O samba-enredo da Flor de Vila Dalila, 1988

logo-2009-flor-de-vila-dalila-frase-vermelho-atual2“Promessa fica na promessa
É hora de despertar
Chega de demagogia
Pra que tanta ironia?
O povo está cansado de esperar!”

Confesso que não aprecio o carnaval. Não gosto de desfiles de escolas de samba, também não frequento bailes de carnaval, festas de rua ou coisa parecida; nem mesmo costumo assistir aos desfiles transmitidos pela televisão. Isto não significa que eu seja contra o carnaval: trata-se de gosto, que é sempre pessoal; respeito o gosto alheio e manifesto minha opinião.

Para não dizerem que nunca brinquei o carnaval, lá vai: em 1991, eu e alguns colegas do bairro acompanhamos, pelas ruas do Rio Pequeno (São Paulo), o desfile de um bloco chamado Sai da Frente: “Eô, eô, Sai da Frente chegou!”. Foi no domingo de Carnaval, à noitinha. Havia uma semana eu iniciara o serviço militar; tinha ficado de plantão em minha companhia de fuzileiros, de sábado para domingo (explico melhor isso em minhas Memórias da Caserna, cuja primeira parte pode ser lida aqui), e estava de folga até a quarta-feira seguinte, Cinzas.

Alguns colegas me chamaram, e fui com eles. Na verdade, nós estávamos mesmo interessados em umas garotas do bairro que desfilaram nesse bloco, e acompanhar o desfile era uma forma de deixar boa impressão, mostrando ter “samba no pé”.

Nunca tive samba, forró, valsa ou coisa nenhuma no pé. Não deu nada certo, é óbvio… Foi só canseira e suor, pois o calor era de rachar, apesar de já ser noite; demos uma volta inteira em nosso bairro, seguindo pelas principais avenidas. Valeu a experiência… mas Carnaval nunca mais.

Vamos, porém, ao motivo deste texto. Como eu disse acima, nunca gostei do carnaval ou de desfiles de escolas de samba, mas desde 1988 tenho memorizada a letra de um samba-enredo. Parece contraditório e inexplicável, mas é verdade. De fato, é contraditório; quanto à explicação, ei-la:

Naquele ano, o Grêmio Recreativo e Cultural Escola de Samba Flor de Vila Dalila, que havia subido para o grupo de elite do carnaval paulistano no ano anterior, apresentou o samba-enredo “Nova República, me engana que eu gosto”, de autoria de Carlinhos de Pilares e Roberto Laranja. Era um samba de letra ousada, que tocava fundo em problemas que o Brasil atravessava na época, quando vivíamos o período conhecido como Nova República e José Sarney era o presidente; já se conheciam o escândalo da ferrovia Norte-Sul, o dos marajás do serviço público, e naquele mesmo ano nova Constituição Federal seria apresentada à Nação. A letra criticava ainda o descaso com os aposentados e as crianças abandonadas, a fúria do Leão (o imposto de renda), a fome, a falta de empregos…

Trata-se de um samba-enredo que destoa dos comumente apresentados pelas escolas de samba, nos quais se fala de belezas naturais, homenageiam-se ícones da cultura popular, visitam-se cidades ou países distantes ou se contam fatos históricos ou mitos.

Esse samba da Flor de Vila Dalila fez sucesso, foi muito executado no rádio, e as pessoas o cantavam, motivo pelo qual eu o ouvia sempre e memorizei; aliás, até hoje gosto dele. O mais curioso, porém, é que essa escola de samba, apesar da popularidade de seu samba-enredo, ficou em último lugar no Grupo Especial, sendo rebaixada, e nunca mais conseguiu retornar ao grupo de elite.

Os adeptos de teorias conspiratórias talvez vejam aqui algo mais do que uma triste coincidência… Será que a escola cutucou onça com vara curta e entrou pelo cano? Não sei, não…

Já eu, apesar de não ser folião, nunca me esqueci do samba de 1988 da Flor de Vila Dalila, e todo ano, no carnaval, lembro-me dele: “Promessa fica na promessa, é hora de despertar…”

Reproduzo abaixo a letra completa do samba-enredo, para recordação dos que o ouviram e resgate de parte de nosso passado.

Grêmio Recreativo, Cultural e Escola de Samba Flor de Vila Dalila
Samba-enredo de 1988 – Carnaval Paulistano
Título: NOVA REPÚBLICA, ME ENGANA QUE EU GOSTO
Autores: Carlinhos de Pilares e Roberto Laranja
Puxadores: Nílton da Flor e Carlinhos de Pilares

Promessa fica na promessa
É hora de despertar
Chega de demagogia
Pra que tanta ironia?
O povo está cansado de esperar!

Pra que cultura,
Se não há emprego?
A fome do País não é segredo

Fabricaram o trem, parou a ferrovia
Falta de verba que o Plenário discutia

Me engana que eu gosto
Reforma agrária, cadê?
O índio está cansado de sofrer

O Leão virou hiena, preocupado com a Nação
Marajá de bolso largo
Nem abala o coração

E o aposentado que merece mais respeito
E o menor abandonado
Sofre com o preconceito

Me arrepia essa tal democracia
Acorda meu Brasil!

Adendo:
Pesquisando para ajustar algumas informações deste artiguinho, descobri que no mesmo ano de 1988 o GRES Imperatriz Leopoldinense apresentou, no Carnaval do Rio de Janeiro, um samba-enredo com tema parecido, cuja letra reproduzo abaixo.

E não é que a Imperatriz Leopoldinense terminou aquela competição também em ÚLTIMO LUGAR?

É muita coincidência! Seria conspiração?

A sorte da Imperatriz Leopoldinense foi que, naquele ano, decidiu-se que nenhuma escola seria rebaixada, portanto ela continuou no Grupo Especial, sendo campeã no ano seguinte.

“Pegaram leve” com o Carnaval do Rio…

Grêmio Recreativo Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense
Samba-enredo de 1988 – Carnaval Carioca
Título: CONTA OUTRA, QUE ESSA FOI BOA

Eu voto pra não esquecer
A vida tem que melhorar
O povo na constituinte
Vai ter mesa farta, sorrir e até cantar 

Quá, quá, quá!
Você caiu, caiu!
É brincadeira
É primeiro de abril (bis)

Eu quero é poder ser marajá
Gozar a vida
Pra vida não vir me gozar (bis)

Disse-me-disse
Na história do Brasil
Fui criança, fui palhaço
E ninguém me assumiu (ô, seu Cabral…)

Cabral, ô, Cabral,
O esquema é de lograr (de lograr)
De 71 com a realeza,
Me mandou uma princesa que fingiu me libertar, me libertar (bis)

Ô ô ô piuí
Piuí, lá vem o trem
A ferrovia é brincadeira de neném (bis)

Santarém, PA, 13/2/2013. Editado em 5/2/2016.

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