Dr. Funk explica… o recalque!

keep-calm-and-pare-de-recalqueEnganam-se os que pensam que o funk brasileiro e seus formadores de opinião nada têm com que contribuir para a cultura contemporânea.

Au contraire! A reintrodução, na cultura popular e de massa, dos conceitos de recalque, recalcamento, recalcado(a) etc. só merece elogios – mereceria também panegíricos, não estivesse tão fora de moda este estilo de composição clássico e “elitista”. Fora de moda e distante do estilo leve, descontraído, moderno do alegre funk…

Popularizar o conceito de recalque, antes restrito ao domínio da psicanálise e psicologia, é uma das maiores contribuições da cultura brasileira à discussão sobre os problemas de comportamento e de inserção social de muitos indivíduos – ou para, simplesmente, explicar o porquê de tantas pessoas ranzinzas e irritantes que vivem a reclamar do que acham que está errado e teimam em dar sua opinião, mesmo sendo ela o contrário do que pensa a maioria das pessoas. Sim, pois não há nada errado, tudo está na mais perfeita ordem.

Afinal, já dizia há tempos o doutor Pangloss, em sua cândida sabedoria: “Vivemos no melhor dos mundos”. É isso! Não há motivo ou razão para queixar-se de nada. E por que razão, em assim sendo, tanta gente reclama disto ou daquilo, se a vida é tão boa? A explicação é uma só: o recalque!

A Teoria do Recalque é, portanto, a explicação mais satisfatória para tudo de ruim – ou nem tanto assim – que ocorre em nossa sociedade.

Se não, vejamos.

Por que reclamar dos motoristas que passam com seus carros tocando música (?) em altíssimo volume? Só podem ser uns recalcados os que reclamam disto, pois gostariam, na verdade, de estar lá também, curtindo o som “maneiro”.

Por que comentar negativamente a saia curta daquela mulher? Recalque, pois quem critica gostaria de ter pernas como aquelas, que só com a saia curtinha se podem mostrar.

Por que clamar contra a corrupção, se não por recalque? Gostaríamos de estar no grupo que participou daquela negociata, não é mesmo? Os apresentadores de programas policiais ou do “mundo cão” são recalcados, pois reclamam dos crimes cometidos pelos outros, quando eles mesmos também gostariam de sair cometendo uns crimezinhos por aí.

Por que duvidar da capacidade de discernimento dos eleitores do outro candidato? Só pode ser por causa do maldito recalque, já que nosso candidato não foi eleito.

Por que reclamar dos bugs do Windows, se não pelo fato de que, na verdade, somos uns recalcados e gostaríamos de ter um Macintosh?

A Miss Brasil não foi eleita Miss Universo? Retaliação motivada pelo recalque, é claro, pois nenhuma gringa tem a ginga, a classe, a beleza que as brasileiras têm.

Eles querem separar sua região para criar uma província independente? Recalcados, obviamente. Nós somos contra? Somos recalcados também – mas não espalhe!

A cerveja deles espuma mais do que a nossa? Recalque espumoso!

E, por fim, por que reclamar dos pobres índios, que não aceitam a construção de hidrelétricas, rodovias, ferrovias, fábricas e outras coisinhas boas da civilização nas terras federais que ocupam? A resposta é o recalque: gostaríamos de ser como eles, andando nus pela mata, caçando, pescando, colhendo, banhando-nos em riachos de água pura e cristalina, integrados à natureza e à Mãe Terra-Gaia e sem preocupação com falta de água ou energia, engarrafamentos de trânsito, poluição, contas para pagar, IR, IPI, IPVA, IPTU, ICMS, ISS, INSS, iOS, CPMF, Cide, Cid, Sabesp, Celpa, Cosanpa, OVNI, USA, URSS, PT, PSDB, PMDB…

Por isso, não seja recalcado(a), não se queixe de nada, pois não há nada de que se queixar. E não expresse sua opinião, pois ninguém quer saber dela.

Lembre-se: tudo o que você disser ou fizer, em relação a qualquer coisa, poderá ser usado como recalque contra você mesmo!

Sim, de fato o funk deu uma contribuição de suma importância para a cultura contemporânea brasileira. Eis um fato que somente uma pessoa recalcada não reconheceria.

P. S.: É claro que eu também sou um recalcado, caso contrário não teria escrito isto.

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Bem-vindos a Santarém e Alter do Chão!

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Foto de Júlio César Pedrosa, 31/12/2014.

Pichação em muro do antigo Estádio Municipal, Av. São Sebastião, perto da esquina com a Tr. Turiano Meira, Santarém, PA:

Srs. turistas, seu dinheiro traz o progresso, mas a sujeira deixada por vocês tira a beleza de nosso paraíso…! Alter do Chão!

Que mais se pode dizer? Bem-vindos a Santarém!

Rastro de corno

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“Rhyton”, ríton, arte minoica, século XVI a.C. Museu Arqueológico de Heráclion, Creta, Grécia.

IAGO – Eu, zombando de vós? Não, pelo céu. Como homem, suportai vosso destino.
OTELO – O homem de chifres é animal, é monstro.
(W. Shakespeare, Otelo, tradução de Carlos Alberto Nunes)

Certa vez, andando pela Av. São Sebastião, em Santarém, PA, ouvi uma locução que até então eu desconhecia. Um ônibus com defeito estava parado no meio da pista, nas proximidades de um ponto de fiscalização; um fiscal atravessou a rua e gritou para o motorista do ônibus quebrado:

– Pisaste em rastro de corno?
– Pois é, bem na hora de voltar para casa…

Parece tratar-se de frase feita. Eu não a tinha ouvido antes; talvez seja típica do Pará, ou apenas de Santarém. É mais uma criação léxico-sintática de nossa gente. A língua é uma e a mesma, mas o uso e a criatividade de nosso povo variam muuuuito neste Brasilzão quase sem fim!

É isto… Tomem cuidado, pois parece que, segundo a sabedoria popular, dá azar topar por aí com um – ou com seu rastro!