Dia Internacional da Mulher… à moda soviética!

Quando comecei a estudar o esperanto, em 1992, uma das grandes novidades para nós iniciantes era a possibilidade de contato com pessoas de outras partes do mundo.

Telefonar para o exterior era loucura (se até mesmo possuir linha telefônica era um luxo no Brasil!), os boatos sobre uma tal Internet eram algo meio futurista demais, nem se pensava em e-mail, MSN, Skype, redes sociais…

A solução era o velho correio, inventado (dizem) pelos persas há mais de 2.500 anos. Trocávamos cartas, cartões postais, selos usados, fotos, bilhetes de trem e metrô exóticos, calendários antigos em línguas desconhecidas…

Um dos meus correspondentes era um ucraniano, de quem recebi estes dois cartões postais com texto russo, alusivos ao Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março. Ambos são da década de 1980, portanto são da era soviética.

Facilmente se deduz que a frase em russo 8 MAPTA significa “8 de março”.

INTERNACIA VIRINA TAGO… SOVETUNIE!

Kiam mi eklernis Esperanton, en 1992, unu el la novaĵoj por ni komencantoj estis la eblo kontakti homojn el aliaj regionoj de la mondo.

Telefonado al eksterlando estis frenezaĵo (eĉ posedi telefonon estis luksaĵo en Brazilo!), la onidiroj pri ia Interreto ŝajnis tro futurismaj, oni eĉ ne pensis pri MSN, Skajpo, sociaj retejoj…

La solvo estis uzo de la malnova poŝto, inventita (oni diras) de la persoj antaŭ pli ol 2.500 jaroj. Ni interŝanĝis leterojn, poŝtkartojn, poŝtmarkojn, fotojn, ekzotajn metroajn kaj fervojajn biletojn, kalendarojn en nekonataj lingvoj…

Unu el miaj korespondantoj estis ukraino, de kiu mi ricevis ĉi tiujn du ruslingvajn poŝtkartojn rilatajn al la Internacia Virina Tago, festata je la 8-a de Marto. Ambaŭ estas el la 1980-aj jaroj, do el la Sovetunia erao.

Oni facile vidas, ke la ruslingva frazo 8 MAPTA signifas “8-a de Marto”.

Santarém, PA, 3/8/2015. Editado em 3/8/2016.

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Um episódio da II Guerra Mundial [por Yevgeny Yevtushenko]

Para ser poeta, não é suficiente saber escrever poemas.
É necessário ter capacidade para defendê-los.
Yevgeny Yevtushenko, Autobiografia Precoce

Yevgeny_Yevtushenko_Autobiografia_precoceLendo a obra Autobiografia Precoce (1963) do escritor, ator e diretor russo Yevgeny Yevtushenko (ou Eugênio Evtuchenko, como ficou conhecido no Brasil), topei com a passagem que reproduzo abaixo, a qual consta no capítulo 4. Trata-se de descrição da reação da população moscovita quando da passagem, pela capital russa, de cerca de 25.000 prisioneiros de guerra alemães. Yevtushenko tinha, à época, 11 anos.

É curiosa e espantosa, ainda que não fosse inesperada, a reação da população, que se dá conta de um aspecto que não contava encontrar em seus inimigos de guerra: humanidade.

Nos tempos atuais, mais do que nunca, fatos como esses nos levam a refletir sobre o autoritarismo e o nacionalismo, que só têm servido para separar os seres humanos, levando-os à mais bizarra das criações humanas: a guerra.

Eis o ocorrido, nas palavras de Yevtushenko:

“Em 1944 minha mãe e eu voltamos a Moscou. Aí, pela primeira vez em minha vida, tive ocasião de ver os inimigos. Se não me engano eram 25.000 alemães que deviam atravessar, em uma só coluna, as ruas da capital.
Todas as calçadas estavam apinhadas de gente cercada pelos soldados e pela milícia. A multidão era constituída, na sua maioria, de mulheres.
Mulheres russas, de mãos deformadas pela dureza do trabalho, com lábios sem batom, ombros magros sobre os quais repousava o peso essencial da guerra. A cada uma delas, provavelmente, os alemães haviam levado um pai, um marido, um irmão ou um filho.
Elas olhavam com ódio na direção de onde se esperava a coluna de prisioneiros.
Depois, esta apareceu.
Na frente, marchavam os generais, trazendo levantados os maxilares maciços, e os ângulos dos lábios contraídos, desdenhosos. Assim, queriam reafirmar a sua superioridade aristocrática sobre a plebe que os havia vencido.
As mãos obreiras das mulheres russas se fechavam coléricas quando eles passavam.
– Fedem a água de colônia, esses sujos! gritou alguém na multidão.
Os soldados e os milicianos tiveram que se apoiar em toda a força de seus corpos para impedir que as mulheres rompessem a barragem.
No entanto, de repente, algo se passou com a multidão.
Chegavam os soldados alemães, magros, sujos, barbados, as cabeças envoltas em ataduras ensanguentadas, apoiados em muletas ou nos ombros de seus camaradas. Passavam cabisbaixos.
Um silêncio de morte se instalou na rua. Não se ouvia nada a não ser o lento arrastar dos seus sapatos e de suas muletas.
Vi uma matrona usando grandes botas russas colocar a mão no ombro de um miliciano.
– Deixe-me passar.
Havia algo na voz daquela mulher. Diante do tom imperativo o miliciano abriu-lhe o caminho. Ela aproximou-se da coluna e tirou de seu blusão um pedaço de pão preto cuidadosamente envolto num lenço. Deu-o a um prisioneiro exausto, que se sustinha com dificuldade.
De repente, outras mulheres seguiram seu exemplo e começaram a jogar pão e cigarros aos soldados alemães vencidos.
Não eram mais os inimigos.
Eram, agora, homens.”

EVTUCHENKO, Eugênio. Autobiografia Precoce. Tradução de Yedda Boechat Medeiros. 3ª edição. Rio de Janeiro: José Álvaro Editor, 1967, pág. 37-39.