Anacronismo

Matei um pouco da saudade das aulas que tive com o Prof. João Adolfo Hansen no curso de Letras da FFLCH/USP. Diz ele logo no começo de seu livro sobre o Padre Manoel da Nóbrega e a educação no século XVI:

“Quando se fala da educação, do ensino, da instrução e da catequese desenvolvidos pela missão jesuítica, deve-se especificar a historicidade desses conceitos nas circunstâncias luso-brasileiras em que ocorrem para não generalizar anacronicamente os modos como são entendidos hoje. A sociedade portuguesa do século XVI não é burguesa, iluminista ou liberal. Sua experiência do tempo é outra, diferente da experiência temporal moderna, pois pressupõe a presença providencial de Deus como Causa e Fim da sua história. Também é outra sua doutrina de poder, que não é democrática; de “pessoa humana”, que é escolástica; de linguagem e realidade, que é motivada como participação das coisas, homens, eventos e palavras na substância metafísica de Deus. Fundamentadas metafisicamente e ordenadas pela teologia-política católica, as doutrinas de tempo, história, poder, pessoa, linguagem e realidade mobilizadas nas práticas do programa catequese e escola são corporativas, integrando-se nas malhas das relações pessoais que constituem a hierarquia do Estado monárquico português.”
HANSEN, João Adolfo. Manuel da Nóbrega. Recife: Massangana, 2010. p. 11-12.

Não se trata de defender práticas de outras épocas e gentes que pensavam de outra maneira; au contraire! Mas a muitas pessoas falta discernimento para não cair no anacronismo tosco e fácil de condenar homens do passado de acordo com padrões do presente. Que dirão nossos descendentes, daqui a 200 anos, de práticas que temos hoje por corretas?

Diz-se que o rei persa Cambises, ao “comemorar” a conquista do Egito, há 2.500 anos, surrou a múmia de um faraó. Acho que estamos um pouquinho mais evoluídos do que os persas de então, porquanto já consideramos coisas como essas uma abominação.

O livro está disponível no repositório do Domínio Público, no formato PDF, e pode ser baixado gratuitamente pelo atalho abaixo:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/me4709.pdf

Santarém, Pará, 17/4/2014. Editado em 19/9/2015.

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Asterix, Obelix e os franceses

“Lá vem a romana legião!”

Assistindo ao filme “Asterix e Obelix a serviço de Sua Majestade” (Astérix et Obélix: au service de Sa Majesté. França, 2012), lembrei-me das aulas de linguística e semiótica do saudoso professor Cidmar Teodoro Pais (1940-2009) na FFLCH da USP.

Dizia ele que as historinhas de Asterix não são simples histórias em quadrinhos, mas uma metáfora da França atual, com seus problemas, medos, preconceitos e mitos.

Se non è vero, è ben trovato.

Santarém, Pará, 6/3/2014. Editado em 18/9/2015.

Paraolímpico, paralímpico

Fiz uma rápida pesquisa sobre o porquê das formas paralímpico(a) e paralimpíada, já que, de acordo com a etimologia e as regras de prefixação do português, as formas adequadas são paraolímpico(a) e paraolimpíada. A respeito deste assunto, achei explicação apenas na página Dúvidas de Português (http://duvidas.dicio.com.br/paraolimpico-ou-paralimpico/), além da Wikipédia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Jogos_Paraol%C3%ADmpicos), nas quais se diz que a palavra paralímpico veio do inglês paralympic, que é a junção de paraplegic e olympic.

Não se trata, portanto, de um simples e corriqueiro (quase instintivo) processo de prefixação (junção do prefixo para- ao substantivo olympic ou olímpico), mas sim da criação de uma nova palavra com pedaços de duas outras.

Este processo ocorre com nomes próprios de produtos ou pessoas e até de países, como é o caso da Tanzânia, cujo nome provém da junção de partes dos nomes Tanganica e Zanzibar (com adição da terminação latina -IA), as duas ex-colônias britânicas que se uniram para formar aquele país africano. (Nem vou citar os milhares de nomes próprios que se criam no Brasil com partes dos nomes dos pais, tios, avô ou prima etc.; todo brasileiro conhece alguém cujo nome tem origem nesse tipo de combinação.)

Em português o termo paraolímpico(a) é o resultado natural do processo de prefixação de para- ao substantivo/adjetivo olímpico(a). Poder-se-ia suprimir o A final do prefixo (a exemplo dos pares hidroelétrico e hidrelétrico, hidroavião e hidravião e outros), mas nunca o O inicial do radical que o recebe: parolímpico(a).

O Brasil adotou nos documentos oficiais o uso dos termos paralimpíada e paralímpico(a), seguindo tendência internacional; mas é claro que as formas paraolímpico(a) e paraolimpíada continuam valendo e podem ser usadas livremente – isto é algo que ninguém pode proibir.

Assim, aqueles que optam por usar as formas paraolímpico(a) e paraolimpíada têm razão em fazê-lo, pois tais termos já estão estabelecidos e estão de acordo com a estrutura e a tradição de nossa língua, ainda que os termos oficiais do momento sejam paralímpico(a) e paralimpíada.

Santarém, PA, 14/9/2015. Editado em 9/9/2016.

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