da eletricidade permitiu a criação e operação de máquinas capazes de transmissão de dados por cabos, e depois sem eles.

Mas ela é também – pelo menos no momento – um dos pontos de culminância de um longo processo que se iniciou há muito tempo, quando aqueles nossos primeiros ancestrais, peludos, sujos e fedorentos, de baixíssima expectativa de vida, perderam o medo do exterior e resolveram sair da caverna para ver o que havia fora dela; desde que perderam o medo do fogo e resolveram acendê-lo por conta própria, sem esperar que algum raio fizesse arder uma árvore ou que alguma divindade o trouxesse; desde que observaram os ciclos da natureza e viram que podiam plantar seu próprio alimento, sem precisar sair em busca dele, e criaram as cidades; desde que olharam para o céu noturno e, sem o saber, criaram a astronomia – que nos permitiria compreender a mecânica celeste e de todas as coisas – e sua irmã de maior apelo popular, a astrologia – que surpreendentemente ainda sobrevive, feliz e ditosa, contrariando o vaticínio de homens de ciência de diversas épocas.

A Internet trouxe ainda consigo, além da possibilidade de comunicação praticamente imediata, alguma liberdade de escolha para a difusão da cultura. Enquanto os grandes grupos e lobbies editoriais e culturais ditam o que devemos ler e ouvir, anônimos abnegados dedicam seu tempo a resgatar, do poço do esquecimento, obras escritas e audiovisuais às quais, de outra forma, jamais poderíamos ter acesso. Poetas e filósofos, cronistas e cientistas, musicistas e cantores, como novas fênix, renascem das cinzas da história, reavendo o único e verdadeiramente sagrado direito que todo autor tem: o de ter sua obra disponível às pessoas para ser lida, vista, ouvida.

A civilização mundial que se começa lentamente a construir requer liberdade de pensamento e de difusão do pensamento, e os primeiros passos em busca dessa civilização foram dados por pessoas como Michael Stern Hart, as quais enxergaram muito além de seu tempo.

Miremo-nos em seu exemplo.

Santarém, Pará, 18/9/2012. Editado em 6/9/2015.

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