A espada e a toga

Uma coisa para pensar:

Em 1937, Aníbal Ponce publicava sua obra Educación y Lucha de Clases, que se encerra relembrando uma história dos tempos do tirano argentino Juan Manuel Rosas. Em 1842, para conter os focos de agitação e revolta que surgiam em oposição a seu governo nas poucas escolas do país, Rosas nomeou como diretor do ensino primário ninguém menos que o… chefe de polícia!

Nada para espantar-nos. Os latino-americanos nos acostumamos a ver os militares como protagonistas em momentos de agitação política.

Mas parece que as coisas mudaram. Em dezembro de 2001, quando caiu Fernando de la Rúa e a Argentina teve três presidentes em um mês, lembro-me de ter lido um comentário de que nem os militares argentinos queriam assumir o governo de lá.

Hoje no Brasil os militares estão em paz, recolhidos à caserna, respeitando a lei e as instituições como se nada de anormal estivesse acontecendo. Nada “militar”, digamos.

O protagonismo que temos visto é da Justiça: juízes, promotores, procuradores, Ministério Público, ministros do STJ, TCU, TSE, STF…

Enquanto isso, o governador de São Paulo nomeia como secretário de Educação… um desembargador.

Espero que seja apenas coincidência.

Santarém, PA, 15/4/2016.

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A tradição universitária do preconceito

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Em sua obra Educación y Lucha de Clases, o psicólogo e professor argentino Aníbal Ponce cita o seguinte trecho de August Messer sobre os estudantes das universidades medievais:

Um hino da época, de caráter blasfemo, muito popular entre os estudantes ingleses, ressalta muito claramente o caráter da classe a que pertencia o estudante medieval:
Deus, tu que hás criado os camponeses para servirem aos cavaleiros e aos estudantes, que puseste em nós ódio a eles, deixa-nos viver às expensas do seu trabalho, aproveitar de suas mulheres e matá-los por fim; pelo nosso senhor Baco, que bebe e levanta o seu copo, pelos séculos dos séculos, amém.

PONCE, Aníbal. Educação e Luta de Classes. Trad. José Severo de Camargo Pereira. São Paulo: Fulgor, 1962.

Qualquer semelhança com as práticas violentas e discriminatórias de estudantes de conceituadas universidades brasileiras atuais não será mera coincidência; é tradição de longa data.

Aliás, para quem gosta de manter tradições, este é um prato cheio.

Já eu penso que tradições, principalmente deste tipo, devem ser quebradas. Uma sociedade ou instituição que resiste a mudanças, sob a alegação de conservar tradições, acaba por manter-se esclerosada e rançosa.