A frescura do macho

Uma propaganda de desodorantes para “cabra-macho” garante que o consumidor, ao usar o produto, se sente “refrescante”.

REFRESCANTE? Alguma coisa aqui me parece confusa.

As terminações -ANTE, -ENTE e -INTE encontradas em muitas formas derivadas de verbos indicam sempre processo ativo, nunca passivo; essas formas deverbais qualificam sempre o agente, nunca o objeto (quando há) da ação, do processo.

A palavra refrescante é derivada de refrescar, que significa “tornar fresco”; logo refrescante é aquilo ou aquele que refresca algo ou alguém. Água é refrescante; suco, refresco e refrigerante são refrescantes. Tereré é refrescante. Até cerveja e caipirinha são refrescantes – embora me pareça que nem todos as bebam para refrescar-se.

O gás usado em equipamentos de refrigeração – geladeiras, congeladores e ares-condicionados – é gás refrigerante; aliás, os refrigerantes têm esse nome não porque são postos a gelar em refrigeradores, mas porque refrigeram, isto é, refrescam.

A coisa ou pessoa que se refrescou se torna refrescada ou fresca – nunca refrescante.

A peça publicitária em questão foi feita no exterior e é falada originalmente em inglês; foi traduzida e dublada em português. Mas o que levou os publicitários brasileiros que adaptaram esta campanha ao Brasil a usar o termo refrescante em lugar de refrescado ou fresco? Desconhecimento da própria língua? Falta de dicionário? Vontade de criar moda?

Creio que foi machismo.

No discurso do macho brasileiro não há uso positivo de vocábulos como fresco, refrescar, refrescado, frescura; aliás, fresco e afrescalhado são sinônimos eufemísticos referentes (no mais das vezes) aos homossexuais, enquanto frescura é substantivo – de valor concreto ou abstrato, conforme o contexto – com uso quase sempre pejorativo.

Vocês acham que, num contexto cultural como o nosso, a publicidade de um produto para “cabra-macho” usaria os termos corretos e adequados refrescado ou fresco? Use nosso desodorante e fique completamente fresco…

Assim não pode, assim não dá, assim não é possível!

Será que algum macho brasileiro o compraria? É claro que não! Macho que é macho não se refresca – e quando se refresca, não o confessa…

Nossos publicitários, então, não pensaram duas vezes, e usaram erradamente uma palavra para não ferir os brios dos machões de plantão. Eis um dos problemas decorrentes da publicidade de empresas multinacionais, feita na matriz para divulgação em outros países.

Será esta uma nova tendência do português no Brasil, sob influência dos publicitários? Num país de iletrados, onde as pessoas leem pouco e não consultam dicionários – mas passam horas na frente da TV –, não me admirará que logo alguém diga que, durante a menoridade de Pedro II, o país foi “governante” ou “regente” por governos provisórios; ou que a água da chuva é “absorvente” pelo solo…

Aqueles que acham que a língua portuguesa está em decadência têm um novo inimigo: o machismo da publicidade brasileira. Ou a frescura dela.

Santarém, PA, 5/12/2016. Leia e curta também no Blogspot.

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