Por que temos sotaque?

sotaque
Ilustração de Alvim (Ciência Hoje das Crianças)

Um artigo curtinho da revista eletrônica Ciência Hoje das Crianças trata rapidamente da questão dos sotaques: “Por que temos sotaque?” De fato, sotaque é coisa que todos têm, mas nós nos esquecemos disso.

Todo brasileiro acha que apenas os brasileiros de outras regiões é que têm sotaque, “puxam o R e/ou o S”, “falam arrastado ou cantado” etc. Quem mora ou já morou fora de sua região de origem sabe bem disso.

Na verdade, todos “falam cantado ou arrastado”, “puxam o R e o S”. Como é possível isso? Segundo Ferdinand de Saussure, um dos fundadores da linguística moderna, em sua obra póstuma Curso de Linguística Geral, “o ponto de vista é que faz o objeto”, ou seja, é tudo uma questão de perspectiva de quem vê/ouve em relação a quem é visto/ouvido. Estamos acostumados ao modo de falar de nossa região e não percebemos nossos próprios hábitos linguísticos, o que só ocorre quando encontramos pessoas de outras regiões, falando a mesma língua mas com pronúncia e/ou vocabulário diferente; então usamos nosso dialeto como parâmetro para analisar a fala do outro, comparando-a com a nossa.

Isto ocorre em todos os lugares: as pessoas sempre partem de seus próprios hábitos para comparar-se com outras pessoas, inclusive os hábitos linguísticos; quando vamos a outros lugares, a passeio ou para morar, passamos a ser objeto também de comparação. Nada mais natural, pois essas diferenças existem e não há problema nenhum nisso, e tudo o que apresenta alguma diferença em relação à maioria tende a destacar-se, evidenciar-se; o problema passa a existir quando as diferenças são usadas para ofender, discriminar, oprimir.

As diferenças de pronúncia surgem da própria dinâmica da linguagem, que está sempre variando para adaptar-se aos falantes e às circunstâncias, enquanto os falantes também se adaptam à própria língua. Não há duas pessoas que falem da mesma maneira, a fala de cada indivíduo é única. Mas os indivíduos tendem a imitar uns aos outros para manter a língua inteligível e permitir a comunicação; por isso, grupos de falantes que habitam uma mesma região tendem a falar de modo parecido, para manter a comunicação sem ruídos e conservar também a coesão do grupo e sua identidade. É o que podemos chamar de contrato social da língua.

Assim, o que explica o fato de que os elementos de um grupo falam de modo parecido é a convivência e necessidade de união, coesão; e da mesma forma que tendem a manter-se coesos, os grupos buscam certa diferenciação em relação aos grupos vizinhos.

Quando surge uma inovação linguística, seja ela de pronúncia ou lexical, ela espalha-se pois é imitada (mesmo que de forma pouco consciente) por outros falantes, até que se torna dominante; pode continuar assim ou desaparecer depois, substituída por outra variação. Isto é mais evidente quando se trata de vocabulário, mas ocorre também com a pronúncia.

A expansão de uma língua tende a criar novos sotaques. No começo, o grupo que migrou para a nova região continua falando como seus ancestrais; depois, a perda de contato com o lugar de origem faz a fala do grupo variar, pois surgem inovações de pronúncia que não existem na fala de origem, criando-se um sotaque novo. Também a chegada de grupos de migrantes traz novos traços linguísticos à fala da região, tornando-a, pouco a pouco, diferente.

E quanto mais se expande, geográfica e demograficamente, uma língua, mais variações ela apresenta, por isso o número de sotaques do português, por exemplo, só tende a aumentar – apesar de haver a tensão contrária, exercida pelos centros irradiadores de cultura (as capitais ou grandes metrópoles), de assimilar os sotaques circunvizinhos, principalmente quando estes apresentam menor prestígio social em relação àqueles.

Para terminar: sotaque e suas variações não devem ser confundidos com a língua ou norma culta – que é um conjunto de usos baseados na escrita e dependentes desta (ao mesmo tempo que a abarcam) – nem com as diferenças entre a língua culta e as normas ou variedades populares; o sotaque diz respeito à pronúncia, simplesmente.

Leia o artigo da Ciência Hoje das Crianças aqui: http://chc.cienciahoje.uol.com.br/por-que-temos-sotaque/.

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2 comentários sobre “Por que temos sotaque?

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